PE. josé aparício da silva



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CAPÍTULO 4
PE. JOSÉ APARÍCIO DA SILVA

VICE-PROVINCIAL 1948 - 1951

Juntando Aparício, nomeado Vice-provincial em 1948, com Mendes e Coppex, temos um triunvirato que exerceu uma influência muito grande no período de nosso estudo. Tendo sido amigos e colegas de trabalho em Portugal aparentemente trocaram entre si os cargos de Mestre de Noviços e de Vice-Provincial do nordeste por 17 anos. Certamente isto não foi planejado porque já vimos que Coppex se tornou Vice-Provincial pelo fato de Durão não ter sido liberado pelo Provincial português em 1942. Aparício, que sempre esteve ligado à formação, ganhou notoriedade por ter sido confessor, por algum tempo, da Irmã Lúcia de Jesus Santo, vidente de Fátima, até 1938, quando viajou para o Brasil. Foi Reitor de Baturité em 1939 e, em 1942, juntou este cargo com o de Mestre de Noviços. Teve a mesma dificuldade burocrático-religiosa de Coppex quando foi indicado para

Vice-Provincial, a de não ser professo de quatro votos, o que foi resolvido fazendo sua profissão no mesmo dia que assumiu o vice-provincialado, em 18 de agosto de 1948.(1) E saindo do provincialado, Coppex assumiu, outra vez, o cargo de Mestre de Noviços.

Um pouco antes de ser hospitalizado, em dezembro de 1948, Aparício mandou

uma correspondência geral sobre a VPS a Roma. Nela, deu opinião sobre vários assuntos no início de seu governo da VPS. Estava preocupado, principalmente, com a falta de união entre os portugueses e os brasileiros e a fraqueza do apostolado vocacional.(2) Sendo Mestre de Noviços previu que, em 1949, o número de noviços para o sacerdócio seria menor. E isso aconteceu, de 14, em 1948, para 8, em 1949. A situação foi igual com o número de noviços para ser irmãos, porém, diminui menos, de 9, em 1948, para 6, em 1949. Provavelmente, Aparício estava comparando esse número com aquele de 1947 quando teve 18 noviços para o sacerdócio e 8 para ser irmãos.(3)

Deixou transparecer a frustração em não poder atender bem os jovens Jesuítas em formação devido à acumulação de tarefas que exercia na Escola e o medo de afastamento dos alunos apostólicos porque a Escola ainda não estava atendendo às exigências governamentais, principalmente em relação à titulação dos professores. Para Aparício houve uma urgência de corrigir isso, aproveitando a Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras Manoel de Nóbrega no Recife.(4) E finalmente, salientou que os superiores estavam ficando idosos, citando o exemplo do reitor do Colégio Vieira, Constantino Cardoso, que exerceu este cargo desde dezembro de 1935 e, naquele momento, tinha 76 anos.(5)

Como já narramos, Aparício, já com 69anos, sofreu uma operação mal sucedida de próstata em dezembro de 1948 e Baecher o substituiu por quase seis meses. As complicações de seu tratamento médico prolongaram sua recuperação. Inicialmente, entrou no hospital com problemas graves urinários e se submeteu à intervenção cirúrgica imediatamente. Os médicos queriam operar a próstata, mas tinham que esperar. No intervalo, o pobre paciente teve que sofrer uma outra operação de hemorróides. Só depois os médicos poderiam fazer a cirurgia da próstata com tantas complicações que Aparício permaneceu no hospital por três meses e quando voltou para casa levou mais três para recuperar sua saúde.(6)

O substituto, Baecher enfrentou o problema dos jovens Jesuítas filósofos em Nova Friburgo e, com a consulta, decidiu tirá-los de lá, enviando-os para São Leopoldo em 1949. Atendendo um pedido de Pe. Geral, Pe. Baecher escreveu ao Pe. Travi referente ao jubileu do Papa Pio XII. Para comemorar este evento a Vice-Província Setentrional enviou $27,000,00 ou 27 contos de reis em março de 1949.(7)

CARTA DE REFLEXÕES

A recuperação de Pe. Aparício levou tempo, e depois de dois meses no Hospital Português em Salvador, escreveu uma carta longa aos membros da VPS sobre suas preocupações, compartilhando a espiritualidade e as perplexidades com os colegas Jesuítas. Começou assim:

