Pelo resgate da memória histórica de prédios de são luiz gonzaga



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Encontro02.08.2016
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PELO RESGATE DA MEMÓRIA HISTÓRICA DE PRÉDIOS DE SÃO LUIZ GONZAGA

Sonia Bressan Vieira*

Nara Noely Dorneles Martins**

RESUMO

O texto aborda o resgate da história do patrimônio local como forma de fazer história. A pesquisa desenvolveu-se alicerçada num referencial teórico a partir dos conceitos de cidade, representação, imaginário social, memória, e história oral e buscou um caminho metodológico para a aprendizagem do “lugar”. Visou captar sensibilidades e fragmentos passados, expressos em discursos e imagens, analisando e interpretando, historicamente, quarenta e oito prédios como representações que deram suporte às práticas sociais de urbanização. Trata-se de uma pesquisa de âmbito qualitativo/quantitativo com enfoque dialético e ênfase numa metodologia que privilegiou a História Oral. As conclusões oportunizaram a investigação de parte significativa do patrimônio/monumento da cidade buscando decifrar as suas representações, como objeto e fonte de uma nova história cultural, ancorada nos estudos do imaginário social e possível de ser discutida, refletida e escrita em texto, servindo de subsídio de estudo para os jovens e crianças, por um lado, e preservação da memória coletiva, por outro. O trabalho contribuiu, com certeza, para a leitura da realidade local, numa autêntica composição de História do Presente local, propondo ações de educação patrimonial.

Palavras-chave: Memória, História Oral, Cidade.

ABSTRACT


This text approached the redemption of the local history patrimony as a way to do history. The research was developed with a theory referential based on the concept of city, representation, social imagination, memory and oral history, and search for a methodology way of learning the “place”. Aimed find sensibility and past fragment, expressed in speeches and images, analyzing and interpreting, historically, forty-eight buildings as a representation that gave support to social practices of urbanization. It’s a research qualitative/quantitative with dialectic emphasis and emphasis in a methodology that privileged the oral history. The conclusion opportunist the investigation of a significative part of the patrimony/ monument of the city, trying to make out the representation, as object and font of a new cultural history, anchored in the study of the social imaginary and possibly to be discussed, reflected and written in texts, serving of subsidy of study to young people and children, and preserving the collective memory. The research contributed to the local reality in an authentic composition of local present history, proposing actions to a patrimonial education.

Key words: Memory, Oral history, City



1 INTRODUÇÃO


Este ensaio propõe desvendar um pouco da história de São Luiz Gonzaga, através da investigação de seu patrimônio, tendo como ponto de partida a história oral. O projeto proporcionou a recuperação da memória histórica de um número significativo de prédios – quarenta e oito - fato que, sem dúvida, contribuiu para a preservação do patrimônio e da reconstrução da história local.

O trabalho evidencia resultados de uma pesquisa de iniciação científica realizada no período de agosto de 2003 a julho de 2005. A pesquisa teve por objetivo principal resgatar a memória histórica e representações coletivas do imaginário de prédios de São Luiz Gonzaga identificando permanências e transformações, semelhanças e diferenças. Pretendeu a mesma responder à questão: quais são, como surgiram e se desenvolveram os prédios considerados significativos para a cidade- hoje com mais de trezentos anos de história- como espaço urbano organizado, após dois séculos do assentamento jesuítico?

Entre os objetos de reflexão da nova história cultural encontra-se a cidade - seus prédios históricos- objeto de estudo e reflexão neste projeto de pesquisa.

Reconstruir a história de um lugar, ou de uma cidade, envolve partir do princípio de que se faz história em todos os momentos e, em todos os lugares, como por exemplo, nos prédios que compõem este lugar. Desta forma:


A História Cultural, apoiada no novo paradigma centrado na cultura e entendida como um desdobramento da história social, está na ordem do dia na historiografia mundial, podendo mesmo dizer-se que constituem (os estudos de história cultural) a “ponta fina” do então final de século cujas vertentes resultaram o encontro das historiografias inglesa e francesa e estando difundida pela Alemanha e Estados Unidos (PESAVENTO, 1995, p. 279).
A urbanização de São Luiz Gonzaga na terceira fase da modernidade - assim classificada por Marshalll - não seria uma forma de modernidade desejada que emergiu do solo distinto da antiga redução jesuítica- ainda na primeira fase da modernidade, prevista pelo pensador?

