Pedro Armando de Almeida Magalhães



Baixar 83.32 Kb.
Encontro30.07.2016
Tamanho83.32 Kb.
Vozes da narração em Esaú e Jacó
Pedro Armando de Almeida Magalhães

Não é nos apaixonados naturalistas do seu tempo, teóricos da objetividade, que encontramos o distanciamento estético que reforça a vibração da realidade, mas sim na sua técnica de espectador.1

Considerando-se o conjunto dos romances de Machado de Assis, Esaú e Jacó (1904) é o que dá maior importância aos eventos históricos na economia narrativa. A influência bem acentuada de determinados episódios da História de nosso país sobre as vidas das personagens, bem como os efeitos causados pelas mudanças econômicas nessa época, ajudam, a princípio, a categorizar facilmente Esaú e Jacó como romance histórico. Porém, no nosso entender, o romance histórico tradicional é um gênero literário cujo narrador é onisciente, discreto, uniforme e preciso. Trata-se de um gênero que, ao integrar dados da disciplina histórica, evita inscrever textual e explicitamente um leitor hipotético. Os romances que seguem esta linha narrativa buscam atingir a impressão de totalidade ao representar ficcionalmente um período específico da História humana.

Em Esaú e Jacó, a passagem da Monarquia à República é central, e como vários críticos salientam, dá margem a uma série de interpretações alegóricas2, que encontram na antítese criada pelos gêmeos o seu exemplo mais evidente. A oposição de caráter político entre Pedro e Paulo, criando a dissonância na semelhança, fundaria a base de uma série de relações dialéticas que se disseminariam no texto. A relação entre os gêmeos, a indecisão conflituosa de Flora e a homologia entre a postura da heroína e a de Aires3 seriam as grandes figurações, pontos de fusão que refletiriam os jogos de distinções e similitudes partidárias ou governamentais. Entretanto, a leitura nos faz perceber que a complexidade da obra não se limita à esfera das personagens. Na verdade, a questão da duplicidade diz respeito também ao âmbito da enunciação, cujo estudo assinala a ambigüidade do narrador. É justamente esta ambigüidade que visamos analisar com mais pormenor. Tal aspecto parece se originar na relação estabelecida com o leitor. Nosso intuito é destacar o questionamento do gênero romance histórico em Esaú e Jacó.

Corroborando a pertinência do presente exame, não podemos esquecer que dois dos maiores críticos brasileiros, Antonio Candido e Roberto Schwarz, intuem ou reconhecem de forma explícita a importância da perspectiva do narrador na célebre segunda fase da obra machadiana.4

Com efeito, a narrativa de Esaú e Jacó é pontuada de intervenções do narrador (o pronome pessoal na primeira pessoa do singular aparece com grande freqüência). Ele não só tece comentários à medida que vai apresentando os acontecimentos, transcrevendo os diálogos, descrevendo as personagens e suas reflexões, como procura orientar explicando, interagindo com o leitor (também o pronome pessoal da segunda pessoa do singular é muito recorrente, principalmente através do uso de verbo no imperativo). O narrador interrompe inúmeras vezes a narrativa para esclarecer algum aspecto obscuro ao leitor ou leitora, ou indicar o comportamento de leitura esperado. Ele demonstra estar apreensivo com a recepção por parte do leitor. Atento ao estabelecimento da verdade, o narrador refuta possíveis julgamentos e conclusões, procurando dirigir o entendimento. Para ilustrar a narração ou se fazer melhor compreender, faz afirmações de caráter geral, cita ou altera referências literárias e ditados populares.

Além das inúmeras intervenções que acompanham a obra, existem capítulos específicos em que o tempo da história sofre uma interrupção, a fim de que o narrador explique ou discorra sobre determinado assunto. São capítulos onde a argumentação se sobressai face à narração propriamente dita. Seria, a nosso ver, a parte mais ensaística do romance. Privilegia-se, assim, não o relacionamento entre personagens, perpassado pela perspectiva do narrador, mas o contato deste último com o leitor ou leitora.

A) A identidade do narrador

Ao examinarmos a identidade do narrador, constatamos que, em Esaú e Jacó, ela se mostra um tanto ambígua. Na leitura do romance podemos distinguir um narrador que se reconhece como não onisciente,5 mas que apresenta laivos de onisciência, por meio de incursões esporádicas ao íntimo de certas personagens6.

