Pedagogia waldorf (Diversos textos retirados de sites diferentes) Introdução V. W. Setzer



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Do site do Jardim Michaelis:

A Pedagogia Waldorf é uma das várias práticas inspiradas pelos conceitos elaborados pelo pensador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), que compõem a cosmovisão denominada “Antroposofia”.

Conforme esses conceitos, a educação deve apoiar a evolução integral da criança, Para isso, deve principalmente desenvolver de forma gradual e harmônica as forças da ação, da intuição, da imaginação e da intelecção.

No nível da educação infantil, tais forças são integradas principalmente a partir do brincar, do cuidado com o ambiente, do ritmo e de atividades como o contar e vivenciar histórias, pintar aquarela, fazer pão e outras.

As palavras da educadora Renate Keller apresentam uma síntese do que a Pedagogia Waldorf busca desenvolver, em especial com as crianças menores:

“A cada vinda de uma criança ao mundo, somos chamados a criar um ambiente digno de sua confiança, digno de ser imitado. Os pais e educadores (...) têm esta tarefa: ser exemplo no esforço de fazer o melhor e criar um ambiente que possibilite a formação sadia do organismo infantil, para que na idade escolar possam desabrochar capacidades da alma – querer, sentir, pensar – de forma plena e harmoniosa (...).”



Como surgiu

Europa, 1919. Em meio ao caos em que a Europa se encontrava ao final da Primeira Guerra Mundial, Emil Molt – responsável pela fábrica de cigarros “Waldorf-Astoria” – convidou o pensador austríaco Rudolf Steiner, de quem era admirador, a apresentar uma série de palestras para trabalhadores da fábrica.

Estes convidaram Steiner a fundar e conduzir uma escola orientada pelos princípios apresentados.

Steiner concordou, mas apresentou algumas condições. A primeira, que a escola seria aberta e ofereceria o mesmo ensino para crianças de trabalhadores de todos os níveis. A segunda, que deveria ser uma escola com um currículo unificado de 12 anos. Por último, que os professores da Escola seriam também os dirigentes e administradores da mesma. Além disso, a Escola Waldorf deveria ter o mínimo de interferência governamental e não ter a preocupação com objetivos lucrativos.

Emil Molt concordou em financiar a idéia. Surgiu assim, em 7 de setembro de 1919, Die Freie Waldorfschule (A Escola Waldorf Livre).

Hoje a Pedagogia Waldorf é aplicada em aproximadamente setecentas escolas em todo o mundo e em cerca de cinquenta escolas no Brasil.



Depoimentos de pais

Que escola queremos para nossos filhos?

por Claudia Lins

A pedagogia Waldorf traz em si algo que eu valorizo muito para a educação da minha filha: o reconhecimento e a valorização da Essência, do Ser, da dimensão espiritual. E quando o Ser, o Espírito está incluído na educação, o que não tem necessariamente uma relação com religião, toda a estrutura pedagógica precisa estar adequada para favorecer o processo de encarnação da criança, de uma consciência mais sutil para uma dimensão mais densa.

Está claro para mim, com a convivência com o Jardim Michaelis, que a pedagogia Waldorf favorece o desenvolvimento de relações humanas mais compassivas, amorosas, profundas e mais verdadeiras; qualidades essenciais para serem espelhadas" para as crianças que formarão a base para uma sociedade mais justa e humanitária. Não consigo encontrar essas qualidades em outras escolas sendo praticadas de uma forma tão intensa como vejo no Michaelis.

Quero para minha filha uma educação que inclua os diversos níveis da consciência: o físico, o emocional, o mental e o espiritual. O que eu mais encontro nas outras escolas é uma supervalorização do intelecto, a aquisição de muitas informações e isso não constrói uma base forte para a formação do indivíduo.

São diversas as citações que eu posso fazer que reforçam a minha escolha pela pedagogia Waldorf para minha filha:

- Os membros da escola fazem uma oração do dia e se conectam com as qualidades que vão auxiliá-los a passar os dias mais fortalecidos no seu propósito sagrados da educação.

- A forma como os limites são estabelecidos é maravilhosa: firme, equilibrada; existe força sem agressividade. As professoras conseguem passar a sua autoridade sem perder a intimidade, conseguem ser brincalhonas sem perder o lugar de adulto, procuram ser ouvidas sem precisar gritar e procuram ouvir as crianças com atenção.

