PE. CÂNdido de azevedo mendes



Baixar 178.9 Kb.
Página1/3
Encontro07.08.2016
Tamanho178.9 Kb.
  1   2   3
CAPÍTULO 2

PE. CÂNDIDO DE AZEVEDO MENDES


Vice-Provincial 1934-1941

Além de ser naturalista, hoje diríamos biólogo, Pe. Mendes sabia governar, evidenciado por ter sido duas vezes Provincial da Província Portuguesa (1919-1924 e 1927-1933). Ajudou, em dois momentos, os Jesuítas Portugueses a se restabelecerem aqui depois de sua expulsão em 1910. O primeiro foi em 1923. Favorecidos pela mitigação da política do Ministro da Justiça Portuguesa Afonso Costa, Mendes conseguiu que os Jesuítas começassem a voltar discretamente, abrindo uma residência em Póvoa do Varzim em 1923.(1) O segundo, em 1932, quando o governo espanhol decretou a dissolução da Companhia de Jesus na Espanha. Foram para lá muitos Jesuítas, exilados de Portugal em 1910, e, agora, por força das circunstâncias, voltavam alegremente para sua terra.(2)

Desde 1934, Mendes vinha atuando como Superior da Missão Portuguesa no Brasil. Em março de 1936, a mesma, por decreto do Superior Geral da Companhia de Jesus, Wlodimir Ledochowski, se tornou a Vice-Província Dependente da Província Portuguesa.(3) Mendes não gostou e desde aquele momento, vivia, ansioso, suspeitando que, em breve, a Vice-Província Dependente seria Independente tendo correspondendo sobre isto com Ledochowski em abril de 1936, explicando-lhe as deficiências atuais de recursos financeiros e humanos.(4) Por sua parte, Ledochowski tentou acalmá-lo em correspondência um mês mais tarde.(5)

Certamente, a atitude de Mendes nesta situação foi compreensível. O que chama a atenção é que sua opinião, anteriormente formada quando era Provincial em Portugal e quando visitou a Missão Portuguesa no Brasil em 1929, voltou a atormentá-lo. Naquele momento era da opinião de que em nove ou dez anos a Missão podia ser separada da Província Portuguesa.(6) Temos esta informação porque o Provincial da Província Portuguesa, Paulo Durão, esclareceu, provavelmente com satisfação, para o Geral as opiniões anteriores de Mendes. Nesta história pesa o fato de que a Província Portuguesa, depois de sua expulsão em 1910, estava começando a se firmar de novo em Portugal, num processo que o próprio Mendes, como vimos, ajudou. Parece que, uma vez no Brasil, tinha uma outra ótica da situação, mas, nos planos mais abrangentes de Ledochowski para a América Latina, foi embutida a decisão de tornar independente a Vice-Província Setentrional Dependente. Esta política ajudou, também, a reestruturação da Província portuguesa, liberando-a da responsabilidade do governo da

Vice-Província Dependente do Brasil e permitindo-lhe utilizar os recursos humanos em Portugal em vez de enviá-los para o Brasil.

Mendes governou a Vice-Província durante o ano de 1936 e praticamente todo o ano de 1937, ansiosamente, esperando que Ledochowski, mais cedo ou mais tarde, fosse decretar a Vice-Província, Independente. E Mendes tinha razão, porque nas preparações para a Congregação Geral 28, (CG 28) o Geral lhe informou, em agosto de 1937, que estava pensando tornar independente a Vice-Província Setentrional. Alem disso, obrigou Mendes a não informar a ninguém, mesmo aos seus consultores da Vice-Província sobre este plano. Nesta mesma carta, o Geral, incentivou a Mendes a ter mais fé, afirmando que Deus seria generoso para com a futura Província.(7) Mendes continuava inquieto e respondeu ao Geral, citando o fato de que os sete jovens Jesuítas em magistério e em estudos teológicos não seriam suficientes para substituir os 28 sacerdotes que tinham mais de sessenta anos. Além disso, confidenciou-lhe que o seu grande pesadelo era a falta de pessoal, qualificado para ser superiores.(8) Ledochowski manteve seus planos e cabia a Mendes preparar-se para a decisão evitável que aconteceu na Festa de Cristo Rei, 30 de outubro de 1938, quando o Geral publicou o Decreto, tornando a Vice-Província, independente. (9)

os planos de Ldes preparar para a deciãevieteo, ice-Província, independ outubr1938. Vice-Província Dependente até a o Decreto de Pe. Ledochowsi na Festa de Cristo Rei0 d A.) depois da CG 28.

ADMNISTRANDO

Como Vice- provincial Mendes raramente se pronunciou sobre política, mas em agosto de l937, sentiu-se obrigado a escrever uma carta circular para os Superiores da Vice-Província para ser lida nos refeitórios das residências. Nela, estipulou as seguintes normas de conduta dos Jesuítas em se tratando da eleição presidencial que seria em janeiro de 1938:

1. Ninguém impugne, em público ou em particular, nenhuma das três candidaturas, nem se manifeste por nenhuma delas, a não ser nas dioceses em que os Prelados ordenem ao clero a preferência de alguma, se por acaso a vierem a ordenar.

2. Fujam de tratar em público este assunto e de escrever sobre ele, ainda mesmo em cartas particulares. Quando lhes pedirem conselho, sigam com prudência e reserva as normas gerais da moral.

3. Os que tiverem direito ao voto e houverem de usar dele, façam-no sem ostentação e com o segredo que as circunstâncias pedem.

4. Como a campanha de propaganda está sendo uma campanha de difamação mútua, guardem-se de formar juízo só pelo jornal que mais lêem, ou pelo que ouvem a algum apaixonado. Nenhum dos Nossos repita acusação, feita sem provas suficientes, contra qualquer dos candidatos.

5. Não se deixem enganar sob aparência de zelo da religião ou do bem da pátria. A política não é da esfera da nossa ação, como os Srs. Bispos estão inculcando ao clero secular. O zelo da religião e da glória de Deus o que pede de nós é que estejam fora e acima de toda a política, para podermos salvar a todos, sem por motivo de política nos incompatilizarmos com ninguém.

6. Por fim a V. Rev. encarrego a obrigação de exigir de seus súbitos, dentro e fora de casa, e dos hóspedes, o fiel cumprimento destes normas.(10)


A carta é interessante por sua linguagem e atitudes. Não diz quais foram os candidatos mas supomos que poderiam ser Armando de Sales da União Democrática Brasileira, José Américo, o escritor e liberal do Nordeste e, Plínio Salgado, líder dos Integralistas. É bem provável que o motivo dessa carta foi o entusiasmo vociferado por alguns Jesuítas a certos candidatos. Entre os Jesuítas, o Pe. Monteiro da Cruz se entusiasmou pelos Integralistas, convidando o conhecido escritor integralista Gustavo Barroso para falar na Escola Apostólica em 1937. É bom lembrar que os Integralistas fundaram um filial em Baturité com muito pompa em 1935.(11) Em novembro de 1937, porém, Vargas deu um curto-circuito na eleição e declarou o Estado Novo, dando a si mesmo poderes ditatoriais.
O novo “status” da Vice-Província Setentrional (VPS) independente implicava que a Província Portuguesa não iria fornecer mais recursos humanos. Vamos ver como ficou o quadro dos Jesuítas em 1938. Havia 60 sacerdotes, 40 estudantes e 53 irmãos, num total de 153. Deste total nasceram no Brasil: 7 sacerdotes, 38 estudantes e 7 irmãos, fazendo um total de 53. Os brasileiros constituíam 34% da VPS. Importante notar que os estudantes brasileiros eram 95% dos estudantes e quase 25% do total dos Jesuítas. Sinal bom para o futuro da VPS. Ao contrário, os 7 sacerdotes brasileiros eram somente 11% dos sacerdotes e 4% do total. E os irmãos eram quase iguais aos sacerdotes, 13% dos irmãos e, também, 4% do total. O número de sacerdotes portugueses constituía a maioria mesmo levando em consideração que entre eles havia alguns estrangeiros.(12)