Neste isolamento hospitalar em que ainda me encontro, e onde a Divina Providência me retém, apesar das freqüentes e caritativas visitas, feitas pelos Nossos do Colégio e da Residência, o que a todos sumamente penhorado agradeço, dois pensamentos me têm grande e angustiosamente preocupado o espírito. Um de ordem espiritual e outro material. (8)
O primeiro pensamento de ordem espiritual: foi o número reduzido de vocações; o segundo, foi como sustentar financeiramente os jovens Jesuítas na formação, principalmente, aqueles que estudam fora do Brasil. Começa, então, com uma introspecção digna de um Santo Agostinho. O primeiro problema é mais intrigante. Refletindo sobre o Quarto Centenário da chegada dos primeiros Jesuítas ao Brasil, Aparício considerou que seria necessário aproveitar o memento e redobrar as forças espirituais da VPS. Fez a pergunta: “O diminuto número de vocações não virá de certas deficiências na perfeição do espirito religioso?”.(9) A VPS sempre teve muitas vocações e Aparício não entendia por que o número estava diminuindo agora. Estava inclinado a dizer que a causa era “[...] a falta de espírito sobrenatural e de fé no modo de proceder, muito humano, que se ia introduzindo.”(10) Apelou para as observâncias religiosas antigas da Companhia e elogiou as vidas heróicas dos Santos da Companhia. O seu conhecimento histórico da Companhia era muito piedoso mas tinha lacunas. Em resumo, a solução de Aparício para o problema da falta de vocações foi clássica: seguir as tradições jesuíticas.

O segundo pensamento foi de ordem material. “Como obviar às despesas na formação dos nossos jovens noutras Províncias? O 1º meio é merecermos essa bênção, e o 2º é pedí-la a Deus intensamente.”(11) A sua explicação desta reposta é significativa:

Mereçamos essa bênção. Como merecê-la senão observando santa e escrupulosamente todas as santas regras e prescrições sobre a pobreza? Procuremos pois todos e procure cada um esforçar-se por observá-las todas, com amor filial, porque a devemos amar como Mãe. Não façamos pois despesa nenhuma sem nos entendermos antecipadamente com os Superiores ou pelo menos com o Procurador:[...] (12)
Somente no fim de suas reflexões é que Aparício vai sugerir que os Jesuítas devem procurar ajuda financeira entre as famílias dos antigos Alunos.(13)

Levando em consideração as reflexões desse pensamento de Aparício, notamos fortes indicações de uma espiritualidade de teor pelagianista. Certamente, Aparício jamais iria chamar suas motivações espirituais de pelagianistas, mas é difícil escapar desta opinião.

As numerosas cirurgias dificultaram o início do governo de Aparício. O seu próprio quarto no hospital servia como sala para as consultas da VPS. Obviamente, governando assim apresentava enormes desvantagens, a principal sendo que nem podia fazer as visitas rotineiras das residências. O seu governo começou, de fato, com a vinda do Assistente para América Latina, Pe. Tomás Travi em setembro de 1949. Travi chegou ao Recife, em julho, e visitou as residências da Vice-Província durante o mês de agosto. Esta jornada deu-lhe as informações necessárias para conversar com Aparício e os consultores, em Salvador, no início de setembro.(14)

A carta que Aparício enviou à Roma logo ao sumir o seu novo cargo impressionou Travi porque o conteúdo dela servia, em grande parte, como pauta da reunião coordenada por Travi. O assunto principal foi vocações. Travi introduziu o “Diretório Interno para a educação religiosa e moral da juventude nos nossos colégios”, traduzido do espanhol. Travi estava bem impressionado com este “Diretório” porque o mesmo foi aplicado nos Colégios da Companhia em Argentina com grande sucesso. A parte lida na consulta foi a “Perfeição evangélica”:

1) A semente da vocação germina e se desenvolve como em clima próprio num Colégio integralmente católico. 2) Germina onde há verdadeiros cultivadores de almas e escol. 3) Responsabilidade nossa na falta de vocações; suas causas; o que devem fazer os superiores onde não florescem as vocações. 4) Indústria eficacíssima. Estímulos especiais para a América Latina. (15)