O professor vai criando um espelho para a criança com as qualidades humanas que são pouco desenvolvidas em nossa cultura, porque eles procuram atuar de uma forma consciente e não é fácil essa tarefa. Percebe-se então como os professores recebem, além das instruções teóricas, práticas de autoconhecimento, pois precisam do processo de transformação interior constantemente para exercer uma função tão importante e complexa que é o educar. Eles vivenciam a pedagogia Waldorf em suas próprias vidas.

- Toda a comunidade escolar evolui com as qualidades já citadas e os pais se reeducam também. Para mim, que sou mãe pela primeira vez, tem sido muito importante estar no ambiente acolhedor do Jardim Michaelis, que fortalece o meu contato com o arquétipo da mãe que existe em mim, que sabe como falar com a filha, que intui o que é melhor para ela, mas que nem sempre consegue atuar de forma correspondente. Em alguns momentos eu sei o que precisa ser feito, mas vem uma reação emocional, comportamental que está ligada à minha herança familiar que é muito forte e que precisa de um trabalho interno profundo para ser transformado. É claro que preciso de aliados.

- A valorização das artes e a forma como eles desenvolvem o contato com elas é muito rica: também aí estão sendo consideradas várias dimensões da consciência que vão colaborar para um rico aprendizado das matérias do currículo escolar para o desenvolvimento da criatividade com a vida, da visão holística, para o fortalecimento da sensibilidade, para a valorização do simples.

- O envolvimento com a natureza é feito de uma forma muito bonita despertando a consciência ecológica e o respeito por todos os seres vivos, mantendo e desenvolvendo a inteligência instintiva, energética, sensorial das crianças que percebem que também são seres da natureza, reforçando a percepção de que todos somos Um.

- A criatividade e o vínculo com a realidade me parecem que acompanham muito o aprendizado das crianças com relação aos conteúdos da língua portuguesa, da matemática, das matérias do currículo escolar. Nos dias de hoje valoriza-se muito o excesso de informações, o preenchimento do tempo com mil atividades onde o espaço natural da vontade não aparece. O movimento de dentro para fora na criança é pouco despertado e mais tarde elas têm que optar por uma profissão e é natural que muitas se percebam perdidas para esse intento. Não houve tempo para sentir o que ela queria, para ela se conhecer. As informações são importantes numa medida adequada ,mas elas são apenas uma parte da formação do indivíduo como pessoa, como profissional, como ser social, político, como filho do Céu e da Terra.

Para mim, a pedagogia Waldorf é um belo caminho para quem quer um mundo melhor.

Com carinho e gratidão,



Claudia Lins




A Pedagogia Waldorf e sua contribuição dentro do Imaginário, Cultura e Educação

Ao pesquisar aspectos biográficos da vida de Rudolf Steiner (1861-1925), seria possível constatar a formulação de uma teoria do conhecimento fortemente enraizada em vivências pessoais e numa proposta pedagógica que encontra até hoje sua aplicação prática. Reflexo de uma vida onde ciência, arte e religião só faziam sentido quando vinculadas à moralidade e ao conhecimento humano, a influência do idealismo alemão e do poeta e cientista Goethe, como forte representante do imaginário germânico, se faz sentir na obra steineriana. A Educação Estética do Homem, proposta por Schiller, ajudou-o a encontrar o caminho que ligava a arte ao conhecimento humano. A visão goethianística consolidou-o.

Apesar da constatação, trazida também pela pesquisa, da presença do elemento positivista, marcado pela lógica identitária usada abundantemente pelo autor em seu discurso, seria possível encontrar um conteúdo permeado pelo conhecimento hermético, do qual fala Durand (1979). Esse conhecimento Steiner acreditava ser o caminho para a liberdade humana, através do desenvolvimento de uma intuição consciente obtida através da cognição ampliada. Como Steiner, Durand esclarece sobre a ruptura que ocorreu, na história do pensamento humano, relegando a imaginação a um plano inferior dentro dos campos de conhecimento.

