Pensar com radicalidade e com especificidade francisco de oliveira



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COMO PENSAR?

Coordenador: Marco Aurélio Garcia (Secretaria Municipal da

Cultura – São Paulo)



Expositores: Carlos Nelson Coutinho (UFRJ)

Fábio Konder Comparato (USP)

Francisco de Oliveira (USP)
PENSAR COM RADICALIDADE E

COM ESPECIFICIDADE

FRANCISCO DE OLIVEIRA
Acho que não é muito difícil propor como pensar o Brasil,

embora passar da sugestão para chegar a novas interpretações com poder

explicativo seja uma tarefa hercúlea. São duas as condições que é preciso

tomar em conta, seguindo a sugestão de Antonio Candido. A primeira, eu

diria, seria pensar com radicalidade. É da tradição brasileira, como todos

sabemos, o minueto intelectual na política, é até menos que um minueto

porque é menos nobre. Na produção intelectual aí sim é o minueto a forma

dominante: dois passinhos pra cá, dois pra lá, uma voltinha no meio, e



assim o debate intelectual no Brasil é sempre – como Sérgio Buarque

definiria – cordial, cordialidade no sentido forte. É um minueto em que os

dois passinhos pra cá consistem numa compassividade acrítica, enquanto

os dois passinhos pra lá desatam uma agressividade personalizada contra o

que ousou discordar do consenso. É preciso outra vez romper com a cordialidade,

com essa falta de radicalidade.

A segunda condição é de pensar a especificidade. Como a geração

de 30 o fez. Como se deu a formação dessa sociedade, desse Estado; o que

têm de próprio, de específico, de singular, evitando, evidentemente, a falsa

autarquia, o isolamento das grandes correntes das ciências humanas e sociais

em particular. Inscrita como especificidade no movimento mais geral do capitalismo,

como fez Caio Prado Jr. e posteriormente Celso Furtado.

Temos bons exemplos. A geração de 30 aceitou o desafio de

pensar o Brasil, com radicalidade e especificidade. Desde um Gilberto



Freyre, nostálgico, conservador, melado de mel de engenho da cabeça aos

pés. Entretanto, é forçoso reconhecer que Gilberto articula a denúncia mais

vigorosa do que foi o escravismo, explicando-o até pelas relações sexuais,

o que era um escândalo para a época e para as ciências sociais. Na linha de



seu mais vigoroso inspirador, Joaquim Nabuco, a formação da sociedade é

um estupro. Esse radicalismo, que é surpreendente quando se fala de um

autor como Gilberto Freyre, e pensar o específico para alguém que vinha

de uma educação protestante é de novo uma ousadia. Gilberto educou-se

como um protestante, no Colégio Americano Gilreath em Recife. Depois

completa sua formação na Inglaterra e nos Estados Unidos. Quem vai recuperar

esse veio explicativo décadas depois é Richard Morse, que fará o elogio

da miscigenação e da plasticidade católica, do iberismo para resumir.

Acho que Gilberto constrói essa especificidade não abdicando, evidentemente,

do seu patrimônio teórico/metodológico, para alguém criado e educado

na tradição anglo-saxã, mas dentro dela ele acha um modo, surpreendentemente

novo, de interpretar a sociedade brasileira.

O segundo da tríade, aquela nomeada por Antonio Candido, é

precisamente Sérgio Buarque, que faz também um trabalho com o mesmo

sentido de radicalidade e o mesmo sentido de especificidade. A radicalidade

neste caso consiste precisamente em romper com o padrão cordial.

Ao trabalhar o tema de uma sociedade patrimonialista, ele recusa o tratamento

cordial, e ao contrário, acusa a chamada cordialidade brasileira

como um problema e um estigma que acompanha a formação da sociedade,

é sua própria estruturação e nos perseguirá, como provam os escândalos do

Senado, por muito tempo. Escolhe um caminho que não se dilui na grande

tradição da literatura patrimonialista, e encontra uma forma que é peculiar,

extraída evidentemente do mundo ibérico, mas que no Brasil, com o cruzamento

das tradições ibéricas com o escravismo como base do sistema produtivo

– uma espécie de repetição da Antigüidade clássica –, ganhará um

caráter muito particular. Logra a segunda grande feliz interpretação da

sociedade brasileira nessa geração. Sérgio Buarque é possivelmente o

único de nossos clássicos que aposta, decisivamente, na democracia.

