Perfil do analfabetismo e do iletrismo no mundo, américa latina e brasil



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PERFIL DO ANALFABETISMO E DO ILETRISMO NO MUNDO, AMÉRICA LATINA E BRASIL

Ana Laura Azevedo - Educadora e formadora de educadores da rede pública de ensino. Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo. Professora de Didática e Metodologia do Ensino Fundamenta

Leonor Dias Paini - Professora da área de Psicologia da Educação do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá – Paraná. Mestre em Educação pela PUC/SP. Doutoranda em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano/Instituto de Psicologia USP

Maria de Lurdes Valino - Diretora do Instituto de Educação da Fundação CEDIC. Assessora do IPF. Psicóloga e Pedagoga. Mestranda em Psicologia e Educação pela Faculdade de Educação da USP


Um recente estudo realizado pela OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico1, envolvendo 32 países, com o objetivo de medir a capacidade de leitura em 265 mil estudantes, na faixa etária de 15 anos e mais, pertencentes a escolas públicas e privadas, mostrou que os alunos brasileiros foram capazes de identificar letras, palavras e frases, mas não de compreender o sentido do que leram.

Este dado revela uma situação problemática, que necessita aprofundamento, pois a persistência do analfabetismo, nos leva a compreender que as ações governamentais não têm sido suficientes para alterar, qualitativamente, a atuação educacional.

Faz-se necessário investigar as ações governamentais e educacionais, esclarecendo os parâmetros de intersecção entre as duas instâncias e a contribuição, de ambas, para viabilizar a formação de uma sociedade mais justa. Precisamos repensar a função da escola para que ela atue incluindo todos os indivíduos, capacitando-os a utilizarem a leitura, a escrita e o cálculo de forma competente e crítica.

Para explicitar essa situação de atraso na educação, procuramos traçar, no presente texto, o perfil do analfabetismo no Mundo, na América Latina e Brasil, analisando dados conceituais e estatísticos. Por fim, apresentamos os conceitos de leiturização e letramento como alternativas de ação diante dos fenômenos sociais do analfabetismo e iletrismo.


Iniciamos nossa reflexão buscando uma definição para o termo analfabetismo que faz parte do nosso vocabulário há muito tempo e tornou-se termo corriqueiro dentro da realidade brasileira.


Em 1980, a UNESCO definia como analfabeta a pessoa “incapaz de exercer todas as atividades para as quais é necessário saber ler, para o bom funcionamento do grupo e da comunidade e também para que a pessoa continue a utilizar-se da leitura, da escrita e da aritmética em prol de seu próprio desenvolvimento e o da comunidade”.2

Nas estatísticas apresentadas pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2001, é conceituada analfabeta a pessoa que declara não saber ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece, além da inclusão daquelas que relatam que aprenderam a ler mas esqueceram.

Os formulários dos censos, até 1940, definiam a pessoa como analfabeta ou alfabetizada perguntando-lhe se sabia assinar o nome, pois a condição sócio-político-cultural da época exigia apenas esse nível de conhecimento de grande parte da população.

A partir do censo de 1950, até o de 2000, a pergunta passou a ser: sabe ler e escrever um bilhete simples? A pergunta indica preocupação com o uso social da escrita e não mera confirmação de saber escrever ou desenhar somente o próprio nome, o que já é um avanço.

Ainda que as definições sobre analfabetismo sejam complexas, Foucambert é um dos autores que tenta esclarecer esse conceito.

Para Foucambert (1994: 18; 118) “analfabetismo é o desconhecimento das técnicas de utilização da escrita” traduzido como a “(...) impossibilidade de compreender ou de produzir uma mensagem escrita simples, que trate de questões concretas ligadas à vida cotidiana: sua origem está na falta de domínio do sistema de correspondência entre grafemas e fonemas. Esse analfabetismo provém da ausência de alfabetização”.

Para uma compreensão mais aprofundada sobre o analfabetismo, necessita-se situá-lo histórica, econômica, política e socialmente.

Economicamente o analfabetismo pode ser visto como um dos principais indicadores de subdesenvolvimento. Hirschberg e Pruks (1990:25) apontam outros indicadores de subdesenvolvimento, como o alto índice de mortalidade infantil; a baixa renda per capita; a reduzida expectativa de vida; as ocupações de baixa ou nenhuma qualificação; o rendimento insuficiente para garantir as necessidades de nutrição, moradia, transporte, vestuário; a insuficiência, quantitativa e qualitativa de serviços educacionais que se fundem ao analfabetismo, configurando toda uma situação de vida e não apenas desconhecimento da leitura e da escrita.

