Perdão e reconciliaçÃO



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PERDÃO E RECONCILIAÇÃO

A parábola do filho pródigo, ou como é atualmente chamada, do Pai Misericordioso, é também a do filho perdido, uma vez que é concebida por vir acompanhada pelas parábolas da ovelha perdida e da moeda perdida.

O contexto do relato é interessante. Há certamente uma crítica do Senhor aos fariseus e escribas, que estavam “perturbados” porque ele comia com os cobradores de impostos e pecadores, como abre o texto do capítulo 14 do Evangelho de São Lucas, que escutaremos neste domingo.

Essa questão colocada pelos escribas e fariseus era uma preocupação ardilosa, certamente, e não sincera. O estar facilmente com o outro era uma característica de Jesus, o que para eles não era assim.

Jesus menciona estas parábolas para ilustrar mais a alegria de Deus pelo arrependimento. Ele quer ressaltar a reconciliação do pecador com o seu Senhor. Não há maior dom e alegria que o arrependimento.

Mas, a parábola é uma mensagem atemporal. Ela nos diz em pleno século XXI que há algo de mais profundo e mais completo que é a nossa atitude frente ao mal. Aqui reside a reconciliação.

Na pregação de São Paulo em 2Cor 5,18 constatamos que Deus nos reconciliou consigo mesmo por meio de Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação (2 Cor 5,19), ou seja, que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo, e não simplesmente imputando ao mundo o pecado. Isso é muito pouco para Deus. Deus não é um acusador.

E mais: uma vez reconciliados, nós mesmos nos tornamos reconciliadores (2Cor 5,20), embaixadores em nome de Cristo. Eis a missão da Igreja: sacramento da reconciliação no mundo. Um povo reconciliado é chamado a ser sinal da misericórdia no mundo – eis nossa missão como Igreja!

Por isso, no mundo extremamente conturbado que vivemos, o tema da reconciliação é importante porque a pessoa necessita de reconciliar-se. Pois, reconciliar-se é fazer algo para que a própria reconciliação aconteça, exista. Esta é ação de Deus para a humanidade, mas o homem é chamado a corresponder dando esse primeiro passo para que Ele possa atuar: “voltar à casa do Pai”.

Daí que o tema da reconciliação é conjunto com o tema do arrependimento e também com o tema da humildade.

Temos uma grande riqueza em nossa Igreja Católica que são a prática e possibilidade da confissão e da penitência como sinal da conversão e arrependimento. As contestações de hoje são muitas devido às transformações religiosas e culturais vindo sempre com a célebre pergunta: “porque preciso me confessar, ou ainda mais, porque com uma pessoa igual a mim?”. Isso demonstra a dificuldade que encontramos hoje em viver a reconciliação.

Reconciliar é re-unir, é um trazer de volta a harmonia perdida. É uma cura à divisão, à separação, à ruptura. Mal maior da humanidade: a divisão.

A vida de Jesus foi o grande anúncio da reconciliação. A Igreja, insistimos, é símbolo da reconciliação. Daí o termo “embaixadores” pregado por São Paulo.

A reconciliação é um novo momento de graça e um excelente momento de conscientização sobre o nosso pecado pessoal e social também. Chama-nos a lembrar de nosso compromisso no batismo, a nossa vida confirmada no Espírito, e a nossa unidade com o povo eucarístico.

A parábola do filho pródigo ensina-nos, claramente, que o pecado é um distanciar-se. Distanciar-se da harmonia com o Pai, e com a atitude do filho mais velho, é um recusar-se à compaixão e à misericórdia.

A nossa base de relacionamento deve ser em primeiro lugar com Deus: relação pai/filho na parábola. A linguagem do sacramento da confissão é esta mesma: resposta ao apelo para vivermos constantemente essa relação.

Por isso seria muito importante nos perguntar se temos a prática de nos achegarmos ao sacramento da penitência. Ligado ao mesmo assunto, buscando o crescimento espiritual, será que temos também procurado o diretor espiritual? Em nossas comunidades temos facilidade de acesso dos fiéis ao sacramento da reconciliação? Teríamos que ter um horário determinado para atendimento da confissão de nossos fiéis em todas as paróquias e em todas as regiões nas comunidades mais centrais alguns plantões para atendimento do nosso povo. Em minhas reuniões com as foranias tenho procurado detectar esses locais e incentivar essa prática.