Um narrador que se diferencia de Aires, mas que chega a se fundir com ele. É o que podemos observar ao compararmos a descrição do conselheiro com aquela que o narrador faz de si mesmo. Vejamos como isso ocorre ao ser descrito o comportamento de Aires:

Hás de lembrar-te que ele usava sempre concordar com o interlocutor, não por desdém da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto à gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar à sua um aspecto abominável. Se lucrasse alguma cousa, vá; mas, não lucrando nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens.7 (grifo meu)

E agora vejamos a maneira como o narrador se descreve:

“Quando um não quer, dois não brigam” tal é o velho provérbio que ouvi em rapaz, a melhor idade para ouvir provérbios. Na idade madura eles devem já fazer parte da bagagem da vida, fructos da experiência antiga e comum. Eu cria neste; mas não foi ele que me deu a resolução de não brigar nunca. Foi por achá-lo em mim que lhe dei crédito. Ainda que não existisse, era a mesma cousa. Quanto ao modo de não querer, não respondo, não sei. Ninguém me constrangia. Todos os temperamentos iam comigo; poucas divergências tive, e perdi só uma ou duas amizades, tão pacificamente aliás, que os amigos perdidos não deixaram de me tirar o chapéu. Um deles pediu-me perdão no testamento.8 (grifo meu)

Mas a ambigüidade não pára por aí. Observamos também que o narrador procura conferir uma maior liberdade de leitura ao leitor9, mas por vezes parece cerceá-lo10. Além disso, ele se nega a falar de si mesmo11. No entanto, introduzindo no relato suas próprias opiniões, não mantém a promessa12, marcando, de qualquer modo, presença ao longo de todo o texto.

Assim, a incongruência da atitude do narrador é relativa ao próprio ato de narrar ou transparece em suas orientações de leitura ao leitor. Por outro lado, deve-se ressaltar que o narrador de Esaú e Jacó não apresenta a volubilidade e “impudicícia” de um Brás Cubas13, sendo mais comedido e fiel a determinados preceitos, reconhecendo por vezes não saber de tudo, hesitando ao relatar os fatos na busca pelo estabelecimento da verdade, como se estivesse realmente preocupado com uma certa correção de ordem técnica, ou uma certa uniformidade de postura ética.

De fato, pode-se supor que haja um desdobramento de Aires, se o encararmos como uma unidade14 que se duplica através do romance, respeitando-se o que fica estabelecido na “Advertência”. O narrador-Aires e Aires-personagem se confundem e se distanciam num jogo constante, de ajuda mútua e de estranhamento. E talvez aí tenhamos encontrado a razão da impossibilidade da onisciência sem lapsos, pois o narrador tem que pagar um preço pelo outro eu semelhante que ingressa na galeria das personagens. Ou então toda a arte está em descobrir e encobrir, como ele mesmo reconhece ao descrever seu duplo:

− Para onde? perguntou Flora ansiosa.

E ficou a olhar, esperando. Não tinha casa amiga, ou não se lembrava, e queria que ele mesmo escolhesse alguma, onde quer que fosse, e quanto mais longe, melhor. Foi o que ele leu nos olhos parados. É ler muito, mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz um rosto calado, e até o contrário. Aires fora diplomata excelente, apesar da aventura de Caracas, se não é que essa mesma lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dois verbos parentes.15

Também a identidade do narrador se faz notar por meio das marcas de oralidade, a saber, em suas repetições, no emprego do imperativo, nas exclamações e apóstrofes dirigidas ao leitor. Entretanto, se o discurso do narrador se assemelha ao discurso oral, ele apresenta um vínculo estreitíssimo com a escrita, especialmente ao referir-se às diferentes partes16, de diferentes dimensões, que compõem a tessitura do romance.



B) A identidade do leitor; a identidade do interlocutor

Para que a identidade do narrador não fique desvinculada da figura do leitor, é preciso que este último seja construído no corpo do texto. O leitor é um ser imaginado pelo narrador. O narrador, por sua vez, parece travar diálogo com um leitor hipotético17: ser que deve ruminar, refletir sobre os fatos diversas vezes18. Ser que se apresenta, sobretudo, por meio do emprego do pronome pessoal da segunda pessoa do singular19. Tanto pode se mostrar como homem ou mulher. Geralmente o narrador confere à leitora uma certa impaciência20, um interesse específico na questão amorosa21. O narrador chega até mesmo a dotar a leitora de voz, como acontece no capítulo XXVII.