Mas além destes números, há outro fato importante. Os portugueses eram relativamente numerosos e trouxeram sua cultura e espiritualidade influenciada, isso não é surpreendente, muito pela devoção à N. Sra. de Fátima. Além disso, dois lugares onde exerceram seus apostolados principais, o Colégio Antônio Vieira, em Salvador, e o Colégio Nóbrega, no Recife, tiveram colônias portuguesas que apreciavam o “jeito” português dos Jesuítas. Em 1932, o Colégio Vieira lançou pedra para a construção de um Santuário dedicado à N. Sra. de Fátima, mas só foi construída em1960.(13) Enquanto isso o Colégio Nóbrega conseguiu construir uma igreja dedicada a N. Sra. de Fátima mesmo antes de seus colegas em Portugal, em setembro de 1935.(14)

Ambientados nessas comunidades portugueses no Brasil, que exerciam uma influência social grande, os Jesuítas portugueses se sentiam muito à vontade e não tinham muito incentivo para se tornaram mais brasileiros. Até a situação política os facilitava para continuarem como portugueses. O Estado Novo de Vargas e o Estado Novo de Salazar, mesmo cada um com suas peculiaridades, eram conservadores e ditatoriais. Parece que a atenção dada por esses regimes aos interesses da Igreja Católica contrabalançou os aspectos negativos dos dois Estados Novos.
Mas, parece que os Jesuítas portugueses não estavam tão seguros assim. O Decreto declarando a Vice-Província Independente da Província Portuguesa deixou muitos da comunidade do Colégio Vieira um tanto apreensivos. Mesmo sabendo que um dia isto iria acontecer, a decisão do Geral deixou o escritor da história da residência a dizer: “[...] em muitos, não faltou certa ansiedade acerca do futuro da nova V. Província, seja por falta de pessoas, seja, o que não é bom, por motivo de nacionalismo exagerado.” (15) A alusão à “um nacionalismo exagerado” é sugestivo para a transformação psicológica que estava surgindo.

COLÉGIO ANTÔNIO VIEIRA
A Vice-Província Setentrional Dependente contava com dois Colégios: Antônio Vieira, em Salvador, e Manuel da Nóbrega, no Recife; a Escola Apostólica em Baturité constituindo um conjunto com o Seminário Menor, o Noviciado e o Juniorado; uma casa de Retiros em Fortaleza e residências em São Luiz, Belém, e Aracati no Estado do Ceará.

Em 1937 o número de alunos do Colégio Vieira aumentou em 13%, alcançando o número total de 370, fortalecendo o Colégio economicamente.(16) Os Jesuítas, porém, ainda não tinham conseguido vender o edifício do antigo Colégio e outras instalações menores a seu lado. Mesmo assim, receberam o apoio de alguns benfeitores como o Sr. Almendra.

Mesmo notando que a qualidade dos internos concluintes poderia ser melhor, o escritor histórico do Colégio Vieira registrou com orgulho, em 1938: “As escolas noturnas, cujo objetivo específico é proporcionar com as letras uma formação de doutrina cristã para o trabalhador com baixo nível cultural, embora iniciada só no final do ano, tiveram grande presença de alunos.”(17)
O evento mais importante, em 1938, foi a CG XXVIII e o subseqüente decreto alguns meses depois tornando a Vice-província independente.(18) Mendes assistiu à CG XXVIII, representando tanto a Vice-Província Setentrional Dependente como a Província de Portugal.(19) Essa Congregação criou a Assistência da América Latina.(20) PADBERG, John W.,eater Moment; The First Thins. St. Louis: The Institute o Mais tarde, em dezembro do mesmo ano, Ledochowski decretou Independente a Vice- Província Setentrional Dependente Independente.

Agiu assim porque acreditava que a Companhia iria continuar a crescer e queria adequar as estruturas burocráticas às necessidades criadas por esse aumento.


Ledochowski convocou a CG XXVIII precisamente para escolher um Vigário Geral porque, já com 72 anos e com a situação européia tão insegura, precisava de ajuda. Pediu à CG XXVIII que ele pudesse escolher o Vigário Geral, mas não com a direito de sucedê-lo. A CG XXVIII concordou e Pe. Marauce Schurmans, da Província Belga Setentrional foi o escolhido.(21)

Os Decretos desta CG XXVIII seriam os pontos de referência para a VPS do Brasil e poderiam ser organizados em quatro categorias:

O primeiro objetivo foi animar e fortalecer o espírito da Companhia em oposição aos erros e às enfatuações em moda. O segundo, Jesuítas tinham que procurar uma adaptação melhor de seus apostolados às necessidades atuais. O terceiro, os estudos a serem feitos pelo Jesuítas jovens tinham que ser orquestrados segundo a nova legislação e às exigências da atualidade. E finalmente, a Companhia tinha que deliberar como ela poderia celebrar o mais dignamente posssivel as próximas comemorações do quarto centenário da Companhia.(22)

Apesar das reservas que Mendes teve sobre a criação da Vice-Província Indepedente, não perdeu tempo no seu trabalho para adequar a VPS às orientações da CG XXVIII. Com o primeiro passo para celebrar o quarto centenário da Companhia, Mendes, já, em fevereiro de 1939, preparou as “Conferencias dos Professores dos Colégios da Bahia e Recife na cidade de Salvador”.(23) Inclusive, escolheu a data destas “Conferências” para acomodar o calendário do Pe. Luís Gonzaga Aires da Fonseca, SJ, que estava no Brasil como Visitador. No momento, Pe. Fonseca estava exercendo este cargo que é, estatutariamente, um oficial indicado pelo Superior Geral da Companhia para visitar determinadas Províncias ou Vice-Províncias na Companhia. Era da província portuguesa e certamente Mendes o conhecia. Biblicista e grande divulgador internacionalmente da devoção a N. Sra. de Fátima, passou muito tempo em Roma como professor do Instituto Bíblico e diretor da revista “Verbum Domini”. Assistiu com Mendes a CG XXVIII como delegado da província portuguesa.(24) ,

Nestas “Conferências” constatou-se que os colégios perderam o “pique” dos anos anteriores e os conferencistas tentaram refletir de como os mesmos poderiam contornar as dificuldades atuais. Visto que a CG XXVIII deu muito ênfase em atualizar a “Ratio Studiorum”, um tipo de guia educacional para o apostolado educacional jesuíta, Mendes, conhecedor dos documentos da Companhia, não deixava de valorizá-lo também. Apesar de várias tentativas para se atualizar a “Ratio”, depois da restauração da Companhia de Jesus em 1814, nunca alcançou o sucesso enorme que desfrutou na antiga Companhia antes de sua supressão em 1773. A tentativa da CG XXVIII, foi ambiciosa mas esta, também, sofreu desgastes.(25) à v. 4.Durante este período de grandes expetativas, faleceu, em janeiro de 1939, Pe. Luís Gonzaga Cabral, grande humanista, intelectual e pregador cuja atuação no Colégio Vieira. marcou muitos de seus alunos, principalmente na Congregação Mariana Acadêmica.(26) Na abertura das “Conferências” Mendes reiterou a orientação da CG XXVIII para atualizar os apostolados, inspirando-se nas tradições da Companhia e nos recentes apelos de Pio XI para a “ação católica”. Sintetizou Mendes:

Sendo o fim dos nossos Colégios, formar não só homens cultos, mas verdadeiros cristãos, tanto na vida particular como na civil, capazes de poder e querer colaborar no apostolado moderno; todos os Nossos nos Colégios hão de viver compenetrados deste fim e desta idéia e esforçar-se por conseguir a sua realização, todos à uma: Superiores, em especial os Sub-Diretores, Professores, Prefeitos.(27)


Ninguém questionou esta afirmação e, mesmo fazendo algumas referências a uma sociedade mais indiferentes aos valores cristãos, os outros conferencistas procuraram encontrar soluções nos próprios colégios para as dificuldades existentes.

