Personagem professora



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2- De como “a permanência na profissão” ainda se dá, independentemente dos problemas da profissão, que, sendo muitos acabam sublimados em função de uma recompensa que atravessa as fronteiras do aspecto material
Já foi dito que as mulheres podem entrar num curso de Magistério sem saber muito bem o que estão fazendo, mas é preciso que se diga também que elas têm sérios motivos para permanecer onde estão.
Na primeira parte deste trabalho, tentou-se retormar a questão da feminização do Magistério sob a ótica de profissão adequada à mulher, construída em seu processo de socialização.
Para Lopes (1991),

“o trabalho feminino não pode ser pensado como uma decisão individual mas como reflexo do mercado de trabalho disponível... e em cargos onde se espera encontrar mulheres.” (Lopes, 1991, 27)


Nesse sentido, quando se tenta observar a mulher, em seu trabalho, necessariamente recapitula-se o seu processo de socialização.
Interessante observar como as professoras sentem-se em relação à carreira onde estão, o que é melhor e o que é pior nesse processo.

Mas sempre foi bom ser professora, mesmo naquela época, sendo leiga e ganhando pouco, como até hoje se ganha. Como professora eu podia dar atenção à família, como secretária eu tinha que trabalhar o dia todo e estudar à noite. O salário é que pega, toca fundo.” (Malu, 53 a)

Foi uma profissão que hoje eu vejo assim que me ajudou muito. Então foi um passo que da noite-pro-dia eu resolvi fazer, mas hoje eu vejo que foi muito bom pra minha vida.” (Cacá, 29 a)
As professoras dizem que estão contentes com a profissão que têm, e se mostram algum desgosto, esse desgosto não parece estar ligado à profissão em si mesma e sim aos problemas inerentes a ela como é o caso do baixo salário e a desvalorização da figura do professor, uma queixa que pode ser considerada uma unanimidade nacional.

para ser professora, você tem que gostar, não pode ser por causa do salário, o salário não dá; você tem que se satisfazer com a criançada... o que tem contra o professor (além do salário) é o preconceito, parece que não é uma profissão - ser professor.” (Wal, 23 a)


A mulher pode ser encaminhada para a profissão em função dos valores sociais, mas o fato é que ela permanece ali e diz que gosta.

Como já foi muito dito em vários estudos dessa natureza, conta pontos a favor, o fato da profissão de Magistério conviver bem com a mulher e com o casamento. Essa questão já foi muito pensada e pode ser comprovada nos vários depoimentos das professoras.

Mas para mim, com o meu filho é uma profissão muito boa, porque possa levá-lo comigo.” (Wal, 23 a)

como a milha filha estudava à tarde, para não ficar indo e vindo, eu ficava lá e então... eu ajudava as professoras, aí eu comecei a gostar.” (Reni, 40a)


A profissão de Magistério para a mulher, parece não colocar grandes obstáculos ao casamento.

olha não é nada fácil você conciliar esses papéis de professora, esposa, mãe, principalmente nos finais de semana; às vezes o marido quer sair e você está envolvida nos cadernos, nas pesquisas, não é nada fácil, mas pra gente que gosta, sempre dá um jeitinho e acaba conciliando as coisas.” (Adri, 27 a)


Mas, em se tratando de professoras de crianças pequenas, existe um toque mágico na relação, um clima mais suave e mais colorido na fala e um brilho mais evidente no olhar.
A professora centra a sua profissão na figura da criança e fala com um certo grau de paixão, revelando em seu discurso uma relação afetiva.

eu quero ficar com essa turminha, as crianças são muito queridas; você vê na criança uma pureza uma inocência, elas estão dispertando para a vida; elas são muito amigas.:” (Malu, 53 a)


Nesse sentido, a professora acaba repetindo o discurso da “pureza e da inocência” da criança como pontos importantes em sua profissão. Nesses momentos ela é a personagem que repete, a si mesma ou ao modelo proposto; nesses mometos ela corresponde às expectativas e seu interesse centra-se em mostrar-se assim.

a pré-escola possibilita esse aconchego; eu vou atrás deles na outra sala.” (Cacá, 19 a)

Gosto muito de crianças, sempre gostei eu gosto demais da pré-escola, de conviver com as crianças... acho tudo muito bom.” (Lau, 20 a)
Ao falar da criança, é só coração, e vai desfiando seu rosário de amor.

eu me vejo assim, quando estou com as crianças, eu sou muito mãezona, sou mãezona mesmo, aquilo ali é meu, tem hora que eu protejo demais, eu vivo no mundo deles, se eu vejo eles brincando de uma forma diferente do adulto, eu vou por meio deles eu procuro imitar eles em tudo, viver junto com eles mesmo, descer lá embaixo, começar a infância de novo.” (Adri, 27a)


As professoras conseguem ser tão iguais e ao mesmo tempo, tão diferentes, ou melhor dizendo, elas são tão diferentes apesar de serem aparentemente iguais.
Falar sobre a criança é importante para essas professoras; elas podem falar diferentemente, mas adoram falar. Umas com mais ardor

a gente continua trocando muito e por incrível que pareça em todo lugar que a gente vai (até no Shopping) a gente está sempre falando de crianças, até os maridos acabam ficando de lado, mas eu acho que ser professora é isso mesmo, é estar sempre falando de crianças.” (Adri, 27 a)

outras com mais profissionalismo.

imagine você dar uma aula e a criança só ter pra dizer hoje eu pintei, desenhei, peguei um livro; não é diferente de você ver a criança conversar sobre o sol, os astros, os planetas, como quem sabe?” (Julie, 21 a)


Diferenciam-se na forma como falam, mas adoram falar sobre elas, as suas crianças, em todo o tempo e lugar (até no Shopping!).
A criança surge sempre no centro de sua profissão, e parece ser a força que a move, e ao mesmo tempo, por mover a profissão, mantém presa a professora. E é assim que ela fica amarrada nesse movimento.
Seus depoimentos falam do sentido que tem para elas a turminha pela qual se sentem responsáveis, meio mãe, meio avó, meio dona, um pouco de cada coisa, tudo junto e também professora.

o que eu faço é fazer eles aprenderem... então, eu praticamente alfabetizo para eles não terem muita dificuldade na 1ª série; se eu não alfabetizo eles levam um choque na 1ª série porque é diferente de brincadeira, de massinha, e do joguinho e muitas professoras nem usam cantar e fica difícil para a criança.” (Su, 43 a)


A professora de pré-escola parece ter um jeito “herdado” de ser e de viver a profissão, consolidado no pensar e no agir pedagógico. A professora parece que gesta a sua profissão, mas é uma gestação que não lhe faz mal nenhum, muito pelo contrário... deixa-lhe um brilho no olhar. Carinho e maternidade nunca fizeram mal a ninguém. Os problemas existentes na carreira extrapolam o pequeno espaço, atravessam as paredes da sala de aula e engatam-se no movimento da história.
Na Grécia antiga, fragmentos de comédias gregas já mostravam o desprestígio do pedagogo, visto como o “velho de quatro centavos” e o ofício de ensinar como humilde e até constrangedor para quem o praticava. Em Roma, o professor primário era o “joão-ninguém, sua profissão” a última das profissões, res indignissimam, fatigante, penosa mal paga”. E o Édito de Deocleciano (ano 301 d.C), além de fixar os salários de outras profissões, revelou as grandes diferenças entre os salários dos professores dos vários graus e o conceito em que era tido o professor primário, na sociedade romana de classes.
Ao se tentar recuperar o percurso da categoria professor primário, pode-se observar que o professor sempre ganhou pouco e mal, ou não ganhou nada, e a sua profissão representou uma questão de “status” social, pelo fato de estar afastada do trabalho físico, considerado como degradante. Nesse sentido, a profissão de professora sempre foi desvalorizada, se se raciocinar em termos de remuneração recebida.
Enguita (1991), fez observações interessantes em seus estudos sobre essa questão, mas afirma que os professores continuam em sua profissão porque desempenham “tarefas de alta qualificação se comparados a outros trabalhadores assalariados e ainda conseguem conservar um pouco do controle sobre o próprio trabalho.
Mas foi assim que a profissão chegou até a mãos das mulheres: empurrada - porque o ensino é uma atividade extra-doméstica que a ideologia consagrou como adequada às mulheres; porque as famílias de classes médias enviavam seus filhos homens para profissões com maior valor no mercado, e as suas filhas mulheres para profissões com menor valor; ou porque, para as famílias dos estratos mais baixos da classe média, o Magistério ainda representava uma opção - mas acontece que ao cair nas mãos das mulheres, encontrou braços abertos para agarrá-la.
E ao chegarem, as professoras permaneceram e dizem que gostam da profissão, e os problemas que enfrentam têm menos a ver com a relação afetiva com a criança da qual se sentem um pouco mãe, e muito mais a ver com a carreira, da qual não se sentem nem filha, nem empregada considerada, e essa questão tem raízes históricas, como já se viu.
O problema que se coloca para as professoras de pré-escola parece estar menos ligado à relação afetiva da professora com as crianças e mais situado na questão da vivência do papel de mãe na profissão; o problema parece residir no fato da professora ter consentido em representar esse papel que lhe foi proposto.

Todo salário do professor é baixo, eu acho que eu mereço mais. Eu acho importante o professor querer mais, mas ele tem que mostrar serviço.” (Julie, 21 a)


Eu acho que principalmente o que tem contra o professor (além do salário) é o preconceito, parece que não é uma profissão ser professor, parece que é das menos capacitadas, o que na realidade não é; você precisa ter muito conhecimento para passar para uma criança.” (Wal, 23 a)
E, não resta a menor dúvida de que é uma profissão em que a mulher diz sentir-se bem, não oferece grandes obstáculos à sua realização (exige o nível de 2º Grau) e convive razoavelmente bem com o casamento.

O Magistério não atrapalhou meu casamento; um não atrapalhou o outro; meu marido sempre me deu apoio; às vezes ele até acha graça de eu estar recortando papelzinho, fazendo lembrancinhas, nunca tive problemas nesse aspecto.” (Wal, 23 a)


Lopes (1991), observa que sempre foi ofício das mulheres ensinar; aos homens cabiam os saberes e às mulheres continuar cuidando da vida. Por isso

“teciam, bordavam, cantavam, tocavam diziam poemas, às vezes contavam e liam” (Lopes, 1991:25)

tudo o que continuaram fazendo por muito tempo com os seus aluninhos.
Dessa forma, o movimento da constituição da “identidade”dessas professoras de pré-escola pode incorporar o movimento da constituição da “identidade” da própria mulher.
Pereira (1969), verificou em seus estudos que, na década de 50, as mulheres participaram menos da população economicamente ativa do País, mas no Magistério, verificou-se que uma grande maioria dela era casada, o que significa que elas podiam conciliar casamento e profissão.

eu comecei a dar aulas, um mês antes de me casar, mas a minha profissão não atrapalha o casamento, eu consigo conciliar muito bem, e o meu marido viaja muito e eu não tenho nenhum problema nesse sentido.” (Lau, 21 a)


Charlot (1979), ao estudar a idéia de criança para a Pedagogia, afirma que ela traz embutida as significações ideológicas das idéias de cultura e de natureza humana.
Dessa forma, a Pedagogia tradicional ratifica as desigualdades sociais, denuncia as aspirações individuais opostas ao social e respeita hierarquias sociais. Neste sentido, satisfaz as necessidades de uma sociedade aristocrática tornando-se a

“pedagogia dominante da sociedade burguesa.” (Charlot, 1979:137)

a Pedagogia nova ao contrário, afirma a igualdade entre os homens, mas para ela a criança é filha da natureza e não herdeira das gerações precedentes. Insiste no caráter positivo das potencialidades e considera as crianças como tendo possibilidades iguais, não fugindo ao pensamento burguês, ao desconsiderar as diferenças e colocá-las fora do campo pedagógico. Para o autor, o problema então não é o da relação entre a criança e o adulto, entre um indivíduo e outro, é o

“da relação entre a criança e o mundo social adulto, com suas estruturas e suas lutas.” (Charlot, 1979:138/144)


Lopes (1991), afirma que o passado não passou inteiramente e, em 1991, as escolas ainda estão cheias de

“mulheres que adoram uma sala de aula. Que vendem roupas, bijouterias, material de limpeza, quitandas, não importa o quê para ganhar a vida, sustentarem a si mesmas e provavelmente aos filhos, mas sentem um chamado irrecusável para serem professoras. Por alguma recôndita exigência.” (Lopes, 1991:29)


Em 1997:

além da escola, eu também faço outras coisas, porque, hoje em dia, não dá para esperar só pelo fixo, então eu faço pão, biscoito, tortas geladas e acho tempo, sabe?... eu sempre digo: o que adianta ganhar bem e fazer uma coisa que eu não gosto?” (Cacá, 29 a)


Cabe lembrar aqui que pesa muito para Cacá o fato da profissão não garantir a sua sobrevivência; o que faz além de ser professora é para ajudar no orçamento familiar. Ser professora é a sua “profissão” não é uma “recôndita exigência” e fazer outras coisas (“só o fixo não dá”) é uma questão financeira. Além disso, ainda não lhe apareceu essa tal oportunidade de “ganhar bem” para fazer uma coisa da qual não gosta: o salário do “Banco” com as desvantagens que traz, não é melhor do que o da professora/confeiteira que pode dispor ainda de um período para organizar sua vida.
Essas professoras mantêm com a profissão uma relação de fidelidade, o que significa dizer que não lhe fizeram uma jura de amor eterno.

já me convidaram para ir para a MEC, mas eu não quero, na última hora, eu não vou, eu resolvo ficar na sala de aula, porque eu adoro as minhas crianças.” (Reni, 40 a)



sei que vou ser professora por um bom tempo, não sei se vou ser pra sempre.” (Moca, 28 a)
Malu, Su e Reni vão se aposentar como professoras de pré-escola. Malu, já tem uma aposentadoria, mas resolveu começar tudo de novo. A pré-escola nasceu do recomeço e pretende terminar na próxima aposentadoria. Poderia ter mudado de profissão e não mudou e para continuar teve que se “habilitar” para poder ficar (diz que não foi por comodismo).
É verdade que Malu teve que fazer mais um curso para continuar no pré, preferindo até “inconscientemente” optar por permanecer e usando justificativas até razoáveis. Valeria a pergunta - o que deveria fazer para mudar de profissão e o que ganharia nessa mudança? Em que sacrifício essa mudança implicaria?
Su só gostaria de poder trabalhar um período apenas, para poder curtir melhor a vida mas não pode por causa do salário. Mas não quer mudar de profissão. Acha que assim ainda está melhor do que se fosse procurar outra coisa. Essa é uma questão importante que se coloca para a permanência da professora na profissão; talvez pela insegurança do que vai encontrar pela frente, talvez pelo receio de abandonar o velho pelo novo que poderia trazer mudanças mais complicadas.
Reni já teve outras ofertas, mas não aceitou. Prefere continuar onde está na pré-escola. É bom que se diga que as outras ofertas que Reni teve referem-se a mudança de função com aumento de carga-horária.
Adri, Mazé, Moca e Wal pretendem continuar sendo professoras de pré-escola. Adri e Mazé podem até pegar uma vaga de coordenadora do pré, mas em um turno, no outro querem ficar na “sala”, acham importante; não obedecem a lei do faça o que eu mando e ser “coordenadora” implica em ascender na carreira.
Moca acha importante manter o emprego (pensa prático), nesta vida moderna as pessoas estão lutando por seu lugar ao sol, por um espaço no trabalho; mas acha importante corresponder.
Wal quer uma escola só sua, onde ninguém invente de mandar, pode dar-se esse “conforto” e vislumbrou na nova escola uma saída.
Lau, Julie e Cacá vão continuar sendo professoras de pré-escola. Lau, quando se aposentar, quer mudar - quer ser professora de professoras de pré.
Cacá quer continuar, acha que não adianta ganhar mais e fazer uma coisa que não gosta; pensou em abrir um negócio, só seu (de doces e tortas) por causa do dinheiro, mas desistiu, desistiu também por causa do dinheiro que não tem. Talvez um dia, ainda seja advogada, quem sabe...
Julie vai ser professora de pré-escola, enquanto durar “o amor e a paixão”; não prometeu o até que a morte nos separe, mas por enquanto (enquanto durar) diz que está bem e é fiel.
As recompensas que essas professoras esperam encontrar na profissão não são de cunho material e muitas vezes elas pensam em vantagens compensando as desvantagens. Na hora de colocar num prato da balança o baixo salário recebido, a desvalorização, ou um outro trabalho qualquer, também tão mau remunerado quanto o seu, a balança pende para o outro prato onde estão o marido, o filho, o casamento, a base de operações, a família, e sua “profissão de origem”. Na gangorra da vida, é importante achar o ponto de equilíbrio.

sou casada há 7 anos e consigo conciliar filhos, marido, alunos. É difícil porque tem hora você leva tarefas pra casa e o marido quer atenção, os filhos querem atenção, são pequenos ainda, mas só quem trabalha nessa área, vê a compensação.” (Moca, 28 a)


Moca desperta curiosidades... qual seria essa tal “compensação” nesse sofrido processo?

por exemplo, meu alunos saem alfabetizados com 5 anos, alguns com 6; então há uma gratificação; é o que você plantou o ano todo, e quando chega o final do ano, você tem a consagração.”


Apple (1991), em seus estudos sobre o trabalho docente questiona se o professor estaria perdendo o controle sobre seu próprio trabalho, uma vez que a mudança de controle estaria sendo feita em áreas distantes dos corredores e das salas de aulas das escolas, fato que levaria a uma separação entre a concepção e execução. Essa questão não deixa de ter uma importância crítica, mas as professoras de pré-escola entendem que ainda não perderam esse controle, uma vez que não se desgarraram do resultado da própria atividade. As professoras acham que no trabalho docente, ainda existe uma ligação entre o trabalho e o produto, embora sendo um produto inacabado.

A Alfabetização é a hora que afeta mesmo (você ensina e a criança aprende)... aí você vê toda aquela alegria, aquele entusiasmo dele poder aprender.” (Cacá, 29 a)

Mas, uma coisa que me marcou este ano também foi o relacionamento com as crianças, eu cresci com elas e acho que a separação vai ser difícil. As trocas foram melhores, eu aprendi mais. No ano passado, nem todas as crianças leram ao mesmo tempo e este ano sim. Este ano eu trabalhei a minha ansiedade e a deles também; é ver que você conseguiu, que as crianças estão lendo e vão bem para a 1ª série.” (Julie, 23 a)
Mazé afirma que

na pré-escola dá para você perceber isso, fica muito mais fácil você ver que o aluno constrói o conhecimento dele e como ele constrói.”


E isso é muito importante para essas professoras de pré-escola: ver o resultado do trabalho que realizam. É provável que seja por esse motivo (na pré-escola é “mais fácil” ver o resultado) que elas se sintam mais “leves.”
As professoras de pré-escola não se mostram desiludidas com a atividade que realizam; suas frustrações pertencem às reivindicações do professor como categoria.
Mas, em se tratando de professoras de pré-escola parece existir um componente a mais:

você vê na criança uma inocência, elas estão despertando para a vida... ir para a pré-escola é como sair de uma zona de intenso movimento e ir para uma zona mais calma.” (Malu, 53 a)

a criança da pré-escola é uma criança muito mais de bem com a vida”, com o mundo. Dificilmente você encontra uma criança mal-humorada.

... e tem também as regalias,” (Su, 43 a)
As professoras encontram diferentes motivos para permanecerem na profissão - além de poder conciliá-la com a sua vida particular, a criança menor é mais fácil de trabalhar do que a de 1º grau, existem as “regalias” já apontadas e o trabalho é mais livre. Também é uma profissão para a qual não é exigida formação em nível de 3º Grau e assim as professoras podem fazer a Faculdade (quando fazem) já trabalhando para poder mantê-la. É uma profissão que os maridos “aceitam” com muito mais tranqüilidade, e as professoras sentem-se “vitoriosas” com essa “conquista”. Os maridos sempre “deixam” as suas mulheres serem professoras de crianças. São tanto os motivos apontados como já se viu, mas também, as mulheres acabam permanecendo porque precisam de seu trabalho. E a recompensa parece que surge do fato do Magistério ter um certo poder de formar seres humanos e de se sentir um pouco responsáveis por eles.

você orienta, politiza, faz com que eles se tornem mais independentes, que eles tenham iniciativa própria.” (Su, 49 a)

eu vejo um pintinho assim, longe de mim, eu já vou e falo, quero saber de tudo.” (Adri, 27a)

o que sair errado, eles vão carregar por resto da vida.”. (Moca, 28 a)


É fato que, nesse sentido, a profissão de Magistério mostra-se mais nobre do que as outras, mas é fato também que a professora de pré-escola, ao falar de suas crianças passa uma emoção que talvez não passasse ao vender peças de roupas no Shopping, material de limpeza ou bijouterias para viver.
Huberman (1992), em suas “questões apaixonantes” pergunta:

as pessoas estão mais ou menos satisfeitas com suas carreiras em que momento de sua vida de professor? (1992:31)


Acredita-se que as professoras de pré-escola responderiam assim:

é a hora que a criança começa a aprender o que é letra, o que é número, é a hora que você vê que ensinou a criança.” (Cacá, 29 a)

é a hora que você é uma pessoa muito importante para eles, é a descoberta.” (Wal, 23 a)

meus alunos já não são analfabetos, aos seis anos de idade.” (Moca, 28 a)

as crianças estão lendo, e vão muito bem para a 1ª série.” (Su, 49 a)

você vê ali, na sua frente, o que você está fazendo, e o resultado é muito compensador.” (Lau, 20 a)


Parece ser essa a recompensa do trabalho docente (que não é material) e nesse sentido, ele conserva a marca de sua especificidade - não se perdeu de todo na alienação; não se desgarrou definitivamente do seu resultado.

Então, como eu estou nesse trabalho eu percebi isso; na pré-escola dá para você perceber isso, fica muito mais fácil você ver que o aluno constrói o conhecimento dele e como o constrói. É importante observar como no grupo, cada um tem o seu ritmo e um sempre acaba ajudando o outro.” (Mazé, 31 a)


Observa-se que o discurso das professoras encerra mudanças; ele traz as marcas das tendências emergentes na Educação. Por duas décadas, as professoras vêm consumindo um discurso mais científico passado pela Psicologia, principalmente pelos psicólogos construtivistas. A expressão construir a aprendizagem passou a resumir as propostas pedagógicas de vanguarda, tanto em relação à criança, como ao professor.

você está ali para desenvolver o que é preciso, quanto à linguagem, quanto ao raciocínio lógico-matemático, o que ela pode fazer em relação a isso, o que ela pode descobrir.” (Lau, 20 a)


As professoras que nasceram nestas últimas décadas trazem impressas as marcas desse discurso, as professoras mais antigas, colocam um pouco de resistência.

por mais que existam inovações, coisas diferentes você não entra “de cabeça” vai com calma.” (Su, 41 a)


Mas, todas elas concordam que existe uma nova criança para a qual estão a precisar de idéias novas, de novos conhecimentos diferentes ferramentas para o trabalho.

a gente precisa mudar para entender essa criança; a criança de hoje não é mais como a de antes... a gente tem que ser flexível... ser professora de pré-escola hoje é como pisar em areia movediça.” (Malu, 63 a)

você precisa ter muito conhecimento para passar para uma criança, principalmente agora que elas são muito abertas, muito críticas, muito ávidas para aprender.” (Wal, 23 a)

e as crianças hoje, já não são as mesmas.” (Mazé, 31 a)


Charlot (1983), alerta para o fato de que a criança é a imagem elaborada pelo adulto e pela sociedade que se projetam nela e a partir dessa imagem, a criança procura se identificar com o modelo criado por essa projeção. Compreende-se, portanto,

“que essa imagem evolua historicamente.” (Charlot, 1983:109)


Sabe-se também que o discurso mudou e atingiu em cheio a Educação Infantil.

“esse é o professor que todos desejamos: alguém que não está obedecendo cegamente a ordens, mas um professor profissional que sabe porque tomar decisões, pode justificá-las e discuti-las... se pretendemos respeitar o tempo do professor, o processo é lento, a longo prazo, por muitos anos.” (Ferreiro, 1990:3)

“A autonomia como finalidade da educação implica uma nova conceituação de objetivos... Ironicamente muitos educadores gostariam de ver a autonomia moral e a autonomia intelectual em seus alunos. A tragédia está em que, por não saber a distinção entre autonomia e heteronomia e por terem idéias ultrapassadas sobre o que faz as crianças “boas e educadas” continuam a depender de prêmios e punições, convencidos de que estes são essenciais para a produção de futuros adultos bons e inteligentes.” (Kamii, 1992:124)
Mudaria o discurso, ou mudou a professora? Sabe-se que o discurso mudou e foi voltado principalmente à professora que trabalha com as crianças menores, e ela, que se vai constituindo aos poucos, e “a longo prazo” em sua profissão, muito nele e por ele, já passa a apresentar as marcas deixadas nesse movimento - já não quer mais ser vista apenas como a mão que balança o carrinho do nenê. Seja ela jovenzinha ou não, entende que “se profissionalizar” é preciso.
A professora de pré-escola parece um pouco mudada em sua atividade e a babá amorosa está trocando de lugar com o profissional da Educação Infantil, que traz em seu discurso as pegadas oriundas das contribuições emergentes das correntes psicológicas.

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