Perfil e distribuição espacial dos acidentes e vítimas do trânsito em Campinas-sp, 2006 Ana Carolina Soares Bertho



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Perfil e distribuição espacial dos acidentes e vítimas

do trânsito em Campinas-SP, 2006
Ana Carolina Soares Bertho
ST3 – O uso de métodos quantitativos na demografia
Introdução

Dados do Ministério da Saúde mostram que em 2007 mais de 38 mil pessoas morreram no Brasil vítimas de acidentes de transportes, número apenas superado pelas agressões no capítulo das causas externas. Graças à significativa queda na mortalidade por homicídios na última década, no estado de São Paulo os acidentes já lideram as causas externas em várias regiões e municípios, incluindo as regiões metropolitanas de Campinas e Baixada Santista.

Em 2006 os acidentes de transportes foram responsáveis por 875 internações do SUS e 189 óbitos entre os residentes da cidade de Campinas, sendo 95 decorrentes de acidentes nas vias públicas municipais. Análises quantitativas a partir dos registros oficiais das ocorrências dos eventos são de extrema relevância para maior compreensão do fenômeno, gerando subsídios para o desenvolvimento e avaliação de políticas preventivas. O presente trabalho apresenta análises descritivas e espaciais baseadas nos registros dos Boletins de Ocorrência dos acidentes ocorridos na vias públicas de Campinas durante o ano de 2006. Os resultados encontrados revelam a enorme potencialidade das informações e técnicas aplicadas para estudar as conexões entre padrões e distribuição espacial dos acidentes e o perfil de suas vítimas, subsídios relevantes para desenvolvimento e avaliação de políticas preventivas.
Objetivo

Descrever o perfil das vítimas fatais e não fatais de acidentes de trânsito em Campinas em 2006, estabelecendo relações entre idade, sexo e tipo de veículo que as vítimas ocupavam. Analisar os locais de maior incidência de acidentes, bem como as áreas de residência das vítimas, verificando se há padrões de distribuição no município.



Fonte de dados e método

Para a análise quantitativa foram usados dados da Secretaria de Transportes/Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (EMDEC), levantados a partir de aproximadamente 3.600 Boletins de Ocorrência (BOs) de acidentes de trânsito em vias municipais que ocorreram em 2006. Para viabilizar a análise dos locais de residência das vítimas foi necessário complementar o banco de dados da EMDEC, uma vez que esta informação não é usada pelo órgão municipal. Logradouro, número e bairro das vítimas foram obtidos a partir das cópias dos BOs, que ficam arquivadas na EMDEC.

A fim de evitar divergências entre os nomes dos logradouros preenchidos nos BOs e aqueles que constavam na base de logradouros da EMDEC (por exemplo: Luiz e Luis, Ana e Anna, Sales e Salles), o que dificultaria o georreferenciamento, criou-se uma fórmula vinculando a planilha com todos os nomes de logradouros do município (exatamente como estão na base cartográfica) à planilha com as informações sobre as vítimas dos acidentes. Assim, a digitação dos endereços foi feita a partir da referência numérica, de forma que os nomes dos logradouros já foram inseridos com a grafia correta.

Para o cálculo de taxas foram usadas no denominador estimativas de população elaboradas pela Fundação Seade. A análise espacial foi desenvolvida com a base cartográfica da EMDEC e o software TerraView - Política Social.

As vítimas foram classificadas segundo a idade e veículo que ocupavam: motociclistas, vítimas de atropelamento e ocupantes dos demais veículos. A partir dessa divisão foram produzidos mapas específicos também por grupos etários.

Visando facilitar a visualização dos padrões de concentração espacial dos locais de ocorrência dos acidentes e de residência das vítimas, utilizou-se a técnica de Kernel. “O modelo faz a estimativa alisada da intensidade local dos eventos sobre a área estudada, obtendo-se uma ‘superfície de risco’ para sua ocorrência.” (Maia e Aidar 2008, p.7)


Resultados

A predominância de homens jovens e adultos (de 15 a 45 anos) entre as vítimas de acidentes de trânsito confirma um padrão já observado por outros autores (Gawryszewski et al., 2009; Maia e Aidar, 2008; Oliveira et al., 2008; Soares, 2003). Das 5.306 vítimas fatais e não fatais de acidentes em vias públicas de Campinas, 71% eram homens, sendo que aqueles entre 15 a 44 anos totalizaram 55% das vítimas.

Analisando o tipo de veículo que as vítimas ocupavam no momento da ocorrência, observa-se que os motociclistas correspondem a 44% de todas as vítimas e 37% das vítimas fatais. Quanto aos pedestres, embora correspondam a 16% do total de vítimas, totalizam 35% das vítimas fatais.

A maior vitimização e mortalidade de pedestres e motociclistas corrobora com resultados obtidos por outros autores (Gawryszewski et al., 2009; Soares, 2003; Andrade e Mello Jorge, 2000).