O Pe. Manuel Mendes, irmão do Pe. Cândido Mendes, deu a conferência intitulada “Formação espiritual de elites por meio das Congregações Marianas”.(28) As Congregações Marianas (CCMM) têm uma história longa mas, neste momento, foram um meio poderoso para que os Jesuítas pudessem introduzir a espiritualidade inaciana de uma forma atraente para os jovens do Colégio. Mendes descreve o projeto das CCMM:

A formação cristã do educando é tarefa que deve empreender-se devagar e por doses no decorrer dos anos, por meio da freqüência dos Sacramentos e prática do temor de Deus, até que ele atinja uma idade mais refletida e consiga colocar-se entre a mocidade que sabe travar lutar pelos grandes ideais da Fé e pela defesa dos sãos princípios da igreja e Moral Católica. Este é o ideal que se propões as Congregações Marianas, escolas de vida cristã e de formação espiritual de elites.(29)

Apesar de enunciar esses ideais, Mendes tinha dúvida de que os jovens brasileiros pudessem alcançá-los, dizendo que “[...] porque estes climas, educação e feitio fazem que se não possa conseguir tudo o que conseguimos na Europa.”(30) A sua experiência no Colégio Nóbrega do Recife confirmou a importância do confessor na formação dos congregados. Sem ele, os congregados não conseguiriam a realizar os seus bons propósitos.(31) Mendes, também, afirmou que, como regra, as Congregações Marianas dos externos tiveram mais sucessos do que aquelas dos internos.(32)


êt
eporq


Na sua conferência Mendes não fez menção à dificuldade que as CCMM enfrentaram no Brasil em 1940. Pe. Antônio Abranches, promotor das CCMM no Colégio Antônio Vieira enfrentou dificuldades com o Arcebispo Augusto Álvaro da Silva na formação das mesmas. E assim espalhava-se a opinião de que, no Brasil, as CCMM criavam um obstáculo para o desenvolvimento dae“Ação Católica”. A situação chegou ao ponto de que o Secretario Geral das CCMM, Pe. Walter Mariaux, visitava praticamente todas as CCMM no Brasil e fez tudo para esclarecer que, ao contrárioado que estava dizendo, não existia incompatibilidade entes as CCMM e a “Ação Católica”.(33) (ADois anos mais tarde nNaconsulta de 2 de março de 1942, os consultores aconselharam o Va e- pPrvincial de que os Jesuítas deveriam fazer tudo para manter as sedes das CCMM que existiam

nos Colégios ou Paróquias, evitando que a orientação das mesmas ficassem sob a jurisdição episcopal.(34) Mais tarde, em 1948, Pio XII publicou a constituição apostólica “Bis saeculari die”, confirmandoou osrivilégios das CCMM eongrelarando que as q meas ue asituíram uma forma de “Ação Católic”. Desta forma, , terminou aesta ambigüidade etre as CCMM “Ação Católica”.

As críticas mais contundentes focalizaram os internatos, alunos que residiam nos colégios. Academicamente eram melhores do que os externos, mas em termos de integrarem

a mensagem da educação jesuíta, os externatos levaram vantagem. Visto que os internos passavam mais tempo com os próprios Jesuítas, a pergunta, “como isto aconteceu?” deixou de ser meramente retórica. Dois conferencistas, Pe. Camilo Torrend e Pe. Francisco Bragança ofereceram respostas. O primeiro sobre a formação espiritual e o segundo, especificamente sobre os internatos.

Sempre atualizado, o Pe. Torrend, nativo da França, explicou que este resultado não aconteceu somente no Brasil, mas, também, nos colégios da Companhia na França.

Explicou:

Indigestão mal assimilada de umas fórmulas religiosas debaixo do peso do regulamento que é a morte da iniciativa, com sacrifício da primazia do espiritual sobre o estudo e a disciplina externa, julgando que basta uma ordem aparente, embora exista a mais desenfreada desordem interior na formação do espírito religioso, e na educação da vontade e do caráter.

Falta de combinação entre os P. P. Espirituais, os professores e prefeitos para saber conciliar a autoridade e a liberdade, especialmente para os maiores. Falta de uniformidade de vistas para fazer amar a disciplina e assimilar a formação religiosa.(35)


O colégio sempre teve que diferenciar a assistência espiritual dada tanto aos internatos como aos externos. Os internatos viviam dentro de um sistema muito autoritário e, uma vez fora dele, faziam o que queriam. Mesmo saindo como pessoas cultas, faltava-lhes a outra parte cristã que foi igualmente importante para os Jesuítas. E, em 1939, este resultado pareceu ainda pior porque, nos anos anteriores, os internatos exemplificaram melhor o ideal do colégio. Ao contrário, os externatos assimilaram melhor o ideal do colégio, apesar de não se igualarem à formação acadêmica dos internos. Torrend deu muita ênfase à direção espiritual, que idealmente, podia fortalecer um relacionamento amigável entre o religioso e os alunos. Freqüente comunhão e confissões constituíram peças fundamentais neste processo. Aconselhou, também, que o colégio devia investir mais na vida litúrgica, como Missas dialogadas quando os alunos respondiam nos momentos apropriados às orações do sacerdote e oferecer um retiro para os alunos no fim do curso.(36)

Pe. Bragança, nativo de Sergipe, focalizou especificamente os internatos e tocou num assunto sensível, afirmando que os Jesuítas portugueses não entendiam o aluno brasileiro. Bragança listou quatro deficiências. Podemos trazê-las sumariamente:

1) Falta de conhecimento e desejo de o ter da psicologia moderna do aluno atual brasileiro, que não é nem pode ser a mesma do aluno antigo de Campolide ou São Fiel (colégios que existiam em Portugal), nem mesmo do aluno antigo do mesmo Colégio Antônio Viera há uns 20 anos atrás.

2) Abundância excessiva de métodos antiquados e caducos alguns que

ainda hoje aqui se empregam unicamente porque ‘em Campolide”

assim se fazia?: formas rígidas para os maiores, modos bruscos de

tratar os alunos, etc.


  1. Falta de conhecimento do caráter brasileiro, independente e livre e

naturalmente acostumado à vida de família; falta esta manifestada na maneira de trá-los com formalidade que o nosso feitio democrático acha ridículo........

  1. Uma ignorância prática dos métodos adotados em outros colégios daqui do Brasil, tanto religiosos como seculares.(37)

Além destas, Pe. Bragança tinha outras deficiências de ordem mais práticas. Destas a mais importante foi a do mau uso da disciplina. O remédio, segundo Bragança, era o uso correto da disciplina conforme o caráter do jovem brasileiro que precisava dela. A exigência educacional foi de como incorporá-la na vida diária do colégio. Para cada atividade do dia, Bragança ofereceu sugestões práticas.(38)

De todos os conferencistas o mais engraçado foi o Pe. Antônio Simas tratando o tema, “Os desportos; como aproveitá-los na educação”. Foi um verdadeiro “Dr. Jeckyll” e “Mr. Hyde”. Inicialmente, Simas, ciente da mania dos jovens pelos esportes, é da firme opinião de que eles são realmente um mal. E vai citando “os fisiólogos dignos desse nome” para confirmar sua tese.(39) Castiga os ingleses por haverem introduzido o futebol ao Brasil, dizendo. “Esse jogo dever ser a ‘Delenda Carthago’ de todo indivíduo de bom-senso”. ("Cartago deve ser destruída", isto é “o futebol deve ser destruído”.(40) Depois de fazer este papel de “Dr Jeckyll”, de repente, assume o papel de “Mr. Hyde”:

Mas donde virá este pendor irresistível para o Desporto? Gosto pelo movimento? Moda? A moda pode muito, e pouco pode contra ela o chamado bom-senso. Mas seja como for, os Desportos são hoje tão necessários como o cinema ou a telefonia. Combatê-los é perder o tempo e até a reputação de pessoa de juízo. Resta-nos, portanto, apenas higienizá-los, racionalizá-los, numa palavra, humanizá-los.(41)


Havendo feito sua reconciliação como os esportes, Simas nos informe que:

“Os Desportos, não há que negá-lo, têm o seu merecimento lúdico, o seu valor de excitante físico e psíquico, sendo um ótimo elemento de distração e alegria. São portanto, bons auxiliares da educação moral.” (42) Mesmo no seu papel de “Mr. Hyde”, Simas ainda tem uma crítica que os esportes praticados, sem bom senso, podem gerar fadiga desnecessária para os jovens atletas.(43) Pe. José Torres na sua conferência sobre “Cooperação dos seculares nos nossos colégios” revela uma opinião que chama muita atenção. Ele a resumiu assim: “Triste necessidade, [...........] mas imperiosa necessidade.”(44) Fundamenta sua opinião sobre o que ele considera o fim principal dos colégios jesuítas: a primazia do espiritual. E mesmo considerando os seculares mais eruditos ou até melhor preparados pedagogicamente que os Jesuítas, diz que não podem ajudar na formação espiritual dos alunos. Sua opinião é curiosa visto que a tradição jesuíta sempre juntou os dois vetores da educação: ajudar uma pessoa ser culta e boa. Implícita na sua visão de educação é que sendo um colégio religioso, todos os professores, idealmente, devem ser religiosos. Simas aceita o fato de que nos anos 1930 e 1940, tal ideal foi impossível. A presença do laicato, para ele, é pragmaticamente tolerada. É o único Jesuíta entre os seus colegas conferencistas que pensa assim.