Assim, considerando a existência dessa ruptura, Steiner buscou formular sua teoria num sentido de resgatar a posição que a imaginação e a criatividade artística ocupariam, o que estaria de acordo com o conhecimento hermético e com a Antroposofia. Porisso, a arte ocuparia, segundo ele, uma posição privilegiada no desenvolvimento cognitivo humano, motivo pelo qual ele desenvolveu a Pedagogia Waldorf como um ensino no qual a atividade artística, bem como a postura artística do professor ocupam uma posição destacada.

Para ilustrar o desenvolvimento da teoria de Steiner, gostaria de pontuar alguns aspectos relevantes da pesquisa. O primeiro seria a colocação de Steiner de que imaginação, inspiração e intuição seriam ferramentas básicas para a atuação do professor Waldorf. O cotidiano escolar nessa prática deveria trabalhar com elementos que contribuiriam para que essas faculdades anímicas fossem cultivadas nas crianças. O trabalho pedagógico reuniria em si os saberes esotérico e artístico, sendo mais do que um conjunto de procedimentos metodológicos, mas antes um conhecimento pautado pela arte e pela religiosidade inerentes à condição humana, naquilo que seria concernente aos aspectos devocional e contemplativo.

A vida anímica humana ocorreria pela interação de forças antagônicas da antipatia e da simpatia, sendo que a maior quantidade de uma ou de outra determinaria a memória ou a fantasia. Para a representação das imagens formadas na memória, ter-se-ia maior quantidade de forças de antipatia. No caso da fantasia, uma quantidade maior de simpatia seria necessária. Também a vontade seria fruto da intensidade das forças de simpatia. Isso explicaria a insistência de Steiner (1995) numa educação da vontade, e numa educação através da arte. Pois a unilateralidade da educação através dos recursos da memorização, de acordo com sua cosmovisão, não permitiriam uma posterior atuação social. Na antipatia, o homem tornar-se-ia anti-social, postura só justificável, de acordo com a cosmovisão antroposófica, caso houvesse risco de sobrevivência do indivíduo. Ou ele se tornaria associal, o que, em determinados momentos, como no da produção intelectual, ou na meditação, ser-lhe-ia benéfico. Para que o ser humano tivesse a postura adequada para agir conforme as necessidades sociais, a educação buscaria não considerar apenas um de seus aspectos, fosse este a memória ou a fantasia.

Na visão de Steiner (1995), a Pedagogia Waldorf poderia privilegiar aos dois. Ela traria em si a possibilidade de uma ampliação do conhecimento do homem no sentido de uma cognição dos mundos espirituais, o que equivaleria ao conhecimento do homem tradicional segundo a visão de Durand (1979). A Pedagogia Waldorf teria assim o mesmo enfoque cognitivo dado por Steiner ao desenvolvimento ampliado que o adulto teria do seu conhecimento ao seguir o que é proposto n'A Filosofia da Liberdade. Esse caminho seria semelhante à análise feita por Ferreira Santos sobre as Pedagogias Crepusculares, as quais, segundo este autor, utilizariam o mito e as imagens arquetipais em sua atuação, contribuindo para o reencantamento do mundo com um processo de iniciação mythica. Nessas pedagogias o professor assumiria o papel da presença humana de um iniciador da cultura. (FERREIRA SANTOS, 1996:3)

Segundo a análise de Sueli Passerini (1996) sobre o papel dos contos de fada e outras formas narrativas usadas na prática da Pedagogia Waldorf, a imagem seria o elo de ligação entre os povos, através do sentimento e do coração, pelas cenas imagéticas dos contos e mitos da antiguidade que despertariam, segundo ela, sentimentos de fraternidade entre os homens. Através da vivência imagética o processo de reencantamento ocorreria, na proposta steineiriana pela necessidade do uso do elemento artístico para que se atuasse na natureza volitiva do ser humano em formação. Poder-se-ia vislumbrar, na Pedagogia Waldorf, a sensibilidade mythica de Steiner que estaria trazendo à prática cotidiana uma possibilidade libertadora de construção da pessoa, através do exercício da imaginação criadora criativa geradora de utopias (FERREIRA SANTOS, 1996:1-2).

