Pedagogia de projetos



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PEDAGOGIA DE PROJETOS

Este texto foi adaptado pela Prof.ª Fábia Magali a partir das


referências citadas na bibliografia e trabalhado no Encontro de
Professores da Rede Municipal de Montes Claros em julho/98.

A discussão sobre pedagogia de projetos, surge no inicio do século, com John Dewey e outros representantes da chamada "Pedagogia Ativa". Já nessa época, a discussão estava embasada numa concepção de que "educação é um processo de vida e não uma preparação para a vida futura e que a escola deve representar a vida presente tão real e vital para o aluno como a que ele vive em casa, no bairro ou no pátio" ( Dewey, 1897).

Os tempos mudaram, quase um século se passou e essa afirmação continua ainda atual. A discussão da função social da escola, do significado das experiências escolares para os que dela participam foi e continua a ser um dos assuntos mais polémicos entre nós, educadores. As recentes mudanças na conjuntura mundial, com a globalização da economia e a informatização dos meios de comunicação têm trazido uma série de reflexões sobre o papel da escola dentro desse novo modelo de sociedade, desenhado nesse final de século.

É nesse contexto e dentro dessa polêmica que a discussão sobre a Pedagogia de Projetos, hoje, se coloca, o que significa dizer que esta é uma discussão sobre uma determinada concepção e postura pedagógica e não sobre uma técnica de ensino mais atrativa para os alunos.



Projeto Pedagógico

Os seres humanos diferenciam-se das outras espécies animais principalmente por serem capazes de valorar, refletir e interagir comunicativamente para decidir quais as melhores orientações possíveis da ação, face aos desafios e conflitos que emergem no campo de sua interação espacial e temporal. O ato propriamente humano de planejar, de fazer projetos exprime nitidamente a relevância dessas capacidades na vida social.

Sem dúvida, o planejamento foi sempre uma necessidade em todos os campos da atividade humana. Nos dias atuais, a formulação de projetos torna-se cada vez mais indispensável, dada a complexidade dos problemas socioculturais, políticos e econômicos das sociedades. Nessa perspectiva, profissionais da educação se posicionam diante da necessidade de desenvolver seu trabalho em forma de projetos.

Segundo Moretto, "Projeto Pedagógico pode ser resumido em uma frase síntese: Conjunto de princípios orientadores que vai dizer cotidianamente, como dar identidade ao seu trabalho". Para que o professor possa construir o seu projeto, ele precisa contar com a participação daqueles que são maiores interessados: seus alunos. Assim, um projeto pedagógico verdadeiramente democrático implica numa dinâmica de reflexão - comunicação - ação orientada normativamente pelos princípios elementares: justiça social, igualdade política, consciência cívica e solidariedade humana.

Um projeto pedagógico possui várias faces, que envolve várias dimensões. Uma dimensão política, que explicita o lugar que a educação formal imagina e pensa ocupar dentro da sociedade, incluindo os lugares que imagina que seus alunos nela deverão ocupar. Uma dimensão econômica, que não pode estar de fora do projeto pedagógico, porque hoje em dia, com a globalização, vivemos algumas mudanças radicais que precisam estar incluídas e uma dimensão de aprendizagem da qual se deduzem formas de ensino.

A Pedagogia de Projetos visa a re-significação do espaço escolar, transformando em um espaço vivo de interações aberto ao real e as suas múltiplas dimensões. O trabalho com projetos traz um nova perspectiva para entendermos o processo de ensino/aprendizagem. Aprender deixa de ser um simples ato de memorização e ensinar não significa mais repassar conteúdos prontos. Nesta postura, todo conhecimento é construído em estreita relação com os contextos em que são utilizados, sendo, por isso mesmo, impossível separar os aspectos cognitivos, emocionais e sociais presentes nesse processo. A formação, dos alunos não pode ser pensada apenas como uma atividade intelectual. E um processo global e complexo onde o conhecer e intervir no real não se encontram desassociados.


"Aprende-se participando, vivenciando sentimentos, tomando atitudes diante dos fatos, escolhendo procedimentos para atingir determinados objetivos. Ensina-se não só pelas respostas dadas mas principalmente pelas experiências proporcionadas, pelos problemas criados, pela ação desencadeada".

Nessa perspectiva, os alunos serão envolvidos em uma experiência educativa onde o processo de conhecimento está integrado às práticas. Deixam de ser apenas um "aprendiz" do conteúdo de uma área de conhecimento qualquer. É um ser humano que está desenvolvendo uma atividade complexa e que nesse processo está se apropriando, ao mesmo tempo, de um determinado objeto de conhecimento cultural e se formando como sujeito cultural". Isso significa a impossibilidade de homogeneizar os alunos - desconsiderando sua história de vida, seus modos de viver, suas experiências culturais - e dar um caráter de neutralidade aos conteúdos - desvinculando-os do contexto sócio-histórico que os gestou.

