Personagem professora



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MOCA

Moca era apenas uma garota quando começou. Tem 28 anos e está há 13 na profissão. Espera hoje, como ontem, seu “lugar ao sol”.

Acredita que a esperança é a última que morrre e segue em frente, metida nessa convicção.
Moca começou assistente, uma garota que procurava seu lugar ao sol e que por ironia fugiu para o Magistério, sem pensar, mas na fuga prendeu o pé e ficou. Na fuga aprendeu além de se conformar, a olhar para a frente e a vencer obstáculos, ter os olhos bem vivos e a não voltar atrás. Ao fugir, encontrou a profissão em que está até hoje.
No início, a babá aprendendo a

ser professora com os outros


depois a conquista, a técnica entendendo

que seus alunos já não são mais analfabetos aos seis anos


agora, diz-se uma profissional da área
três momentos de um mesmo processo

em que o maior medo – deixar de ser

babá para se transformar em professora;

o maior desafio – enfrentar a classe de alfabetização


o riso é frouxo, mas a expressão

é tensa – reflete a preocupação pela

falta de apoio – a tirania doméstica;

as cobranças na escola...


para completar – a professora/reforço

na batalha pelo reforço do próprio orçamento.


Moca ingressou na profissão como “babá” –tinha 13 para 14 anos e era assistente de professor, com quem foi aprendendo, com o passar do tempo a lidar com as crianças.
Foi assim que descobriu que

tudo é uma questão de técnica, tudo depende muito de aprendizagem e de alguns detalhes que são importantes”


As professoras mostram-se sempre muito preocupadas com a aquisição de uma “técnica” que as habilite a lidar melhor com as situações difíceis no cotidiano que enfrentam. Dessa forma, vivem a procurar soluções para as suas ansiedades, consumindo-se na busca da chamada experiência profissional. É importante que se diga que a professora não pode se encerrar entre as quatro paredes de uma tal competência técnica apenas, pois a verdadeira tranformação tem que envolver o desenvolvimento do nível de consiência.
Depois de 3 anos de casa, ganhou uma sala de maternal e foi passando pelos diferentes níveis, até chegar à alfabetização onde ficou até agora.

meus alunos já não são mais analfabetos com 6 anos’


Diz que Sempre gostou de estudar, fez cursos dentro e fora do país, mas ainda não fez uma Faculdade por problemas domésticos.

depois que a gente casa, a coisa fica bem mais difícil, principalmente quando o marido não colabora, a gente acaba restringindo o campo”


A luta que se trava entre os espaços público/privado, entre a profissional e a mulher é uma coisa séria na vida da professora que tem que se haver com a difícil tarefa da conciliação. Há sempre ganhadores e perdedores nessa batalha, quando se tem que ceder. Aqui perdeu a profissional que teve que restringir o campo. É interessante observar que quando não consegue conciliar, a professora sempre perde (será que é por isso que se sente “vitoriosa” quando consegue a conciliação?)
Mas, a babá virou uma profissional da área com o tempo, porque são muitos anos de experiência (13 anos) e já conseguiu equilibrar sua vida.

eu consigo dar aulas e esquecer os meus problemas”


Será que Moca já conseguiu equilibrar sua vida ou apenas esquecer os seus problemas? Esquecer numa profissão que é interessante para isso, porque, de certa forma, “você se envolve com outros problemas”, com os problemas dos outros.

o Magistério é uma profissão que dá um equilíbrio... você se educa pra ele, você não pode ser desiquilibrada na sala de aula”


Mas, a tarefa de conciliar continua séria. Moca está casada há 7 anos e continua no esforço de dividir sua vida entre filhos, marido e alunos.

é difícil porque tem horas que você leva tarefas pra casa e o marido quer atenção, os filhos querem atenção (são pequenos ainda)”


E, que recompensa a professora tem pela difícil tarefa que realiza e que a obriga a gastar seus momentos livres com a tarefas que leva pra casa?

só quem trabalha nessa área vê a compensação, por exemplo, meus alunos saem alfabetizados com 5 anos, alguns com 6 anos. Então há uma gratificação, é o que você plantou o ano todo; quando chega o final do ano, você tem a gratificação”.


