Personagem professora



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JULIE



Julie começou cedo; 05 anos de profissão em 21 de idade. Nesse sentido, pensa que teve todos motivos do mundo em transpor as pontes da inocência e da rebeldia para se transformar em profissional.

Julie considera-se uma professora em três tempos, que começou criança e foi crescendo junto com a escola num fazer diário. Divide seu próprio mundo em aqui dentro” e “lá fora”, assume as próprias culpas, colocou na cabeça que deve aprender mais e sente-se hoje uma profissional.


A 1ª fase ela diz que é a da “inocente”, a

professora/criança, caçula da casa,

inexperiente na escola
a 2ª fase é da “rebelde”, a não-professora,

não sabia o que queria ou não queria,

ia pra frente e pra trás, aqui e ali, queria

galgar o mundo de frente


a 3ª, ela pensa que é a da “mais consciente”, determinada,

a objetiva, a que sabe o que quer


as três juntas formam a “profissional” que

entende a sala de aula como o espaço

de luta do professor.
uma professora que se acha “tri-fásica” que não sabe separar “o lado de fora” do “lado de dentro” e como não se julga mais rebelde, fica onde está, falando que, aprendeu na rebeldia mas, daqui pra frente, não sabe; psicóloga ou não no futuro; dizendo-se professora muito convicta enquanto durar o amor e a paixão.

por que sem paixão ela acha que não dá


Julie era a criança de sua casa quando ingressou na profissão d de professora levada pela irmã e pela prima. Estava sem fazer nada, era apenas a caçulinha da família e não tinha a menor experiência com crianças (a criança era ela), mas a escola tinha uma vaga, estava precisando de uma professora e ela apresentou-se, ou melhor, foi apresentada (pela irmã e pela prima).
Assim é que foi passando pelos níveis da escola e aprendendo a ser professora e a gostar de ser. A prova que exibe para mostrar que gostou está na primeira mudança que fez em seu início de carreira: passou do curso científico que estava fazendo para o Magistério – a prova estava no começar tudo de novo, “por gostar”.
No segundo ano, já começou “a sentir melhor a escola” e entendeu que poderia fazer a sua opção – foi para o maternal, mas percebeu logo que não era aquilo que ela queria.

eu não conseguia alcançar as crianças do jeito que eu queria; que elas tivessem uma aprendizagem rápida, que elas não têm nessa idade”


Julie-de-hoje faz as suas restrições à Julie-de-ontem, afinal queria que as crianças aprendessem com um ritmo que não era o delas e, que entendeu depois, ser específico à idade.
Mas Julie sentia que estava indo bem; fazia cursos (a escola proporcionava a oportunidade), tinha contato com outras escolas e professoras e assim podia comparar o seu desempenho com o das outras professoras, e o da sua escola também.
Esse foi o tempo da inocência. Julie sentia-se bem assim.
Mas aconteceu que, de repente, começou a observar o trabalho de outra irmã num escritório “super-legal”.

com todo conforto, ar condicionado, sentada numa cadeira”


Julie estava com 19 para 20 anos, quando de “inocente” começou a transformar-se em “rebelde” – se uma irmã havia lhe mostrado a profissão de Magistério, sem conforto, sem ar condicionado e de pé, a outra naturalmente, sem esforçar-se, estava lhe apontando novos caminhos mais confortáveis e chamativos para a sua pouca idade.
Aí, a “rebelde” começou a percorrer novas estradas, nem tanto confortáveis assim, como pensou, a princípio

não me identificava com nada, não tinha paciência para ser vendedora, nem para atender telefone o dia inteiro e nem para mexer com cálculo o dia inteiro – sentia um vazio enorme”


A rebelde-vazia começou a sentir saudade da escola e arrependimento por ter saído de lá. Cresceu na rebeldia (afinal de contas, por que não ser rebelde aos 19 anos) aprendeu a ponderar um pouco e a pesar melhor as situações.
Foi quando surgiu a oportunidade de voltar para a escola, num doce regresso, mais amadurecido e, na sala de alfabetização como gostaria.
Ai diz que viveu um casamento feliz, já mais consciente das coisas e as crianças numa fase que ela gosta de trabalhar

aí foi uma paixão, porque o ritmo, a idade das crianças, tudo estava do jeito que eu queria, então foi muito bom”


Julie avalia-se: não sabe se foram problemas seus, mas realmente essa idade de 5 a 6 anos da criança é melhor para trabalhar.
Entende que está vivendo a fase da consciência, e acha que, se é capaz de esquecer o “mundo lá fora” é porque se sente bem dando aulas.

é engraçado como você não consegue separar o lado de fora, do lado de dentro, o lado afetivo, das questões da escola, e trabalhar com crianças nessa idade é bom porque você esquece tudo o que está acontecendo com você”


E, neste ano de 96, acha que se sentiu muito bem, mais apaixonada por aquilo que está fazendo, com a consciência do dever cumprido, isto é, sente que atingiu os objetivos – e, nesse sentido -

fazer aquilo que você gosta e alcançar seus objetivos deixa você feliz, super-bem”.


