Período Democrático (1945-54)



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Período Democrático (1945-54)

Trata-se de um período curto, mas turbulento, que se inicia com a queda do Estado Novo e a democratização do país, passa pela frustração do medíocre governo Dutra, desemboca no segundo mandato de Getulio Vargas e fecha-se com o dramático suicídio do presidente.

Vale a pena ouvir as músicas aqui selecionadas e constatar como elas captam as importantíssimas mudanças que ocorreram na cena política brasileira em menos de dez anos. Talvez a mais importante seja a presença cada vez mais nítida dos trabalhadores na política nacional, opondo-se aos magnatas, aos tubarões e aos reacionários, numa época de crescente nacionalismo.

1- Palacete no Catete (1945)


Autor: Herivelto Martins e Ciro de Souza
Intérprete: Francisco Alves
Gênero: Marchinha
Gravadora: Odeon

Com a deposição de Getúlio Vargas nos últimos dias de outubro de 1945, o Palácio do Catete ficou desocupado, à disposição dos queriam se mudar para lá. Uma incorreção na letra da música: até 1945, Getúlio comandara o país por 15, e não por 20 anos. Um esclarecimento: a Constituição de 1937, a chamada Polaca, previa que o mandato do presidente seria de seis anos; na República Velha, ele havia sido de quatro anos e na Constituição de 1946 seria fixado em cinco.



“Existe um palacete no Catete
Que consta que foi desocupado.
O vizinho do lado estava informado
Que seu vizinho já pensava em se mudar.
Esse inquilino, apesar dos desenganos
Foram nesse palacete, vinte anos
Catete, zona preferida,
Todo mundo quer,
Porque lá é de colher:
Bonde na porta, condução lá é mato,
Mas a senhoria quer seis anos de contrato”

2 - Olho de Moscou (1945/1946)


Autor: Osvaldo Santiago e Antonio Almeida
Intérprete: Castro Barbosa
Gênero: Marcha
Gravadora: Continental


A marchinha mostra bem como os tempos estavam mudados. Em vez da feroz repressão anticomunista da República Velha e do Estado Novo, as idéias socialistas passaram a ser combatidas, no Brasil do pós-guerra, com bom humor – bom humor preconceituoso, mas, de qualquer forma, bom humor. Era um sinal do forte prestígio da União Soviética, conquistado nos campos de batalha, e da crescente influência do Partido Comunista do Brasil.

Nas eleições presidenciais de 1945, o PCB lançou o nome do engenheiro Iedo Fiúza, ex-prefeito de Petrópolis, que obteve cerca de 10% dos votos. Nas grandes cidades, a votação de Fiúza foi proporcionalmente ainda mais expressiva. Nas eleições parlamentares de 1946, o PCB obteria um décimo dos sufrágios em todo o país, elegendo uma bancada de 14 deputados – entre eles, João Amazonas, Carlos Marighella, Jorge Amado, Gregório Bezerra e Maurício Grabois – e Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB, seria eleito senador pelo Distrito Federal, com votação consagradora.

Em 1947, os comunistas elegeriam 18 dos 50 vereadores do Rio de Janeiro, a maior bancada na “Gaiola de Ouro”. No mesmo ano, o PCB seria colocado na ilegalidade (a esse respeito, ver também “Salada política”).

“Ô, ô, ô, ô,
Bem que a cigana me avisou (bis)
Cuidado com o olho de Moscou
O que é seu, é meu.
O que é meu, é seu.
Nessa conversa boa,
Você vai, eu vou
Eu só não quero que a Leonor
Tenha de rachar o nosso amor.”

3-Pela ordem, seu presidente (1947)


Autor: Ari Monteiro e Raimundo Olavo
Intérprete: Linda Batista
Gênero: Marcha
Gravadora: RCA Victor.

O governo Dutra foi conservador e medíocre. Implantando uma política de abertura das importações que inundou o país de bugigangas estrangeiras, em pouco tempo dilapidou as grandes reservas de divisas internacionais formadas durante a guerra. Para os trabalhadores, foi um período difícil: o custo de vida subiu fortemente e os salários foram contidos.