Muito já se disse que a gratificação que o professor recebe não é material e, dessa forma, aprendeu a se conformar com ela.
E o relacionamento como fica? Fica na base da cumplicidade, da troca de experiências de umas com as outras, da que tem mais experiência para a que tem menos; fica na base da turma unida,, na troca das novidades, no coleguismo, nas confidências pessoais, fica no espaço restrito, o professor de crianças pequenas não se organiza em uma categoria.
Quando começou, Moca era apenas uma garotinha que procurava seu lugar ao sol.

não tinha experiência nenhuma, mas não foi difícil porque, eu, como pessoa, já tinha esse lado aguçado para trabalhar com crianças e não tive muitas dificuldades”


Para a “garotinha’ valeu nesse momento, o seu lado pessoal, esse lado aguçado para trabalhar com crianças, o seu jeitinho de garota que gosta de criança, o seu jeito “babá” de ser, atributos que sempre foram considerados como muito importantes para a professora de pré-escola.

de quando eu entrei até hoje, muitas coisas aconteceram”


Isto significa dizer que não foi com pouco esforço que conseguiu vencer as dificuldades para conseguir bons resultados

sempre fui uma pessoa criativa, não deixava a sala cair na rotina, buscava inovação, mas não foi fácil”


Neste momento, Moca recorda-se porque buscou o curso de Magistério (uma “ironia”) embora todas as suas amigas tenham ido fazer o científico

mas como eu tinha muita dificuldade para a Matemática, e o Magistério, na época, não exigia matemática eu entrei pra fazer, sem pensar; mas deu certo”


Nesse sentido, entrou pela porta de emergência, mas resolveu ficar.

não sei se vou ser professora pra sempre, mas sei que vou ser por um bom tempo ainda”


Essa professora que começou como babá é, paralelamente uma professora-errante, fazendo um tipo de trabalho que vai de porta em porta oferecendo saber, é a Pedagogia itinerante. Moca dá aulas de reforço nas residências e com isso acha que

eu vou me tornando melhor profissional e aumento, dessa forma, o salário que não é nada agradável; ,mas quem sabe, um dia melhora.”


Muitas coisas marcaram a experiência dessa professora, que começou cheia de medos e acha que “venceu” todos eles. O maior deles

a 1ª vez que me entregaram uma sala de alfabetização”

ensinar uma criança a ler e a escrever... mas pegou, deu conta, “deu certo”.
Para ela a profissão de Magistério ensina muitas coisas – a professora ensina, pela profissão, mas também aprende com ela

você aprende a falar as coisas corretamente, como proceder diante das outras pessoas, a gente é um exemplo para os alunos; o que sai errado eles vão carregar pro resto da vida”


É uma troca da profissional com a profissão, uma oferecendo o que tem para a outra, nesse sentido são cúmplices.
A cumplicidade estende-se também para o relacionamento com os alunos

você aprende com eles e ensina, mas no final de tudo você acaba concluindo que você aprendeu mais, porque cada dia é uma novidade,. é uma surpresa”


Moca vê a criança de hoje com muita energia, muita vontade de descobrir, de aprender cada dia

hoje em dia, o mundo facilita para a criança ter acesso a muita coisa, à informática, a perceber as coisas com muito mais rapidez do que antigamente”


Comparando o ontem com o hoje, Moca entende que a criança está muito mais preparada para a vida; a professora de pré-escola é afetiva ao falar da criança, e, para ela, essa criança é sempre uma emoção.

fica mais fácil investir nela, porque ela tem um potencial maravilhoso”


Moca tem a certeza de que a área em que trabalha é a base de tudo.

o alicerce de tudo, então não pode ter falhas, porque se transformam em seqüelas para os alunos para o resto da vida”


A professora de Educação Infantil tem consciência de que o seu trabalho está na base da aprendizagem das crianças e, dessa forma compreende isso como uma responsabilidade a mais - as possíveis seqüelas que a criança poderá carregar consigo.
Os professores pela professora

não são unidos, não sabem reunir o conhecimento que têm... essa é a lei da sobrevivência, batalhar conforme pode e assim vai”


Moca entrou na profissão pela porta porta de emergência e permanece pela lei da sobrevivência, batalha conforme pode e assim vai.
De babá à profissional, de profissional à mascate do saber, Moca vai batalhando conforme pode, nas experiências vividas, e assim vai...
Moca fala da sociedade atual, onde a luta por uma vaga, por um espaço de trabalho, faz com que as pessoas se omitam e não se ajudem umas às outras. A professora está entre essas pessoas, por isso não se une para conseguir suas conquistas.
Ela por ela

eu, por exemplo, não gosto de agitar, então em relação às reivindicações acabo esperando os outros para ver onde vai dar, fico esperando para saber os resultados”


A professora iniciante, quando começou estava em busca de um lugar ao sol, nesse sentido continua a sua busca e assim vai... na batalha conforme pode...

esperando para ver no que vai dar...”