O terceiro é Caio Prado, que navega num terreno mais ou menos

infértil do ponto de vista do partido teórico que toma, ancorando-se no

marxismo, numa cultura que não havia produzido até então nada muito inovador

na utilização do ferramental marxista. Não se desconsidera aqui a

luta política que operários e outros cidadãos haviam travado, pelo menos

desde o começo do século, com as grandes greves, mas evidentemente a

contribuição teórica para a ação prática foi muito minguada. Caio Prado,



nesse terreno um tanto árido, elabora uma interpretação original, que bebia

numa tradição historiográfica muito rica, desde o século XIX, com Taunay,

Varnhagen, um Capistrano de Abreu, ao contrário da tradição que os

grandes sociólogos e antropólogos como Gilberto e Sérgio herdaram. Não

podiam absorver o que os clássicos do autoritarismo produziram, posto que

para estes a “especificidade” brasileira era a bárbarie e a radicalidade era

copiar o desenvolvimento europeu. Caio, ao contrário, com uma forte herança

historiográfica onde se apoiar, forma toda uma escola de pensamento

sobre a história brasileira que tem nele, com toda razão, seu patrono. O radical

em Caio Prado Jr. será inscrever a história brasileira na história mundial:

a colônia é uma obra da expansão capitalista e a ela estará ligada definitivamente.

Combina-se em Caio o movimento geral da expansão capitalista

e o “específico” nacional, que será o escravismo: enquanto no centro o

capitalismo está liqüidando o trabalho servil, sua forma colonial assenta-se

sobre o trabalho escravo.

Eu acrescentaria a essa tríade, para mostrar como trabalharam

com radicalidade, com especificidade, Florestan Fernandes, em quarto lugar

porque é de uma geração posterior à de 30. Falo para um auditório que tem

muitos formados pela USP, e para todos que conhecem a obra de Florestan.

Talvez estejam conosco alguns dos melhores conhecedores da obra de

Florestan. Minha leitura desta obra pode ser enviesada, mas para mim, até

A revolução burguesa no Brasil, Florestan não havia produzido uma síntese

de interpretação da história da formação da sociedade brasileira com o vigor

da A revolução burguesa. Todas as suas obras são, de alguma maneira, uma

preparação para A revolução burguesa, mas acho que é com esse livro que

ele logra, finalmente, entrar no panteão dos demiurgos do Brasil. De novo

aí observa-se radicalidade. Talvez o livro mais radical dessa coleção de



obras-primas seja A revolução burguesa, ao apontar os limites e os problemas

da democracia numa específica periferia capitalista.

A eles eu acrescentaria Celso Furtado, pela contribuição à teoria

do subdesenvolvimento. De novo aí temos radicalidade e especificidade.

Radicalidade em romper com o padrão acomodatício da interpretação

brasileira. Radicalidade em despojar-se de uma certa retórica comum ao

pensamento social brasileiro, pelo menos até a geração de 30. Especificidade,

que é o seu forte, precisamente porque, embora permaneça um

certo dualismo na interpretação furtadiana, ele elabora uma interpretação

singular, notável, que rompe tanto com o ramerrão das interpretações conservadoras,

quanto rompe também, é forçoso reconhecer, com a incapacidade

que o marxismo teve até aquela época de dar um salto até uma teoria

que tratasse países da periferia com a complexidade exigida pela situação

de ex-colônias. Furtado dá esse salto, que é precioso sob todos os pontos

de vista, encontrando assim uma explicação que faz do subdesenvolvimento

não um elo numa cadeia contínua entre o não desenvolvido e o desenvolvido,

mas uma criação específica do capitalismo na sua periferia, no

modo histórico portanto, e não uma seqüência de fases. Caio já havia sentado

as bases para essa especificidade, mas é necessário reconhecer que seu

trabalho é completado teoricamente por Furtado, que ajuda a criar uma

nova categoria teórica para explicar um processo histórico novo, que não

era, simplesmente, a extensão da colônia.

DESAFIO MAIOR E MAIS COMPLEXO

Esses cinco demiurgos fornecem a chave para pensar de novo

com radicalidade e com especificidade. Não vale a pena e nem é produtivo,

nem se chegaria muito longe, repetir a chave desses cinco grandes

intérpretes. Eu diria que é o sentido com que elaboraram essas grandes

interpretações o ensinamento para pensar uma situação nova, para uma

nova complexidade, enfrentando desafios que não são mais os desafios do

subdesenvolvimento, como por exemplo, ao me referir à obra de Furtado,

enquanto um esforço de industrialização na periferia. Agora o desafio é

maior, é mais complexo; não se trata só de industrializar. A inserção numa

gama nova, mais densa, mais complexa, mais desafiadora, das relações

internacionais, o que por economia de discurso podemos chamar de globalização,

mas é necessário que aceitemo-la como desafio. Nesse momento

a questão não é mais saber, como nos anos 30, se podemos ou não nos

industrializar, nem se trata de perseguir a quimera de que a industrialização

produziria novas relação sociais, produziria um novo padrão político no

sentido da democracia liberal. Temos agora o direito a todas as dúvidas.