Julie parece contente com o trabalho que realizou e nesse sentido o resultado a que se refere foi ver as crianças lendo e escrevendo.
São essas as recompensas que o professor aprendeu a valorizar no resultado de seu trabalho. As recompensas que o professor retira do seu esforço não são do tipo “material”, essas palavras já estão muito ditas e muito pensadas.

este ano de 96, eu me sinto assim, mais apegada, mais apaixonada por aquilo que eu estou fazendo, porque eu tive uma sala muito boa, eu tive crianças que se sairam muito bem, eu sinto que eu também fui melhor”.


Julie sente-se mais profissional – sua trajetória é a da inocente que virou rebelde e de rebelde transformou-se em profissional. Cumpriu as suas três etapas, difíceis, porém necessárias para a transformação.

eu sinto que eu também fui melhor, algumas coisas erradas eu consegui modificar, melhorar, tive muito apoio da escola, parece que me largaram e assim eu cresci, foi muito bom pra mim’


Ela acha que cresceu e nesse crescimento pôde contar com o apoio da escola, apesar de a terem “largado”. Nesse sentido as trocas profissionais sempre ajudam.
As professoras não se “largam”, funcionam aos pares, em trios, no grupo, só não se organizam numa categoria mais ampla para lutarem em conjunto. Aí não se organizam, fica difícil, perdem-se no conjunto, só se acham no grupo, na cumplicidade.
Acha que este ano (96) foi realmente um marco pela aprendizagem profissional e pelo aspecto pessoal embutido nessa aprendizagem

este ano eu trabalhei a ansiedade deles e a minha também; este ano foi realmente importante em função desse laço afetivo que a gente criou... uma coisa que me marcou foi o relacionamento com as crianças, eu cresci com elas... as trocas foram melhores, eu aprendi mais”


E Julie parece que entende bem dessas coisas

estou falando do lado afetivo porque do profissional é ver que você conseguiu, que as crianças estão lendo e vão bem para a 1ª série.”


Nesse sentido, é o profissional-explícito, medido na aprendizagem das crianças e pelo desempenho da professora, porém o afetivo está implícito, mas precisa ser contado ou melhor, cantado. Não basta estar implícito, tem que estar explícito, e por isso Julie diz “estou falando do lado afetivo, porque do profissional...”
A profissional que se diz consciente colocou coisas na cabeça , diz que quer alçar um vôo mais alto, ver outras experiências, aprender com os outros, sair da mesmice.

nem que eu trabalhe outro período em outra escola, porque se você trabalha num lugar só, se acomoda”.


Julie argumenta que não quer sair do lugar que está, apenas quer ler, estudar mais, não quer se sentir uma gaivota de asas partidas, não quer ficar fazendo sempre as mesmas coisas. Quer dar os seus vôos e voltar para a sua praia segura.
Hoje sente-se muito mais “profissional” do que “tia”.

não é diferente você ver a criança conversar sobre o sol, os astros, os planetas como quem sabe?”


Não é nada fácil transformar-se, não é simples deixar de ser “tia” para virar profissional, há todo um processo que é ao mesmo tempo externo e interno.

você tem que deixar de lado aquele momento de ficar com a família, de namorar, de passear, muitas vezes, em função do compromisso; e sou eu que tenho que fazer por mim”


E nesse sentido, vem as cobranças; é muito difícil

você não quer mais ficar comigo, só mexe com as coisas da escola”


É uma opção que a professora tem que assumir, mas que fica parecendo sempre um favor recebido. Os homens sejam eles maridos pais ou namorados “concordam” que as “suas mulheres” trabalhem mas disputam espaço e tempo com a profissional.
Julie acha que o profissional da escola pública não se valoriza porque não estuda, não se atualiza e reclama da desvalorização. Entende que o professor tem que estar aberto para outras coisas.

não é porque eu sou professora que não vou saber o que está acontecendo na economia”


E, é o profissional da educação que se fecha, e não se abre para coisas maiores.

fica fechado no mundinho dele e fica falando que ganha pouco, que quer mudar e não muda nada. Eu acho que nesse caso tem que largar mesmo, tem que mudar, se ele mesmo se coloca como inferior, não está preparado para enfrentar uma sala de 35 alunos, na escola pública”


Como professora da Educação Infantil Julie não traz o ranço que os outros professores têm; ela posiciona-se contra a reclamação, a mania de falar demais da própria profissão que os demais professores têm o hábito de fazer. Não sabe como resolver essas questões que dão margem a essa forma de proceder dos professores (reclamam e não se organizam para as conquistas necessárias) mas entende que só reclamar não é o melhor caminho.

isso eu senti nos meus estágios, pessoas que já estão para se aposentar e ficam jogando sua raiva sobre as crianças. Eu sei que a gente tem que ver os dois lados, mas assim é demais”


Ver os dois lados significa para Julie, ter a consciência de que os professores têm lá as suas razões, mas não têm o direito por isso de

descarregar a sua frustração sobre os alunos que estão ali para adquirir conhecimento e não para arcar com os problemas particulares deles’


Mas Julie entende que as escolas municipais têm crescido muito ultimamente e, se continuarem nesse ritmo, as escolas particulares vão começar a perder seus alunos para elas.
Usa o discurso da denúncia para dizer

eu acho até que os nossos governantes estão do lado das escolas particulares, porque isso é bom para eles; prejudicam as públicas para melhorar as particulares, injusto, não é?”