Depois de explicar a sua aplicação na Argentina, perguntou aos Jesuítas da Consulta (Camilo Torrend, Constantino Cardoso, Luís Baecher, Antônio Borges e Aparício) se a mesma poderia ser aplicada na VPS, respeitando as particularidades do nordeste. Concordaram.(16)

Travi, então, apresentou à consulta suas observações da VPS. Em geral, foi favorável. Notou, porém, que os portugueses que vieram no início da Missão Portuguesa já estavam se aproximando de seus limites e os brasileiros tinham que começar a assumir. Citou as diferenças entre os portugueses e brasileiros, mas imediatamente disse que as outras Províncias e Vice-províncias da América Latina tinham as mesmas dificuldades entre estrangeiros e nativos e não aconselhava a supervalorizá-las nem ficar presos nelas.(17)

O Assistente aprofundou o assunto de vocações pedindo aos consultores considerarem dois pontos: propaganda e formação. Borges salientou a necessidade para fazer propaganda, explicando que a arquidiocese ministrou um programa no primeiro sábado de cada mês e o próprio Colégio Vieira tentou arranjar bolsas para jovens vocacionados. Torrend sugeriu que o tema de vocações deve ser apresentado já aos alunos no primário. Baecher citou a falta de permanência de padres que exerciam o cargo do apostolado vocacional. Os comentários de Cardoso foram mais extensos. Falta de padres espirituais nos colégios e visto que os colégios têm dificuldades financeiras a seleção de alunos é menos rigorosa. São os colégios que sustentavam os jovens Jesuítas em formação, eles têm, por necessidade, admitir mais alunos. E além de não ter Jesuítas fazendo os ministérios de padre espiritual, os colégios não têm lugar próprio para atender alunos em orientação espiritual. Aparício favoreceu os Exercícios Espirituais como meio mais apropriado para despertar vocações.(18)

A reação de Travi foi esclarecedora. Em relação ao apostolado vocacional, qualquer argumento, citando dificuldades financeiras não eram aceitáveis. Disse que o Geral Janssens foi decisivamente contra tais argumentos. Travi era a favor duma escolha mais rigorosa dos alunos, reabrindo o internato do Colégio Nóbrega. Bem administrado, ainda seria uma possível solução. Também pediu para ter a Missa obrigatória para os externos no Colégio Vieira aos domingos.(19)

Estranho que a experiência dos internatos dos Colégios Vieira e Nóbrega não foi lembrada. Sabemos que em 1939, os Jesuítas constataram que os externos, em geral, eram mais dispostos à orientação espiritual do que os internos. Além disso, o Colégio Nóbrega fechou o seu internato em 1947, citando, entra outras razões, a mesma observação, feita oito antes anteriormente pelos seus colegas em Salvador, de que os externos eram mais dispostos à orientação espiritual do que os internos.(20)

Travi passou a falar sobre a formação dos Jesuítas em Baturité. O projeto educacional da Escola apresentava sérias dificuldades, ou se dava uma certa prioridade ao Seminário Menor, que foi considerado como escola em termos de Ministério da Educação, ou orientava as forças educacionais para o Noviciado e Juniorado cujas normas eram determinadas pela Companhia de Jesus. Neste momento o governo federal estava legislando que escolas como o Seminário Menor tinham que ser “equipadas” às normas nacionais senão iriam perder não somente seu “status” como escola mas, também, a ajuda financeira do governo. O espaço oferecido e as instalações de Baturité simplesmente não estavam suficientes para tantas pessoas.

Travi favorecia os estudos do Noviciado e Juniorado, considerando o Seminário Menor como um “apêndice”. Queria limitar as tarefas do superior e separar os espaços entre os apostólicos, noviços e juniores, construindo uma outra escadaria. Os juniores, como os apostólicos, não estavam seguindo as orientações deixadas anteriormente por Luís Gonzaga de Fonseca de que os Juniores não deveriam ser orientadores das classes visto que essas tarefas deviam ser exercidas pelos padres. Implícito nos argumentos de Travi foi que o Seminário Menor devia sair de Baturité.(21)

A opinião de Pe. Aparício era exatamente oposta daquela de Travi:

A Escola Apostólica (Seminário Menor) não se pode tirar de Baturité. È o centro de nossas vocações. É mais conveniente tirar o Noviciado e Juniorado. A equiparação da Escola acarreta muitas dificuldades, a inspeção, agora simplificada com um decreto do Ministro de Educação, que não urge os gabinetes, museus, aulas, como na lei anterior. Os estudos clássicos que se fazem na Companhia sofreram bastante. (22)

Travi informou, que conforme o pensamento de Janssens, a permanência do Seminário Menor que já tinha um curso de cinco anos, implicaria um acréscimo de mais um. As vantagens e desvantagens da equiparação, então, foram discutidas e a consulta não chegou a uma conclusão. Ficou claro, porém, que Travi não valorizava a Escola Apostólica como fonte de vocações para a Companhia.(23)

A consulta atacou o assunto da possível reabertura do internato no Colégio Nóbrega. Foram apresentados todos os argumentos dados no fechamento do internato em 1947. A maioria dos consultores se inclinavam para a sua reabertura. No decorrer da discussão, a parte mais interessante foi o resumo dado por Borges, Torrend e Travi:

Borges - Deve-se reabrir o interno do Colégio Nóbrega, pois os nossos alunos vão cair ou em colégio protestantes, ou em pensões e repúblicas onde reina a imoralidade, ou então para colégio leigos. Não há outro meio para resolver o problema. O Colégio foi fundado para que o pessoal de fora tivesse um ambiente seguro. Os motivos para o fechamento não são fortes. O pensionato não era necessário, pois, muitos eram alunos do Colégio. Alem disso que é mais importante a assistência aos jovens justamente na idade crítica. A idéia de criar a faculdade é que moveu o fechamento do internato. O Pe. Coppex tinha também idéia de fechar o internato. Mudou depois de parecer. Achava que a formação do internato era artificial e difícil. Aproveitou da ocasião e fechou o internato.

Torrend - A informação lida é muita elucidativa. Houve outro fator que ditou o fechamento: o P. Abranches. - não foi só a falta de pessoal, mas a criação da Faculdade e pensionato. Agora temos mais pessoas, e além disso o Pe. Abranches não será prejudicado. Sou contra os internatos, porque estes formam revoltosos.

Travi - É questão “de fato sed non de jure”.

Torrend - Sendo assim, opino pela reabertura. (24)


O parecer de Torrend é fascinante. Era notória sua opinião de internatos, porém, não lhe falta a ocasião de mostrar sua agilidade intelectual. A conclusão da consulta foi que o internato podia ser reaberto se tivesse pessoal qualificado.(25)

A questão da falta de pessoal sempre motivou os consultores a verem a possibilidade de fechar uma ou outra residência e aproveitar os Jesuítas para os Colégios. Os consultores não estavam a favor de fechar nenhuma residência. Este assunto não teve muita importância senão pelo fato de que Travi revelou a opinião de Janssens: “O pensamento do Pe. Geral é não ter paróquias. Para nós o fundamental é ter casas de Exercícios que solidifiquem nossas obras.”(26) Comparando com as outras Províncias do Brasil, as autoridades da VPS sempre citaram a falta de pessoas. Parece que não consideravam o fato que a Companhia tinha uma tradição mais longa no Sul e no Centro do que no Norte. Em 1949, a Província do Sul tinha 453 Jesuítas enquanto a Província do Centro tinha 336. Tem que ser lembrado que os Jesuítas voltaram ao Brasil e trabalharam primeiramente no Sul no anos 1840 e, depois, no Centro no anos 1860. A tentativa em Pernambuco, nos anos 1860, porém, não teve sucesso. Os Portugueses começaram a trabalhar em Salvador em 1911. Mas os números daquelas duas Províncias incomodaram muito os Jesuítas portugueses. O quadro de Jesuítas no nordeste em 1949 revela uma situação, ao nosso ver, menos alarmante. A VPS tinha 206 Jesuítas. Desses, 91 estavam em formação e ainda mais, desses, 82 tinham 29 anos ou menos. E os Jesuítas nessa faixa etária, 59 eram candidatos para o sacerdócio e 23 para ser irmãos. A VPS tinha 66 padres e 49 irmãos formados. Outro fato que os preocupou foi de que, dos padres, 38 tinham mais de 60 anos.(27) Apesar da divergência entre Travi e Aparício sobre a importância da Escola Apostólica, no assunto dos exercícios espirituais, o pensamento dos dois se encaixaram.