Historicamente o analfabetismo é um fato secular no Brasil3, e continua sendo produzido nos dias atuais. Ferraro (1985) o situa em um contexto político afirmando que ele é produzido social e historicamente, sendo fonte de exclusão social.

A escrita, assim como o saber acumulado que dela provém, tem significado, historicamente, um privilégio e, conseqüentemente, detenção de poder das classes dominantes. Cagliari (1989: 10) afirma que a diminuição do analfabetismo representaria o “compartilhamento do saber do poder e do poder do saber. A igualdade de chances se tornaria perigosa demais para os que quisessem mandar e ter quem lhes obedecesse. Nada melhor do que a ignorância para gerar a obediência cega, a subserviência e o conformismo, como destino irrevogável da condição humana”.

Álvaro Vieira Pinto (1991: 92; 102) descreve o analfabeto como uma realidade humana e o analfabetismo como uma realidade sociológica. O analfabeto “(...) em sua essência não é aquele que não sabe ler, sim aquele que, por suas condições concretas de existência, não necessita ler (...). O adulto se torna analfabeto porque as condições materiais de sua existência lhe permitem sobreviver dessa forma com um mínimo de conhecimentos, o mínimo aprendido pela aprendizagem oral, que se identifica com a própria convivência social”.

Essa definição sintetiza o contexto sócio-histórico e político que envolve o indivíduo analfabeto. Re-significando o conceito de analfabeto busca-se superar a definição que o concebe tão-somente como o indivíduo que não sabe ler.

As condições de produção do analfabetismo e do analfabeto têm suas causas em fatores sociais e educacionais. São sociais as condições de trabalho que, pautadas historicamente em um modelo taylorista, não requisitavam de seus trabalhadores conhecimentos de leitura e escrita, não eram necessários, bastava a força de trabalho. Segundo Vieira Pinto (1991:93) “é o trabalho que alfabetiza ou analfabetiza o homem, segundo exija dele o conhecimento das letras, ou seja, de tal espécie que o dispense de conhecê-las”.

Os fatores educacionais localizam na atuação da escola os condicionantes da perpetuação do analfabetismo. Ferraro (1985: 48) afirma que a “produção de novos analfabetos se faz através da exclusão praticada pelo aparelho escolar”. São vítimas dessa exclusão: todos aqueles que nem sequer chegam a ser admitidos no processo de alfabetização na idade de escolarização obrigatória; aqueles que, tendo sido admitidos, são posteriormente excluídos do processo; aqueles que, dentro do sistema de ensino, estão sendo objeto de exclusão através da reprovação e repetência e estão sendo assim preparados para a posterior exclusão do processo.

Azevedo (1995: 34) qualifica a ação escolar chamando-a de escola da excludência, “a permanência e a (re)produção desse quadro sombrio vêm sendo asseguradas e reforçadas pela atuação do que poderíamos chamar de escola da excludência, uma escola de 1º grau cujo perfil assim poderia ser traçado: acesso restrito, permanência precária, qualidade comprometida”.

A perversa situação de exclusão do processo de escolarização perpetua o analfabetismo adulto; Hirschberg e Pruks (1990: 25) relacionam o analfabetismo adulto diretamente ao deficiente atendimento escolar.

Ferreiro (1993: 16) também questiona seriamente a atuação escolar como mantenedora do analfabetismo e deixa claro que a solução não é uma questão de organização de campanhas de alfabetização, pois, por mais bem-sucedidas que sejam, “não há garantias de se alcançar porcentagens de alfabetização altas e duráveis enquanto a escola primária não cumprir eficazmente sua tarefa alfabetizadora. Na medida em que a escola primária continuar expulsando grupos consideráveis de crianças que não consegue alfabetizar, continuará reproduzindo o analfabetismo dos adultos”.

Foucambert (1994: 18) considera que o analfabetismo não pode ser visto apenas como resultado do mau funcionamento do sistema escolar, mas uma situação coerente com a ordem vigente nas sociedades industriais.

Buscando uma síntese dos conceitos sobre analfabetismo apresentados, poderíamos compreendê-lo pela falta de exigência social ao uso da leitura e da escrita, para determinada parcela da população. A exclusão do processo de escolarização é um fator social considerável na manutenção do analfabetismo, e se traduz como um dos fatores que, na totalidade das condições de vida do indivíduo, poderão determinar a necessidade ou não de ler e escrever.