O desafio é também mais complexo porque o desenvolvimento

capitalista não só rompeu em muitos sentidos as velhas estruturas patriarcais

e patrimoniais, mas repôs, sob formas mais difíceis, mais intrincadas,

tais estigmas. A indistinção entre público e privado continua e os escândalos

de senadores estão aí só para confirma-las como regra e não exceção.

O difícil é pensar agora essa trama de um capitalismo globalizado que

torna funcional, pro domo suo, as práticas que numa perspectiva tipo “capitalismo

e ética protestante” pareciam ser disfuncionais. Portanto, não se

trata agora de repetir Gilberto ou Sérgio Buarque, mas de tomar suas indicações,

que eu não chamaria propriamente de método porque todos são

muito divergentes metodologicamente, e isso soa pedante, mas as indicações

para tratar a nova complexidade. Mesmo a postura de Florestan, que

foi mais longe na radicalidade, mesmo ela precisa ganhar nova densidade

para avançarmos na interpretação da sociedade brasileira. Se já no seu trabalho

os limites e problemas da democratização numa sociedade periférica

apareciam bloqueados por uma espécie de permanente “via prussiana”

ou “iberismo” como o Werneck Vianna tem elaborado, se já em Florestan

esses limites apareciam, agora o problema repete-se como uma espécie de

fuga para a frente, que terminou sempre, na história brasileira, em autoritarismos

e em ditaduras. É importante não esquecer que nos 60 anos em

que se celebra a industrialização nos padrões da segunda revolução industrial,

nesses 60 anos de 1930 a 1990, este país foi governado durante 35

anos por ditaduras abertas, não disfarçadas, o que repõe o tema de

Florestan com enorme força e, por que não dizer, com enorme pessimismo.

Além disso, os 25 anos que sobram, deduzidas as ditaduras, fazendo-se as

contas, foram marcados por tentativas de golpe a cada três anos.

DECIFRAR DE NOVO A REPÚBLICA

Se era assim até o momento em que a industrialização periférica,

evidentemente ligada aos capitais internacionais e aos centros

dinâmicos do capitalismo, já apresentava problemas para a democratização

das relações sociais e para a democratização da sociedade, o que é

que nos ocorre agora quando, nos termos de Celso Furtado, os mais

importantes centros de decisão que haviam sido parcialmente internalizados

nesses 60 anos de industrialização retornam quase que totalmente

para o exterior? O tema volta com força, volta com propriedade. É preciso

decifrar de novo esse enigma, decifrar de novo a república. Qual é,

para dizer num termo caro aos economistas, qual é a produtividade teórica

da república, o que ela nos ajuda a pensar o Brasil, ou ela é apenas

uma figura e uma imagem? O que nos ajuda a pensar a Federação, acossada

violentamente por uma integração subordinada à nova divisão internacional

entre forças imperialistas. O que significa “federação”? O que

significam as diferenças entre São Paulo e o Piauí? Uma federação pode

resistir a essa tensão, de uma diferença de 10 para 1? A elaboração teórica

e prática de um país que, corrijam-me todos os que aqui estão, que se

faz federação sem federalistas, reparo que devemos ter em conta: falando

dos clássicos demiurgos da interpretação brasileira, nenhum deles,

salvo Celso Furtado, prestou atenção à questão da federação. A federação,

do ponto de vista das ciências sociais brasileiras, das ciências

humanas, não existe. Talvez eu que sou do Nordeste, talvez porque só

olhamos para o próprio umbigo! Talvez porque, como dizia a oligarquia



paulista até anos 30, talvez porque este país seja uma locomotiva puxando

vagões vazios. Mas do ponto de vista da produtividade teórica para as

ciências sociais, o que quer dizer federação no Brasil?