Contrário a Torres foi o polêmico Pe. Antônio Paulo Cyriaco Fernandes. O seu tema foi, “O colégio, centro de vida e ação cristã”. Conhecido Diretor da Congregação Mariana da Mocidade Acadêmica, Fernandes tinha uma forte presença cívico-social por causa de sua influência nalguns membros desta Congregação que exerceram cargos no Governo de Agamenon Magalhães durante o período do Estado Novo. Fernandes lutava contra o protestantismo, espiritismo, maçonaria e, segundo, o pior de todos, o comunismo, alvos atacados na primeira parte de sua conferência. Depois de indicar seus “adversários”, Fernandes elaborou seu argumento principal: mesmo não sendo o colégio um protagonista político, tinha um papel cívico. Devia orientar os seus concluintes para os vários apostolados da Ação Católica e, no primeiro ponto de seu resumo Fernandes especificou bem seu pensamento:

Como a Congregação Geral XXVIII em seu decreto 29 inculcou aos Nossos com tanta insistência o apostolado moderno, e ao mesmo tempo declarou (decr. 31) que o fim dos nossos Colégios é formar homens não somente cultos mas verdadeiros cristãos, quer na vida particular quer na pública, que possam e queiram trabalhar para o apostolado moderno: procurem todos ter uma idéia exata do mesmo apostolado moderno e pô-lo em pratica na medida do possível, associando-lhe de alguma maneira os alunos, embora isto envolva por vezes qualquer alteração na vida colegial. Para isso apliquem-se métodos modernos formando mentalidade nova, segundo ficou explicado no decurso da conferência, e convidem-se homens especializados para fazerem conferências instrutivas e orientadoras.(45)


Por razões de saúde, um dos conferencistas, Pe. Manuel dos Santos, não pode estar presente. Achando o tema “Meios educativos”, que seria dado pelo Pe. Santos, muito importante, o Vice Provincial, Pe. Mendes assumiu o tema. Foi uma oportunidade para mostrar como a “Ratio Studiorum”, que a CG XXVIII valorizou, podia ser aplicada. Dentro das idéias que o “Ratio” ofereceu, Mendes escolheu a da emulação, em parte porque a mesma lhe agradou, e porque quis defendê-la visto que alguns autores pedagógicos a consideravam anti-educacional. Mendes palestrou:

É uma caraterística do nosso sistema de ensino nas classes inferiores e médias, não por que a Companhia a inventasse, mas porque nas suas aulas a aplicou metodicamente e a deixou exarada na “Ratio” em sua várias modalidades e aplicações práticas......

Refiro-me à emulação nas aulas. Essa emulação honesta, exposta na regra 31 dos professores das classes inferiores, ‘que é grande incitamento para o estudo e por isso se deve fomentar.’(46)

Essas conferências ofereceram uma visão excelente do pensamento e das preocupações dos Jesuítas como educadores nos dois Colégios da VPS. Houve divergências muito grande entre eles, porém, notável foi a transparência de suas opiniões e a liberdade para expressá-las.

Foi pena que o convidado principal, Pe. Fonseca, Visitador de Roma, só pode chegar para assistir a última sessão porque demorou-se na sua visita à Escola Apostólica de Baturité.(47) Mendes considerou as “Conferências” um sucesso e mandou imprimi-las e distribui-las para as residências da VPS.

Alguns meses depois das “Conferências”, o Colégio Vieira, sede do evento, sofreu, criticas públicas por causa de um surto de tuberculose no internato.

Infelizmente, no período de férias em julho de 1939, dois alunos do Colégio contraíram tuberculose e voltaram adoentados para o Colégio. Este fato, unido à falta de higiene tanta na enfermaria como na própria limpeza do Colégio, agravaram a situação e mais treze alunos ficaram contaminados. Isto levou as autoridades responsáveis pela saúde do setor educacional estadual a fechar o Colégio por algumas semanas. Nenhum aluno faleceu mas a imagem do Colégio sofreu devido à divulgação desses eventos pelos jornais.(48) Apesar desses acontecimentos, o Colégio só teve um declínio de 23 alunos em relação ao ano anterior, porém, prejudicou o relatório contábil anual.(49)

CAMILO TORREND
Pe. Mendes não foi o único a pensar que a VPS precisava de mais Jesuítas.(50) Também, o Pe. Camilo Torrend, francês que entrou na Companhia de Jesus em Barro, Portugal, em 1894. Tinha três irmãos, destes dois, Júlio e Alexandre entraram na Companhia de Jesus. Foram missionários, Júlio em Zambézia, (Moçambique) e Alexandre, em Tanail, perto de Xsára

Síria.(51) Parece que Júlio teve mais influência sobre Camilo, estimulando-lhe o desejo de trabalhar na África. Carismático e polivalente, Torrend foi naturalista e pedagogo e, durante todo o período de nosso estudo, os quatro Vice-provinciais sempre pediram-lhe para ser um de seus consultores oficiais. A função do consultor é aconselhar o Vice-provincial na sua governança e, normalmente, houve quatro. Torrend se mostrou um consultor “extraordinaire” porque, desde 1931, atuou sempre como consultor até a divisão da VPS, em 1952, e, mesmo depois na Vice-Província da Bahia (VPB), em 1952 , onde decidiu permanecer como vamos ver num outro capítulo. Em tudo, Torrend foi consultor por 21 anos. Tão valiosos foram seus pareceres que somente lendo as cartas que ele enviou para Roma, como obrigação anual do cargo, o leitor pode ter uma idéia segura dos aspectos positivos e negativos da VPS.

Pe. Torrend não somente escreve sobra a falta de pessoal mas, também, da incompetência dos coordenadores ou supervisores educacionais dos dois colégios.(52) O fato de que Mendes convidou as “Conferências” no início de 1939 sobre as obras educacionais da Vice-Província não foi por acaso. Queria remediar questões fundamentais.

Pe. Torrend trabalhou muito com as Congregações Marianas na Bahia. Sua cativante personalidade atraiu jovens, mesmo falando português com um sotaque acentuado francês. Em assuntos financeiros, Torrend nem sempre colocou oeus superiores a par de suas atividades. JFormo com aguns amigos, formou, em 1937, a Sociedade Baiana de História Natural, em 1 já e 1940, estava bem conhecido na comunidade científica baianaganhando uma certastes interesses profissionaiscom as sua atuaçã com os membros da Congregação Maiana. A revista “Ecos do Norte” nos informa:

Todas as segundas feiras de cada mês, em torno de uma antiga mesa, dada por empréstimo pelos padres jesuítas, agrupam-se no Pensionato Mariano Acadêmico os agremiados, e ali, sem abertura de sessão, sem discurso, sem palanfrório, cada um conta em linguagem chã e despretensiosa o que viu de interessante, em qualquer passeio que haja feito e durante o qual tenha colhido uma planta, apanhou um fragmento de rocha, ou capturado um inseto ou animal bizarro, cuja singularidade não lhe passou despercebida.(53)

1942.)
ão foi comprada potou, suspeitando que Torrend estava em colusão com os seus amigssociaçãocS, 1941.)