Certamente, a São Luiz Gonzaga do final do século XIX e início do século XX, ao se tornar uma “cidade“, encerra todo um passado histórico que se expressa nas colunas jesuíticas, nas pedras esculpidas à mão, na arte escondida do índio aniquilado, extirpado, da mesma forma que a Zaíra dos altos bastiões, visitada por Marco, sobre a qual Calvino assim se expressa:


Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára- raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões serradelas, entalhes, esfoladuras (CALVINO, 1990, p. 14).
Desta forma como resultado efetivo deste trabalho 48 (quarenta e oito) prédios contam um pouco da história do lugar. Além desta história o trabalho de pesquisa identificou a necessidade da discussão referente à memória, coletiva e individual, preservação e valorização do lugar através do patrimônio nele existente.

Todas as ações decorrentes do processo de elaboração deste trabalho envolveram diversos segmentos da comunidade - desde a indicação dos prédios a serem pesquisados, até o resgate de uma parcela da história do município, através de depoimentos.

Assim, um conceito que nos foi útil e elucidativo foi o de história oral. A história oral começou a ser largamente utilizada por historiadores e pesquisadores, nos anos 60, não estando delimitado o campo de conhecimento a que pertence; é multidisciplinar, como opina Alberti (1989). Revitalizada na década de 60, como diz Sebe Bom Meihy (2002, p. 24) “a presença do passado, no presente imediato das pessoas, é a razão de ser da História Oral” - principal método utilizado na coleta de informações.

Da mesma forma, na pesquisa, utilizou-se o conceito de memória, que Pierre Nora, apud Le Goff (1990, p. 472), define como “o que fica do passado no vivido dos grupos, ou o que os grupos fazem do passado” e sobre o qual, o grande mestre Certau (1994, p. 163) nos remete à idéia de que “longe de ser o relicário ou a lata de lixo do passado, a memória vive de crer nos possíveis, e de esperá-los, vigilante, à espreita”. É neste sentido que se buscou, no passado, a forma como estes prédios foram construídos, materiais empregados na sua edificação, bem como, fatos marcantes de sua história. Verificou-se, ainda, que a concepção de memória, proposta pelo medievalista francês Le Goff (1990, p. 476) que a vê “como um elemento essencial do que se costuma chamar de identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia”, é verdadeira e real.Assim, na busca da memória histórica de cada prédio pesquisado, buscou-se a história de pessoas que fizeram e fazem parte da história local.


2 A PESQUISA

A pesquisa procurou elucidar questões como a hipótese de que “a maior parte dos prédios considerados ‘significativos’, em São Luiz Gonzaga, surgiram no final do século XIX e primeira década do século XX” identificando que, na maioria dos prédios, a data de suas respectivas construções foi entre os anos de 1900 e 1980 não se confirmando a hipótese formulada, conforme demonstram a tabela e gráfico a seguir:



Tabela 1 - Data da construção dos Prédios

Ano de construção

Nº de prédios

1900

01

1910

01

1911

01

1912

02

1915

01

1917

01

1920

01

1922

02

1923

01

1925

03

1926

02

1932

01

1933

01

1936

01

1940

03

1941

01

1942

03

1943

01

1945

03

1946

01

1948

01

1952

02

1957

01

1960

01

1969

01

1980

01

Não identificado

10

Total

48

Fonte: Pesquisa Resgatando a memória histórica de Prédios de São Luiz Gonzaga.

Gráfico 1 - Data da construção dos Prédios


Fonte: Pesquisa Resgatando a memória histórica de Prédios de São Luiz Gonzaga.

Em relação à segunda hipótese - “É elevado o número de prédios construídos por imigrantes italianos e alemães em São Luiz Gonzaga”, a pesquisa apontou, através das informações fornecidas pelos entrevistados, que a mesma se confirma em parte, pois, a maioria das construções, foi realizada por imigrantes portugueses e não por imigrantes italianos e alemães, conforme tabela e gráfico a seguir:


Tabela 2 - Prédios: Imigrantes Construtores


IMIGRANTES

N° DE PRÉDIOS

Italianos

09

Alemães

02

Poloneses

02

Portugueses

12

Espanhola

03

Não Identificada

20

Total

48

Fonte: Pesquisa Resgatando a memória histórica de Prédios de São Luiz Gonzaga.