Se a perene falta de pessoal incomodou os Jesuítas da VPS, a questão financeira os tocaram ainda mais. A consulta tratou do estado financeiro, especificamente, da situação da “Arca Seminarii”(Fundo da Formação). Baecher, sempre muito competente, era tesoureiro desde 1940 e expôs a situação financeira aos consultores. Escolhendo o ano fiscal de 1948, explicou que, com o fechamento do internato do Colégio Nóbrega, o Colégio Vieira teve que arcar com a maior contribuição. A realidade triste foi de que os juros da “Arca Seminarii” somente estavam sustentando praticamente 1 estudante jesuíta. A VPV tinha 40 estudantes jesuítas. Os gastos anuais, sem incluir o custo de passagens, foram de 371 contos (1 conto = 1.000 cruzeiros). De onde vêm os recursos para cobrir os gastos? Do Colégio Vieira, 163 contos juntos com os 43 contos das casas da VPS, fizeram uma soma de 211 contos. A própria Escola Apostólica não dependia da “Arca Seminarii” e tinha um fundo próprio que, a 8% anual, gerava 72 contos. Outras esmolas e ministérios produziram o valor de 71 contos. Mesmo assim, as receitas totais de 292 contos não cobriram as despesas de 371 contos, deixando um déficit de 112 contos.(28) O que fazer?

Não valorizando tanto a Escola Apostólica como Aparício, Travi sugeriu que, se não trouxessem dificuldades, poderia juntar o fundo da Escola com o da “Arca Seminarii”. Cada residência já estava dando dois contos por ano à “Arca Seminarii” e parecia que a Vice-Província estava fazendo o máximo. Frente a isso, Travi, esquecendo sua opinião sobre a falta de recursos financeiro no apostolado vocacional, reconhecia , “[....] que a situação é aflitiva, e que pode influenciar nas determinações do governo da

Vice- Província.”(29)

A consulta terminou com a mudança e a seleção dos Superiores para as residências dos Colégios Nóbrega e Vieira e, com outro assunto, um pouco tangencial, o uso da faixa com a batina. O Pe. Pedro de Melo foi indicado para o Colégio Nóbrega substituindo Alfredo Costa, e Antônio Borges para o Colégio Vieira em substituição a Constantino Cardoso. Os superiores das três outras residências, São Luiz do Maranhão, Belém do Pará e Fortaleza, também foram escolhidos. Para São Luiz, a consulta indicou Alfredo Costa para substituir ao já doente José Foulquier; para Belém, José Torres substituiu João de Miranda e para Fortaleza, João de Miranda substituiu José Torres. Destas cinco mudanças, três superiores simplesmente continuaram como tais numa outra residência. A VPS não estava inovando mas apenas marcando tempo. Os padres Melo e Borges foram, de fato, as novidades e o futuro da VPS estava com estes Brasileiros.

Em relação à faixa o interessante foram os argumentos. Travi achou estranho que o único lugar no Brasil onde os Jesuítas não estavam usando a faixa foi a VPS. Dos quatro consultores, dois estava a favor do uso, um contra e o outro indiferente. Torrend, que era contra, diz que normalmente os Jesuítas seguem o clero secular e, no Nordeste, não se usa a faixa. Travi respondeu que seria melhor adotá-la visto que, em Roma os Jesuítas a usavam mesmo que o clero secular lá não a usassem. Segundo Travi seria melhor que os Jesuítas no Nordeste a usassem visto que os outros Jesuítas no Brasil a usavam. Mas não houve consenso e Travi achou melhor passar para outro tópico.(30) Nessa visita, Travi, com a indicação dos novos superiores, sinalizou, de fato, o início do governo de Aparício que, por sua parte, revelou as dificuldades da Escola Apostólica que iriam persistir durante o seu governo.