Digo isso levado também por uma importante palavra do nosso Papa Bento XVI: “O Sínodo lembrou que é dever pastoral do bispo promover na sua diocese uma decisiva recuperação da pedagogia da conversão que nasce da Eucaristia e favorecer entre os fiéis a confissão freqüente. Todos os sacerdotes se dediquem com generosidade, empenho e competência à administração do sacramento da Reconciliação. A propósito, procure-se que, nas nossas igrejas, os confessionários sejam bem visíveis e expressivos do significado deste sacramento. Peço aos pastores que vigiem atentamente sobre a celebração do sacramento da Reconciliação, limitando a prática da absolvição geral exclusivamente aos casos previstos, permanecendo como forma ordinária de absolvição apenas a pessoal.” (Cf. Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 21)

Nosso Senhor Jesus Cristo, queridos irmãos e irmãs, é a presença viva da reconciliação de Deus. Bendito seja o homem que encontrou Cristo, porque ele encontrou a Deus que perdoa. Deus, em Cristo, vive perto de nós. Façamos o tema da reconciliação algo de concreto em nossa vida: tive fome e me alimentou; tive sede e me destes de beber; estive doente e me visitastes; estive preso e me acolhestes. Testemunhemos o exercício caritativo e purificador da reconciliação no cotidiano de nossas vidas, e o mundo perceberá não em teoria apenas, mas em verdade, o que Jesus nos pede uma vida santa e reconciliada para viver a via ordinária da santidade!

SEM PERDÃO E RECONCILIAÇÃO NÃO HÁ PAZ  

O perdão é fundamental na missão de Jesus. Ele mesmo veio ao mundo para nos reconciliar com Deus. Nesse mesmo espírito, nos pede reconciliação. Essa reconciliação com o próximo é condição até para o relacionamento com Deus: "Portanto, quando fores apresentar a tua oferenda ao altar, se ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta ali, diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; depois, vem apresentar a tua oferenda" (Mt 5,23-24).

Em certos casos, o perdão exige uma generosidade gratuita, algo bem diferente de atitudes como a de quem diz: "Trato bem a quem merece, dou na mesma proporção em que recebo". Esse "exagero" na bondade é às vezes a única maneira de desarmar agressões, de pôr fim a ressentimentos, de gerar conversão nos agressores. Por isso nos diz o Evangelho: "Se alguém te força a andar mil passos, anda com ele dois mil" (Mt 5,41).

As bem-aventuranças são um retrato do próprio Jesus. Ele é o manso, o promotor da paz, o misericordioso, o faminto e sedento de justiça... Mestres do pacifismo moderno, às vezes nem sendo cristãos, como Gandhi, citam Jesus como um grande modelo de nao-violência. Ele não permite o apedrejamento da mulher adúltera, mesmo quando a lei o autorizava. Durante sua prisão, repreende Pedro que queria usar a espada. Jesus levou às últimas conseqüências a espiritualidade da reconciliação, acolhendo pecadores, oferecendo sua vida por nós sem merecimento de nossa parte e perdoando até os que o crucificavam. Como Messias, realiza o programa do Servo Sofredor, que não agride, não quebra o caniço rachado (cf. Is 42,2-3).



 Não há verdadeiro Perdão e Reconciliação se faltarem seus dois elementos constitutivos: justiça e verdade. A experiência da África do Sul nos ensina importantes lições acerca do P&R. Antes de tudo, o conhecimento da verdade é fundamental para que as vítimas possam abrir-se à Reconciliação. Depois, as vítimas exigem que se lhes faça justiça e se contribua, material ou simbolicamente, como reparação do mal causado. Perdão e Reconciliação não significa impunidade; pelo contrário, verdade e justiça são componentes estruturais do P&R. É por isso que os atos simbólicos de reparação servem para fazer duelo-luto e para ritualizar um fecho simbólico. Através da reparação simbólica, as vítimas recuperam um pouco mais de segurança, de identidade e de sentido de vida normal (36).

       A reparação é um meio formidável para transformar a lembrança negativa da ofensa e ganhar controle sobre ela. Mais que o valor da reparação, o que por fim conta é também o rito com que é feita. Com razão, o rito de reparação da Eucaristia na Igreja Católica continua a ter especial importância. Trata-se de fazer memória de um crime, mas com uma visão diferente.