Abrantes (1995:62 ) aponta algumas características fundamentais do trabalho com projetos:

- Um Projeto é uma atividade intencional: o envolvimento dos alunos é uma característica chave do trabalho de projetos, o que pressupõe um objetivo que dá unidade e sentido às várias atividades , bem como um produto final que pode assumir formas muito variadas, mas procura responder ao objetivo inicial e reflete o trabalho realizado.

- Num projeto. a responsabilidade e autonomia dos alunos são essenciais: os alunos são co-responsáveis pelo trabalho e pelas escolhas ao longo do desenvolvimento do projeto. Em geral, fazem-no em equipe, motivo pelo

qual a cooperação está também quase sempre associada ao trabalho de projetos.

- A autenticidade é uma característica fundamental de um projeto: o problema a resolver é relevante e tem caráter real para os alunos. Não se trata de mera reprodução de conteúdos prontos. Além disso, o problema não é independente do contexto sócio-cultural e os alunos procuram construir respostas pessoais e originais.

- Um projeto envolve complexidade e resolução de problemas: o objetivo central do projeto constitui um problema ou uma fonte geradora de problemas, que exige uma atividade para sua resolução.

- Um projeto tem um caráter faseado: um projeto percorre várias fases:

escolha do objetivo central e formulação dos problemas, planejamento, execução, avaliação, divulgação dos trabalhos.

A partir dessas características, podemos situar os projetos como uma proposta de intervenção pedagógica que "dá à atividade de aprender um sentido novo, onde as necessidades de aprendizagem afloram nas tentativas de se resolver situações problemáticas. Um projeto gera situações de aprendizagem, ao mesmo tempo, reais e diversificadas. Possibilita, assim, que os educandos, ao decidirem, opinarem, debaterem, construam sua autonomia e seu compromisso com o social", formando-se como sujeitos culturais.


Concepções de Conhecimento Escolar

A Pedagogia de Projetos traduz uma determinada concepção de conhecimento escolar, trazendo à tona uma reflexão sobre a aprendizagem dos alunos e os conteúdos das diferentes disciplinas.

Há uma tendência, de forma bastante generalizada no pensamento pedagógico, em colocar, como questões opostas, a participação dos alunos e a apropriação de conteúdos disciplinares.

Concepção Cientificista: Professores com essa concepção enxergam o conhecimento escolar como a transmissão de um conhecimento disciplinar (já pronto e acabado) a alunos que não o detém. Estão preocupados com a transmissão de conteúdos disciplinares, acham que não podem abrir uma discussão com os alunos, ou propor um trabalho de grupo, pois isso significaria perda de tempo e o não "vencimento" dos conteúdos, ao final do ano.
Concepção Espontaneista: Ao tentar romper com esta concepção, muitos profissionais acabam negando e desvalorizando os conteúdos disciplinares, entendendo a escola apenas como espaço de conhecimento da realidade dos alunos e de seus interesses imediatos.

Estas duas tendências têm uma visão dicotômica do que seja conhecimento escolar acabando por fragmentar um processo que não pode ser fragmentado.


Não se pode separar o processo de aprendizagem dos conteúdos disciplinares do processo de participação dos alunos e nem desvincular as disciplinas da realidade atual. Os conteúdos disciplinares não surgem do acaso. São fruto da interação dos grupos sociais com sua realidade cultural e as novas gerações não podem prescindir do conhecimento acumulado socialmente e organizado nas disciplinas. Também não é possível descartar a presença dos alunos com seus interesses, concepções, sua cultura, principal motivo da existência da escola.

Concepção Globalizante: A Pedagogia de Projetos se coloca como uma das expressões dessa concepção, pois permite aos alunos analisar os problemas, as situações e os acontecimentos dentro de um contexto e em sua globalidade, utilizando, para isso, os conhecimentos presentes nas disciplinas e sua experiência sócio-cultural.

Não se organiza os projetos em detrimento dos conteúdos das disciplinas. O desenvolvimento de projetos, com o objetivo de resolver questões relevantes para o grupo, vai gerar necessidades de aprendizagem e, nesse processo, os alunos irão se defrontar com os conteúdos das diversas disciplinas, entendidos como "instrumentos culturais" valiosos para a compreensão da realidade e intervenção em sua dinâmica. Com os projetos de trabalho há uma possibilidade de evitar que os alunos entrem em contato com os conteúdos disciplinares, a partir de conceitos abstratos e de modo teórico. Nessa mudança de perspectiva, os conteúdos deixam de Ter um fim em si mesmos e passam a ser meios para ampliar a formação dos alunos e sua interação na realidade de forma critica e dinâmica. Os conteúdos disciplinares, passam a ganhar significados diversos, a partir das experiências sociais dos alunos, envolvidos nos projetos.