Gráfico 2- Prédios: Imigrantes Construtores

Fonte: Pesquisa Resgatando a memória histórica de Prédios de São Luiz Gonzaga


Constatou-se, com o auxílio de técnicos do Escritório Técnico do IPHAN - Missões, que os prédios são de estilos variados, não se confirmando a terceira hipótese de que “a maioria dos prédios é de estilo barroco”, uma vez que, foram localizados prédios com estilo neo-gótico, eclético, art-decô, moderno, e neo-moderno, conforme demonstra o gráfico e tabela a seguir:
Tabela 3 - Estilo dos Prédios
ESTILO

N° DE PRÉDIOS

Eclético

17

Neogótico

1

Tipologia de estradas de ferro

1

Descaracterizada

6

Moderno

3

Tipologia de parques

1

Art-decô

8

Art-decô e moderno

3

Neocolonial

2

Tipologia de grutas

1

Art-decô com descaracterização

2

Art-nouvau

1

Neocolonial com alterações ecléticas

1

Neoclássica

1

Total

48

Fonte: Pesquisa Resgatando a memória histórica de Prédios de São Luiz Gonzaga.

Gráfico 3 - Estilo dos Prédios

Fonte: Pesquisa Resgatando a memória histórica de Prédios de São Luiz Gonzaga

Constatou-se que a maioria dos prédios pesquisados sofreu alterações em suas fachadas às quais foram descaracterizadas devido a várias reformas, não obedecendo aos padrões originais da obra.

As atividades realizadas na pesquisa foram além da entrevista. Buscou-se referendá-las através de documentos oficiais como: fotografias, reportagens do jornal da época, certidões do Cartório de Registros de Imóveis, da Prefeitura Municipal e do Museu Municipal Senador Pinheiro Machado.


3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa contribuiu para a construção da identidade municipal, investigando o espaço histórico-geográfico são-luisense, identificando permanências e transformações, semelhanças e diferenças, às quais, não foram poucas.

Faz-se mister ressaltar o aspecto pedagógico a ser explorado em relação ao patrimônio investigado, fato que gerou uma proposta pedagógica que subsidiará professores no trabalho com alunos sobre a memória dos prédios, através da observação do material, forma da construção, montagem de maquetes, localização no mapa da cidade, observação do entorno, desenho, comparação entre os prédios mais antigos e os atuais etc.., ação que está sendo implementada através de Curso de Educação Patrimonial para professores das redes estadual, municipal e particular, bem como, para profissionais de museus dos municípios da região.

Por outro lado, a pesquisa sugeriu a campanha de identificação dos prédios investigados, com placas individualizadas, nas quais conste o antigo desempenho do prédio, para fins de identificação turística e da própria comunidade. É também intenção aperfeiçoar o documento resultante e torná-lo uma publicação- Álbum de cidade: São Luiz Gonzaga- espaços & memórias.

Por fim, o estudo propôs que se crie uma política municipal para a questão da preservação dos prédios, numa parceria entre o poder publico, técnicos e comunidade para que aconteça uma política de preservação dos mesmos, e por conseguinte, da história local.

ABSTRACT


This text approached the redemption of the local history patrimony as a way to do history. The research was developed with a theory referential based on the concept of city, representation, social imagination, memory and oral history, and search for a methodology way of learning the “place”. Aimed find sensibility and past fragment, expressed in speeches and images, analyzing and interpreting, historically, forty-eight buildings as a representation that gave support to social practices of urbanization. It’s a research qualitative/quantitative with dialectic emphasis and emphasis in a methodology that privileged the oral history. The conclusion opportunist the investigation of a significative part of the patrimony/ monument of the city, trying to make out the representation, as object and font of a new cultural history, anchored in the study of the social imaginary and possibly to be discussed, reflected and written in texts, serving of subsidy of study to young people and children, and preserving the collective memory. The research contributed to the local reality in an authentic composition of local present history, proposing actions to a patrimonial education.

Key words: Memory, Oral history, City



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ALBERTI, Verena. História oral: a experiência do CPDOC. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, 1989.

CALVINO, Ìtalo. A cidade dos Deuses. 1990.

CERTAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1990.

PESAVENTO, Sandra Jathay. Muito além do espaço: por uma história cultural do urbano. Estudos históricos do Rio de Janeiro, v. 8, n. 16, 1995.

SEBE BOM MEIHY, José Carlos. Manual de história oral. 4. Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

Apreciação

Texto bem organizado. Linguagem OK.



Ana Aita

* Mestre em História (UNISINOS), Professora e Coordenadora do Curso de História - URI-São Luiz Gonzaga; orientadora da Pesquisa PIIC/URI - Resgatando a memória histórica de Prédios de são Luiz Gonzaga.

** Acadêmica do Curso de História - URI-São Luiz Gonzaga - Curso de História, Bolsista do Projeto PIIC/URI - Resgatando a memória histórica de Prédios de são Luiz Gonzaga.




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