Pensado à primeira vista, parece que o tombamento da cidade de Parnaíba é um tributo ao ilustre passado da cidade ou uma referência aos edifícios antigos que referenciam a história e o desenvolvimento urbano do município



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Encontro02.08.2016
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INTRODUÇÃO
Pensado à primeira vista, parece que o tombamento da cidade de Parnaíba é um tributo ao ilustre passado da cidade ou uma referência aos edifícios antigos que referenciam a história e o desenvolvimento urbano do município.

Tudo isto é verdade, mas o mais importante é que o tombamento vai muito além do tributo ao passado: ele reconhece e protege um dos maiores trunfos que a cidade de Parnaíba tem para o seu desenvolvimento e para o seu futuro.

Para muitos, pode soar paradoxal, mas a preservação do patrimônio é um dos pressupostos do urbanismo contemporâneo. A humanidade sempre perseguiu, desde os primórdios da história, o sonho da cidade ideal. A última vez que esta aspiração foi buscada em verdadeira grandeza, em todo o mundo, foi com a inspirada construção de Brasília. Levados pela generosidade de propósitos, os modernistas acreditaram que a cidade racionalizada, dividida em funções, com larga estrutura de circulação de veículos e imersa em jardins, responderia aos anseios de urbanidade do homem do século XX - o que dominava a máquina e as ciências. Entretanto, no mesmo momento histórico em que o Brasil edificava sua nova capital em pleno planalto central do país, as ruínas da segunda grande guerra levavam muitos países ao dilema de como reconstruir as cidades arruinadas pelo conflito.

Como deveria se dar esta reconstrução? Seguiriam o ideário modernista das cidades novas, propostas como futuro urbano da humanidade? Não foi este o caminho que a maioria das cidades escolheu: os povos que passaram pelo trauma de verem destruídas as suas cidades quiseram tê-las de novo, e a humanidade aprendeu que nas paredes antigas, nas esquinas e nas ruas estreitas, estavam impressas boa parte do sentido de pertencer, dos sentimentos e da memória coletiva dos lugares.

Desde então a história do urbanismo mudou, e depois de meados do século XX todas as cidades do planeta que estruturaram planos conseqüentes de desenvolvimento estratégico incluíram a preservação de seus núcleos e bairros históricos entre as metas prioritárias. A preservação do patrimônio edificado, dos núcleos históricos, e a reciclagem das áreas antigas, se incorporaram às metas de planejamento que visam garantir a qualidade de vida presente e futura das cidades do planeta.

Parnaíba é uma das cidades míticas do Brasil. Identificada com o ciclo do gado e dos produtos do sertão, com a carnaúba e o babaçu, com a navegação de cabotagem, e com o comércio marítimo internacional (após a abertura dos portos ocorrida em 1808). Estrategicamente situada em uma das regiões mais belas do país, em pleno Delta do Parnaíba, entre Jericoaquara e os Lençóis Maranhenses, debruça-se sobre o rio, justificativa maior da sua existência. É compreensível que estejam na orla seus edifícios mais antigos. Os galpões, que simbolizam o apogeu portuário, relacionam este período inicial com os processos subseqüentes, de industrialização e incremento das exportações. A presença ainda de edifícios coloniais em meio ao ecletismo e o art-déco expressam estes períodos, reforçados pela via férrea, mantendo a prosperidade evidenciada pelos muitos prédios posteriores aos anos 30. O modernismo surge ligado à continuidade do desenvolvimento, mas a qualidade de suas obras a partir dos anos sessenta evidencia que o rodoviarismo, a decadência do porto e a queda na produção industrial da cera de carnaúba refletiram-se fundo na vida e na paisagem da época. A morfologia da rede urbana reflete a mesma seqüência histórica: o núcleo próximo ao rio é marcado por ruas estreitas, de desenho orgânico. Surgem, ao longo do tempo, vias largas, depois avenidas arborizadas e praças de desenho regular. A ponte, com a dimensão e  o descompromisso com o entorno, típicos de seu tempo, arremata este processo.

Na relação com a natureza, outra leitura: a planície farta foi suficiente para acolher a cidade e seu desenvolvimento em uma das margens do rio, preservando a outra - com seu colar de carnaúbas, tão marcantes na paisagem.

O tombamento traz um novo tempo. Reconhece os valores da lenta evolução urbana, protege as marcas que identificam a cidade e sua gente, impede excessos da atualidade globalizada. 

 Valorizar riquezas. Valer-se de um tesouro. Este é o sentido do tombamento de Parnaíba, que além do valor intrínseco do patrimônio, e representa uma importante ferramenta de progresso para o Piauí.

Para o IPHAN, além da significância cultural, o tombamento do Conjunto Histórico e Paisagístico de Parnaíba representa o arranque na implantação da rede de patrimônio cultural no estado do Piauí. Junto com Paranaíba estão propostos os tombamentos Oeiras e Piracuruca, ambas como parte do conjunto de Cidades do Piauí testemunhas da ocupação do interior do Brasil durante o século XVIII, além de outras como Floriano, Pedro II e Amarante, com outras abordagens, mas que se somarão a bens já reconhecidos ou que ainda virão a sê-lo, formando um sistema de patrimônio cultural no estado do Piauí.



Para concluir, ressaltamos os aspectos principais do processo de tombamento de Parnaíba: a seleção de mais um componente para o seleto grupo das cidades históricas do Brasil; a base da constituição de uma rede de bens protegidos em cada estado da federação - iniciando pelo Piauí - configurando uma nova estratégia de proteção e valorização do patrimônio cultural no Brasil; as oportunidades abertas a partir do tombamento de um centro histórico, unindo passado e futuro, proporcionando mais qualidade de vida e novas alternativas de desenvolvimento sustentável para o Piauí e para a sua gente.

Dalmo Vieira Filho

Diretor do Depam/IPHAN


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