Essa sensibilidade mythica em Steiner teria suas raízes na sua Teoria do Conhecimento, calcada na cosmovisão de Goethe. A visão goethiana do mundo, bem como a de Steiner, buscaram a expressão artística que residia no mundo e no homem. A metodologia proposta por Steiner na Pedagogia Waldorf não seria a transmissão da Antroposofia às crianças, enquanto doutrina, mas a cosmovisão antroposófica em ação, conforme ele dizia:

Eu poderia apenas dar os princípios da educação com base na Antroposofia. E assim, em primeiro lugar, a Escola Waldorf surgiu como uma escola genérica para os filhos dos trabalhadores. Ela seria 'antroposófica' somente no sentido de que o homem que a iniciou acontecia de ser um antropósofo. (STEINER, 1928:31-32)

Assim, se a visão antroposófica acreditava que a arte era o caminho e a expressão do homem pelo Cosmo e no Cosmo, a pedagogia Waldorf foi metodologicamente apoiada na atuação artística do professor e de seus alunos. A intenção de Steiner (1928) foi de criar uma instituição educacional erigida em bases sociais, buscando encontrar o espírito integral e o método de sua atuação docente na Antroposofia. Ele acreditava que isso seria possível pelo caráter humano e universal que, segundo ele, residia nos princípios antroposóficos. Para ele, havia a necessidade de impulsos morais e espirituais nos métodos educacionais, que trabalhassem o interior das almas dos docentes, conduzindo-os aos problemas fundamentais da vida espiritual moderna que estariam conectados com a forma assumida pela cultura e pela civilização em curso na história humana (STEINER, 1928:32-33).

Na visão de Steiner (1928), a ruptura entre conhecimento - que para ele era sinônimo de ciência - arte, religião e moralidade, fez com que esses elementos culturais se desenvolvessem como ramos separados da cultura, mas que inicialmente possuiriam uma origem comum. Aqui poder-se-ia vislumbrar mais uma vez o princípio hermético no cerne do pensamento steineriano. Para ele, no período antigo da evolução humana, quando o intelecto humano ainda não havia se desenvolvido, os enigmas da existência do homem seriam respondidos por uma espécie de consciência imagética. Imagens poderosas surgiam diante da alma - imagens as quais as formas tradicionais do mito e da saga trouxeram ao homem moderno (STEINER,1928:33). Segundo Steiner (1928), elas procediam de um conhecimento e de uma experiência real do conteúdo espiritual do universo, através do qual o homem, com sua vida interior de visão imaginativa, podia perceber os fundamentos do mundo dos sentidos (idem). Assim ele assimilava do universo o conhecimento que lhe possibilitava tornar substancial, na matéria terrestre, desenvolvendo a arquitetura, a escultura, a pintura, a música e as outras artes. O homem, segundo Steiner (1928), incorporava o fruto de seu conhecimento nas formas dadas à matéria física. Seria como se as faculdades humanas copiassem a criação divina, dando forma visível àquilo que fluía em seu interior como ciência e conhecimento. E referendando suas colocações, Steiner citava Goethe:

A Beleza é a manifestação das leis secretas da Natureza, sem a qual elas permaneceriam eternamente escondidas. Aquele diante de quem a Natureza começa desvendar seus mistérios torna-se consciente de um irresistível anseio pela arte - a mais valiosa expressão da Natureza. (GOETHE, apud STEINER, 1928:34)

Essas idéias desenvolvidas por Steiner tinham a intenção de justificar sua metodologia embasada no uso da arte. Para ele, era nisso que residia uma disposição fundamental, como ele a chamava, de que para o homem, ciência e arte surgissem como dois aspectos de uma mesma verdade. Para o homem da antigüidade, o conhecimento trazia uma satisfação interior, na medida em que as idéias se formavam diante de sua alma, e quando a beleza que o encantava podia tornar-se visível aos seus sentidos pela arte. Segundo Steiner, experiências como essas eram a essência das antigas civilizações. Nos dias atuais, o intelecto abstrato, que possibilitou a construção dos sistemas de conhecimento científico, resultou numa desvalorização da arte e Steiner veria nisso uma das causas dos conflitos existenciais humanos. Para ele, como para Morin (1998) e Durand (1979), o abismo aberto entre o conhecimento e arte, surgiu porque o conhecimento passou a ser importante a partir da objetividade, que o desvinculou da arte e da religiosidade. Mas Steiner afirmava que a ciência isolada da arte seria surda aos enigmas do homem, embora pudesse encontrar respostas maravilhosas para os problemas da Natureza (STEINER, 1928:33-34).