SALVADOR

Em 1949 houve o Congresso Nacional dos Antigos Alunos Jesuítas (ASIA) em Salvador, mas o evento que teve a maior repercussão foi o Quarto Centenário da Fundação da Cidade. Discursos e atividades patrióticas não faltaram. Talvez o discurso do historiador Pedro Calmon, no Instituto Normal seja um bom exemplo da retórica dessas comemorações. Depois de descrever a figura de Tomé de Souza, continuou:

Portugal abandonou a utopia do Oriente para vir criar na América o seu império, e Thomé de Souza foi o executador providencial dessa política. A expedição de 1549 entra na história das grandes aventuras sociais como a primeira em que o Estado se transfere de um para outro continente; o Estado com a justiça e as armas, com a religião e o pensamento, com o governo e a ordem, pendão del-rei e a cruz de Cristo unidos na transmigração do povo -- eleito pelo Senhor para fundar nos desertos americanos a nova Civilização. Com sua mãos honradas, o governador ajudou a levantar a cidade. Deu-lhe o suor do seu trabalho, a energia de sua vontade, o equilíbrio do seu espirito, o seu poderoso idealismo. E surgiu a Bahia desse formidável esforço, em que se associaram as forças da terra, com a benção da Igreja, surgiu destinada a perpetuar, nas suas colinas em presépio, a cristandade.(31)

Nesse ano das celebrações do Quarto Centenário da Fundação da cidade de Salvador houve a feliz coincidência da publicação do últimos três volumes da História dos dez projetados da História da Companhia de Jesus no Brasil de Pe. Sarafim Leite, SJ. Dom Aquino Correa, Bispo de Cuiabá, e membro da Academia Brasileira de Letras, felicitou ao autor por sua dedicação e competência.(32)

Vinculadas a esta celebração foram as reuniões de vários grupos. Uma de importância foi o Primeiro Congresso Nacional das Vocações Sacerdotais, tendo à sua frente o Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara. O evento é significativo por ser uma das primeiras reuniões de praticamente todos os Bispos do Brasil como um sinal do episcopado brasileiro como um movimento destinado para articular melhor o apostolado da Igreja a nível nacional.(33)

A Congregação Provincial a fim de eleger um representante para a Congregação dos Procuradores em Roma se realizou no Colégio Vieira na metade de fevereiro de 1950. O próprio Vice-Provincial foi escolhido e viajou para Roma em junho.(34) Antes de viajar, Aparício, numa carta circular, informou a VPS de que, na sua ausência, Baecher iria substituí-lo e que o Geral nomeara o Pe. Oscar Peixoto como Sócio.(35)

Durante o governo de Aparício, o Colégio Vieria conseguiu manter uma população estudantil que flutuava pouco. Em 1949 o total foi 556 alunos, em 1950, 613 e, em1951, 577. Entre as atividades apostólicas dos Jesuítas do Colégio, os padres contribuíram com algumas publicações. Pe. Alexandrino Monteiro publicou “Psicologia da Oração” e o Pe. Luis Mariz, “Entre duas guerras”.(36)

OUTRA CARTA

Aparício escreveu, em outubro, aos seus colegas do Nordeste, descrevendo as experiências como representante da VPS na Congregação dos Procuradores em Roma. Viajou de navio, saindo de Bahia para Gênova, com uma escala em Las Palmas. A viagem levou 15 dias. De Génova, foi de trem para Roma. Lá encontrou os dois estudantes Jesuítas da VPS, Hindenburg Santana e José Correia, dois conhecidos dele. Travi e Fonseca deram-lhe assistência durante sua passagem em Roma que incluíu uma audiência com Pio XII. Saiu para Lisboa a 26 de setembro, passando por Lourdes, Loyola, São Sebastião, Bilbau, Santander e Comillas onde visitou o estudante jesuíta Antônio Martins. Visitou o noviciado em Aranjuez. Finalmente chegou a Lisboa. Visitou Fátima e Braga. Saiu de Lisboa para Brasil na noite de 19 de agosto e chegou ao Rio de Janeiro na tarde de 16 de setembro.(37)

No fim da carta, Aparício comunicou algumas informações do Geral à VPS das quais a mais importante foi um pedido duma ajuda financeira para a Vice Província do Japão. Mensalmente os padres da VPS iriam oferecer uma Missa com estipêndio para essa finalidade. Outra, menos importante, mas indicativa da cultura jesuíta da época, foi a questão do uso da faixa com a batina. O Pe. Geral determinou que os Jesuítas do Nordeste deviam acompanhar os outros Jesuítas da América Latina e usar a faixa com a batina. Foi interessante uma pequena acomodação oferecida para os “Nortistas” como os Nordestinos eram chamados:

Para obviar ao incômodo que com fundamento de alguns de ser muito quente a região em que estão as casas da Viceprovíncia podem-se usar uns colchetes ou cordões na cintura, que cai debaixo dos braços, para não ser necessário apertá-la e poder andar mais frouxa. (38)


Evidentemente, Travi não esqueceu o fato de que a consulta da VPS Província, em 1949, não aceitou sua sugestão referente ao uso da faixa.