Este capítulo, aliás, tem especial relevância. Nele, por meio do discurso direto, a leitora faz suposições sobre o futuro das personagens. Todavia, a postura do narrador surpreende. Ele afirma que não gosta de gente que adivinha e compõe o livro, partindo do princípio que a leitora já imagina que os gêmeos gostarão de uma só mulher. Refuta a contribuição da leitora reafirmando a veracidade do que está sendo narrado, algo que “pode ser confirmado por dezenas de testemunhas”. Não aceita sugestões, procurando aparentemente limitar a liberdade de leitura.

Os comentários desse capítulo são muito significativos. O narrador imagina o discurso de quem o lê (uma mulher) e se insurge contra o comportamento considerado por demais autônomo. Rejeita uma pretensa influência da leitora, alegando estar narrando o que realmente ocorreu. Propõe duas soluções para o impasse: ou a leitora toma a dianteira e passa a compor o livro (notar o uso dos dícticos “aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador”) ou adota uma conduta mais comportada, indo de linha em linha, esperando o desenrolar dos acontecimentos com paciência, enfrentando o eventual tédio.

Ora, essa atitude defendida pelo narrador contraria o que vem sendo propalado no livro, mediante as inúmeras indicações textuais, que propõem uma leitura não linear, leitura de recuos e avanços, potencialmente geradora de releituras. Além de se opor à concessão de liberdade ao leitor do capítulo XXIII: “(...) e o leitor que volte a página, se prefere ir atrás da história”. Ressalvada uma possível distinção de tratamento entre leitor e leitora, tendo a acreditar que a atitude do narrador reflete certo grau de contradição, o que só reforça, a meu ver, a autonomia de leitura. Ou dito de outra maneira: é justamente porque o narrador determina posturas contrárias face ao texto que se infere a liberdade de interpretação por parte do leitor real. Este último fica evidentemente livre para rechaçá-las ou não, adotando a conduta que melhor lhe aprouver.

Por outro lado, o narrador, ao mudar de postura face ao leitor imaginado ao longo do texto, reflete as mudanças de estado de espírito de um ser que sofre as intermitências do tempo22, encontrando similitude nas mudanças de posição de determinadas personagens, como, por exemplo, Santos (em relação à cabocla do Castelo – capítulo VIII e capítulo X) ou Batista (em relação aos partidos políticos). Constata-se, portanto, que a mudança de opinião tanto se observa na esfera do narrador-leitor quanto no âmbito das personagens. O tempo (tempo ao se narrar, no caso do narrador / tempo da história, no caso das personagens) é o ingrediente que transforma o ponto de vista.

Entretanto, o narrador não se limita a dialogar com o leitor, pois dialoga também com outros tipos de interlocutor. Este pode ser uma personagem (como Flora, no capítulo LXXXI) ou uma entidade abstrata (a memória, no capítulo XCI). A exemplo do narrador, a personagem Aires também dialoga na imaginação, ao emprestar voz a um burro (capítulo XLI).

C) O espaço no romance onde se privilegia a relação

Como já foi dito anteriormente, afora os capítulos entremeados de comentários e intervenções do narrador, existem aqueles em que ele não se esconde por trás da narrativa, tomando o primeiro plano, dirigindo-se ao leitor. Nesse caso, os pronomes de primeira ou segunda pessoa do singular têm posição de destaque. Normalmente, o narrador busca explicar algum fato da narrativa, dar esclarecimentos sobre as estratégias de composição textual, pontuar o percurso adotado na narração (explicitando os saltos), ou orientar a leitura.23

São capítulos especiais, onde, repito, o narrador propõe uma explicação sobre a história ou suas escolhas técnicas, chegando por vezes a aproveitar a ocasião para orientar a leitura.

No entanto, devemos ressaltar a idéia que, em Esaú e Jacó, há a permanência de dois níveis de enunciação, correspondendo a duas atitudes distintas por parte do narrador. Em um nível ele apresenta-se como onisciente, privilegiando o âmbito das personagens e o emprego do pronome da terceira pessoa, preocupando-se em explicar. Em outro nível, mostra-se hesitante e parcial no contato com o leitor. O uso do pronome da primeira pessoa do singular marca então sua subjetividade, falhas, esquecimentos, impressões e lembranças. Por sua vez, vejamos de que modo narrador e leitor se relacionam.