O salário-mínimo, por exemplo, não foi reajustado uma vez sequer no governo Dutra. A marchinha capta esse clima de insatisfação, que se manifestaria em diversas outras músicas da época, como “Pedreiro Waldemar” e “Falta um zero no meu ordenado” (ver neste CD, a seguir). Goza os políticos e reclama da falta de solução para os problemas cotidianos do povo, tomando emprestados, com bom humor, os termos usados no ritual do Poder - "Vossa Excelência", "aparte", "artigo" e "pela ordem".

No plano político, vale lembrar que, no finalzinho de 1946, Dutra fez uma nítida inflexão na composição de seu governo, afastando-se de Vargas e do PTB, que o haviam apoiado na eleição, e promovendo a união das forças políticas conservadoras, com a entrada da UDN no ministério.

As eleições para os governos estaduais de janeiro de 1947 já foram realizadas sob esse novo alinhamento político. De um lado, o PSD e a UDN; de outro, o PTB, o PCB e o Partido Social Progressista, chefiado por Ademar de Barros e forte em São Paulo (ver mais adiante neste CD, “Hino do PSP”).

"Vossa Excelência, dá licença,
Quero um aparte para falar,
Quero falar num artigo:
Cadê o trigo, cadê o trigo?
Levo a vida nessa marmelada.
Passa o tempo e não resolvem nada.
Peço a palavra, pela ordem,
Na voz do meu coração,
O povo não tem casa pra morar,
Não tem transporte, não tem carne, não tem feijão.
Até das frutas que existiam por aqui,
Só resta agora o abacaxi".

4- O pedreiro Valdemar (1949)


Autor: Roberto Martins e Wilson Batista
Intérprete: Blecaute
Gênero: marcha

Esta marchinha, que fez grande sucesso em 1949, tornou-se um clássico do carnaval carioca. O recado da crítica social é claro: o pedreiro Valdemar e os trabalhadores de um modo geral, que fazem tudo na sociedade, não usufruem dos benefícios do seu trabalho.



“Você conhece o pedreiro Valdemar?
Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da Circular,
Faz tanta casa e não tem casa pra morar. (Bis)

Leva a marmita embrulhada no jornal


Se tem almoço, nem sempre tem jantar.
O Valdemar, que é mestre no ofício,
Constrói um edifício e depois não pode entrar”.

5- Retrato do velho (1951)


Autor: Haroldo Lobo e Marino Pinto
Intérprete: Francisco Alves
Gênero: Marcha
Gravadora: Odeon

Poucas músicas políticas foram tão cantadas pelo povo quanto essa marchinha de Haroldo Lobo e Marino Pinto, que saudava o retorno de Getúlio Vargas à cena política em 1950, depois de cinco anos de exílio voluntário na fazenda Itu, em São Borja, no Rio Grande do Sul.

"Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar" virou o slogan da volta de Getúlio a Presidência da República, numa campanha em que ele bateu com facilidade o brigadeiro Eduardo Gomes, mais uma vez lançado candidato pela UDN, e Cristiano Machado, lançado e cristianizado pelo PSD.

A partir dessas eleições, “cristianizar” no jargão político brasileiro passou a ser sinônimo de apoiar um candidato só da boca para fora, trabalhando por debaixo do pano para a vitória de outro contendor. Getulio ganhou fácil. Teve 48,7% dos votos, contra 29,6% dados ao Brigadeiro e 21,5% a Cristiano Machado.



“Bota o retrato do velho outra vez
Bota no mesmo lugar.
Bota o retrato do velho outra vez,
Bota no mesmo lugar.
O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar (Bis)

Eu já botei o meu ...