RECIFE

Numa carta a Ledochowski, Torrend fez menção do atrito do Pe. Antônio Fernandes com o filósofo francês Jacques Maritain.(54) Esta briga entre os dois continuou até a morte do Jesuíta em 1946.

Esse conflito acirrado começou bem simples. Manual Lubambo, grande amigo de Fernandes e uma figura da qual vamos falar mais em baixo, o alertou sobre o artigo, "O problema da piedade cristã”, escrito por Weimar Penna, publicado na revista, “Vida”, em 1936.(55) Penna gostava do pensamento de Maritain, e divulgou seu livro, "Humanisme Intégral". Maritain fazia uma distinção entre um humanismo teocêntrico e outro, antrocêntrico. Enquanto defendia o primeiro, criticava severamente o segundo, o antrocêntrico, que segundo ele, teve uma influência nefasta na história do cristianismo. Fez um juízo severo do principal defensor dessa posição, o Jesuíta espanhol do século XVI, Luis de Molina.(56) Percebendo que o livro, "Humanisme Intégral", teve uma boa distribuição no Brasil, Fernandes entendeu que, atacando o que Maritain considerava o humanismo antropocêntrico de Molina, o francês estava desvalorizando a teoria da graça de Molina, implicando que o espanhol defendia uma posição semi-pelagiana, teoria teológica sobre a graça, afirmando que uma pessoa podia realizar só por si mesmo sua “salvação eterna”.

Antes desse incidente, Fernandes elogiava Maritain, até, divulgando os seus livros. Agora, mudou de opinião e iniciou uma série de palestras no Centro D. Vital, instalado no antigo Palácio da Soledade, salientando os erros do filósofo. Posteriormente, Fernandes conseguiu publicá-las junto com artigos de outros colegas seus, Pe. F. Cavallera, SJ, e Hector Bernardo, na separata da revista “Fronteiras” com o título, "Jacques Maritain; as sombras da sua obra". Além desta divergência com Maritain sobre Molina, Fernandes ficou mais irritado com a posição de Maritain sobre a Guerra Civil Espanhola. Maritain defendeu uma postura neutra e opinou que o General Francisco Franco usava a fachada do cristianismo para disfarçar suas atrocidades fascistas que não mereciam o apoio dos homens de bem. Isso enfureceu Fernandes, defensor veemente de Franco.

Fernandes foi um adversário tenaz. Além de divulgar sua posição, pela revista "Fronteiras", contribuiu mais tarde para uma coletânea de artigos, organizada por Mário Pinto de Campos, em 1944, publicada pela editora "Tradição", que também sustentava uma revista do mesmo nome. A coletânea levou o nome, "Estudos sobre Jacques Maritain"(57)

A luta contra os comunistas, também, entrou nesse conflito entre Fernandes e Maritain. O Padre, como muitos católicos tanto no Brasil como na Europa e nos Estados Unidos, defendeu o General Franco, fazendo de sua causa uma cruzada contra o comunismo. A posição neutralista de Maritain sobre a Guerra Civil Espanhola levou Fernandes, sendo a favor de Franco, a considerar que Maritain só poderia ser comunista. Para os partidários de Franco, a grande dificuldade foi como explicar a aliança do povo basco, profundamente católico, com os republicanos que lutavam contra Franco. E mais ainda como explicar a destruição da cidade basca de Guernica, pela força aérea Nazista, um desastre imortalizado pelo artista Pablo Picasso.(58)

Nesta briga contra Maritain tanto o Geral como o Vice-Provincial estavam a favor de Fernandes.(59) Ao contrário, Torrend era da opinião de que Fernandes estava fazendo uma batalha desnecessária.(60) Esta briga continuou no provincialado do sucessor de Pe. Mendes, Pe. Carlos Coppex até a morte do Pe. Fernandes em 1946. Nestes anos Maritain ficou mais conhecido pelas suas atividades em favor de democracia, sendo nomeado embaixador francês no Vaticano, em 1944, e participante na formulação da “Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas.” Talvez estes eventos fizeram Fernandes ponderar, porque pouco antes de sua morte, confidenciou ao seu colega do Colégio Nóbrega, Pe. Alfredo Wenceslau, SJ, que arrependeu-se de brigar tanto contra Maritian. Certamente uma declaração impressionante depois de um conflito que se arrastou por vinte anos.(61)

EMINÊNCIA PARDA (a influência de Fernandes)

No Estado Novo Vargas nomeou um Interventor para governar cada Estado. Para Pernambuco escolheu Agamenon Magalhães. Nativo de Serra Talhada, cidade agreste pernambucana, Magalhães formou-se na Faculdade de Direito do Recife. Interessado pelo jornalismo, começou sua carreira como professor, depois atuou como promotor público que o ajudou a ser eleito deputado.(62) Ganhou a confiança de Getúlio e dirigiu Pernambuco com mão de ferro. Não querendo criar adversários políticos logo no início de seu governo, escolheu técnicos para as várias pastas de seu secretariado. Tal procedimento o levou a convidar vários membros da Congregação Mariana da Mocidade Acadêmica (CMMA) A lista dos nomes impressiona: Nilo Pereira, Educação; Manoel Lubambo, Fazenda; Apolônio Sales, Agricultura; Arnóbio Tenório Wanderley, Secretário do Governo; Etelvino Lins, Segurança. E quando Lubambo deixou o governo em 1939, outro congregado, José Maciel o substituiu.(63) Sendo a alma da CMMA, Fernandes ficou conhecido como a “Eminência parda” do governo.(64).

A comunidade pernambucana exagerou a influência que Fernandes exercia sobre os membros da CMMA e, por extensão, no governo de Magalhães. Mas tal influência criou desentendimentos entre ele e Mendes, seu superior, em 1938. Depois da visita formal que Mendes fez ao Colégio Nóbrega, em outubro de 1938, sete membros da CMMA dos quais seis foram membros do governo de Magalhães (Arnóbio Tenório Wanderley, Manoel Lubambo, Aplônio Salles, José Maria Cavalcanti de Albuquerque , Antônio Vicente Andrade Bezerra, Francisco Barreto Rodrigues Campello, Nilo Pereira, e Milton Pontes), enviaram carta ao Papa Pio XI. expondo o perigo do comunismo tanto no Brasil como em Pernambuco. Escrita em francês, a carta descreveu a grande ameaça que o comunismo representava e pediram ao Papa para usar sua influência a fim de liberar quatro Jesuítas para trabalhar especificamente contra o comunismo no Nordeste. Acharam importante ajudar o governo de Pernambuco porque incluia não somente os membros da CMMA mas outros, dispostos para entrar neste projeto. Os quatro Jesuítas solicitados iriam encabeçar quatro fases do projeto: os intelectuais, os militares, os trabalhadores e a juventude. Parece que Mendes estava a par dos interesses desses congregados. Ajudou, mas só pode liberar Pe. José Foulquier para esse trabalho que estava trabalhando em Belém. Supomos que os membros da CMMA, compreendendo que Mendes não podia resolver a situação, decidiram enviar essa carta ao Papa. Os Congregados estavam querendo que outros Jesuítas pudessem vir das outras Províncias do Brasil para atuar no nordeste.(65) O Vaticano não deu uma resposta diretamente aos Congregados, mas o então Secretário de Estado, Cardeal Pacelli informou a Ledochowski do recebimento da carta e elogiou os seus sentimentos religiosos. Sugeriu ao Geral que alguns Jesuítas da Residência do Gesù em Roma possivelmente pudessem ajudar.(Contribuição verbal).(66) Por sua vez, o Geral informou a Mendes sobre o pedido dos quatro Jesuítas. Como já indicamos, Mendes simplesmente não teve os recursos humanospara concretizar o pedido do Geral.(67)
A carta dos Congregados exemplificou o pensamento cívico-social bastante comum entre os católicos influentes de Pernambuco. Apesar de ter uma personalidade introvertida, Fernandes foi um guia carismático para os congregados e os incentivou com um programa cívico-social agressivo, porém, nem sempre concordaram com suas opiniões.(Contribuição verbal), (68) Sendo Magalhães um político nos moldes de Vargas, não permitiria a influência de Fernandes no seu governo nem de ninguém. Mendes estava ao lado de Fernandes no seu conflito contra Maritain, uma posição reforçada pelo próprio Ledochowski, mas não seria tão generoso com uma interferência no governo de Magalhães.(69)