Analisando o termo analfabetismo funcional, deparamo-nos com a dificuldade de encontrá-lo tanto na literatura como nas pesquisas. Observamos que, na literatura consultada, primeiramente aparece o termo alfabetismo funcional, só depois é que aparece o analfabetismo funcional4.

No final da década de 70, a UNESCO sugere a adoção dos termos alfabetismo funcional e analfabetismo funcional considerando alfabetizada funcional “a pessoa capaz de utilizar a leitura e escrita para fazer frente às demandas de seu contexto social e usar essas habilidades para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida”. 5

Na década de 90, o IBGE, seguindo recomendações da UNESCO, passou a divulgar também índices de analfabetismo funcional, tomando como base não a auto-avaliação dos respondentes, mas o número de séries escolares concluídas. Pelo critério adotado, “são analfabetas funcionais as pessoas com menos de quatro anos de escolaridade”.

Para Foucambert (1994: 118), “o analfabetismo funcional envolve pessoas com vários anos de escolaridade que dominam essas técnicas de correspondência grafo-fonética num certo período de sua vida, mas perderam esse domínio por falta de uso e de exercício com elas”. Esse autor compreende que os novos analfabetos são recrutados forçosamente entre os iletrados que foram alfabetizados há 30 ou 60 anos atrás e, que na sua maioria, estão excluídos das experiências sociais do estatuto do poder. Tal exclusão das redes de comunicação e a ausência de motivos para recorrer a textos é que levam à perda dos saberes alfabéticos previamente adquiridos. Para o autor, o analfabetismo funcional não é senão conseqüência da exclusão que se assenta na divisão desigual do poder.

Já o termo iletrismo6 designa a situação de pessoas que aprenderam a leitura, a escrita e o cálculo e, no entanto, se afastaram do mundo letrado, por razões diversas.

Para Foucambert (1994) os termos analfabetismo e iletrismo são diferentes porque contextualizam realidades diferentes. Para ele o iletrismo não tem relação com a alfabetização. Contudo o analfabetismo funcional é conseqüência direta do iletrismo, especialmente pelo desuso da escrita no cotidiano da vida, caracterizando-se o iletrismo “pelo afastamento em relação às redes de comunicação escrita, pela falta de familiaridade com livros e jornais, pela exclusão do indivíduo das preocupações e respostas contidas na elaboração da coisa escrita” (p.119).

Os fenômenos sociais do analfabetismo e do iletrismo podem ser compreendidos, também, através dos reveladores dados estatísticos.

A tabela 1, a seguir, apresenta a população analfabeta, em números absolutos e a taxa de analfabetismo, por gênero no Mundo, América Latina e Caribe em 1980, 1990 e 2000, e Brasil em 1980, 1991 e 2000.

Analisando os dados da tabela 1 observa-se que, entre 1980 e 1990, houve um crescimento, em números absolutos, da quantidade de pessoas analfabetas no Mundo, com declínio dessa quantidade em 2000. Em 1980 eram 880 milhões, em 1990, 882 milhões e em 2000 são 876 milhões de pessoas analfabetas. A taxa de analfabetismo, no entanto, é decrescente vindo de 30,6% em 1980, chegando a 2000 com 20,6% da população mundial.

Quanto ao gênero percebe-se que no Mundo são decrescentes os números absolutos e o percentual de homens analfabetos. Em 1980 eram 327 milhões, representando 22,8% da população mundial, e em 2000 são 313 milhões, representando 14,7% da população mundial. Essa taxa pode ser considerada média, pois está acima de 10%.7

Entre as mulheres os números mostram uma situação dramática, pois é crescente, em números absolutos, a quantidade de mulheres analfabetas no Mundo. Em 1980 eram 553 milhões, em 1990 aumentou para 560 milhões e em 2000 já somam 563 milhões. Em termos percentuais a taxa está em queda, vindo de 38,2% em 1980, chegando a 2000 com 26,4% da população mundial feminina analfabeta. Embora em queda esta taxa ainda é alta. O Mundo conta com uma população analfabeta de 250 milhões de mulheres a mais do que a de homens, justificando a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, de Jomtien (1990), quando coloca como um dos objetivos a ampliação do acesso das mulheres à educação.


É preocupante essa grande quantidade de pessoas analfabetas, pois no mundo globalizado em que vivemos, onde cada vez mais se exige das pessoas conhecimento social da leitura e da escrita, tem-se um contingente de pessoas com grande possibilidade de permanecerem excluídas das redes de comunicação. É necessária a implantação de políticas públicas que reduzam os efeitos dessa situação.