D) O tipo de relação entre o narrador e o leitor

A relação entre ambos é marcada por certa oralidade. Mediante o uso da segunda pessoa para dirigir-se ao interlocutor ou interlocutores imaginados, o narrador cria a impressão de proximidade. Além das apóstrofes variadas, empregam-se verbos no imperativo ou em tempos do indicativo ou subjuntivo, tanto para incitar determinada atitude de leitura quanto para fazer suposições de comportamento.

A conduta do narrador face ao leitor expressa, portanto, uma contínua preocupação com a recepção do relato. Ele se comporta como uma espécie de contador de histórias que vai orientando uma platéia de ouvintes, nesse caso, o leitor. Aparentemente, o narrador procura conduzir o entendimento na ânsia de respeitar seu compromisso em estabelecer “a verdade”.

E) Aspectos do contrato de verossimilhança

Por vezes, o narrador certifica, assegura a veracidade do que conta. Em outras hesita no relato, deixando antever uma certa imprecisão. Há uma clara preocupação com o que é verdadeiro, com o que é lembrado. O narrador, diversas vezes, reconhece que não sabe ou que é incapaz de dar qualquer certeza.

Essa atitude em ser fiel à própria memória, seja reafirmando a autenticidade, seja reconhecendo os lapsos, reflete um compromisso com a verossimilhança. Tal fato se observa de diversas maneiras: tanto por meio de afirmações de cunho pessoal, como por meio de asserções peremptórias ou pela alternância entre precisões e imprecisões.

1 - Afirmações de cunho pessoal por parte do narrador

De fato, o narrador se compromete a não falar de si24, mas não consegue escapar a esta atitude. Sustenta que vai tratar das pessoas que figuram no romance, deixando sua vida e opiniões em segundo plano. Todavia, em determinados momentos da narrativa, acaba dando um testemunho de ordem pessoal. É então que se aproxima mais da personagem de terceira pessoa do singular Aires, aguçando sua ambigüidade. Ora, se o narrador se comporta como Aires face às outras pessoas, preferindo adotar a opinião alheia para não brigar, não seria justamente este o elemento essencial que o caracterizaria, ou seja, uma contínua presença dos outros em si? Não seria justamente a preocupação em observar as personagens, a maneira pela qual o narrador se individualiza?

O relato da experiência pessoal do narrador pode muito bem se enquadrar no perfil da personagem Aires. Assim, por exemplo, logo no início do livro, o narrador menciona sua própria experiência, vivenciada com um inglês, seu conhecido, que viajara muito. Esta situação poderia perfeitamente fazer parte das memórias do diplomata Aires. Pode-se supor que o inglês seja um colega da mesma profissão. Já no final do livro, o narrador afirma que a recordação da morte de Flora o entristece, dando a entender ter ido ao enterro (capítulo CVII). Em seguida, revela que imagem fazia do tempo na infância (capítulo CX), para, sempre evocando a juventude, chegar a sustentar opinião que se adequaria perfeitamente ao Aires personagem (capítulo CXI).

2 - Asserções

Por outro lado, também não se pode deixar de notar que, algumas vezes, o narrador afirma fazer apelo à própria memória para reconstituir os fatos, reforçando assim a idéia de que tudo o que é contado se passou efetivamente:

“Não leitor, não me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se fosse hoje.”25 (grifo meu);
“Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como não a entendemos então, (...)”26 (grifo meu);

“A razão é que não recordo este óbito sem pena, e ainda trago o enterro à vista...”27 (grifo meu)

O que impressiona é a freqüência com a qual o narrador assegura que o que conta é verdade. Como se isso, por si só, desse legitimidade ao seu discurso. Este dado reforça uma atitude mais impositiva que propriamente indutiva ou sugestiva:

“(...) mas eu, amigo, eu sei como as cousas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, [...]”28 (grifo meu)

“Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas?”29 (grifo meu)

O all is true, tão caro a Balzac30 e outros romancistas, presente de forma explícita em Esaú e Jacó, ganha novos matizes com a alternância das precisões e indefinições que atravessam o discurso do narrador.