Sua proposta seria, então, de um ensino onde a arte refizesse seu vínculo com o conhecimento, reatando no interior da alma humana o que fora rompido pelo desenvolvimento unilateral do intelecto. Então, Steiner afirmou que, por mais herético que parecesse aos ouvidos de sua época, que ao se aproximar da visão de homem através das leis da natureza, se estaria entrando no terreno da arte. Caso fosse contestado em sua afirmação, ele dizia que seria possível entendê-la no momento em que se considerasse o homem como a criação artística da natureza. Para conhecer a natureza humana ele propunha então que a observação científica incorporasse em seu cerne a observação de cunho artístico. Essa forma de conhecimento ele chamou de conhecimento imaginativo, desenvolvendo-a em seu livro Como obter o conhecimento dos mundos superiores. Steiner reconhecia a dificuldade de se tratar esse assunto em sua época. A mentalidade científica que vigorava então, suspeitava e criticava o tipo de conhecimento que ele estava propondo. Entretanto, para Steiner (1928), seria fundamental que se combatesse a tendência crescente, que existia no seu tempo, de observar apenas os eventos exteriores, permitindo que os pensamentos se sucedessem passivamente, evitando toda consciência de uma atividade interior. Segundo ele, a prova da existência dos assuntos espirituais só seria obtida através do conhecimento espiritual. Esse conhecimento, ele afirmava que o homem só obteria através do desenvolvimento das faculdades anímicas das quais ele era portador em potencial.

A Pedagogia Waldorf, com seu enfoque artístico, surgia como uma possibilidade de desenvolvimento dessas faculdades. Através do uso da imaginação, da estimulação da fantasia, a criança desenvolveria seu potencial criativo e as faculdades anímicas que lhe possibilitariam enxergar o mundo de forma artística. Na prática, ao ouvir um conto de fadas, por exemplo, ela criaria ativamente imagens em sua alma. Essas imagens surgiriam no momento em que ela fosse solicitada a desenhar aquilo que lhe foi transmitido através das palavras. O exercício constante dessas atividades fortaleceriam suas potencialidades de criação. E seria nisso que residiria sua maneira diferenciada de enxergar o mundo. Antes de trabalhar o intelecto, o professor atuaria nas forças da fantasia e da imaginação. Quando este intelecto fosse solicitado, posteriormente, poderia atuar da maneira que Steiner (1992) vislumbrou em sua metodologia, unindo conhecimento e arte.

Para Steiner (1928), essa força plástica que transformava o pensamento em imagens seria o início do processo meditativo. A partir dele, a inteligência conduziria à arte e o pensamento se elevaria à imaginação. Essa imaginação não seria só criação da mente humana, mas um mundo objetivo, do qual se teria um quadro verdadeiro através desse processo. Um esforço de concentração no sentido de transformar essas forças em um estado meditativo, segundo Steiner, poderia transmutar a imaginação ao nível de inspiração. A consciência moral se formaria, segundo ele, nesse nível. Isso demonstraria a importância de um desenvolvimento artístico e imaginativo. A religiosidade surgiria como a etapa seguinte no caminho do conhecimento para a arte. Segundo Steiner, a alma acostumada a receber inspiração divina, no exercício da atividade artística, poderia aprender a usar essa mesma inspiração para atuar moralmente e religiosamente. A compenetração e a concentração usadas na atividade artística seriam do mesmo teor daquela usada num ofício religioso, conforme a visão steineriana:

A criação artística é santificada pelo ofício. As artes, elevando no ritual e glorificação do divino através de cerimonias e atos rituais, e o homem consegue assim construir a ponte sobre o golfo de onde se eleva a religião em total harmonia com o conhecimento e com a arte. (STEINER, 1928:39)

Assim eram, segundo Steiner (1928), o conhecimento, a arte e a religiosidade para o homem da antigüidade. Para o homem atual a proposta de Steiner seria uma ampliação do conhecimento, através da atividade e da religiosidade que brotaria dessa atividade auto educativa. Para a criança, ele apresentaria esse desenvolvimento pela atuação docente através de uma metodologia embasada nesses conhecimentos. A fantasia, segundo ele, seria o correlato, no mundo físico, da clarividência espiritual. Daí a importância que ele colocava no respeito à fantasia da criança, e do resgate dela no adulto intelectualizado. Segundo Steiner (1928), a clarividência existia nesse processo do homem dos períodos antigos, e ela seria a faculdade responsável pela revelação do que existe de espiritual em cada criatura e cada processo da natureza. Era essa vivência que possibilitava a rendição e a devoção desse homem aos seres e processos da natureza, fazendo com que as leis do Cosmo fossem incorporadas ao ritual e ao culto.