Na América Latina e Caribe a situação de analfabetismo apresenta um contorno diferente do apresentado no Mundo, pois embora a taxa seja decrescente, a quantidade de pessoas se mantém estável. Continua, no entanto, a universal desigualdade entre homens e mulheres: as mulheres representam a maior quantidade de analfabetos dentro da população total.

A quantidade de pessoas analfabetas, em números absolutos, apresentou queda entre 1980 e 1990, mantendo-se estável em 2000. Eram 44 milhões em 1980, houve um declínio para 42 milhões em 1990, mantendo-se em 2000. A taxa de analfabetismo é continuamente decrescente: era 20,8% em 1980, agora em 2000 representa 11,7% da população.

Tabela 1 – População analfabeta - de 15 anos e mais de idade8, em números absolutos e taxa de analfabetismo, por gênero









1980



1990/1991*


2000






Total




Homem



Mulher


Total


Homem


Mulher


Total


Homem


Mulher


Mundo

Total(000 000)

%

880


30,6

327


22,8

553


38,2

882


24,8

322


18,1

560


31,4

876


20,6

313


14,7

563


26,4

A. Latina e Caribe

Total(000 000)

%

44

20,3


19

18,0


25

22,5


42

14,9


19

13,5


23

16,3


42

11,7


19

10,8


23

12,6



Brasil

Total(000 000)

%

19

25,4


9

23,6


10

27,1


19

20,0


9

19,8


10

20,2


16

13,6


8

13,7


8

13,4



Fontes: UNESCO www.uis.unesco.org. disponível em 31/03/2002.

IBGE: Censos Demográficos de 1980, 1991 e 2000.

* 1990 – refere-se ao dado fornecido pela UNESCO para Mundo e América Latina e Caribe.

1991 – refere-se ao dado fornecido pelo IBGE para Brasil.

A América Latina e Caribe apresentam índices de analfabetismo menores comparados ao Mundo e ao Brasil.

No Brasil a quantidade absoluta de pessoas analfabetas mantém-se estável, entre 1980 e 1991, em aproximadamente, 19 milhões de pessoas, e declina em 2000, para, aproximadamente, 16 milhões de pessoas analfabetas. Em termos percentuais o decréscimo é contínuo representando 25,4%, 20% e 13,6%, respectivamente, da população total.

Mesmo apresentando índices de analfabetismo em decréscimo, os índices do Brasil são, no geral, mais elevados do que os de América Latina e Caribe. Isso pode significar que, comparativamente, o Brasil apresenta uma situação de analfabetismo mais complexa do que o todo de América Latina e Caribe.

Observa-se coerência nos índices de analfabetismo no Mundo, na América Latina e Caribe e no Brasil: os índices estão diminuindo, porém é alarmante a quantidade absoluta de pessoas analfabetas, exigindo ações planejadas e eficazes para elevar mundialmente o nível de alfabetismo.

A tabela 2, a seguir, apresenta a quantidade de pessoas e percentual, separadas por grupos de anos de estudo e gênero no Brasil em 1980, 1991 e 2000.

O Brasil vem apresentando, continuamente, decréscimo do número de pessoas sem instrução e menos de um ano de estudo – em 1980 eram, aproximadamente, 20 milhões, em 1991, 18,5 milhões e em 2000 são 13,1 milhões.

A taxa de pessoas sem instrução ou menos de um ano de estudo, vem sofrendo contínuo decréscimo, conforme dados nos três censos pesquisados, atingindo 27,4%, 19,3% e 11,0%, respectivamente. Esta situação sugere que está se esboçando uma elevação da quantidade de anos de estudos do povo brasileiro, porém o maior índice de escolaridade ainda está centrado na faixa de 4 a 7 anos de estudos, revelando que um parcela significativa do povo brasileiro não está completando o Ensino Fundamental, significando possibilidade de iletrismo, levando ao analfabetismo funcional.

Tal fato é de fundamental importância para pensarmos em ações a serem executadas no País a fim de diminuir o analfabetismo, o analfabetismo funcional e o iletrismo: é um parâmetro da adequação ou não-adequação das medidas adotadas.