3 - Precisões / Indefinições

Efetivamente, as precisões e indefinições se alternam, marcando a oscilação da memória do narrador ou a dificuldade de acesso à informação. Ao mesmo tempo em que ele demonstra uma clara preocupação em definir o espaço físico31 e esmiuçar determinados detalhes históricos, aceita seus lapsos, não se furtando a reconhecer repetidas vezes que não sabe com exatidão aquilo que conta, como nos três exemplos a seguir:

“Tal foi o anúncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. Não me ficou o dia, o mês foi agosto. O anúncio está certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada, (...) ele era, se estou bem informado, João de Melo e Barros.”32 (grifo meu)
“A gente Batista conheceu a gente Santos em não sei que fazenda da província do Rio. Não foi em Maricá, (...); seria em qualquer outro município. Fosse qual fosse, ali é que se conheceram as duas famílias, (...)”33 (grifo meu)

Não juro que assim fosse, porque o dia vai longe, e as pessoas não eram conhecidas.”34 (grifo meu)

Além destas lacunas assumidas, o narrador afirma omitir dados, contando explicitamente com a participação do leitor na composição da história:

“Clínica e documentos repousam agora na cova n... Não ponho o número, para que algum curioso, se achar esse livro na dita Biblioteca, se dê ao trabalho de investigar e completar o texto. Basta o nome da defunta, que lá ficou dito e redito”35 (grifo meu)



Como pudemos observar, a representação da realidade é problematizada pelo caráter reconhecidamente fragmentário, lacunar da narrativa de Machado de Assis. O narrador admite, por vezes, não ter conhecimento absoluto do que está sendo contado, e a precisão, tão cara ao modelo do romance histórico, sofre um abalo diante dos esquecimentos, da falta de dados, ou da omissão voluntária e irônica. A indefinição se esgueira no texto, não dando margem a uma visão nítida e totalizante. Por outro lado, não é possível confiar inteiramente num narrador por vezes contraditório no trato com seu leitor presumido. Tampouco se pode acreditar numa distinção completa entre ele e a personagem Aires, embora se faça uma clara diferenciação anafórica ao longo do texto. Desse modo, apesar de Esaú e Jacó destacar os eventos que marcaram a mudança de regime político no Brasil, sua narrativa não corresponde ao modelo do romance histórico tradicional.


Referência Bibliográfica
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Esaú e Jacob. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1975.
BALZAC, Honoré de. Le père Goriot. Paris: Pocket, 1998.
CANDIDO, Antonio. Vários escritos. Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004.
GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. Trad. Sônia Coutinho. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século 19. São Paulo: Nankin Editorial/Edusp, 2004.
LIMA, Luiz Costa. Dispersa demanda. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.
————. O controle do imaginário: razão e imaginação nos tempos modernos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.
MAINGUENEAU, Dominique. Eléments de linguistique pour le texte littéraire. Paris: Dunod, 1993.
————. L’énonciation en linguistique française. Paris: Hachette, 1994.
PEREIRA, Lúcia Miguel. Prosa de ficção (de 1870 a 1920). Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000.
STERNE, Laurence. A sentimental journey through France and Italy by Mr. Yorick with The journal to Eliza and A political romance. New York: Oxford University Press, 1984.

1 Antonio Candido. Vários escritos. Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004, p. 22.

2 Em Machado de Assis: ficção e história, o crítico John Gledson ressalta ser praticamente inevitável ou tendência óbvia o estudo das alegorias neste romance: “Um romance que começa em 1871 (o ano da Lei do Ventre Livre), com uma mãe recente que se chama Natividade e sobe o Morro do Castelo (onde o Rio foi fundado, em 1557, por Estácio de Sá, e onde os jesuítas, liderados por Frei Manuel da Nóbrega, mantiveram seu colégio), a fim de consultar uma cabocla chamada Bárbara, sobre o destino de seus filhos, não pode ser considerado esquivo em seu convite ao leitor para se empenhar num jogo de interpretação histórica, em nível alegórico.” John Gledson. Machado de Assis: ficção e história. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 194.

3 Luiz Costa Lima. Dispersa demanda. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981, p. 106-11.

4 No valioso artigo “Esquema de Machado de Assis” (In: Vários Escritos), Antonio Candido, se não chega a sinalizar abertamente o narrador como centro de interesse, não deixa de perceber a importância do espectador, que com ele se confunde, conforme fica evidenciado na epígrafe que marca o início do presente estudo. Já Roberto Schwarz é mais contundente em sua asserção: “A novidade dos romances da segunda fase está no seu narrador” – Roberto Schwarz. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000, p. 222.

5 Esse caráter de não onisciência por parte do narrador pode ser explicitado no seguinte trecho do romance, Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.101: “Engolidas as duas lágrimas, Natividade riu da própria fraqueza. Não se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em particular; mas no secreto do coração, lá no fundo, onde não penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso. Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.” (grifos meus)

6 Como exemplo desse procedimento, cito esta passagem, em que o narrador desvenda as impressões do irmão das almas, após o mesmo ter recebido a vultuosa esmola de Natividade (Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 69): “Foi subindo a Rua de São José. Já não tinha ânimo de pedir; a nota fazia-se ouro, e a ideia de ser falsa voltou-lhe ao cérebro, e agora mais freqüente, até que se lhe pegou por alguns instantes. Se fosse falsa...” (grifos meus)

7 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 227.

8 Ibidem, p. 268.

9 Como no trecho que introduz uma digressão sobre barbas (Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 107-108): “Tudo isto é sabido e banal, mas dá ensejo a dizer de duas barbas do último gênero, célebres naquele tempo, e ora totalmente esquecidas. Não tendo outro logar em que fale delas, aproveito este capítulo, e o leitor que volte a página, se prefere ir atrás da história. Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as duas barbas mortas, (...)” (grifos meus)

10 É o que acontece nesta passagem, em que o narrador dá um conselho à leitora (Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 116): “Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.” (grifos meus)

11 Sugestivo do modo como o narrador fala de si mesmo, é o trecho que vem a seguir, Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.152: “Ao cabo, não estou contando a minha vida, nem as minhas opiniões, nem nada que não seja das pessoas que entram no livro. Estas é que preciso pôr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeições, se as têm. Entende-se isto, sem ser preciso notá-lo, mas não se perde nada em repeti-lo.” (grifo meu)

12 Ao falar da imagem que possuía do tempo, por exemplo (Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 267): “Natividade confiava ao tempo a perfeição da obra. Cria no tempo. Eu, em menino, sempre o vi pintado como um velho de barbas brancas e foice na mão, que me metia medo.” (grifo meu)a obra. Cria no tempo. Eu, em menino, sempre o vi pintado como um velho de barbas brancas e foice na m

13 A volubilidade aqui entendida tal como no estudo Um mestre na periferia do capitalismo, de Roberto Schwarz.

14 O que dizer dos trechos a seguir?

(Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 108): “Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba estava negra, não sei se tanto ou mais que dantes, mas negríssima e brilhantíssima.” (grifo meu) (Notar o emprego do pronome da primeira pessoa do plural, como se o narrador fosse amigo de Pedro, que conhecia o frei da barba);

(Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 253-254): “Sei, sei, três vezes sei que há muitas visões dessas nas páginas que lá ficam. Ulisses confessa a Alcínoos que lhe é enfadonho contar as mesmas cousas. Também a mim. Sou, porém, obrigado a elas, porque sem elas a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que não conheci. Conheci esta, com as suas obsessões ou como quer que lhes chames.” (grifo meu) (Logo, um narrador que afirma ter conhecido Flora);

(Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 263): “Perdoai estas perguntas obscuras, que se não ajustam, antes se contrariam. A razão é que não recordo este óbito sem pena, e ainda trago o enterro à vista...” (O narrador, portanto, alega ter assistido ao enterro da personagem Flora).



15 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.248.

16 Talvez a palavra capítulo seja a mais citada a esse respeito: p. 75, 97, 103, 105, 106, 109, 115, 117, 124, 125, 139, 147, 151, 156, 161, 173 (1º e 2º §), 199, 203, 206, 209, 216, 221, 231, 238, 248, 250, 266, 269, 279, 280. A relação com o espaço textual fica particularmente evidenciada no capítulo XVII, onde o narrador menciona o quanto teria se alongado se não levasse em consideração a ânsia da leitora em ver Paulo e Pedro crescidos. Também são bastante importantes o final do capítulo LXXXVIII e o capítulo CXIX, que tratam da extensão da narração.

17 Concordamos com Hélio de Seixas Guimarães quando ele defende a idéia de que haveria solilóquio do narrador mediante a figura do leitor (Hélio de Seixas Guimarães. Os leitores de Machado de Assis: o romance brasileiro e o público de literatura do século 19. São Paulo: Nankin/EdUSP, 2004, p. 253): “A dualidade e cisão também repercutem sobre o próprio narrar, que em muitos momentos se apresenta como um diálogo que o narrador trava consigo mesmo por meio de interlocutores habilmente instalados.”

18 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.171: “O leitor atento, verdadeiramente ruminante, tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os actos e os factos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.”

19 O narrador também utiliza a segunda pessoa do plural, a primeira, a terceira do singular ou do plural para incluir o leitor no seu texto, privilegiando o tom dialógico. Assim, todos os pronomes pessoais são empregados na identificação do leitor. Este último tem sua presença pontuada de todas as formas ao longo do romance. Não hesitaríamos em afirmar que o texto fica impregnado explicitamente com sua presença. O narrador joga, portanto, com um menor ou maior distanciamento do leitor em seu texto, através do uso de todo o leque de pronomes pessoais.



20 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.98: “Tudo isso restrinjo só para não enfadar a leitora curiosa de ver os meus meninos homens e acabados. Vamos vê-los, querida. Com pouco, estão crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si mesmos; (...)”

21 Ibid, p. 115: “O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros.”


22 De maneira análoga ao narrador viajante de Laurence Sterne em A sentimental journey (1768)

23 Os capítulos são: V, XIII, XXI, XXII, XXVII, XXIX, XLVI, LXXV, LXXXVI, CVII, CXIX.

24 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p 152.

25 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.102

26 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.108.

27 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 263.

28 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 74.

29 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.116. Outros exemplos: “Custa-me dizer que acendeu um cigarro, mas digo, porque é verdade, (...)” (p. 65-66); “Nos primeiros dias, os sintomas desconcertaram a nossa amiga. É duro dizê-lo, mas é verdade.” (p. 76); “ Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício. Não atribuas tal estado a qualquer propósito. Nem creias que vai nisto um pouco de homenagem à modéstia da pessoa. Não senhor, é verdade pura e natural efeito.” (p. 88); “Não creias que o gesto da cauda e das crinas fosse simultâneo nos dous animais; não é verdade e pode fazer duvidar do resto. Pois o resto é certo.” (p. 116); “Falo por imagem; sabes que tudo aqui é verdade pura e sem choro.” (p. 147) (grifos meus)

30 Honoré de Balzac, Le père Goriot. Paris: Pocket, 1998, p. 22: “Ah! sachez-le: ce drame n’est ni une fiction ni un roman. All is true, il est si véritable, que chacun peut en reconnaître les éléments chez soi, dans son cœur Pert-être.”

31 O narrador chega até mesmo a se desculpar por ser minucioso: “Perdoa estas minúcias. A acção podia ir sem elas, mas eu quero que saibas que casa era, e que rua, e mais digo que ali havia uma espécie de club, templo ou que quer que era spírita.” (p. 87)

32 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 71.

33 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 117.

34 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p.180. O autor, freqüentemente, atesta não possuir dados referentes a um horizonte de realidade. Vejamos outros exemplos: “Que o motivo da pratinha de Natividade deitada à caixa das almas fosse pagar a adoração do defunto não digo que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas pode ser que sim, porque (...)”(p. 73); “Santos, que já reparara nisso, perguntou-lhe o que é que tinha; ela não sei se lhe respondeu de palavra; (...)” (p. 75); “ (...) não sei se homem ou mulher, perguntou aos dous irmãos que idade tinham.” (p. 106); “Quando, (...), Natividade se meteu no bonde, para ir a não sei que compras na Rua do Ouvidor, levava a frase consigo.” (p. 131); “Não posso dar a toada, mas Aires ainda a trazia de cor, e vinha a repeti-la consigo, vagarosamente, como ia andando.” (p. 138); “Era imposição de sociedade, desde que Flora o pedira, não sei se discretamente.” (p. 165); “Lá me escapou a palavra. Sim, foi uma comissão dada ao pai, e da qual não sei nada, nem ela.” (p. 200); “Não sei que teatro foi, nem que peça, nem que gênero; (...)” (p. 230); “Como tudo isso se combinava, não sei, nem ela mesma.” (p. 241) (grifos meus)

O reconhecimento de falhas de memória e a afirmação da não onisciência são acompanhadas da dificuldade esporádica do narrador em comprovar o que diz: “Não se chamou tola (...); mas no secreto do coração, lá muito ao fundo, onde não penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso. Não tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.” (p. 101); “Que pensassem um no outro, é possível; mas não possuo o menor documento disto.” (p. 128) (grifos meus)



35 Machado de Assis. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975, p. 266-7.






Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal