Pensando o Brasil: discurso religioso e prática social segundo Zilda Arns



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Encontro20.07.2016
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Pensando o Brasil:

discurso religioso e prática social segundo Zilda Arns


A comunicação aqui proposta tenciona discutir a atuação da Pastoral da Criança, organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, órgão criado em 1983 e coordenado, desde seu início, pela pediatra, sanitarista e ativista católica Zilda Arns Neumann (1934-2010). Quer-se demonstrar como a “doutora Zilda” (como ela ficou nacionalmente conhecida) forjou, com base em universo religioso específico, determinada mística de ação social, ligando credo privado e intervenção na praça pública.
Para tanto, serão considerados os mais importantes escritos de Arns Neumann (que, seja frisado, não produziu numerosos textos). O primeiro é o documento “Pastoral da Criança: uma experiência consagrada”, redigido pela médica com o propósito de justificar a fundação da citada Pastoral e também inventariar os primeiros anos de sua atuação no país. Análise que deve ser complementada pela leitura do “Guia do Líder da Pastoral da Criança”, manual que contou com decisiva participação da personagem em questão. Dar-se-á igualmente atenção ao texto biográfico Zilda Arns Neumann: ela criou uma rede de solidariedade que salva centenas de milhares de crianças brasileiras, peça literária que reúne lembranças variadas da médica e que, por sua natureza testemunhal, torna-se relevante para o entendimento de dada memorialística cristã. Exercício memorialístico que, como será visto ao longo do trabalho aqui apenas sugerido, informa e, ao mesmo tempo, condiciona a ação social proclamada pela Pastoral em lume.

O acima disposto corpo documental empreendido por Zilda Arns e a ela relativo (no caso do livro de memórias) deverá ser relacionado ao contexto nacional e eclesial das duas últimas décadas do século XX, tempo que marcou a gênese da Pastoral da Criança e seu desenvolvimento inicial.

No Brasil, transcorriam os anos finais da “lenta, gradual e segura” abertura do governo de João Baptista Figueiredo, o último general-presidente do regime de exceção imposto, nos anos 1960, ao país. Tensa conjuntura agravada pela acentuada crise econômica e social vivida pelo Brasil, que se encontrava em situação de “estagflação” – isto é, apresentava Produto Interno Bruto declinante e acelerada alta inflacionária. Fenômeno que, deteriorando todo o tecido social, penalizava com mais força as camadas mais desfavorecidas da população. Parcela mais empobrecida da população, a propósito, que será o público-alvo prioritário da Pastoral da Criança.

Já quanto à Igreja Católica Romana brasileira, os anos 1980 trazem as incertezas advindas de acirramento de conflito interno duradouro, herdado da década anterior. Divisão eclesial interna motivada por razões teológicas e pastorais – e também ideológicas e políticas. Assim que, durante o papado de João Paulo II (1978-2005), cresce notavelmente a repressão das instâncias doutrinárias romanas ao catolicismo progressista e, em especial, àquela que era a mais original e polêmica contribuição eclesiológica da America Latina, a Teologia da Libertação. Tal quadro de polarização, presente tanto no clero como entre leigos católicos brasileiros, deve ser levado em conta quando se considera o estabelecimento da Pastoral da Criança, seus limites de ação e, paradoxalmente, a recepção muito bem sucedida dessa experiência em centenas de dioceses país afora.

E, em delicado e complexo quadro nacional e eclesial, Arns Neumann modela sua ação cautelosamente. Ela firma seu discurso – reunindo palavras de fé e chamado à intervenção no mundo da experiência – em terreno que lhe é bem conhecido, o universo bíblico. Mais exatamente ela apela, de forma incisiva e recorrente nos textos acima elencados, à célebre passagem evangélica: o episódio milagroso da multiplicação de pães e peixes atribuído, pelos crentes, a Jesus. Evocação que permite a Zilda Arns extrair e divulgar especial “metodologia de trabalho comunitário”. Método que, defende a médica e ativista, deve ser adotado pela Pastoral, de forma local, em todo o Brasil.

Quer-se, portanto, assinalar importante movimento de Arns Neumann: em vez da ênfase discursiva recair na atribuída (e assim acreditada pelos fiéis) natureza maravilhosa da narração canônica, estaria em jogo, para a ação da Pastoral da Criança, algo diverso: a mobilização popular em torno de objetivo comum. Em outras palavras: Zilda Arns, ao evocar e interpretar paradigmática passagem bíblica, confirma o caráter exemplar da narração sacra. Porém, há notável deslocamento – de ênfase e interpretação – em sua mensagem. Como deve ser melhor detalhado no trabalho aqui tão somente resumido, a referência ao maravilhoso, constituinte básico da crença em milagres, é diluída por Zilda Arns. A exegese abraçada pela pediatra e militante cristã acentua o agir cotidiano e ordinário, a necessidade e importância do trabalho comunal. Assim é exaltado (e, pela utilização do texto bíblico, sacralizado) o esforço comunitário em torno de objetivo repartido. Operação que possibilita a Arns Neumann classificar de “missão” o esforço a ser empreendido por ela e todos os envolvidos na Pastoral da Criança. Eleva-se, pois, a intervenção social à categoria de “missão”, idéia tão antiga e significativa entre os fiéis, que amalgamou o trabalho apologético e também a dinâmica caritativa das nascentes comunidades cristãs. Alusão aos tempos primordiais da fé que permite outro movimento: compreender o papel da Pastoral da Criança como urgente para a transformação de dura realidade. Urgente e, portanto, que diria respeito a todos: católicos e outras denominações cristãs, não-cristãos, homens de boa vontade.


Importava, então, para Zilda Arns por em marcha organismo social atuante em todas as dioceses do país, congregando milhares de agentes. Mutirão confessional que, formalmente relacionado à CNBB, solicitou, como se disse acima e se pretende analisar com mais vagar no futuro, a contribuição de fiéis de outras tradições e procedências, dando à Pastoral maior amplitude. Confecção de vasta rede que, por plural, e para não se romper, determina a prevalência de prudente linha de ação. Um caminho intermediário, não replicando a atuação caritativa tradicional cristã, tampouco abraçando o tom contestador característico da Teologia da Libertação. A Pastoral da Criança, sob a coordenação de Arns Neumann, adota, pois, via caritativa que, ver-se-á, não anula o incentivo (ainda que não exaltado) à organização popular na luta por melhores condições de vida.

Enfim, propõe-se aqui acompanhar e compreender a construção de determinada mística de ação. Mística confessional, de inequívoca inspiração cristã, que teria por proposta pensar o Brasil. Pensar nosso país no duplo sentido que esse verbo admite: refletir sobre a nação e suas mazelas sociais e também remediar tal situação, tomada, sob certa ótica religiosa, por pecaminosa e contrária ao espírito evangélico.


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