Tabela 2 - Total de pessoas – com 15 anos e mais de idade, e porcentagem por sexo e grupos de anos de estudo, no Brasil, em 1980, 1991 e 2000







Grupos de anos de estudo








Sem instrução e menos de 1 ano

1 a 3 anos

4 a 7 anos

8 a 10 anos

11 a 14 anos

15 anos ou mais

Não deter-minado



2000

Total


%

Homem


Mulher

13.112.554

11,0

6.319.553



6.793.000

22.795.818

19,0

11.602.827



11.192.991

30.106.262

25,2

14.944.017



15.162.244

20.298.595

17,0

9.791.638



10.506.957

20.316.003

17,0

8.914.793



11.401.210

5.524.947

4,6

2.605.603



2.919.344

443.950


0,4

212.133


231.820


1991

Total


%

Homem


Mulher

18.505.287

19,3

8.908.266



9.597.021



17.013.491

17,8

8.534.828



8.478.663

31.897.821

33,3

15.736.959



16.160.862

12.296.080

12,8

5.950.843



6.345.237



11.547.769

12,0

5.181.262



6.366.507

4.022.267

4,2

2.056.357



1.965.910

70.062


0,1

32.023


38.039




1980

Total


%

Homem


Mulher

20.166.149

27,4

9.514.696



10.651.453

15.536.555

21,1

7.863.934



7.672.621

23.548.096

32,0

11.605.011



11.592.920

7.248.096

9,8

3.593.459



3.654.637

5.563.752

7,6

2.542.153



3.021.599

1.774.071

2,4

1.044.645



729.426

61.149


0,1

29.636


31.513



Fonte: IBGE: Censos Demográficos de 1980, 1991 e 2000.

Numa tentativa de superação da problemática apresentada, apontamos para os conceitos de leiturização e letramento como alternativas viáveis.

O termo leiturização é utilizado por Foucambert (1994), que defende a implantação de uma política de leiturização, diferenciando-se da alfabetização, implicando em metas sociais e políticas.

A alfabetização tem se caracterizado por aquisições meramente técnicas de decifração de grafemas em fonemas, sem, no entanto, familiarizar o sujeito com a produção social escrita. Nesse sentido vem produzindo o fenômeno do iletrismo, que nos países industrializados abrange uma parcela crescente da população, que se afasta das redes de comunicação escrita, por falta de familiaridade com a mesma.

No Brasil, esse dado não é diferente. A população estimada de leitores, de 14 anos ou mais de idade, corresponde a 30% da população.9 Efetivamente, este número precisa ser ampliado, pois um país democrático deve, necessariamente, proporcionar condições para que um contingente crescente de pessoas tenha acesso ao mundo letrado.

Neste contexto, o papel da escola é questionado, como são questionadas as políticas públicas, que primam pela alfabetização da população, mas não por uma efetiva capacitação do sujeito a ler de forma competente e crítica.

Uma política de ação comunitária por parte das instâncias e movimentos de educação popular faz-se necessária, como sugere Foucambert (1994: 116): “Essa ação de educação popular precisa se desenvolver em múltiplas instâncias: empresas, associações de bairros, grupos de lazer, bibliotecas, formação contínua, meios de comunicação etc.”.

A escola também se apresenta como um das instituições capazes de transformar esta situação, no entanto, necessita priorizar a qualidade. E não deve ser a única a se responsabilizar por tal intento; a participação de todas as instâncias sociais e políticas, governamentais e não governamentais, é fundamental para reverter esta situação e formar o leitor crítico, “um leitor capaz de entrar em confronto com o texto para (re)construir o sentido (ideológico ou contra-ideológico), de suas linhas e entrelinhas” como assinala Azevedo (1995: 48).

Assim, novas práticas de leitura precisam ser criadas, bem como uma mobilização, que as priorizem como possibilidade de inserção social, de democratização do acesso aos bens culturais para uma camada cada vez mais abrangente da população.

Na mesma perspectiva, surge o termo letramento como forma de nomear o fato de pessoas utilizarem a escrita socialmente e de forma intensa.

O termo letramento é apresentado por alguns autores como um fenômeno complexo, não havendo consenso em torno de uma única definição. Os primeiros registros são atribuídos a Kato (1996: 7) que em 1986 já assinalava que a língua falada culta “é conseqüência do letramento”. Desde então, esta palavra torna-se cada vez mais freqüente no discurso de especialistas.

Para Soares (1998), o surgimento da palavra letramento se dá em função da necessidade de se compreender um novo fenômeno que vem ocorrendo socialmente, com o uso freqüente da leitura e da escrita. A autora diferencia o indivíduo letrado do alfabetizado, afirmando, que este último, é aquele que sabe ler e escrever, mas não necessariamente utiliza a leitura e a escrita em sua vida cotidiana.