       A justiça implica também o conceito de solidariedade e de compaixão. De fato, para Douglas Stern, a compaixão é a expressão mais direta da sabedoria (37). Com boas razões, o símbolo da cruz é o centro da fé cristã. A cruz é a sabedoria da compaixão. Estes são conceitos carregados de uma certa irracionalidade. É por isso que, contra a irracionalidade da violência, é preciso propor a irracionalidade do P&R. É o que Pruitt e Rubin chamam de escolha estratégica (38).

       Tanto na Escritura Hebréia quanto na Cristã, Deus é um Deus de compaixão, lento na cólera e rico de misericórdia. A história de Caim é um maravilhoso exemplo de tudo isto. Assim também a história de José, vendido por seus irmãos. José procura vencer o rancor do passado, não apenas tratando com bondade os seus irmãos que descem ao Egito para pedir-lhe ajuda, mas também dando ao seu filho o nome de Manassés, que significa: “Feito para esquecer” (39). No Evangelho de Lucas encontramos a mesma mensagem: “Sede misericordiosos como o vosso Pai celestial é misericordioso” (Lc 7,36).

       O Prêmio Nobel de Paz – Elie Wiesel – pede que a compaixão se converta num elemento importante da humanidade. Sem compaixão não há verdade, por isso não há paz (40). A atitude evangélica de “apresentar a outra face” rompe com a lógica da retaliação.

       Borris e Diehl fizeram um significativo resumo do que esta reflexão quis ser: “Se as pessoas e as organizações não fizerem a passagem de uma mudança psicológica e cultural, para aprender a perdoar, o ressentimento e ameaça de guerra continuarão” (41), como oportunamente também sublinhou Hannah Arendt: “Perdoar é libertar-se da irreversibilidade do passado”. Será preciso então fazer acordos para cancelar a “imprevisibilidade” do futuro. Assim, estes dois impostores da humanidade (ressentimento e ameaça de guerra) serão vencidos, e abrir-se-á o caminho de uma mudança da cultura e da sociedade (42).

       Da mesma forma, a justiça não é apenas retributiva, mas também restaurativa. É recuperar a dignidade do outro (43), ou, segundo definição de Dickey, é restaurar toda a sociedade (44). O acento não está no crime em si mesmo, mas no efeito relacional desvirtuador que tolera. Dickey insiste (e isto aconteceu antes que os Estados Unidos reagissem violentamente contra o Afeganistão e o Iraque) em dizer que a sociedade atual se caracteriza mais pela emoção do que pela reflexão e compaixão. Conseqüentemente, procura fortes emoções que lhe são proporcionadas pela criminalidade e pelo desafogo dos instintos de vingança e de castigo. Em contrapartida, o novo paradigma da justiça restaurativa aponta para a restauração das vítimas. A antiga sabedoria dos salmos, especialmente do salmo 84, resume maravilhosamente esta teoria: “A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão” (Sl 84,11).

 

        AS ESCOLAS DE PERDÃO E RECONCILIAÇÃO (ESPERE)



        O aprendizado do Perdão e Reconciliação é um exercício difícil. Poderíamos ser tentados a crer que para fazer tal aprendizado temos necessidade de contar com psicólogos ou especialistas bem preparados, cuja despesa se tornaria impossível para muitos, especialmente para os mais pobres. Pessoas de um mesmo grupo humano, reunidas e treinadas para tal fim, podem tornar-se valiosas ajudas na implementação deste aprendizado. Nas cidades latino-americanas, onde freqüentemente os pressupostos são mais reduzidos, esta poderia ser uma proposta muito mais factível. É a experiência que atualmente está sendo levada adiante em algumas cidades da Colômbia e do Brasil, através das Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE). Trata-se de pequenos grupos de pessoas que, sob a direção de animadores especificamente treinados para tal fim, ajudam os indivíduos a resolver suas raivas, ódios e rancores, levando-os assim a se abrirem ao Perdão e à Reconciliação.

       Normalmente, uma das primeiras necessidades das vítimas da violência, para que possam resolver o problema de sua raiva, é esta: contar com o apoio de um grupo humano que conheça sua dor e a injustiça que lhes foi infligida (45). O papel dos grupos é oferecer os elementos básicos indispensáveis para facilitar o processo de cura, através do Perdão e da Reconciliação. Alguns elementos poderiam ser estes: a segurança, um ambiente pertinente, um público que reconheça a injustiça e o sofrimento das pessoas, relações alternativas de poder, um novo sentido de lei e de ordem, a liderança dos animadores locais. Além disso, nos grupos, os problemas são colocados e interpretados no seu devido contexto (46).