Julie concorda que o salário do professor é muito baixo, acha que merece mais pelo trabalho que realiza.

eu acho importante o professor querer mais, ele tem que querer... não é o que eu queria, mas dá pra ir levando, eu queria mais”


O problema é que o profissional da educação, o professor, não melhora, se ele melhorassse o trabalho talvez pudesse se valorizar – vai fazendo suas reflexões, entendendo que é muito difícil consertar a situação. Greve não é mais a solução, porque não confia na seriedade das pessoas que estão à frente dos movimentos grevistas. A greve talvez ajudasse

quando tem pessoas sérias à frente; greve sem nexo não adianta”


Entre uma reflexão e outra entende que o professor tem que achar um caminho, nos muitos descaminhos que tem trilhado. O holerit de sua professora do Magistério (“tão boa”) assustava

isso tudo é muito injusto”


Julie passa pela denunciadora, pela descrente para chegar à justiceira. Mas é difícil fazer justiça numa situação tão complicada.

o professor tem que encontrar o caminho”


É bom que se diga que o professor não pode encontrar sozinho o seu caminho, porque essa escalada envolve responsabilidades coletivas.
Na pele da justiceira busca uma saída

eu acho que se o professor melhorar o seu trabalho, ele pode se valorizar.”


Essa é uma questão que Julie precisa pensar melhor, pois o professor não pode se valorizar sozinho; sua valorização faz parte de questões que extrapolam a sua simples força de vontade e prendem-se ao contexto mais amplo da sociedade.
Julie acredita que o protesto do professor poderá vir em forma de um serviço bem feito, através do seu “profissionalismo”.

essa é a forma de luta, de mudar a postura dele . O professor não pode continuar na mesmice.”

Compreende que o relacionamento na escola é feito uma a uma e não é geral, com todo mundo, e nessa forma se inclui. Mas, pelo menos para ela, é mais profissional do que pessoal, e dá para acompanhar, uma o trabalho da outra.
Julie por Julie

eu me vejo em três fazer: a 1ª inocente, a 2ª rebelde e a 3ª muito mais consciente do que estou fazendo, com mais vontade, mais determinada e mais objetiva também”.


Ao encarar as três, faz restrições às duas primeiras

a inocente porque não sabia nada, a rebelde porque nunca sabia o que queria, se ia pra lá, pra cá, nada estava certo, se ia pra frente, se voltava pra trás, fiquei assim; isso eu chamo de rebeldia – ah não vou mais fazer isso! Mas passou, eu fui acalmando”


Como “muito mais consciente” Julie ainda se apresenta crítica, denunciadora, descrente e justiceira, mas também ingênua por pensar que o professor poderá conseguir melhorias apenas por si mesmo, melhorando a qualidade do próprio trabalho.

É filiada ao Sindicato mas só toma conhecimento dele quando recebe uma cartinha com os dizeres

contribuição sindical”
Julie não sabe nada a respeito dele (mas gostaria de saber) nem o local onde funciona. Se houvesse uma greve das escolas particulares, não participaria porque

as pessoas que estão à frente não são sérias; se elas fossem sérias, procurariam a escola para se apresentarem e dizer o que pretendem”


Observa que a área da educação é muito interessante para se trabalhar. Quer continuar professora enquanto gostar e por enquanto diz que gosta e muito, embora reconheça que é um trabalho árduo, mal remunerado, mas encara-o como uma profissão, a sua. Enquanto tiver “amor e paixão” diz que quer continuar. Julie pensa neste momento que o amor e a paixão poderão mantê-la na profissão e fazê-la esquecer os problemas que envolvem o exercício do Magistério.

profissionalmente, hoje me sinto feliz com o que estou fazendo, embora canse”

No futuro não sabe, só enquanto durar “o amor e a paixão”.

se você voltar aqui depois de 2 ou 3 anos novamente para conversar comigo, pode ser até que eu lhe diga outra coisa, que eu esteja me tornando uma psicóloga, por exemplo, não sei; mas agora lhe digo que não. O que eu tenho em mente, neste momento, é ser professora.”

Nesse sentido, Julie lembra o poeta Vinícius – é uma professora “infinita, enquanto dure”, mas é assim porque entende que está aberta a mudanças, constituindo-se a cada transformação e transformando-se nessa constituição.
Trajetória nº 10

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