Steiner dizia ainda que o desenvolvimento do modo de pensar do homem de sua época foi uma necessidade na história da humanidade, para que o ser humano adquirisse a objetividade intelectual. Entretanto, segundo sua visão, a etapa seguinte no desenvolvimento cognitivo humano seria uma soma do conhecimento antigo resgatado e da objetividade intelectual adquirida. Dessa maneira o conhecimento da natureza humana se ampliaria:

Quando a ciência se torna arte, então todo o saber que temos sobre o homem, tudo aquilo sobre o qual refletimos após termos olhado de maneira artística a imagem exterior do homem, tornar-se-á uma aquisição da alma pela qual não nos sentiremos como esqueletos, mas pela qual, de fato, poderemos sentir-nos unos com aquilo que adquirimos com a ampliação artística dos conceitos e das idéias sobre o ser humano. (STEINER, 1997:7)

A necessidade, vista por Steiner (1997), de que se tivesse um conhecimento da natureza humana através da vivência artística, dizia respeito à postura de um ser humano com relação a outro ser humano. Ele acreditava que assim brotaria o sentimento de amor, a partir do reconhecimento da semelhança entre os seres humanos.

Nós nos reencontramos no outro ser humano. Este reconhecimento do homem não se tornará uma indicação teórica, mas uma vivência interior, uma prática de vida imediata. Essa transformação é permeada pela força do amor e se torna um conhecimento atuante no homem. (STEINER, 1997:7)

Então seria possível, de acordo com Steiner (1997), que o conhecimento do ser humano atuasse carregado pelas asas do amor, sobre o meio ambiente humano, e acima de tudo, sobre o meio ambiente humano da criança, o que seria indicado para aplicação da Pedagogia Waldorf. Daí a importância que ele vislumbrava na formação docente de acordo com o que foi exposto anteriormente sobre conhecimento e arte.

Iniciar o aperfeiçoamento da pedagogia formando o professor, para que este passe do conhecimento científico do homem para uma mentalidade artístico-pedagógica-didática, que conviva diretamente com a criança e se concretize o contato entre professor e criança. Assim, o conhecimento do homem, através do amor atuante, torna-se ensino e educação espontânea. (STEINER, 1997:8)

Esse sentido artístico que conduz ao amor entre os seres e destes pela natureza, seria uma força atuante no interior do ser humano, educando a vontade no sentido prático da vida, conforme as colocações de Steiner (1997). Aplicado à atividade docente cotidiana transmitiria à criança a possibilidade da educação da sua vontade, proporcionando um caminho do brincar ao trabalhar. No seu futuro, ela enfrentaria a obrigação do trabalho, como ser humano adulto, com outra disposição anímica. A arte aplicada ao ensino ajudaria a transição entre a alegria libertadora do brincar e a obrigação do trabalho adulto, conforme explicaria Steiner:

A arte executada corretamente na escola também conduz corretamente o brincar libertador para o trabalho, que é tido como uma necessidade de vida, mas que, depois de a ponte ter sido criada corretamente, não é mais sentido, necessariamente, como um peso sufocante. E sem tirar do trabalho o peso sufocante, jamais iremos resolver a questão social. Ela sempre irá ressurgir de uma forma diferente, se os contrastes entre a alegria libertadora do brincar e o peso sufocante do trabalhar não forem eliminados da vida através da educação. (STEINER, 1997:8)