Fernandes tomou conhecimento duma queixa que Magalhães fez sobre ele ao Cardeal Leme, referente ao governo em Pernambuco. O próprio Leme deu esta informação ao Pe. Luís Riou, Província do Brasil Central, que por sua vez passou ao Pe. Luiz Gonzaga da Fonseca, Visitador de Roma.(70) É bem possível que Mendes tivesse falado com Fernandes sobre este assunto. Entretanto, temos certeza que censurou Fernandes sobre o seu “Memorial” enviado ao Cardeal Leme e a Ledochowski em novembro de 1939.(71)

Esse “Memorial” traz abundantes informações sobre as atividades de Fernandes contra os comunistas no anos 1930. Fernandes estava a favor do Estado Novo e elogiava principalmente sua luta conta os comunistas. O Interventor em Pernambuco, Magalhães, também, agiu contra os comunistas, bem como os membros da CMMA que participavam no seu governo. É com uma certa ironia a queixa de Magalhães contra Fernandes,taxando-o de zeloso demais, vendo comunistas em todo canto.(72) No “Memorial” Fernandes se defende da acusação de que ele estava interferindo. Ao contrário, ele estava fazendo de tudo para ajudar, descrevendo como conseguiu amenizar ações agressivas do Interventor principalmente aquelas contra entidades católicas no Recife.

Um projeto, contudo, a “Liga Social Contra o Mocambo” se tornou notório. O mocambo era uma habitação precária de taipa muito comum entre as famílias de baixa renda e que facilitava a propagação de várias doenças. Por causa disso o governo a considerou imprópria para habitação. A “Liga” queria levar as famílias que moravam nele para casas populares e mais higiênicas. A maneira autoritária, porém, para executá-lo, trouxe intranqüilidade a vários membros da CMMA dentro do governo. O caso não foi o único, mas parece, que este esgotou a paciência de Manoel Lubambo, o competente Secretário da Fazenda, que o levou a deixar o governo. E não somente ele. Percebendo que a atitude de Lubambo poderia se estender aos outros congregados dentro do governo, Fernandes fez tudo para que eles não saíssem do governo como grupo. Conseguiu e somente Lubambo saiu.(73)


Fernandes terminou o seu “Memorial”, revelando uma posição que defendia por muito tempo:

O grande mal dos Católicos tem sido abandonar os altos postos do

governo aos inimigos da Igreja, que a estão acorrentando desde há um século e meio. A Congregação Mariana da Mocidade Acadêmica determinou formar homens capazes de ocupar aqueles cargos políticos, e, sem ninguém o esperar, Nossa Senhora obteve do Sagrado Coração de Jesus que eles de fato os ocupassem em cumprimento da célebre promessa de 2 de julho a Santa Margarida Maria Alacoque.

Isto traz uma glória singular ao Colégio Nóbrega , sobretudo, neste tempo de combate ao comunismo, urgido tão fortemente por Sua Santidade Pio XI, pelo nosso padre Geral e por todos os homens de bom senso.(74)

[

Como foi dito, Fernandes enviou este “Memorial” ao Cardeal Leme. Mendes não gostou e considerou Fernandes imprudente não somente por ter enviado o “Memorial” mas por não tê-lo nem mesmo mostrado a ele. Expôs todo isto a Ledochowski que aprovou uma advertência dada a Fernandes pelo seu Vice-Provincial.(75)



Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o assunto não mais empolgava. O movimento para democratizar o Brasil ocupou o cenário e muitos católicos encontraram no pensamento político de Maritain uma maneira de exercer sua cidadania cristã. Fernandes, de fato, não deixou reflexões sobre o tempo pós-guerra, mas deixou observações claras sobre a democracia que sempre associou à maçonaria e à tradição do liberalismo. Seguem-se dois exemplos:

Democracia, liberdade, igualdade, fraternidade, [...] eis os dogmas. E o segundo: Democracia, liberdade, igualdade, fraternidade, [......], eis os dogmas intangíveis, os tabus da maçonaria![...] A maçonaria exalta a democracia. mas para que? Para poder melhor oprimir o povo com suas oligarquias. Apregoa a liberdade, igualdade e fraternidade, e estrangula as crenças religiosas, persegue a Igreja em nome do povo, em países cuja maioria e até quase a totalidade é católica, abre o abismo e conseqüente luta de classes, expulsa de sua pátria os religiosos com a maior desumanidade.(76)

ã

Fernandes possui uma personalidade complexa. Com os amigos, era bondoso, mesmo sendo inibido e até taciturno mas, nas suas publicações polêmicas, era combativo e radical. Não foi um grande intelectual, mas percebia a importância dos estudos estimulados e sustentados por uma literatura atualizada de várias disciplinas para ajudar os jovens a entender a sociedade onde viviam. Pessoas que se interessavam pelo desenvolvimento intelectual católico gravitavam em torno dele e deste intercâmbio Fernandes contribuiu para a formação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras ‘Manoel da Nóbrega” em 1943.(77) Possivelmente, esta foi sua maior contribuição para o pensamento católico cívico-social em Pernambuco.



A ascendência da democracia no pós-guerra criou um contexto civil não muito propício para Fernandes. Vários membros da CMMA participavam desse novo ambiente que certamente não lhe agradou. E, em julho de 1945, dois de seus primeiros congregados Andrade Bezerra e Barreto Sampaio, já veteranos políticos, ajudaram ao Pe. Alfredo Arruda Câmara a fundar uma filial do Partido Democrata Cristão em Pernambuco. Um ano e meio depois, em dezembro de 1946, Pe. Fernandes faleceu.

COLÉGIO NÓBREGA
As visitas formais de Mendes como Vice- provincial foram meticulosas, refletindo o seu estilo de governo. A nova VPS não tinha um “Costumeiro”, um livro de protocolo cuja finalidade era: “[...] dar a toda a Província aquela uniformidade que o N. Santo padre tanto inculcava como coisa de grande importância para a união e caridade.”(78) . Mendes conseguiu a aprovação do Geral, em 1940, para que o “Costumeiro” da Província da Argentina fosse adaptado para a VPS.(79)

Nesse “Costumeiro” existia um protocolo para a visita formal do Vice-provincial. Toda a comunidade da residência visitada devia receber o Vice-provincial e junto com ele ir à capela para rezar pelo bom êxito da visita. O “Costumeiro” foi demasiado detalhado, mas foi a maneira de uniformizar uma “cultura”, literalmente estabelecendo “costu mes” para as residências dos Jesuítas.(80) Nesses anos, houve uma tendência para os superiores super-valorizarem o “Costumeiro”, refletindo, a nosso ver, a herança de Ledochowski.

Depois de sua visita, o Vice-provincial escrevia uma carta para o Geral e outra, chamado “Memorial”, para os membros da comunidade visitada. A primeira era mais oficial, descrevendo os lados positivos e negativos da comunidade, enquanto a segunda era mais familiar. Entretanto Mendes, muito ao seu gosto, descia em muitos pormenores nas atividades e rotinas das comunidades.