Essa mudança de perspectiva traz conseqüências na forma de selecionar e sequenciar os conteúdos disciplinares, pautados, geralmente, numa concepção etapista e acumulativa, onde um conteúdo deve ser "vencido" para outro ser "apresentado" ao aluno. Os Projetos de Trabalho trazem nova concepção de sequenciação fundada na dinâmica, no processo de "ir e vir", onde os conteúdos vão sendo vistos de forma mais abrangente e aprofundada, dependendo do conhecimento prévio e da experiência cultural dos alunos. Assim, um mesmo projeto pode ser desencadeado em turmas de ciclos diferentes, recebendo tratamento diferenciado, a partir do perfil dos grupos.

Vejamos um exemplo, para colocar melhor esta questão:

Duas turmas, uma de 1º e outra de 3º ciclos desenvolveram um projeto a partir do tema: "Eleja BH". No desenvolvimento do projeto, os dois grupos se depararam com várias questões, entre elas, com a necessidade de tabular e organizar os votos da eleição desencadeada na Escola. Essas turmas foram buscar instrumentos matemáticos para realizar tal tarefa e se depararam com a necessidade de aprender a tabular, classificar e registrar os dados em formas de tabelas e gráficos. Nesse aspecto, o conteúdo matemático é o mesmo para o 1.º e o 3.º ciclos. O que modifica é a forma de abordá-lo, a abrangência das relações estabelecidas nesse processo, os instrumentos de representações construídos. A sequenciação, dessa forma, não está mais pautada na acumulação de conteúdos e sim nos níveis de abordagem e aprofundamento dos mesmos.

É importante frisar que esses instrumentos matemáticos não serão apropriados de forma espontânea pelos alunos, sem uma intervenção do professor, no sentido de explorar as situações problematizadoras, introduzir novas informações, criar instrumentos para que os alunos avancem em seus esquemas de compreensão da realidade.

Não é o simples fato dos projetos gerarem necessidades de aprendizagens que se está garantindo esta aprendizagem. É preciso que os alunos se apropriem desses novos conteúdos e para isso a intervenção do professor é fundamental, no sentido de criar ações para que esta apropriação se faça de forma significativa. Isso poderá ser feito a partir da organização de módulos de aprendizagem, onde o professor irá criar atividades visando a um tratamento mais detalhado e refletido do conteúdo trabalhado. No caso das experiências relatadas acima, os módulos de aprendizagem a serem organizados serão bastante diferenciados, pois parte-se do princípio de que os alunos do 3.º ciclo têm um conhecimento prévio e uma experiência cultural mais amplos, o que permitirá aprofundar aspectos diferentemente dos alunos de 1~ ciclo, que terão um contato mais superficial com esses instrumentos.

É importante salientar, também, que nem todos os conteúdos disciplinares, surgidos nos projetos, são objeto de um estudo mais sistematizado em módulos de aprendizagem ou será apenas objeto de contato para os alunos não pode ser definido "a priori", sem se considerar o processo vivido pelo grupo, sua experiência e seu conhecimento prévios.

Os projetos de trabalho, assim, geram necessidades de aprendizagem que, por sua vez, irão repercutir sobre as atuações e intervenções dos alunos em outras situações da vida escolar.

Podemos, assim, representar a aprendizagem na Escola a partir dos Projetos de Trabalho:




A organização dos Projetos de Trabalho

Ao se pensar no desenvolvimento de um projeto, a primeira questão colocada diz respeito a como surgem esses projetos e, principalmente, quem propõe o tema para o projeto. Diante dessa questão, surgem posições diferenciadas, com alguns profissionais defendendo a posição de que o projeto deve partir, necessariamente, dos alunos, pois senão ele seria imposto. Outros defendem a idéia de que os temas devem ser propostos pelo professor, de acordo com a sua intenção educativa, pois, de outra forma, se cairia em uma postura espontaneísta. O que se desconsidera, nessa polêmica, é que o central da Pedagogia de Projetos não se coloca nesta polêmica, mas, sim, no envolvimento de todo o grupo com o processo. Um tema pode surgir dos alunos, o que não significa, a priori, uma efetiva participação destes no desenvolvimento do projeto.

O que caracteriza o trabalho com Projetos não é o fato da temática surgir dos alunos ou professores, mas o tratamento dado a esse tema, no sentido de torná-lo uma questão do grupo como um todo e não apenas de alguns ou do professor. Nesse sentido, os problemas ou temáticas podem surgir de um aluno em particular, de um grupo de alunos, da turma, do professor ou da própria conjuntura. O que se faz necessário garantir é que esse problema passe a ser de todos, com um envolvimento efetivo na definição dos objetivos e das etapas para alcançá-los, na participação das atividades vivenciadas e do processo de avaliação.