RECIFE

No seu Memorial da visita de 1950 ao Colégio Nóbrega, o Pe. Aparício evidencia uma cultura religiosa já revelada na carta de reflexões no período de sua recuperação no hospital em Salvador. Citou regras de conduta consideradas por ele essenciais para a vida jesuíta. Mesmo levando em consideração o estilo de vida religiosa ao Nordeste naquele momento, chama a atenção como Aparício tentou animar os Jesuítas para viver sua vida de comunidade. Se outras cartas e observações enviadas para Roma sobre as divergências entre os brasileiros e portugueses não fossem suficientes, este Memorial dá material abundante de como os jesuítas portugueses em posições de responsabilidade evidenciaram uma cultura que, sem dúvida, iria chocar com a cultura brasileira da qual um número crescente de Jesuítas brasileiros, devagar mas firmemente, iria estabelecer. A dificuldade de Aparício não estava nos ideais que defendia mas na maneira com que os estava apresentando. Simplesmente acreditava que o Nordeste fosse uma extensão de Portugal e nem considerava a possibilidade de fazer algumas adaptações.(39)

Para contrabalançar este estilo muito restritivo, Aparício, na sua carta a Janssens, sobre a Faculdade da Filosofia, Ciência e Letras “Manoel de Nóbrega”, é bem mais objetivo. O atual Superior da Residência, Costa, substituído por Pedro de Melo, tinha problemas com os padres Aloísio de Carvalho Mosca e Francisco Bragança. Esses, Reitor e Vice-Reitor, respetivamente, da Faculdade da Filosofia, Ciência e Letras “Manoel de Nóbrega” viviam “independentemente” da comunidade. Aparício, também, era de opinião que Bragança não era bom administrador. Por causa disso, Melo, superior da residência, pediu ao Vice-Provincial para transferir Torres de Belém para o Recife a fim de ser o procurador da Faculdade.(40)

Logo depois de ser reitor do Colégio Nóbrega, Melo escreveu uma carta a Janssens sobre a venda da Vila Nóbrega, uma casa à beira-mar no bairro de Boa Viagem. Anteriomente esta casa servia para dar os Exercícios Espirituais e, no verão, para as férias dos Jesuítas do Colégio Nóbrega. Naquele momento, porém, o crescimento do Recife naquela direção mudara o ambiente, criando sérias dificuldades. Melo explicou quais: 1) com mais pessoas passando por lá, há menos privacidade; 2) uma freqüência maior de festinhas com barulho; 3) “nudismo” dos banhistas é ofensivo; 4) prostitutas começam a andar na área vizinha da Vila; 5) no próprio uso da Vila, nos falta os meios para supervisionar os jovens quando a usam; 6) nossos amigos nos dizem que com a mudança do ambiente já indicada no números 1 - 4, a Vila não serva mais para a sua finalidade original. Em termos financeiros, a Vila foi considerada valiosa. Segundo os corretores de imóveis, a Vila podia ser vendido em redor de USD 80,000.00. Com a venda, Melo propôs uma construção de outra casa de retiros no valor de USD 15,000.00 num terreno de 60.000 metros quadrados doado à Companhia, mas cuja localização não foi indicada.(41)

Na consulta de 14 de maio de 1950, Aparício informou aos consultores de que o Geral autorizara a venda da Vila Nóbrega num momento oportuno e a compra de uma fazenda em Carpina cujo preço foi CR$ 350.000,00 para uma casa de campo para os Jesuítas.(42) Mas em novembro de 1950 a Vila ainda não tinha sido vendida.(43) Um pouco antes, numa carta de seu secretário Pe. Jacobus Naughton, Travi, informou a Aparício que estava feliz pela doação duma casa em Beberibe e que a mesma podia ser utilizada como casa de retiros. Também, opinou que o sítio de Carpina seria outro lugar para uma casa que podia servir tanto para as férias como para uma casa de retiros.(44)




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