E onde será que vai dar?
As trajetórias dessas dez professoras revelam que o seu processo de constituição vai acontecendo através da articulação de diferentes personagens que se alternam, se combinam, diferenciam-se. Há momentos em que as personagens apenas se sobrepõem, repetindo-se, mostrando que as professoras incorporam os atributos que se espera que elas tenham. Esse é um processo complicado por que há que se descobrir o que está encoberto. Nesses momentos aparece a “professorinha”respondendo às expectativas dos outros, da escola, da sociedade. Nesse sentido, seus esforços convergem para mostrar como são muito suas, coisas que vêm dos outros. Há momentos em que as professoras tentam uma transformação mais efetiva, revelando um certo nível de consciência. É a hora em que elas colocam intencionalidade em suas ações e abrem-se para “a aprendizagem”. Esse é o movimento para a ruptura com a “ personagem pressuposta”, A “personagem-mito”.

2.2. Compassos e Descompassos nas Trajetórias
A tentativa de análise das trajetórias das professoras teve um objetivo bem definido – o de procurar prescrutar em sua fala as diferentes personagens, representam e que coexistem ou se superam em seu processo de constituição, dependendo das relações vivenciadas.
Foi uma proposta difícil e, em parte inacabada. Difícil pelos tantos problemas inerentes ao próprio espaço que cerca um trabalho dessa natureza (daí o termo tentativa); de certa forma inacabada porque, o ser humano é extremamente complexo, cheio de tantas dúvidas quanto de poucas certezas, que envolve muito mais interrogações do que exclamações e, assim sendo, é também ele inacabado e está sempre se transformando.
As professoras pesquisadas constituem-se pois, de muito mais interrogações do que de pontos finais.
Por muitos e muitos anos, a grande maioria dos professores foi estudada a partir de sua dimensão cognitiva, através da necessidade de um formato de possuidor do saber e quando intenções havia a seu respeito, se as havia, eram voltadas à qualificação profissional, sempre numa postura de quem sabe o que é bom para o outro.
Para Bastos (1994),

“A preocupação combinada de selecionar os professores e de (in)formá-los segundo um certo modelo de bom professor, vem se constituindo historicamente e convergindo para o delineamento da representação da docência.” (Bastos, 1994 : 135)


Já para a professora de crianças pequenas, bastava ser afetiva, ter o “dom”, ser alegre, recrear, desenvolver um convívio social e lúdico para seus alunos. Nesse sentido, pode-se compreender porque a professora inisiste tanto nesses predicados. Já o professor de um modo geral, não precisava ser afetivo nem a professora de Educação Infantil precisava ser competente.
A professora de pré-escola não nasce no momento em que recebe o seu diploma, ela vai se constituindo, aos poucos.

Quando chega à escola para trabalhar, sem experiência nenhuma,

eu estava nada, eu estava cruazinha” (Profª. Cacá, 21 a)
eu gostava, mas não tinha experiência nenhuma” (Profª. Lau, 20 a)

ela traz os seus referenciais constituídos na “dialética entre a subjetividade e a objetividade”, entre o interno e o externo, que são as suas crenças, concepções, conhecimentos, valores adquiridos no grupo social do qual faz parte e que ela carrega consigo. Impossível despojar-se deles.