Para isso, ao se pensar no desenvolvimento de um projeto, três momentos devem ser configurados:



    1. Problematização: é o ponto de partida, o momento detonador do projeto. Nessa etapa inicial, os alunos irão expressar suas idéias, crenças, conhecimentos sobre o problema em questão. Esse passo é fundamental, pois dele depende todo o desenvolvimento do projeto. Os alunos não entram na escola como uma folha em branco, já trazem, em sua bagagem, hipóteses explicativas, concepções sobre o mundo que o cerca. E é dessas hipóteses explicativas, concepções sobre o mundo que o cerca. E é dessas hipóteses que a intervenção pedagógica precisa partir, pois, dependendo do nível de compreensão inicial dos alunos, é evidente que o processo toma um ou outro caminho. É na fase da problematização que o professor detecta o que os alunos já sabem e o que ainda não sabem sobre o tema em questão. E também a partir das questões levantadas nesta etapa que o projeto é organizado pelo grupo.

    2. Desenvolvimento: é o momento onde se criam as estratégias para buscar respostas às questões e hipóteses levantadas na problematização. Aqui, também, a ação do sujeito é fundamental. Por isso, é preciso que os alunos se defrontem com situações que os obrigue a confrontar pontos de vista, rever suas hipóteses, colocar-se novas questões, confrontar-se com novos elementos postos pela Ciência. Para isso, é preciso que se criem propostas de trabalho que exijam a saída do espaço, a organização em pequenos e grandes grupos, o uso da biblioteca, a vinda de pessoas convidadas à escola, entre outras ações. Nesse processo, as crianças têm que utilizar todo o conhecimento que têm sobre o tema e se defrontar com conflitos, inquietações que as levarão ao desequilíbrio de suas hipóteses iniciais.

    3. Síntese: Em todo esse processo, as convicções iniciais vão sendo superadas e outras mais complexas são sendo substituídas. As novas aprendizagens passam a fazer parte dos esquemas de conhecimento dos alunos e vão servir de conhecimento prévio para outras situações de aprendizagem.

Apesar de explicitarmos três momentos dentro do desenvolvimento de um projeto, é importante frisar que são momentos de um processo e não etapas estanques. A compreensão da metodologia como técnica é comum em nossa cultura escolar e dela vem a significação e redução da pedagogia de projeto enquanto uma técnica de ensino. Entendemos que a pedagogia de projetos não pode ser uma técnica, sujeita a regras pré-determinadas. Os projetos são processos contínuos que não podem ser reduzidos a uma lista de objetivos e etapas. E uma postura que reflete uma concepção de conhecimento como produção coletiva, onde a experiência vivida e a produção cultural sistematizada se entrelaçam dando significado às aprendizagens construídas. Aprendizagem estas que servem não só à resolução dos problemas postos para aquele projeto específico, mas que são utilizadas em outras situações, mostrando, assim, que os educandos são capazes de estabelecer relações e utilizar do conhecimento apreendido sempre que necessário

Assim, os projetos de trabalho não se inserem apenas numa proposta de renovação de atividades - tornando-as mais criativas - e sim de mudanças de postura, o que exige um repensar da prática pedagógica e das teorias que a estão informando.

Entendida nessa perspectiva, a pedagogia de projetos é um caminho para transformar o espaço escolar em um meio estruturante, aberto à construção de aprendizagem significativas para todos que dele participam.

A construção de um projeto pedagógico dentro de uma concepção construtivista requer, além da coragem e compromisso do professor, uma reflexão a cerca da epistemologia genética, da necessidade de um ambiente interativo de aprendizagem; da relação professor - aluno enquanto sujeitos em construção; o lugar dos conteúdos escolares e as contribuições da tecnologia para a efetivação da prática pedagógica.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


  1. LEITE, Lúcia Helena Álvarez. Buscando dar sentido e significado à aprendizagem escolar - A pedagogia de projetos em questão. SMED (Secretaria Municipal de Educação) - Dez/94

  2. MORETTO, Vasco Pedro. O Construtor de Condições. In: Dois Pontos n.º 16 - Pág. 16 - Belo Horizonte: Pitágoras, 1997.

  3. SATIRO, Angélica. Projeto Pedagógico: Identidade da Escola. In: Dois Pontos N.º 35 - Pág. 37 - 42. Belo Horizonte: Pitágoras, 1997.



OBSERVAÇÃO: este texto foi encontrado em setembro de 2001, no endereço http://www.connect.com.br/~ntemg7/pedagp.htm


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