A idéia aqui desenvolvida por Steiner (1997) sugeriria um outro sentido para o ditado o trabalho dignifica o homem. Em sua cosmovisão isso significaria uma forma de educar a vontade para um conceito sagrado do dever e da virtude. Também indicaria um sentido de arte diverso daquele encontrado no senso comum do homem cotidiano. E que seria talvez diverso do sentido acadêmico que possa ser dado a ela. Encontrar-se-ia um ponto de referência na discussão proposta por Ferreira Santos (1999), quando ele diz buscar uma ampliação da visão de arte sob a ótica antropológica. Isto seria entendê-la como processo simbolizador, o que a tornaria elemento indispensável no processo educativo. Sob essa óptica, seria possível entender, em Steiner, a relação feita entre a obra de arte e a noção de pessoa, visão de homem, como ele próprio expôs em sua obra. Ferreira Santos (1999) acreditaria que a pessoa humana, com sua corporeidade, mediaria uma tensão constante existente entre a imanência e a transcendência. Essa mediação seria o irromper da pessoa para seu atuar psico-social-histórico. A obra de arte, como produto humano, também para Ferreira Santos, teria um caráter de transmutação da natureza, da materialidade, dos elementos físicos, através dos quais a intencionalidade do artista e as marcas de sua individualidade se expressariam. Mas a arte tem uma dimensão de fruição que a tornaria oscilante entre o que Ferreira Santos qualificou de locus de autonomia e de dominação, que determinaria sua dimensão política e sua influência sobre o comportamento humano.

Poder-se-ia entender a visão de arte na cosmovisão de Steiner como pertencente a um universo de autonomia. Sua proposta de atuação artística não estaria limitada à fruição. Ela seria antes de tudo uma proposta prática. O professor teria que ser um artista, em sua visão. E seus alunos também o seriam. Segundo Steiner, o conhecimento do homem nos leva a entender que a consciência seria uma artista que atua plasticamente sobre a matéria corpórea humana (STEINER, 1997:8). A vivência cotidiana com o enfoque artístico seria, para ele, a ação libertadora exercida por cada ser humano, através da própria consciência que se desenvolveria através dessa mesma vivência. Retomando Ferreira Santos (1999), onde ele afirma que a arte estetiza o comportamento, justamente por ser uma prática social na qual se aclaram as tensões recursivas entre o antigo e o novo, entre a tradição e a ruptura, poder-se-ia entender a visão de Steiner de atuação artística. Ele estaria aplicando a arte justamente como a dimensão do imaginário que organizaria o real, usando a imaginação como dinamismo organizador. Ou, como diria Durand, a unidade do pensamento e de suas expressões simbólicas se apresenta como uma constante correção, um afinamento perpétuo (DURAND apud FERREIRA SANTOS, 1999:82).

Também a relação entre arte e religiosidade poderia ser melhor compreendida através da discussão formulada por Durand. Seus estudos desenvolvidos sobre o imaginário humano esclarecem sobre as fontes às quais Steiner recorreu para descrever a ligação entre arte e religião, e porque esse conhecimento se perdeu ao longo dos séculos. Com essas considerações sobre abordagem steineriana do vínculo entre ciência arte, religião e moralidade, acreditar-se-ia que a própria influência de Goethe e do imaginário alemão tornariam mais visíveis e claras. Na pesquisa mais ampla onde outros aspectos da Pedagogia Waldorf são enfocados, seria possível esclarecer com maior profundidade pontos que possivelmente não estejam suficientemente nítidos. Mas no pequeno espaço deste trabalho creio que seria possível vislumbrar as possibilidades que a prática dessa pedagogia traria para a valorização do imaginário dentro da cultura através da educação.


Texto publicado nos anais do evento II Encontro sobre Imaginário, Cultura e Educação, promovido pelo CICE - Centro de Pesquisas do Imaginário, Culturanálise de Grupo e Educação - FE/USP Maio/2000



Bibliografia
STEINER, Rudolf. Antropologia Meditativa, S. Paulo, SP, Ed. Antroposófica, 1997.
A Arte da Educação I - o estudo geral do homem: uma base para a pedagogia, S. Paulo, SP, Ed Antroposófica, 1995, 2 ª ed.
A Arte da Educação II - metodologia e didática no ensino Waldorf, S. Paulo, SP, Ed. Antroposófica, 1992.
Arte e Estética segundo Goethe, S. Paulo, SP, Ed. Antroposófica, 1997.
Educação na Puberdade/ A Atuação Artística no Ensino, S. Paulo, SP, Ed. Antroposófica, 1990.
The New Art of Education, Anthroposofical Publishing CO., London, Anthroposophic Press, NY, 1928.

 

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