Pequena história dos balcãs com incidência na ex-jugoslávia



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PEQUENA HISTÓRIA DOS BALCÃS...COM INCIDÊNCIA NA EX-JUGOSLÁVIA

   Não é fácil escrever uma História, ainda para mais breve, da Península Balcânica. E, todavia, é necessário... se se quiser entender algo sobre os acontecimentos de hoje em dia, nomeadamente sobre o Kosovo. Cometendo o erro de fazer quase só uma história político-étinica...não por que se ignore que o factor económico...mas porque, num curto trabalho como este, é impossível focar essa vertente. Que me perdoem os especialistas!


   Pouco interessa dizer que o Sul dessa península esteve sob domínio romano/bizantino até ao século VI, pois quase nada chegou até nós dessa época, salvo os gregos e, ironicamente, os albaneses, descendentes de povos trácio-ilíricos. ao que se presume cristianizados nos séculos IV e V. Uma ironia da História, sem dúvida! E, para que não se esqueça, pelos Balcãs encontrávamos, até há vinte anos, populações latinas (Arumanos ou Valáquios), isoladas na Sérvia, no norte da Grécia, na Bósnia, cujo número não devia exceder 100 000 pessoas. Salvo alguns grupos da norte da Grécia, nem sabe dizer como estão actualmente estes núcleos de população, resíduo do Império Romano. Serão talvez estreitamente aparentados com os actuais romenos.
   Nos séculos VI, VII, e VIII, os Balcãs foram invadidos por populações eslavas. Entre elas estavam os Eslovenos, os Croatas, os Sérvios (divididos em tribos: Rama, Ráscia, Zeta, e outros), os actuais Búlgaros e Macedónios. Estes dois últimos não tinham nome conhecido. Curiosamente, foi uma tribo asiática, a dos búlgaros, que se constituiu numa elite invasora e dominante na actual Bulgária, e que, esquecendo os seus traços de origem, fundou a Bulgária.
   O Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, lutou contra estes invasores, conseguindo por vezes dominá-los e cristianizá-los. Os eslavos da Macedónia acabaram por substituir as populações maioritariamente gregas da região, e, graças aos próprios gregos, etnia dominante em Bizâncio, baptizaram-nos como eslavo-macedónios... ou mesmo somente macedónios. Também a Bulgária dominou a região, e ainda hoje é difícil distinguir linguisticamente búlgaros e macedónios.
   Os croatas, falando uma língua praticamente idêntica aos sérvios, inclinaram-se para a Igreja Católica, e aliaram-se muitas vezes aos húngaros. Os eslovenos ficaram, até 1918, sob domínio alemão/austríaco. As tribos sérvias, muitas vezes dominadas pelos bizantinos, iam lutando pela sua independência. Uma tribo, a dos Rama (bósnios), caracterizou-se por uma heresia cristã (a dos bogomilos), criticada palas Igrejas bizantina e católica. Nos séculos XIII e XIV, houve mesmo cruzadas contra o seu território.
   Bizâncio ia conhecendo a decadência. Os Sérvios aproveitaram, e criaram finalmente um estado poderoso. Derrotaram os búlgaros em 1330, e empurraram os gregos (bizantinos) para o Sul e Leste. Em 1346, o seu rei, Ouroch IV (Estêvão Douchan) fazia-se coroar "Imperador dos Sérvios e dos Gregos", numa altura em que governava partes do norte e do centro da actual Grécia, a Albânia, a Macedónia, a Bósnia, e alguns outros territórios. O Kosovo também fazia parte, mas, honestamente, não é possível saber qual a percentagem, então, de população albanesa na região.
   Os turcos iam-se apoderando da Península Balcânica. Em 1393, o Rei (Czar) da Bulgária declarava-se seu vassalo. A Sérvia vivia um período de lutas civis, e um último grande exército seu foi derrotado pelo mesmo invasor no Kosovo, em 1389. As tribos da Bósnia resistiram, algumas até 1463. A tribo Zeta ficou mais ou menos independente, embora pagando tributo, e deu origem ao Montenegro. Curiosamente, face ao que se possa pensar, os albaneses resistiram até 1448. A Turquia impôs então o seu domínio. Só depois os albaneses se mostraram receptivos à fé muçulmana, bem como muitos bósnios ( talvez reminiscências da antiga heresia bogomila ).
   A Hungria, sobre o Save e o Danúbio, deteve os turcos, até que estes lhe impuseram uma violenta derrota em 1526. A Áustria herdou então este país, que, todavia, foi quase todo ocupado pelo vencedor, bem como as províncias da moderna Roménia, e até partes da Ucrânia.
   A resistência ao turco, em particular na Sérvia e na Bulgária, foi constante. As comunidades locais procuravam fechar-se sobre si mesmas, para preservar a sua cultura. A diversidade era símbolo de sobrevivência.
   Entre 1683 e 1739, a Áustria, em nome da Hungria por si herdada, reconquistou territórios. Os turcos foram mesmo espulsos do Norte da Sérvia, mas conseguiram recuperar Belgrado. A fronteira estabilizou-se. Muitos sérvios fugiram para terras reconquistadas, como as regiões da Krajina, e a Voivodina, a norte do Danúbio, onde até então pouco se notava a sua presença.
   Nestes Impérios (turco e austríaco), as populações, embora sofrendo uma dominação estrangeira, podiam movimentar-se com alguma liberdade, pois as fronteiras internas tinham pouco valor.