       O psicólogo clínico Worthington sustenta: “O tratamento baseado na empatia pode produzir mais perdão que o produzido pelo tratamento do perdão em mero nível racional. Da mesma forma, o tratamento em nível de grupo tem muito mais efeito que o perdão tratado em nível de indivíduo” (47). Também Perkins afirma: “A educação para a paz produz melhor efeito através dos métodos participativos” (48). Herman, por sua vez, declara que a solidariedade de um grupo provê para a vítima não só uma proteção mais forte contra o terror e o desespero, mas também o antídoto contra as experiências traumáticas (49). Os grupos animam os indivíduos a buscarem ideais mais elevados, ao invés de permanecerem presos aos seus problemas. Estes mesmos grupos podem ajudar as vítimas a recuperarem a confiança em suas cosmogonias espirituais, nas instituições e nas pessoas (50).

 

        FORTALEZAS E FRAQUEZAS



        Perdão e Reconciliação é uma teoria e uma prática que apenas começa a engatinhar, embora já seja reconhecida por um crescente número de investigadores, peritos espirituais e religiosos, clínicos e ativistas políticos. Comparativamente, os estudos de violência, de solução de conflitos, de mediação cresceram muito mais, embora também eles ainda não consigam satisfazer plenamente, por não atingirem a verdadeira raiz dos problemas. Da mesma forma, também esta reflexão pode apresentar lacunas metodológicas, analíticas e conceituais próprias de uma teoria que mal começa a se desenvolver. De qualquer forma, contém uma genética de valores incalculáveis.

       Em linguagem popular, estas são consideradas atividades ingênuas. Para muitos, são atividades impossíveis. Uns aceitariam o perdão coletivo (como no caso da África do Sul), mas não o perdão individual. Outros, enfim, acham que se trata apenas de um processo artificial muito frágil, uma simples reflexão que espelha os desejos dos terapeutas e da tradição cristã (51). Considerados desta forma, o Perdão e a Reconciliação não passam de uma justiça barata, de uma espiritualidade puramente idealista.

       Por outro lado, cresce sempre mais o número dos autores que acreditam que o Perdão e a Reconciliação são instrumentos sociais poderosos, aptos a fazer diminuir o sofrimento emocional, mental e físico das vítimas. Psiquiatras, psicólogos e outros que trabalham no campo social começam a se entusiasmar cada vez mais perante os bons resultados produzidos pelo exercício do Perdão e da Reconciliação. Fitzgibbons chega a dizer que a descoberta do poder sanador do P&R pode muito bem ser comparado ao descobrimento das sulfas, da penicilina, do prozak e do ritalin (52).

  

        O Perdão e a Reconciliação são instrumentos poderosos para a construção da democracia, da convivência e da paz. A realidade da violência do passado e do presente na Colômbia, bem como de muitas outras partes do mundo, justifica plenamente que cultivemos este novo modelo de refinada política. Não basta dispor de capital físico e econômico. Nunca, como agora, foi tão imperiosa a necessidade de adquirir este novo tipo de capital social. As pessoas e comunidades que praticam o Perdão e a Reconciliação apresentam níveis de progresso e desenvolvimento comparavelmente mais elevados das que não os praticam.



       Nas palavras de Desmond Tutu, “o Perdão é absolutamente necessário para que a existência humana possa continuar. Sem Perdão e sem Reconciliação a humanidade não tem futuro”. Nos próximos anos, quando possivelmente serão firmados acordos de paz com os grupos armados, a Colômbia poderá oferecer ao país a riqueza de uma prática adquirida com o exercício do Perdão e da Reconciliação. Sem Perdão e sem Reconciliação não há paz!

Um dia, o sinal do profeta Isaías tornar-se-á realidade: “O lobo morará com o cordeiro, o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho andarão juntos e um menino pequeno os guiará. A vaca e o urso pastarão juntos, juntas se deitarão as suas crias. O leão comerá capim como o boi. A criança de peito poderá brincar junto à cova da serpente, a criança pequena porá a mão na cova da víbora” (Is 11,7-8).



       Esta é, talvez, a imagem mais completa do que significa Perdão e Reconciliação.





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