A Organização Mundial de Saúde até criou a expressão “usuários vulneráveis do sistema viário”, destacando a maior fragilidade dos pedestres, ciclistas e motociclistas. A explicação é simples: esses usuários têm o corpo mais exposto aos impactos do veículo, ficando mais vulneráveis às lesões, em comparação aos que estão no interior do automóvel (Global Road Safety Partership, 2008)

A partir da taxa de letalidade é possível constatar que o número de óbitos por mil feridos em atropelamentos aumenta na medida em que a idade avança, de forma que os idosos são as maiores vítimas dos atropelamentos fatais. Enquanto entre os pedestres de 0 a 14 anos a taxa de letalidade por mil feridos é de 5,6, entre as pessoas de 60 anos ou mais é de 59,8.

A análise espacial dos locais de ocorrência dos acidentes mostra que há uma concentração na região central do município e nas principais vias que cortam a cidade, como a Av. das Amoreiras, a Av. John Boyd Dunlop, a Av. Dr. Moraes Salles e a R. Piracicaba.

Quanto aos locais de residência das vítimas, o que se observa é que em geral há maior concentração dos locais de residência na área que fica entre as rodovias Anhanguera, Santos Dumont e Bandeirantes e a Av. John Boyd Dunlop. O mesmo resultado é obtido considerando as vítimas de atropelamentos com menos de 60 anos e motociclistas na faixa dos 15 aos 24 anos.

A análise mostra que há maior concentração de vítimas residindo na região mais carente da cidade, localizada ao sul da rodovia Anhanguera. O mesmo padrão foi encontrado por Aidar (2003) ao comparar áreas de abrangência do serviço de saúde local quanto a indicadores sociodemográficos e taxas de mortalidade por homicídio. Cunha et al. (2005) também apontam que a rodovia é como um “divisor de áreas”, dividindo a parte mais rica da mais pobre da cidade.
Enquanto os espaços ao sul da rodovia seriam constituídos por uma população com menor poder aquisitivo e com domicílios mais precários, do outro lado da rodovia, nos anos 90, começa a delinear-se uma ‘cordilheira da riqueza’, um espaço caracterizado predominantemente por famílias menores, mais abastadas e morando em domicílios não apenas com melhor infra-estrutura, mas também com uma rede de serviços de melhor qualidade que aqueles da outra área citada.” (CUNHA et al., 2005, p.14)
Conclusões

Os homens se envolvem mais e morrem mais em acidentes de trânsito. No entanto há diferenciais quanto ao tipo de veículo utilizado e faixa etária das vítimas. Os adultos jovens se envolvem mais em acidentes de motocicleta. Crianças e idosos sofrem mais atropelamentos, mas quando se analisa a letalidade, é possível observar que as pessoas com mais de 60 anos são as que morrem mais em decorrência desse tipo de acidente.

Espacialmente há maior concentração de ocorrências na área central e nas principais vias da cidade, onde há maior fluxo de veículos e pedestres. No entanto, a análise a partir dos locais de residência revela que a distribuição das vítimas não é aleatória. Grande parte das vítimas reside na região ao sul da rodovia Anhanguera, que faz parte da chamada “cordilheira da pobreza”.

Referências Bibliográficas

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ANDRADE, S.M; MELLO JORGE, M.H.P. Características das vítimas por acidentes de transporte terrestre em município da Região Sul do Brasil. Revista de Saúde Pública, 34(2): 149-56, 2000.

CUNHA, J.M.P.; JAKOB, A.A.E.; JIMÉNEZ, M.A.; TRAD, I.L. Expansão Metropolitana, Mobilidade Espacial e Segregação nos anos 90: o caso da RM de Campinas. In Anais do XI Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional – Anpur, 23 a 27 de maio de 2005, Salvador-BA.

GAWRYSZEWSKI, V.P; COELHO, H.M.M.; SCARPELINI, S.; ZAN, R.; MELLO JORGE, M.H.P.; RODRIGUES, E.M.S. Perfil dos atendimentos a acidentes de transporte terrestre por serviços de emergência em São Paulo, 2005. Revista de Saúde Pública, São Paulo, 2009; 43(2):275-82.

Global Road Safety Partnership. Speed management: a road safety manual for decision-makers and practitioners. Geneva, 2008. Disponível em: . Acesso em: 27 mai. 2009.

MAIA, P.B.; AIDAR, T. Mortes no trânsito urbano: análise segundo local de ocorrência e residência no município de São Paulo entre 2003 e 2005. In Anais do XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais - ABEP, 29 de setembro a 03 de outubro de 2008, Caxambu-MG.



OLIVEIRA, Z.C.; MOTA, E.L.A.; COSTA, M.C.N. Evolução dos acidentes de trânsito em um grande centro urbano, 1991-2000. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(2):364-372, fev. 2008. Disponível em: . Acesso em: 6 jun. 2009.

SOARES, D.F.P.P. Acidentes de trânsito em Maringá-PR: análise do perfil epidemiológico e dos fatores de risco de internação e de óbito. 2003. 220f. Tese (Doutorado em Ciências Médicas) - Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, 2003.


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