As trajetórias dessas professoras contam um pouco disso tudo, falam do sentido que têm para elas, a família, a profissão, a criança, a escola, a “turminha”, o trabalho, a vida enfim.
Nas interações diárias estabelecidas na escola, na família, na atividade que exercem, na sociedade de um modo geral, elas recebem modelos de atuação, padrões de comportamento, modos de pensar, de agir, de sentir que lhes são transmitidos nessas relações, através do processo de comunicação, pela linguagem.
Através da linguagem (enquanto processo simbólico), elas vão construindo socialmente o seu conhecimento do real e posicionando-se segundo seus interesses. Nesse sentido, a compreensão revelada pela linguagem nunca é cristalina e “desproblematizada” envolvendo entendimentos particulares, sentidos pessoais, significados específicos acerca das coisas, das pessoas e do mundo.
Dessa forma, a linguagem dessas professoras pode estar escondendo “ideologias”, pensamentos cristalizados, como pode estar sendo usada também para conservar ou transformar discursos estabelecidos e fatos dados como verdades.
Para o educador essa questão assume uma importância vital, uma vez que a sua prática é mediada pela linguagem, tanto para compreender o próprio trabalho a nível teórico, como para vivenciar na prática as “trocas” com seus alunos, sendo que, é a linguagem que vai lhe fornecer as mais variadas formas de ver e entender o mundo.
Se o processo de identidade da professora desenvolve-se a partir de uma infinidade de posições que ela assume e de variados pontos de vista que adota, mediada pela linguagem, a professora poderá se constituir nos diferentes discursos dissimulados nessa mesma linguagem.
Assim, pode ser que ela esteja muitas vezes revelando um discurso que não é o seu, mas que ela chega até a achar que é, porque lhe é tão conhecido e do qual ela se sente meio dona, porque está comodamente investida dele.
Nesse sentido, não parece tão simples ouvir e entender professoras, sobretudo porque elas estão numa

“profissão fortemente impregnada de valores e idéias e muito exigente do ponto de vista do empenho e da relação humana. (Nóvoa, 1992a : 1)


Para Barbosa (1995), o fato do professor ter que renunciar a determinadas concepções exigiria um trabalho considerável, uma “pequena-grande revolução”, quase um “despojar-se de si mesmo”.
Para que a professora comece a transformar o significado de suas experiências, ela teria que passar a analisar criticamente os pressupostos sobre os quais constrói as suas experiências.
Se essa linguagem que a professora utiliza é que a ajuda a dar sentido as suas experiências, ela fornece-lhe também a maneira de organizar o real, e conseqüentemente a possibilidade de criar novas e ricas formas de trabalhar com a criança pois,

“a maneira como cada um de nós ensina está diretamente dependente daquilo que somos como pessoa quando exercemos o ensino.” (Nóvoa, 1992a:17)


Na constituição da professora que vai acontecendo na atividade de ensinar o processo avança numa transformação contínua e por isso impossível de ser captado em momentos estanques, e difícil de analisar se trata-se de uma transformação efetiva ou não.
O desáfio proposto é tentar entender a professora nesse movimento, tentar agarrá-la nesse “trapézio” sem perder de vista que ela encerra múltiplas facetas que se arranjam e se combinam pela vida a fora, nem processo de mutação constante.

Olha, eu fazendo Pedagogia; eu já tenho 29 anos, vou continuar dando aula; será que quando eu tiver 50 anos eu vou estar trabalhando ainda? E aí, o que eu vou fazer, fazer cursos, cuidar de netos... aí eu penso: por que não fazer um Direito? Tudo é válido, nesta vida.” (Profª Cacá, 29 a)


Em seu processo de apropriação, as professoras constituem-se como alguém que faz parte do contexto cultural e que poderá desenvolver, conforme Lane (1985), um grau de consciência e um modo de agir mais crítico em relação aos parâmetros estabelecidos e às ideologias que permeiam a interpretação dessa realidade.

“ser mais ou menos atuante como sujeito da história depende do grau de autonomia e de iniciativa que ele alcança.” (Lane, 1985:40)

já fomos até ameaçados, num governo passado de sermos cassados, imagine só, cassados só por causa de uma passeata, dá para entender? Não é um absurdo?.” (Profª Malu, 54 a)

e quando eu disse que tinha 10 anos de experiência eles disseram que eu não servia. Então eu vi que o que eles estavam querendo era moldar a pessoa do jeito que eles queriam. Nessa escola eu não conseguiria trabalhar.” (Profª Cacá, 29 a)

Em escolas maiores, eu passei bastante dificuldade porque você quer um material, quer fazer alguma coisa diferente e eles não deixam. Eles impõem um ritmo de vida para gente, passam o ponto de vista deles pra gente e querem que se trabalhe aquilo.” (Profª Wal, 23 a)
Ou então pode acontecer o contrário, a relação pode ser de dominação.

“através da mediação superestrutural, via instituições que prescrevem os papéis sociais e que determinam as relações sociais de cada indivíduo.” (Lane, 1985:41)


O MEC, ao propor as Diretrizes Gerais que orientarão as ações da Educação Infantil, nos próximos anos (a partir de 1994), reafirma essa relação: no item 2.2 (Diretrizes para uma política de recursos humanos)
A formação do profissional de Educação Infantil, bem como a de seus formadores, deve ser orientada pelas diretrizes expressas neste documento.

e no item 3 (Objetivos da Política de Educação Infantil) observa:

“2. fortalecer, nas instâncias competentes, a concepção de Educação Infantil definida neste documento.”
Essas reflexões levam à compreensão de que as próprias políticas educacioais podem impedir que o processo de “identidade” da professora se desenvolva de forma efetiva, gerando uma “personagem-mito”, conservando personagens que procuram corresponder “ao modelo” imposto para elas, impedindo-as de viver a própria transformação. Nesse sentido, as profssoras tanto podem reagir às condições externas, como podem servir de instrumento para que elas se consolidem.
Bastos (1994), ao analisar o discurso de construção da identidade do professor em um periódico pedagógico, editado no Rio Grande do Sul (Revista do Ensino) de 1931 a 1942, afirma o seguinte:

“A imprensa pedagógica constitui-se em um dispositivo privilegiado para a reflexão sobre o modo de produção do discurso sobre o ser docente. Os professores pensam o mundo da maneira que falam sobre ele, testemunhando o universo de crenças que permeiam seu cotidiano, através de relações metafóricas com a conjuntura social e histórica.” (Bastos, 1994:135)


Nesse sentido, a autora afirma que a revista, falando de professor a professor, tem o objetivo de fortalecer, em cada educador, a consciência integral de suas funções e deveres”, e o professor vê na imprensa pedagógica um veículo formador de uma postura individual e social.
Pra que eles queriam uma pessoa sem experiência? Uma pessoa experiente você troca com ela. Mas por que não uma pessoa experiente para vocês também fazerem a troca?” (Cacá, 29 a)

Se a gente pára pra pensar, chega à conclusão que fazer um curso superior não ajuda quase nada, não é incrível?” (Wal, 23 a)

a criança mudando de nível... e você se tornando melhor a partir do crescimento dela. Ela exige, não exige? A criança vai crescendo junto com a gente. Você já pensou nisso? (Adri, 27 a)
Importante levantar elementos que ajudem na compreensão do processo de apropriação da realidade por essas professoras entrevistadas, em suas experiências diárias e na historicidade em que essa realidade é interpretada. Os tópicos que se seguem revelam a sistematização desses elementos e a intenção que eles contém:
1- De como a professora de pré-escola faz “a sua opção pela carreira do Magistério” e que, em sendo pelos mais variados motivos, pode até ser pelo simples fato de poder tornar-se professora.
No princípio era a escolha; ao sair do 1º Grau, a primeira parada obrigatória; parada para refletir em que curso se matricular.
Esse é o momento crucial na vida da jovem mulher - o ingresso num curso que poderá encaminhá-la para uma profissão - professora de crianças pequenas, que se dá a nível de 2º Grau.

eu fui fazer o curso de Magistério para não perder o emprego de professora leiga que havia arrumado.” (Malu, 53 a)


As mulheres ingressam no curso de Magistério por muitos motivos, sem saber bem o que estão fazendo ou então, sabendo muito bem o que não estão querendo; isto é, muitas vezes não ingressam porque querem, ingressar porque não querem.

como eu tinha muita dificuldade para a Matemática e o Magistério, na época, não exigia Matemática, eu entrei para fazer, sem pensar.” (Moca, 28a)


Interessante saber quais os motivos que levam uma jovem a optar pelo curso de Magistério, o que significa dizer, que nesse momento, ainda não estão optando pela profissão de professora, isso fica à distância, faz parte do depois.

eu comecei a fazer o curso de Magistério mais por incentivo da minha mãe; ela queria uma filha professora.” (Wal, 23 a)


No princípio era a escolha; escolha que poderia abrir as portas à profissão; ou não; escolha no sentido de uma simples opção por um curso de 2º Grau.

a minha opção pelo curso de Magistério, a princípio eu achei que foi porque uma colega minha começou a fazer, a outra também e eu acabei me encaminhando para o Magistério.” (Mazé, 31 a)


A professora de pré-escola faz a sua opção pela carreira do Magistério por muitas razões, mas na verdade, quando ingressa no curso, está escolhendo um curso de 2º Grau, que lhe oferece a possibilidade de uma profissão, isto é, que poderá levá-la a ser professora (se gostar).

eu resolvi fazer o Magistério porque sempre gostei, desde pequena, no Natal eu ganhava lousa de presente para escrever, mas também fui incentivada por uma prima professora.” (Lau, 20 a)

ou não (se não gostar); ou ainda que pode aprender a gostar (por necessidade ou por incentivo)

pelo clima da escola, das pessoas, eu fui me interessando cada vez mais, tanto que eu fazia o Científico naquele ano e mudei para o Magistério.” (Julie, 21 a)

e que lhe oferece a chance de fazer o 3º Grau (Pedagogia, geralmente) que lhe poderá abrir novas portas (se quiser ou se puder, principalmente).

eu não tinha intenção de dar aula, eu fiz o Magistério porque eu queria ter o 3º Grau, para a minha vida.” (Reni, 40 a)


Além disso, ser professora é uma coisa boa pois tem tudo a ver com o trabalho da mulher, com as funções que ela executa na própria casa, da qual a escola não deixa de ser um prolongamento

olha, essa profissão de professora é muito interessante, porque tem tudo a ver com a minha vida pessoal.” (Adri, 27 a)

e educar crianças profissionalmente, não deixa de ser uma forma honesta e digna de se ganhar um salário. O Magistério sempre foi considerado um trabalho tanto docente, como decente para a mulher, e continua sendo.

eu nem pensava em fazer o Magistério, foi uma coisa assim; “da noite-pro-dia” porque eu resolvi casar e eu pensei assim se eu fizer o Contador, o meu marido não vai gostar que eu trabalhe no escritório.” (Cacá, 29 a)


Para Almeida (1966), o discurso ideológico, construiu uma série de argumentos que davam para as mulheres um conceito de melhor desempenho na educação, pelo fato de a idéia da docência estar ligada à maternidade e ao espaço doméstico. Essa ideologia reforçou os estereótipos e segregou sexualmente as mulheres.

você não podia sair de perto da família senão as mulheres se tornariam todas prostitutas, então a opção que eu tive foi fazer o Magistério, foi o que eu tinha para fazer.” (Su, 43 a)


No princípio era a escolha; escolha porque a jovem precisava decidir qual curso fazer e foi para o Magistério; uma por isto; outra por aquilo; mas todas dentro do único motivo - não pensando em ser professora, naquele momento. Só uma resolveu porque sempre gostou, mas tinha uma prima que a empurrava e, além disso ganhava lousa de presente de Natal.
É dessa forma que essas professoras encontram-se na diversidade, somam-se nas diferenças e igualam-se no mesmo motivo.
Mas ser professora não é fazer uma opção, a professora vai-se constituindo no depois, aos goles, roendo pelas beiradas, nas experiências idas e vividas da profissão, e aí ela diz que passa a gostar e vai permanecendo, num envolvimento que tem muito de passional e que corresponde a um modelo iodealizado para ela.

eu gosto muito da pré-escola, de conviver com as crianças, da forma como elas se colocam, acho tudo muito bom. Acho maravilhoso também o resultado do trabalho.” (Lau, 20 a)

mas que pode se transformar num futuro próximo, em mais profissional. As professoras de pré-escola estão mostrando que não querem mais ser vistas apenas como a babá amorosa.

pretendo continuar sim na pré-escola. Então só porque eu tenho Psicopedagogia não vou mais continuar na pré-escola? Quem dera que todas as escolas do Estado tivessem professoras de pré-escola psicopedagogas.” (Mazé, 31 a)

sempre fiz cursos, freqüentei congressos, fiz curso no Uruguai abrangendo os 3 países - Uruguai, Brasil e Paraguai e todos os cursos que tinha acesso eu ia fazendo.” (Moca, 28 a)

eu acho que se o professor melhorar o seu trabalho, ele pode se valorizar; ele e seus alunos, na sala. Não adianta querer melhorar só ele.” (Julie, 21a)


A professora de pré-escola aqui se representa pela professora por-acaso convicta, a professora por-acaso assumida.
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