São temas, a meu modo de ver, que voltam com força, repõem

problemas que as interpretações clássicas não haviam resolvido, mas haviam

encaminhado admiravelmente. Com a vantagem de que dispomos

hoje de uma enorme acumulação, de um patrimônio teórico, metodológico,

muito mais rico, mais diversificado. Já a geração de 30 tinha uma vantagem

sobre a geração anterior, que moldou também uma interpretação muito

forte da sociedade brasileira, que permanece parcialmente até nossos dias.

Quando o general Geisel dizia: “o povo ainda não pode votar, porque não

está educado”, ele ecoava estigmas apontados pela geração dos autoritários

clássicos, segundo os quais um povo surgido de clãs bárbaras que se

digladiavam numa tendência fortemente centrífuga só podia ser conformado

por um Estado forte. Esse é todo o tema da ditadura.



Temos todas as vantagens do ponto de vista de patrimônio teórico,

histórico, metodológico, sofisticação. Basta comparecer às reuniões das

nossas principais associações científicas – para não permanecermos só nos

nossos departamentos – para verificar que as ciências sociais brasileiras e

as ciências humanas, de forma ainda mais ampla, estão ao compasso da

produção teórica e metodológica mundial, com o avanço das pós-graduações,

com o avanço do conhecimento de línguas, que permitiu entrar em

contato direto com as fontes vindas de outras tradições culturais e teóricas.

Não podemos nos queixar do ponto de vista da mendicidade de

nossos recursos teóricos interpretativos; pelo contrário, estamos mais

preparados desse ponto de vista. Como diziam os evangélicos, é preciso

aproveitar as riquezas da iniqüidade, e portanto, na tradição dos nossos

cinco grandes demiurgos, retomar com radicalidade e trabalhar com

especificidade. Isso é muito importante não apenas para nos regalarmos

com as nossas próprias presentes, contemporâneas ou futuras criaturas.

Isso é importante do ponto de vista cívico e importante do ponto de vista

político. Podemos olhar ao lado e ver o desastre de políticas econômicas

conduzidas, erguidas e trabalhadas sob a ótica da perda da especificidade.

A mendicidade da política econômica é um decalque perfeito de qualquer

manual da teoria econômica convencional. Segundo essa pobre e

reducionista interpretação, que não é, a rigor, interpretação, havíamos

ultrapassado o último piso do subdesenvolvimento e, portanto, as variáveis

econômicas atuariam aqui como atuam em qualquer parte. Do ponto de

vista teórico/metodológico essa é a essência da política econômica praticada

hoje no Brasil, na Argentina e alhures, em quase toda parte. Só que na



periferia, exatamente porque perdeu-se a capacidade de encontrar o que é

específico de nossas sociedades, na América Latina e na África – que

talvez esteja mais penalizada do que nós – essa teoria convencional que

tornou-se pensamento único no mundo todo faz um enorme desastre.

URGÊNCIA CÍVICA E POLÍTICA

Portanto, pensar com radicalidade e com especificidade não é

apenas para nos regalarmos com nossas produções teóricas; isso tem uma

urgência cívica e uma urgência política, pois o efeito da negação da especificidade

pode ser devastador, pensar sem radicalidade e sem especificidade,

tal como a própria experiência latino-americana está mostrando e ainda

com mais dor e com mais pesar a experiência africana. É a isso que estamos

chamados. Eu espero que os 25 anos do CEDEC nos reanimem e nos

lancem para frente nessa herança que recebemos e que às vezes mal

soubemos reproduzir e ampliar.


SABER COMBINAR O ESPECÍFICO

E O UNIVERSAL

FÁBIO KONDER COMPARATO
A REDESCOBERTA DO BRASIL

Por exemplo, Caio Prado Jr. é o marxismo como método, mas



nunca como explicação pré-moldada. Em nenhum momento da obra de Caio

Prado Jr. se pode ver o decalque puro e simples do pensamento de Marx à

realidade brasileira. Quando ele aponta o grande domínio rural escravista

como a instituição central no Brasil durante mais de 3 séculos. Quando ele

mostra que a sociedade brasileira foi durante séculos, e ainda é de certa

maneira em alguns rincões do país, uma sociedade clânica e não classista; ou

seja, uma sociedade que não conheceu o feudalismo e que passou diretamente

do período clânico para o período de sociedade de classes, analisada pelo

marxismo. A importância do clã patriarcal e a sua dimensão, digamos assim,

decisiva na organização das relações sociais, na atividade econômica, na vida

política. Toda análise marxista parte de uma sucessão do feudalismo e da

sociedade de classes, mas nós nunca conhecemos essa sociedade estamental

que marcou muito a Europa. Nós tivemos sempre, desde o início, uma

sociedade de dominação, no sentido etimológico, ou seja, uma sociedade do

senhor proprietário, e até hoje as nossas relações sociais são marcadas por

essa dominação. Ainda em Caio Prado Jr., a análise do conflito que varou

séculos no Brasil, entre comerciantes e proprietários rurais, como a réplica

brasileira ao confronto entre nobres e burgueses na história européia.

Se nós tomarmos um outro, já não digo demiurgo, mas enfim um

grande pensador da realidade brasileira, o único não citado por Chico de

Oliveira, Ignacio Rangel, nós vamos encontrar a mesma capacidade de

análise crítica da nossa especificidade. Tal como Caio Prado Jr., Ignacio

Rangel vem do marxismo, mas sempre soube utilizar o marxismo como

método de análise, não como repositório de soluções já preparadas. É de



Ignacio Rangel a tese do dualismo básico da economia brasileira, o desdobramento

das relações de produção, no esquema marxista, em relações

internas e relações externas, ou seja, o Brasil voltado para o passado e o

Brasil que tenta vislumbrar o futuro. A descoberta do dualismo básico de

toda a sociedade subdesenvolvida, onde convive o arcaico com o moderno,

o latifúndio com a empresa capitalista de alta tecnologia, o coronelismo

com a democracia urbana. Isso não se encontra em nenhum dos autores

clássicos e durante muito tempo os economistas, sociólogos e os cientistas

políticos tiveram muita dificuldade em ver que a realidade de país subdesenvolvido

é esquizofrênica: o que todos nós encontramos, ao lidar com

sociedades subdesenvolvidas, é o fato de que não existe uma receita pronta,

e de certa forma, todas as soluções preparadas têm que ser adaptadas às

diferentes reações do paciente, pois as reações da sociedade arcaica são

muito diferentes daquelas da sociedade moderna.

O terceiro exemplo de espírito crítico que eu preparei para citar

é de Celso Furtado. Aqui, no meu entender, o que houve foi a adaptação do

modelo keynesiano à realidade do subdesenvolvimento. É preciso não

esquecer que Celso Furtado teve, certamente, conhecimento do manuscrito

do manifesto latino-americano de Raúl Prebisch, de 1949, e esse manifesto

já apontava os rumos que deveria seguir a intelectualidade latino-americana.

Dizia Prebisch, então: “os jovens economistas latino-americanos devem

manter uma independência teórica ao analisarem a realidade do continente

e devem sempre denunciar – expressão de Prebisch – o falso senso de universalidade

propalado na teoria econômica em vigor nos países desenvolvidos”.

Isso lembra muito a análise marxista a respeito da noção de interesse

geral e de bem comum. Como todos sabem, Marx dizia que não existe interesse

geral ou bem comum, porque na verdade isso nada mais é do que a

extrapolação do interesse particular específico da classe dominante. De

certa forma, nós encontramos sempre isso, no que diz respeito à análise

econômica, e hoje mais do que nunca. Francisco de Oliveira mesmo lembrou

que a nossa política econômica, política econômica atual, desses executivos

de empresas multinacionais, ou de organizações internacionais,

esses mesmos que nos governam, nada mais é do que o decalque de manuais

consagrados nos grandes centros universitários do primeiro mundo. E Celso

Furtado mostrou, tomando o impulso keynesiano, mas sabendo distinguir o

útil do inútil, que nos países subdesenvolvidos o que há não é excesso de

poupança, mas sim escassez de poupança, e com isso ele alterava um dos

pressupostos fundamentais da teoria keynesiana. Da mesma sorte, ao tomar

de Keynes a noção fundamental de que era preciso conduzir a política

econômica sob forma planejada, Celso Furtado mostrou, desde o início, que

o objetivo do planejamento estatal era muito diferente daquele pensado por

Keynes. Keynes pensava o planejamento no período de entre guerras e após

a grande crise de 1929, e portanto o objetivo da programação estatal da

atividade econômica era o pleno emprego. Celso Furtado mostrou, de

maneira convincente, que era preciso ampliar esse objetivo. O planejamento

estatal nada mais é do que a pilotagem do processo de desenvolvimento

nacional, e portanto ele extrapola o setor meramente econômico e desdobra

o processo de desenvolvimento em três grandes dimensões: a dimensão

econômica, a dimensão social, ou seja, a luta contra a desigualdade de

condição social e a luta contra esta oposição cultural entre país atrasado e

país moderno, e, finalmente, a dimensão política, que nada mais é do que a

democracia.




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