E tu, não vais botar?
Já enfeitei o meu ..
E tu, vais enfeitar?
O sorriso do velhinho faz a gente se animar (bis)"

6 - Coisa modesta (1952)

Autor: Horácio Felisberti
Intérprete: Alcides Gerardi
Gênero: Samba
Gravadora: Odeon

Este samba mostra como as palavras vão adquirindo novos sentidos de acordo com a luta política. Até o início do século XX, "gegê" era sinônimo de "querido" - assim os ex-escravos, especialmente os de origem iorubá, referiam-se a um amigo ou companheiro. Depois de 1930, virou também apelido de Getúlio Vargas. Nesta música, já da década de 50, o presidente já se transformou no "pai dos pobres", tanto que o operário brasileiro pede-lhe um barracão para morar. Lembro-me que, ainda menino, fumei escondido cigarros de marca Gegê - um mata-rato horrível cujo maço (ou carteira, como se diz em São Paulo) trazia estampado o sorridente rosto de Getúlio sobre o mapa do Brasil.

"Gegê,
Sou operário brasileiro,
Não quero emprego nem dinheiro.
O que eu quero, vou contar,
Não é um palacete para dar festa.
Eu quero é coisa bem modesta,
É um barracão para eu morar.

Um quarto, uma sala e uma cozinha


Pra eu, ela e uma filhinha
Chega para remediar.
Eu durmo na garagem do vizinho
Porque meu senhorio acaba de me despejar

Gegê,
(...) arranjar


Um barracão pra eu morar
Vou pedir a Deus para lhe ajudar"

7-Trabalhadores do Brasil (1953)


Autor: Silvino Neto
Intérprete: Silvino Neto
Gênero: Samba
Gravadora: Copacabana

Este samba do início de 1953 dá idéia da frustração que começava a tomar conta de boa parte dos trabalhadores brasileiros, que haviam votado em Getúlio Vargas em 1950 na crença de que, com a volta do "pai dos pobres" ao poder, seus problemas seriam resolvidos. Mas a vida continuava "de amargar".

O samba começa com a voz do próprio Getúlio, proferindo as palavras com que tradicionalmente abria seus discursos, "Trabalhadores do Brasil", que também dão título à música.

"Trabalhadores do Brasil,
Nós somos, nós queremos trabalhar.
E trabalhamos com toda firmeza
Pelo gigante da própria natureza.
Mas, senhor presidente,
A vida está de amargar (bis).
Meu barraco de madeira
Está querendo desabar.
Vou levando a vida inteira,
Esperando melhorar.
Mas, senhor presidente,
A vida está de amargar (bis)"

8 - A carta (1955)


Autor: Silas de Oliveira e Marcelino Ramos
Intérprete: Moreira da Silva
Gênero: Samba
Gravadora: Repertório

Este samba, do grande compositor Silas de Oliveira, gravado no ano seguinte à morte de Getulio, toma como mote a carta-testamento do presidente que se suicidou no Palácio do catete na madrugada de 24 de agosto de 1954.



“Mais uma vez
As forças e interesses contra o povo
Coordenaram-se novamente
E se desencadeiam sobre mim
Não me acusam
Insultam-me de novo
Vejo de perto aproximar meu fim
Não me combatem
Caluniam com certeza
Numa perseguição atroz
Não me dão o direito de defesa
Preciso sufocar a minha voz
Minha ação impedir
Para que eu não continue a defender o povo
Como sempre defendi
Com pena e meu profundo desgosto
Sigo o destino que me é imposto
Não querem que o povo seja independente
Não querem a felicidade do trabalhador
Mas esse povo de quem fui escravo
Não mais será de ninguém
Aos que pensam que me derrotaram
Eu respondo com a vitória
Levo comigo um porém
Eu saio da vida
Para entrar na história.”

9- Hino a Getúlio Vargas (1958)


Autor: João de Barro
Intérprete: Gilberto Milfont
Gênero: Hino
Gravadora: Continental

Este hino a Getulio é mais uma das inúmeras músicas compostas e gravadas em homenagem ao presidente morto.



“Getúlio Vargas,
Tu vais na História ficar.
Deixas os braços do povo
Para subir ao altar.

Getúlio Vargas,


Teu vulto audaz, varonil,
Há de ficar para sempre
No coração do Brasil.

Dorme, teu sono tranqüilo,


Dorme que a tua bandeira
Há de pairar altaneira
Sempre no azul da amplidão.

E as gotas que deste de sangue


Teu povo amigo há de tê-las
Brilhando junto às estrelas
No dia da redenção”.


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