   No início do Século XIX, a Sérvia conseguiu recuperar a independência, embora com território reduzido. A Turquia (Império Otomano) estava em decadência. Também parte da Roménia de independentizou, e, com ajuda russa, o mesmo fez uma parte da Bulgária. A Grécia, igualmente reduzida, era de novo independente desde 1829. As várias potências europeias lutavam por influenciar os novos países, bem como o que restava da Turquia. Os conflitos sucederam-se, mesmo entre os Estados Balcânicos (como entre a Bulgária e a Sérvia), e em especial na Macedónia, um mosaico de gregos, albaneses, macedónios, búlgaros, e turcos. A Áustria-Hungria ocupou a Bósnia-Herzegovina, provisoriamente, em 1878, o que enfureceu os sérvios, por muita população etnicamente afim a habitar. Em 1908, foi declarada a sua anexação.
   1912 viu formar-se, a custo, uma aliança entre a Sérvia, o pequeno Montenegro, a Bulgária, e a Grécia, para expulsarem os turcos da Europa. E conseguiram-no, mas não sem que, um ano depois, se envolvessem em guerra entre si.
   Convém esclarecer alguns pomos de discórdia, que ainda hoje não estão infelizmente resolvidos. Assim, a Grécia queria dominar toda a Macedónia, pois em tempos essa região fora sua. A Bulgária tinha o mesmo objectivo, e argumentava que os macedónios de então eram maioritariamente eslavos e búlgaros. A Sérvia queria uma saída paro o Mar, talvez para o Adriático, não hesitando em reclamar toda a Albânia... para além da Macedónia também. No meio de tudo isto, albaneses e macedónios mal foram ouvidos. A Sérvia, afinal, ficou com o Kosovo, que considerava historicamente seu, embora a população, maioritariamente, fosse afim dos albaneses, que conseguiram uma independência difícil. Também a maior parte da Macedónia ficou com a Sérvia. O restante coube à Grécia. A Bulgária ganhou muitos menos territórios do que ambicionava. E, em 1914, por causa da insatisfação na Bósnia e na Sérvia, rebentou a Primeira Guerra Mundial, após o herdeiro da Coroa austro-húngara ser assassinada em Sarajevo, supostamente por "influência" sérvia.
   A guerra, de quatro anos, levou à destruição do Estado Sérvio, enquanto a Bulgária ocupava a Macedónia, aliada à Áustria. O fim da guerra, todavia, trouxe a vingança, e os bravos sérvios viram-se à frente duma federação de Eslovenos, Croatas, e, claro, Sérvios, mais tarde baptizada Jugoslávia.
   Nos anos 1920 e 1930, não houve paz, pois os eslovenos, os croatas, os macedónios, e os albaneses do Kosovo queixavam-se da excessiva predominância Sérvia (note-se que o pequeno Montenegro se unira voluntariamente ao novo País).
   A Segunda Guerra Mundial encontrou uma situação explosiva. E, se os sérvios resistiram aos nazis, muitos croatas optaram por se deixar transformar num protectorado alemão, embora outros resistissem também. Na Bósnia, entregue à dita Croácia, foram mortos muitos sérvios ( uma primeira limpeza étnica ).
   Foi nas montanhas sérvias, bosníacas, e croatas, que surgiu uma das mais eficazes guerrilhas da época. Orientada por comunistas, e sob a Direcção de Josip Broz (Tito), infligiu peradas baixas aos ocupantes. Foi a Jugoslávia, revigorada, o único país a libertar-se quase sozinho na Guerra.
   Uma nova Jugoslávia parecia nascer, federada, com seis repúblicas ( a Macedónia e a Bósnia tornaram-se partes de pleno direito ), e duas regiões com grande autonomia: o Kosovo e Voivodina, esta com 30 % de húngaros.
   Infelizmente, não se alteraram as fronteiras internas, para não ferir susceptibilidades. Ao que parece, os sérvios continuavam a exercer um certo predomínio, e o descontentamente, se não podia ser manifestado, permanecia latente. Todos os bravos povos da Jugoslávia continuavam a não conseguir vencer o seu maior inimigo: eles próprios e os seus sonhos e recordações de grandezas passadas, muitas vezes imperiais, conflituantes. A morte de Tito e a queda doa "Regimes (comunistas) de Leste" precipitaram a crise. Os problemas não resolvidos e os velhos ódios vieram ao de cima. Na década de 1990, houve limpezas étnicas, regimes nacionalistas, incríveis misturas de ex-comunistas com ultra-patrioteiros, enfim, um Inferno na Terra.
   Muitos problemas, todavia, permanecem por resolver. Cito só alguns: há sérvios expulsos da Croácia (Krajina), ainda sem destino; há alguns búlgaros (muito poucos) na Sérvia; há albaneses na Macedónia; há de tudo um pouco na Bósnia, onde só tropas estrangeiras obrigam a uma Paz podre.
   O mais triste é que estamos perante povos que resistiram contra tudo e todos para preservar a sua identidade. E sabemos que os seus problemas étnico-fronteiriços só se vão poder resolver numa ampla conferência, onde todos terão que ceder algo. Como deverá suceder com alguns outros problemas que subsistem por essa Europa fora.
   Porque... pelos vistos... não vale a pena deixar para trás, como inexistentes, problemas que não se resolvem. Eles voltam à superfície...
   Estremoz, 28 de Fevereiro de 2008
Carlos Eduardo da Cruz Luna
(professor de História)
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