O indivíduo alfabetizado também é diferenciado do letrado. Este último resulta da ação de “letrar-se” bem como da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever; o estado ou condição que adquire um grupo social ou indivíduo como conseqüência de ter se apropriado da escrita e de suas práticas sociais.

Em uma outra perspectiva Tfouni (1997) diferencia letramento de alfabetização sob uma ótica social: para a autora enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um indivíduo ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade.

Assim, podemos perceber os múltiplos significados do termo letramento, o que conduz a uma possível definição operacional respondendo aos requisitos de um determinado programa de avaliação ou medição, como sugere Soares (1998).
Considerações finais

Ao iniciar este trabalho, tínhamos a certeza de que estaríamos entrando em um tema com alguns aspectos a serem aprofundados. Chegando ao final do trabalho constatamos que o tema necessita ser estudado, compreendido, por diversos ângulos: há que se olhar os problemas pelo lado social explorando os diversos indicadores sociais associados ao analfabetismo e iletrismo; pelo lado político desvelando os meandros que tornam o analfabetismo renitente; conhecendo o ponto de vista do próprio analfabeto, buscando compreender seus desejos e possibilidades; pelo lado das organizações que estão desenvolvendo projetos de alfabetização.

É necessário, também, olhar o fato para além de nossas fronteiras, buscando ações concretas que tenham levado a uma superação do analfabetismo e iletrismo.

Vimos que os termos: analfabetismo, analfabetismo funcional e iletrismo são considerados por muitos autores e principalmente pela UNESCO como termos equivalentes.

A defasagem entre leitores e não-leitores, parece que vem legitimando as diferenças entre classes sociais, em que tarefas são divididas entre aqueles que pensam e os que executam. Nesse sentido, a leitura aparece também como um instrumento de conquista de poder antes de ser meio de lazer, conhecimento e cultura. A leitura amplia os horizontes fazendo emergir pontos de vista diferenciados sobre uma dada realidade. Parafraseando Azevedo (1995:48) é necessário transformar o ledor num leitor crítico, capaz de entrar em confronto com o texto para (re)construir o seu sentido ideológico e contra-ideológico.

Assim, a leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. Toda a história da leitura supõe em seu princípio, a liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor. Mas esta liberdade de leitura não é jamais absoluta, como esclarece Chartier (1998:77), é cercada por limitações derivadas das capacidades, convenções e hábitos que caracterizam, em suas diferenças, as práticas de leitura.

Podemos afirmar que os sentidos daquilo que lemos também são produzidos socialmente, então é necessário que saibamos entender o contexto e compreender a cultura para que possamos interpretar de forma mais adequada o que se passa ao nosso redor.

Na leitura buscamos possibilidades de inserção social, como instrumento para uma sociedade mais justa e igualitária.

Acreditamos que seja necessário elaborar um projeto de alfabetização que compreenda a leitura enquanto processo de re-significação do objeto lido, que pode ser um livro, uma obra de arte, um texto... que amplie a noção de leitura e a visão de mundo do indivíduo.

Referências Bibliográficas
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TFOUNI, L.V. (1997) Letramento e alfabetização. São Paulo: Cortez.



 Texto baseado em: “Perfil do Analfabetismo e do Iletrismo no Mundo, na América Latina e Caribe, no Brasil, no Estado de São Paulo e no Município de São Paulo”, editado pela www.ieditora.com.br em 09/2002.

1 Pesquisa publicada no Jornal do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial no site: www.braudel.org.br em 07/06/2002.


2 Apud Garcia, 1990: 16.

3 A história do analfabetismo no Brasil pode ser verificada em Ferraro (1985).

4 O leitor pode obter mais dados sobre Alfabetismo e Analfabetismo Funcional em Paiva, 1997 e no Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (2001), pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em conjunto com Ação Educativa.

5 UNESCO, relatório de 1979.

6 O surgimento do termo iletrismo pode ser pesquisado em Blind, 1999.

7 É considerado muito alto um percentual maior que 40%; alto quando situado entre 20 e 40: médio entre 10 e 20; baixo quando menor que 10.

8 Trabalhamos com dados referentes à população de 15 anos e mais de idade – referência utilizada pela UNESCO, por ser o final do período de escolarização fundamental.

9 Fonte: pesquisa “O Retrato da Leitura no Brasil” - SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) realizada entre 10 de dezembro e 25 de janeiro de 2001.




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