Nos anos de 1937-1942, o Colégio Nóbrega, tinha anualmente entre 370 e 538 alunos. Destes, 35% eram internos. Por causa das atividades de Fernandes, a Igreja, N. S. da Fátima do Colégio foi muito popular para a celebração das “páscuas” dos Militares. Até a União Católica dos Militares transferiu sua sede para a Associação Desportiva Acadêmica de Pe. Fernandes atrás do Colégio Nóbrega.(81) O Colégio, também, foi centro de grande movimentação das Congregações Marianas do Recife e o Pe. Felix Barreto diretor do Ginásio do Recife, bem perto do Colégio Nóbrega, participava bastante destas atividades. Outro Jesuíta, Pe. Tomás Dignam, costumava atender os soldados doentes no Hospital Militar.(82)

Nas suas cartas como consultor da VPS (1939-1941), Torrend confidenciou ao Geral que o Pe. Baecher, Diretor do Colégio, governava bem mas não afirmou o mesmo sobre o administrador da residência, Pe. Manuel Mendes, irmão do Vice-provincial.(83) Para Torrend faltou, também, ao colégio vitalidade, citando o envelhecimento de Fernandes e as deficiências do Pe. Abranches como Prefeito de disciplina.(84)

É de interesse saber que, além do Bairro da Boa Vista ter o Ginásio do Recife, o Colégio dos Salesianos e Pinto Junior, tinha também uma comunidade judaica.. O Recife recebeu muitos Judeus no início do século XX. A historiadora Tânia Kaufman descreve a adaptação cultural destes imigrantes:

A ocupação do bairro da Boa Vista com casas comerciais foi o vetor mais importante da integração positiva dos judeus. Já não permaneciam à margem dos acontecimentos sociais, econômicos e culturais como ocorria na Europa. Aparentemente mantinham a atitude de simples espectadores dos movimentos políticos, mas as novas relações sociais, estabelecidas através dos negócios, conferiam-lhes prestígio e acesso a personalidades do governo e da política. Mais do que ascender na vida econômica, era necessário o reconhecimento oficial da sociedade, com complemento à integração. Em Pernambuco ocorreu o que poderia ser chamado uma ‘recepção aceita’. As sociedades estabelecem ritos que traduzem essa aceitação em ações. São, entre outros, os títulos conferidos a pessoas que se destacavam em alguma atividade. Muitos desses comerciantes foram alvo de homenagens, numa bem sucedida estratégia para a conquista do direito à cidadania, ‘ainda que fossem judeus’.(85)

Infelizmente, não há informação de intercâmbio entre os Judeus no Bairro de Boa Vista e o Colégio. Sabemos que Fernandes estava muito associado com Manuel Lubambo, o redator da revista “Fronteiras”, que contava com colaboradores que escreviam artigos anti-semítas. Intrigante é que Willy Lewin, conhecido poeta e crítico literário, era de uma família judaica e um dos redatores de “Fronteiras”.(86) Na sua luta zelosa contra

os inimigos da Igreja, Fernandes falava contra mações, comunistas e, às vezes, judeus. Mas estes foram limitados a suas conversas ou correspondência particular.(87)

Fernandes explicou ao Reitor do Colégio Nóbrega, Pe. Baecher, que Lubambo, como Secretário da Fazenda conseguiu, dentro da legislação existente, um perdão de impostos no valor de cinco contos de Réis para o Colégio Nobrega. Segundo Fernandes, o Colégio podia, como gratidão, ajudar à revista “Fronteiras” cujo redator principal era Lubambo, com uma ajuda substancial. O seu pedido não foi aceito, sob a alegação de que os benfeitores do Colégio não iriam entender como o Colégio podia ajudar uma revista estando muito necessitado.(88) Fernandes, porém, continuou e mostrou que não somente Lubambo ajudou o Colégio com o perdão de dívidas, mas ele e mais outros congregadosmembdaram a Sociedade Nacional de Instrução que erafoi a pessoa jurídica VPSice Província Setentrores são os seguintes: Manuel Lubambo, 43:075$700 Cruzeiros, Milton de Pontes perdoa 10:615$700, Antônio Novais, 47:622$900 e Sérgio Higino, 2:375$100. A suma de todos estes valores é 103:589$400. Em US Dólares seria em redor de $5,600.00. Mas tudo indica que Mendes não ficouestava totalmente conoSI. Brasil, Sept. 100


BATURITÉ

A Escola Apostólica de Baturité cresceu e, em 1937, era um complexo de um seminário menor, um noviciado e um juniorado. A situação financeira da Escola sempre precária recebia ajuda do governo federal. Segundo aos termos do disposto no artigo 34 do decreto número 20.351 de agosto de 1931, a Escola seria classificada como uma instituição educacional e, como tal, poderia receber um auxilio conforme a decreto 20.071 de 14 de agosto de l933, e a lei número 115 de 12 de novembro de 1935. Mas só foi pela intermediação do Senador Valdemar Falcão, nativo de Baturité, que a Escola pode, a partir de 1937, receber anualmente 20 contos de Reis.(90) O Reitor da Escola era Pe. Francisco Freire que tinha dificuldade de audição, mas possuía senso artístico e Pe. Carlos Coppex, Mestre dos Noviços, que gostava de citar o ditado de Émile Coué, “Todos os dias, sob todos os pontos de vista, eu vou cada vez melhor.”(91)

A Escola Apostólica representava a esperança para VPS de fazê-la mais brasileira, mas não sem dificuldade. Em 1937, contando Padres, Estudantes Jesuítas e Irmãos, um total de 45 Jesuítas e mais os 65 jovens internos, fazia um universo de 110 pessoas. Esse número variou, durante o período de nosso estudo, mas em 1952, a Escola registrou um total de142.

Devido a esse aumento, a Escola se tornou pequena e, já em 1939, os Consultores da VPS, lendo os resultados da visita de Luís Gonzaga da Fonseca, constataram a falta de espaço. Nesse ano, a Escola tinha 75 seminaristas e 66 Jesuítas, fazendo um total de 141 pessoas. Os consultores desejavam uma outra construção, dando mais espaço para o Noviciado e Juniorado ou, falhando isso, a compra de outro terreno, possivelmente no Recife.(92) Mas, parece que o terreno contemplado no Recife não tinha futuro porque, em outra consulta, Mendes apresentou um plano para uma construção, custando anualmente 50 contos de reis por cinco anos. A pergunta dos consultores foi: “E de onde vêem os recursos financeiros?”.(93) Pensavam que talvez o governo pudesse ajudar, mas houve um sentimento de que os tempos não seriam favoráveis. Esta apreciação é interessante visto que o Brasil estava vivendo o segundo ano do Estado Novo. Em maio, porém, o Senador Waldemar Falcão informou a Mendes que existia a possibilidade de conseguir uma ajuda financeira do governo e pediu o envio das plantas.(94) Foram apenas boas intenções de um amigo.

Mesmo não encontrando o “Memorial” da visita de Pe. Fonseca à Escola Apostólica, encontramos informação sobre o mesmoena sua correspondência com o então Reitor da Escola, Pe. Aparício. Fonseca estava mais preocupado com “uma tendência, consciente ou não, mai notabilissima, para a independência: professores, prefeitos, e outros, dizem-me que com suma facilidade fazem, mudam, introduzem novidades, sem primeiro consultar ou avisar os Superiores [..;..]”(95) Etiqueta foi outro assunto de seu interesse e disse aoAparício:

Muitíssimo importante é o ponto da boa educação - Essa solidão

convida a deixar correr [...] daí a má figura quando vão para outra parte. É

preciso educar como se estivesse numa cidade, e houvesse contínuas

ocasiões de tratar com gente fina. Não basta a teoria; é preciso que alguém

presida às refeições dos apostólicos e os vá ensinando e corrigindo a um por

um.(96)

si
Entrou, também, em outros assuntos, como a rotina diária, textos usados nas aulas, comportamentos dos alunos e até, alimentação.



Fonseca não somente visitava as casas dos Jesuítas no nordeste mas as outras casas da Companhia de Jesus nas Províncias do Centro-leste e do Sul.. Mais acostumado com a vida acadêmica, confidenciou a Pe. Aparício que estavaando cansado, visitando tantas casas e desejava

“[....] de uma aulita de latim ou de português, ainda que fossem os primeiros elementos, e algum trabalhinho com as almas,[...] e preparar-me para a outra vida!” (97) (


Um dos consultores da VPS, Pe. Comillo cordou da opinião de Fonseca, achando que ele queria querendo quizir uma cultura européia ou da Centro-leste ou da Sul do Brasil para Baturité. Por exemplo, Fonseca indicou que o jantar deviaer ser às 19:. Torrend considera que isso não é bom para o jovens que vivem no clima tropical. É necessário ter três horas entre o jantar eo a hora de trminar o dia, indo para cama. O jantar deve ser17:30 ou às 18:00.(98) (AHSI. Brasifoi o seu conselho sobre a relação entre comida e a vocação:

Esta alimentação frugal se torna indispensável se encararmos a questão pelo lado da perseverança da vocação e da cultura da castidade. O Dr. (Paul) Carton tem umas 20 pag. de uma eloquência impressionante sobre os males fisiológicos causados pela alimentação fidalga de hoje. A castidade se torna por assim dizer impossível às gerações modernas nervosas, hiperazotadas, envenenadas pelas drogas e injeções da medicina materialista da atualidade.

Pelo contrário o regime de cereais cozinhados com todos os seus princípios mineraliasantes consegue reformar taras atávicas nervosas, forma corpos resistentes que sabem resistir a neurastenia e dores nervosas de cabeça, tão comuns entre os bons alumnos causa freqüente de naufrágio das melhores vocações.(99)

Na Escola, como dissemos, funcionavam o Seminário Menor, o Noviciado e o Juniorado. Jovens Jesuítas que terminaram os seus estudos filosóficos, também, trabalhavam com os Seminaristas e sua presença como prefeitos era muito importante. No Provincialato de Mendes, houve de dois a quatro em Baturité, exercendo esta função. Em 1941, Mendes lamentava a atuação dos prefeitos que queriam aproveitar suas próprias idéias, mas “[...] naufragaram e fizerem naufragar divisões prometedoras , só por querer governar-se por idéias pessoais, sem se sujeitarem a seus superiores.”(100)


Suas observações nos “Memoriais” foram demasiadamente pormenorizadas, tais como aquelas feitas para a pequena residência de Santo Antônio da Barra: “Pede a boa ordem e crédito da casa que haja quem acuda e com prontidão às chamadas do telefone. É um aborrecimento para quem de fora quer falar para Sto. Antônio da Barra”.(101) Fazia o mesmo nas suas visitas à Escola Apostólica em Baturité, citando a falta de silêncio, a qualidade da leitura própria durante as refeições, tempo de recreio, avisos para os estudos,o corte de cabelo, a porta da Portaria deve ser fechada com chave, portas meio fechadas com alguém em visita conforme às regras, comer fora de casa, cuidado da biblioteca, irmãos coadjutores e o uso da batina quando não estão trabalhando, aulas para aprender escreve e ler para os postulantes, não esquecer o ensino de música., cuidado de aproveitar somente de frutas (mamão) maduras e nunca pisadas.(102) A lista é longa mas Mendes ainda fez muitas outras observações.

Numa carta a Ledochowski em 1940, Mendes se queixou genericamente de que os superiores da VPS não estavam fazendo seu trabalho e ficavam esperando a visita formal do Vice-provincial para que ele pudesse resolver as dificuldades.(103) Há uma certo paradoxo em tudo isso. A inatividade dos superiores foi coberta pela superatividade de Mendes nas suas visitas. A sua imagem que sai é um pouco ambígua. A pesar de ter conhecimentos bons sobre a legislação da Companhia de Jesus e experiência como superior, muitas vezes valorizava demasiadamente regras e detalhes de pouca importância.(104)

Em relação à Baturité, Mendes questionou como o Seminário Menor estava crescendo em número de alunos mas estava produzindo menos candidatos para o Noviciado. Em 1940 o Seminário tinha 75, em 1941, 94, o mais alto durante o período de nosso estudo. Mesmo assim, somente um entrou no Noviciado em 1941. A solução para Mendes foi designar o Reitor da Escola, Pe. José Aparício como formador principal dos apostólicos. Mas parece que um outro fator estava minando o projeto de Mendes. Era conhecido que nem todos os alunos no Seminário entraram para ser Padres e muitos pais de famílias consideravam a educação oferecida lá melhor do que nas escolas públicas, principalmente no interior do estado. E Mendes o percebia e avisou:

[.....] insista-se intransigentemente no espírito tradicional da nossa formação da Escola Apostólica sem se deixarem influenciar por outros espíritos e outras formações por mais acreditados que se digam noutras partes. A nossa nunca foi colegial.

Apenas se perceba que algum dos que concorrem para a formação dos Apostólicos se regem

por outros princípios, dê-se parte ao Pe. Provincial.(105)



CATEQUESE
Desde o início do Noviciado, em 1932 , os noviços iniciaram um intenso trabalho de catequese ao povo que vivia em redor da Escola Apóstólica. Essa catequese estava conjugada com ajuda ao povo que cultivava as bananeiras, muitas nos próprios terrenos da Escola. Em 1939, houve, segundo Aloísio Furtado, então Junior, uma transformação muita grande na catequese. Além dos melhoramentos na produção de frutas, o povo deu sinais de que estava mais civilizado e religioso.(106)

A relação desta catequese para o ano 1942, publicada no noticiário da Vice-província, “Ecos do Norte do Brasil”, descreve bem os trabalhos não somente dos noviços, mas, agora também, dos juniores e apostólicos (os alunos do seminário menor). Esses trabalharam nos oito centros, alguns até 5 ou mais quilômetros da Escola Apostólica, distribuídos assim: os juniores, em Labirinto, Volta e Candeia; os noviços, em Correntes, Caridade e Mondego e os apostólicos, em Sítio e Tijuca.(107) O período da catequese nos oito centros começou no primeiro domingo de junho e terminou no fim do ano. O número de pessoas, incluindo jovens de várias idades e adultos que freqüentava cada centro variava. Num centro como Labirinto, o número poderia chegar a 500 pessoas (108) enquanto, noutro como Caridade, só tinha no máximo 80.(109)

Furtado descreve como foi uma reunião em Labirinto em 1939:

Numa sala ficam homens e mulheres. noutra contígua as criança de primeira comunhão; mais além os rapazes, uns 60. do outro lado as meninas, 50 tantas; fora, à sombra das árvores, os meninos e 2 grupos ensinam-se separadamente. Reúnem-se no princípio para cantar e rezar o terço, e no fim para ouvir avisos, quando os há. Depois da lição tira-se um santo à sorte, mesmo entre os adultos. E gostam muito.(110)


Em alguns centros, os catequistas e o povo celebravam o fim da catequese com uma Missa celebrada por um dos Padres da Escola Apostólica. Outro evento que atraia muitas pessoas que assistiam a catequese nos centros foi o “Certame” na própria Escola Apostólica no qual representantes de vários centros competiam entre si por prêmios simples mas muito apreciados.(111) Os trabalhos catequéticos destes jovens beneficiaram tanto ao povo como aos alunos da Escola.

ARACATÍ

Em 1939, na residência da Paróquia do Senhor do Bomfim, havia três Jesuítas, Padres Manuel Pacheco, Filipe Pinheiro e Irmão Alexandre Barata. Esta residência estava canonicamente sob a jurisdição da Escola Apostólica em Baturité. Nos anos de 1938-1939 houve um grande surto de malária.(112) Pinheiro ficou doente e Ir. Barata ainda mais e os dois foram para Baturité para se recuperar.(113) Só Pacheco escapou à fúria da doença e deu assistência espiritual aos outros, deixando uma descrição dos sofrimentos do povo:

Numerosas pessoas, sobretudo jovens, são visitadas diariamente uma e duas vezes pela já tão importuna malária. Sucedem-se os ataques de prostração absoluta em que o padecente, revolvendo-se de continuo da rede, fica 3 para 4 dias sem falar e sem comer. Deste estado de inconsciência tão longo passam não poucos para a eternidade; os que resistem ficam por dias como que estremunhados e meio loucos. Não há remédios que dêem saúde, e sobretudo não há dinheiro para os comprar.(114)

No “Memorial” da visita do Provincial, Mendes, elogiou a paciência e a coragem dos membros desta comunidade, frente a tanto sofrimento de sua paróquia.(115) Mendes, também, escreveu uma carta para os “Ecos do Norte”, dando mais informações: “A malária tem diminuído notavelmente com a extinção dos mosquitos, portadores do gérmen infeccioso.”(116)

Fora da cidade houve alguns casos de malária. O Pe. Nelson Mota, que estava morando na residência de Santo Antônio da Barra, chegou a Aracati no início de 1940 e os dois Jesuítas, Mota e Pacheco, continuaram com as diversas Irmandades da paróquia: “Apostolado para adultos, a Cruzada e a Liga dos Anjos para meninos e meninas, as Ligas de Sta. Teresinha, e a Congregação Mariana para moças e rapazes”.(117)




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal