Personagem professora



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1.3. O processo de constituição da “identidade” no movimento das relações sociais.
João era fabulista?

fabuloso?

fábula?

...............................



Um estranho chamado João

para disfarçar, para farçar

o que não ousamos compreender?

................................

João era tudo?

tudo escondido, florindo

como flor é flor, mesmo não semeada?

...............................

Tinha parte com... (não sei

o nome) ou ele mesmo era

a parte de gente

servindo de ponte

entre o sub e o sobre

que se arcabuzeiam

de antes do princípio

que se entrelaçam

para melhor guerra,

para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João

e se João existiu



de se pegar. (Carlos Drummond de Andrade)
Para se tentar compreender o processo de constituição das professoras no movimento das relações vivenciadas é importante recorrer às contribuições dos teóricos soviéticos, a partir da concepção de homem e de mundo por eles adotada.
Ao tentar construir uma Psicologia menos abstrata, a partir de uma revisão na Psicologia clássica, os psicólogos soviéticos, liderados por Vygotsky, pretenderam sistematizar uma abordagem que ajudasse a melhor entender as funções cognitivas complexas de um sujeito contextualizado e portanto histórico e para isso buscaram subsídios no materialismo histórico que estuda os fenômenos em movimento e em mudança.
A busca das colaborações de Vygotsy e Leontiev para este trabalho tem a intenção de encontrar algumas explicações que possam ajudar nas análises, procurando entender a professora de pré-escola como um sujeito histórico/concreto e tentando compreender os fenônmenos subjetivos como um reflexo da realidade objetiva. Nesse sentido, o objetivo é romper com as idéias cristalizadas a respeito do desenvolvimento do psiquismo humano, na tentativa de estudar o processo de constituição das professoras em suas transformações. Nessa perspectiva, o trabalho realizado por elas aparece com um elemento também importante em seu processo de constituição.
Embora Vygotsky tenha vivido(1896/1934) em plena efervescência da revolução russa de 1917, seu interesse estava voltado para o que ele denominava de “crise da Psicologia”, ou seja, os conflitos nos quais os “naturalistas” e os “mentalistas” haviam desmembrado a Psicologia. Seus esforços concentravam-se portanto, na busca de uma nova explicação para as origens das formas superiores de comportamento consciente e para a participação ativa do homem em sua interação com o meio externo.
Na década que se seguiu à revolução de 1917, Vygotsky viveu o processo de modernização da União Soviética, com o desenvolvimento da industrialização, da reforma agrária e da expansão da alfabetização do povo russo.
Já Leontiev que deu continuidade a seus estudos, viveu um momnto mais conturbado(1904-1979), sofrendo pressões políticas mais intensas que seu companheiro de estudos.
Após a morte de Vygotsky(11/06/1934) e a proibição da publicação de suas obras na Rússia por motivos políticos, Leontiev viveu o início da ditadura stalinista(1929) e o período mais violento do regime(1936-1937).
Nesse sentido é que seus estudos parecem trazer a marca do período que se seguiu, muitos pressionado pela necessidade de servir aos interesses do regime russo. Os estudos de Leontiev pertencem a esse período histórico que continuou até 1956, quando Kruchev da início ao processo de “desestalinização” na União Soviética e as obras de Vygotsky voltam a ser publicadas.
Ainda assim, embora sofrendo esse tipo de crítica, os estudos de Lecontiev são de fundamental relevância para a compreensão do desenvolvimento do psiquismo humano.
Na perspectiva de Vygotsky, o organismo e o meio exercem influência um sobre o outro, modificando-se ambos, nessa relação. O desenvolvimento do homem é produto da apropriação pelo sujeito da experiência histórica e cultural acumulada. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que internaliza esse meio, ele intervém nele em benefício próprio, sendo transformado por ele. É desse modo, que o homem se torna a criatura (o produto) e o criador.
Torna-se importante entender que essa apropriação do homem não se dá numa relação simples de sobreposição, de armazenagem de conhecimentos, de acumulação de experiências e sim, numa articulação dialética que acontece desde o seu nascimento. É por isso que ele se constitui, ao longo de sua existência e da história – pela apropriação da cultura acumulada pelas gerações que o precederam.
Quando se diz que o homem se constrói também na atividade, não se está querendo falar da atividade pura e simplesmente, mas do conteúdo apreendido nessa atividade, da internalização das experiências vivenciadas. As marcas que individualizam o homem – o pensar, o agir, o sentir, os seus valores, conhecimento, visão de mundo dependem também dessa relação.
Vygotsky chama a atenção ainda para a mediação que acontece nessa relação – é uma relação mediada pelo pensamento, pela linguagem, pelas emoções e pela presença do outro (na relação social).
Nesse sentido, no pensamento de Vygotsky, há uma ligação muito forte, entre a história individual e a história social, na construção do homem. Para ele, o homem é essencialmente histórico e, portanto sujeito às especificidades do contexto cultural em que vive, trabalha e desenvolve-se, tendo que se transformar (organizar-se) continuamente, face aos desafios que lhe são impostos, nesse processo.
Para Vygotsky, no início do desenvolvimento, os fatores biológicos herdados sobrepõem-se aos sociais mas, na interação, através dos membros do grupo social, o homem vai se desenvolvendo pela internalização das experiências, na construção dos processos psicológicos superiores.
Oliveira (1993), estudando o pensamento de Vygotsky, observa que a flexibilidade do cérebro humano possibilita modos de funcionamento que são moldados ao longo da história e do desenvolvimento individual. Nesse sentido, o homem transforma-se de biológico em sócio-histórico, num processo em que a cultura torna-se parte essencial nessa constituição.
O funcionamento psicológico do homem tipicamente humano (pelas funções psicológicas superiores) está baseado na forma culturalmente construída de “organizar o real”.
Os sistemas de representar a realidade (em que a linguagem exerce função importante, por ser o sistema básico do homem) vêm do social – a cultura a qual o homem pertence é que lhe oferece as formas de perceber e de organizar o real. É através desses sistemas que o homem é capaz de ver o mundo e operar sobre ele, porque fazem a mediação entre o homem e esse mundo. O desenvolvimento do homem, nesse sentido, dá-se de “fora para dentro”.
“Isto é, primeiramente o indivíduo realiza ações externas, que serão interpretadas pelas pessoas a seu redor, de acordo com os significados culturalmente estabelecidos – A partir dessa interpretação é que será possível para o indivíduo atribuir significados às suas próprias ações e desenvolver processos psicológicos internos que podem ser interpretados por ele próprio a partir dos mecanismos estabelecidos pelo grupo cultural e compreendidos por meio de códigos compartilhados pelos membros desse grupo.” (Oliveira, 1993 : 39)
Nessa perspectiva, o seu processo de constituição acontece nesse movimento, formando-se internamente a partir do externo, numa ação compartilhada.
“essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre a história individual e a história social” (Vygotsky, 1984 : 33)
Rego (1994), em seus estudo sobre Vygotsky, observa que, para que haja apropriação é necessário que haja também internalização que envolve a transformação de processos externos (concretizados nas atividades entre as pessoas) em um processo intrapsicológico (no qual a atividade é reconstruída internamente). Nesse sentido, o longo caminho do desenvolvimento humano segue a direção do social para o individual.
Na concepção de Teixeira (1996),
“os sujeitos sócio-culturais constituem-se, pois, em suas experiências vividas no mundo da vida, pelas quais refazem a si mesmos e à história humana. Uma história – práxis de sujeitos que são, ao mesmo tempo, sua própria história.” (Teixeira, 1996 : 183)

Assim, o homem não se constitui numa superposição de experiências, mas numa articulação dinâmica entre as suas dimensões cognitiva, afetiva e sua contextualização sócio-cultural.


“Ao demarcar uma certa maneira de ver, de sentir, de perceber, de compreender, de interpretar e significar mundo, a cultura define uma certa maneira de ser e de agir, um modo de vida.” (Teixeira, 1996 : 183)
Na concepção de Leontiev, as atividades humanas é que fazem a relação do homem com o mundo e são dirigidas por motivos a serem alcançados. É importante lembrar que a atividade humana é planejada mentalmente, desenvolve-se por meio de objetivos, isto é, carrega uma intenção consigo – isso é um traço que a caracteriza e que caracteriza o homem como diferente dos animais.
“esta forma particular de fixação e de transmissão às gerações seguintes das aquisições da evolução deve o seu aparecimento ao fato, diferentemente dos animais, de os homens terem uma atividade criadora e produtiva. É antes de mais o caso da atividade humana fundamental: o trabalho.” (Leontiev, 1978b: 265)
Leontiev (1978b), coloca então como categorias essenciais para se entender o psiquismo13 humano, a atividade objetivada, a consciência e a personalidade.
Nesta perspectiva, a atividade humana representa um papel importante e não pode ser vista separadamente dos processos psíquicos que são formados por ela através da sua mediação, e o estudo do psiquismo humano não pode ser visto sem a observação da atividade que o homem realiza, em condições dadas e circunstâncias concretas.
Como o homem é um ser social, os processos que fazem a mediação entre o mundo objetivo e o subjetivo são as atividades.
Como a atividade é a transformação de uma intenção em ato, ela se coloca como uma transição entre o subjetivo e o objetivo com a função de reorientar o sujeito no mundo objetivo. Nesse sentido a relação homem/meio externo é muito diferente de uma mera adaptação para a sobrevivência, como pensavam os positivistas. É uma relação muito mais complexa, pois o meio inclui os motivos, o objeto, os modos da própria atividade – a sociedade a produz.
“A actividad de cada hombre depende además, de su lugar en la sociedad, de las condiciones que le tocan en suerte y de como se va conformando en circunstancias individuales que son únicas.” (Leontiev, 1978a : 67)
Para Leontiev, a característica básica da atividade é a sua objetividade. Nesse sentido, o objeto da atividade pode aparecer de duas maneiras – em sua existência independente subordinando e transformando a atividade do sujeito ou como imagem do objeto, como produto do reflexo psíquico que se efetua como resultado da atividade do sujeito.
Dessa forma produz-se uma dupla transição, a do objeto transformando-se em processo de atividade e a transição da atividade em produto subjetivo.
A noção sobre a natureza objetiva do psiquismo não se refere apenas aos processos cognitivos, ela abarca também a esfera das necessidades e das emoções.

“De este modo, las actividades estimulan la afetividad y la dirigen por parte del sujeto, pero sólo pueden cumplir esta función si son objectivas.” (Leontiev, 1978a: 72)


Leontiev aponta a fundamental importância das emoções e dos sentimentos porque são eles que conduzem a atividade, em forma de motivos, marcando com características muito próprias a individualidade humana.
Para Leontiev, é a atividade externa que “desbloqueia” o círculo dos processos mentais internos e o abre para o mundo objetivo.
Nessa perspectiva a atividade humana é entendida como uma forma complexa de relação do homem com o mundo, direcionada a um fim consciente e, nesse processo, vai envolver uma atuação que além de ser coletiva, é cooperativa também.
É ela que, a partir do processo de internalização, vai constituir a consciência do homem, a sua forma de pensar, de agir e de sentir e a sua capacidade de compreender e de organizar o real.
Assim, a realidade objetiva que é vivida pelo indivíduo transforma-se em subjetiva, a qual se transformará novamente em objetiva através de suas ações. É o que Lane (1995), chama de “dialética entre subjetividade e objetividade”.
A compreensão da atividade humana como categoria é importante para a explicação dos processos psicológicos porque envolve o homem em seu ambiente histórico organizado.
Para Oliveira (1993),

“A ação individual em si, é insuficiente como categoria de análise: sem inclusão num sistema coletivo de atividade, a ação individual fica destituída de significado... Mas sua ação passa a ter significado quando analisada como parte integrante de uma atividade coletiva, com função definida num sistema de cooperação social, que, conduz à obtenção daquele resultado.” (Oliveira, 1993 : 98)


Para Leontiev então, a atividade humana que é direcionada por motivos a serem alcançados, dá ao homem a marca que o caracteriza, que é a capacidade de agir conscientemente. O trabalho, em sua abordagem, tem dupla função: é uma atividade produtiva, é uma atividade de comunicação, pelas necessidades das relações de trabalho. A linguagem, nesse caso, não desempenha apenas a função de comunicação, ela é formadora da consciência e do pensamento humano.
“A linguagem é aquilo através do qual se generaliza e se transmite a experiência da prática histórica da humanidade; por conseqüência, é igualmente um meio de comunicação, a condição da apropriação pelos indivíduos dessa experiência e a forma de sua existência na consciência.” (Leontiev, 1978b: 172)
Dessa forma, a consciência individual aparece através da consciência social, e essa passagem só é possível porque a estrutura da consciência humana está ligada às formas de atividade.
Para Vygotsky,

“O pensamento e a linguagem, que refletem a realidade de uma forma diferente daquela da percepção, são a chave para a compreensão da natureza da consciência humana. As palavras desempenham um papel central não só no desenvolvimento do pensamento, mas também na evolução da consciência como um todo.” (Vygotsky, 1987 : 132)



Leontiev coloca a consciência como outra categoria que explica o desenvolvimento do psiquismo humano, observando que ela é uma etapa superior nesse desenvolvimento porque dá ao homem a capacidade de distinguir entre o objeto e as impressões que se tem dele.
As relações sociais é que dão origem a essa forma especificamente humana de reflexo da realidade, a consciência humana. Para que o homem se encarregue de sua atividade é preciso que descubra o seu significado, que tenha consciência dele.
“A consciência da significação de uma ação realiza-se sob a forma de reflexo do seu objeto enquanto fim consciente.” (Leontiev, 1978b : 80)
A atividade humana estabelece dessa forma, uma ligação entre o objeto da ação (fim) e o gerador da atividade (motivo). Reflete-se na cabeça do homem, como numa relação prático/objetiva do sujeito/objeto. Nesse sentido, a consciência passa a fazer a distinção entre a atividade e o objeto. O objeto passa a se distinguir não só de maneira prática, mas teoricamente, tornando-se uma “idéia”.
Nesse processo, o conhecimento mais simples que se obtém de uma ação mediatizada por um instrumento é fruto de uma experiência social – o homem adquire a experiência dos outros. O homem pode pensar sobre as coisas que não percebe, tomando consciência de suas relações e interações.
O homem pode pensar uma ação, direcioná-la para um fim, torná-la atividade e internalizá-la novamente.
Nesse sentido, a consciência opera concretamente na realidade circundante, através da linguagem.
“A consciência é inseparável da linguagem. Como a consciência humana, a linguagem só aparece no processo de trabalho, ao mesmo tempo que ele.” (Leontiev, 1978b: 85)
Assim, a palavra distingue o objeto no processo de trabalho, e, ao distinguí-lo, generaliza-o para a consciência individual, mas, ao generalizá-lo, o faz como um objeto social.
É importante que se diga que é esse desenvolvimento que implica na constituição da “identidade”como um processo de transformações qualitativas. Nesse sentido, o desenvolvimento do processo de “identidade” envolve o desenvolvimento dos níveis de consciência para que não haja simplesmente simulação, transformação ilusória, resposta às expectativas determinadas pelas condições sociais.
Leontiev, ao estudar o desenvolvimento do psiquismo humano, o fez como um processo de transformações qualitativas, transformações estas que variam em diferentes épocas e sob diferentes condições de vida.
“A consciência humana não é uma coisa imutável. Alguns de seus traços característicos, em dadas condições históricas concretas, progressivos, com perspectivas de desenvolvimento, outros são sobrevivências condenadas a desaparecer. Portanto, devemos considerar a consciência (o psiquismo) no seu devir e no seu desenvolvimento, na sua dependência essencial do modo de vida, que é determinado pelas relações sociais existentes e pelo lugar que o indivíduo considerado ocupa nestas relações.” (Leontiev, 1978b : 89)
Lane (1985), ao estudar as categorias propostas por Leontiev, observa que a atividade envolve ações em cadeia que se realizam na interação social, para a satisfação de uma necessidade que é comum. Essas ações em cadeia pressupõem a comunicação (linguagem) e ainda um planejamento dessas ações (pensamento) que é decorrente das atividades realizadas.
Um aspecto importante observado por Lane foi a constatação da importância das emoções ao mediar a constituição do psiquismo humano, juntamente com o pensamento e a linguagem.
Sabe-se que, o ser humano incorpora instrumentos culturais através da linguagem e, nessa perspectiva, os processos psicológicos afetivos e cognitivos são incorporados de seu ambiente cultural e social.
Como as emoções fazem também a mediação para o desenvolvimento do psiquismo, elas mudam de natureza, conforme as capacidades cognitivas se desenvolvem.
Nesse sentido, há um desenvolvimento paralelo entre os processos cognitivo e afetivo do ser humano.
“Para compreender a fala de outrem não basta entender as suas palavras – temos que compreender o seu pensamento. Mas nem mesmo isso é suficiente – também é preciso que conheçamos a sua motivação. Nenhuma análise psicológica de um enunciado estará completa antes de se ter atingido esse plano.”

(Vygotsky, 1987 : 130)


Vygotsky parte de uma concepção histórica do homem que, ao transformar o mundo, transforma-se também, desenvolvendo nesse processo, o seu próprio psiquismo, produto das funções psicológicas superiores. Em sua teoria, o fisiológico e o psicológico aparecem muito juntos, fazendo a ligação entre o mundo objetivo e o subjetivo.
Leontiev refere-se ao significado(contéudo pessoal) que as pessoas dão às palavras (contéudo emocional) e que depende de suas experiências no mundo e de suas vivências pessoais. Para ele, as emoções e os sentimentos são a caracterização da individualidade.
“O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses e emoções. Por trás de cada pensamento há uma tendência afetivo-volitiva, que traz em si a resposta do último “por que” de nossa análise do pensamento. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só é possível quando entendemos sua base afetivo-volitiva.” (Vygotsky, 1987 : 129)
Para Vygotsky, o significado das palavras, no início da vida da criança, tem um significado afetivo, evoluindo para uma estrutura muito mais complexa de conceitos hierarquicamente organizados que, nessa evolução transformam os processos psíquicos subjacentes. Nesse sentido, as mudanças nos significados das palavras levam a transformações nos processos psicológicos, que levam a transformações no comportamento das pessoas.
O desenvolvimento da consciência é, dessa forma, mediado pela linguagem, sofrendo as determinações da ideologia que permeia o grupo social que lhe serve de contexto.
O que se tentou levantar aqui foi a importâbcia da compreensão da professora como um sujeito histórico-concreto, na atividade que desempenha que é a de ensinar crianças pequenas, e o entendimento das categorias “at s próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais etc.” ou ainda “3. reconhecimento de que um indivíduo morto ou vivo é o próprio”. (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 1986).
Mas, o que torna o homem um sujeito sócio-histórico e o diferencia de outro homem, também sujeito sócio-histórico e, o que faz que ele, já de posse de suas características biológicas necessárias ao desenvolvimento, seja produto de outras forças que ultrapassem aquelas de sua hereditariedade?
Guimarães Rosa (1982), ao apresentar para o leitor, a sua personagem Augusto Matraga, o faz da seguinte maneira:
“Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto – o homem – nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego de Murici.” (Rosa, 1982:321)
Para o autor, o nome não diz nada, assim como colocar as suas características não identifica a personagem. É preciso dizer mais, é preciso situá-lo. É necessário dizer que ele é filho do coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Mas, não é o lugar que o particulariza, é o aumentativo no nome – o Afonsão diz muito, diz que ele é o senhor das muitas guerras, que traz as marcas de um passado de valentia, de “glórias” e de respeito por parte dos tantos outros habitantes do arraial, freqüentadores dos mesmos leilões de atrás da igreja e repassadores encantados de suas proezas. E o filho segue na velha trilha do pai, na atividade que o caracterizou como Nhô Augusto – o homem – filho do Afonsão – uma personagem construída historicamente, nas condições objetivas e culturais do arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego de Murici. Porque, como se disse “Matraga não é Matraga, não é nada”, e ainda vai modificar-se muito no curso da narrativa.
Como o homem possui uma determinada constituição física, um tipo de sistema nervoso, um temperamento, formas dinâmicas próprias de necessidades biológicas e a afetividade, ele vai, ao longo de seu desenvolvimento ontogenético aprimorando umas características e reprimindo outras, enfim, permutando-se de várias maneiras.
Mas não são apenas essas trocas que vão engendrar a sua “identidade” – a “identidade” “se faz” nas transformações do sujeito que se criam no movimento das atividades que ele realiza nas relações sociais, mediada pelo pensamento, pela linguagem e pelas emoções.
Pode-se dizer que cada indivíduo aprende a ser um homem, pois o que ele herda da natureza não lhe basta para viver em sociedade – é preciso ir além e adquirir o que foi conseguido no desenvolvimento histórico da humanidade. Nesse sentido, o processo de apropriação é o resultado de uma ação efetiva do sujeito em relação aos objetos e aos fenômenos do mundo que o rodeia, criados pelo desenvolvimento da cultura humana.
Nessa perspectiva, o homem quando nasce traz apenas uma aptidão que o distingue dos outros animais: a aptidão para formar aptidões especificamente humanas, que ele poderá desenvolver ou não e que são produtos da evolução sócio-histórica e cujas fontes são os objetos e fenômenos resultantes da atividade das gerações precedentes e do desenvolvimento intelectual do gênero humano.
Nesse sentido, o homem não nasce dotado das aquisições históricas da humanidade, ele se apropria delas no curso de sua vida mas, para a esmagadora maioria das pessoas, essa apropriação só é possível dentro de limites miseráveis. Dessa forma, o problema não estaria na aptidão ou inaptidão das pessoas para adquirir a cultura humana e sim na superação das condições que liberte o homem, dando-lhe oportunidade de participar das manifestações da vida humana.
Dessa forma a identidade não está no nome – Matraga não é Matraga, nem é nada; nem no conjunto de aspectos que caracterizam a pessoa – cédula de identidade; nem na reunião de condutas próprias de cada um.
Segundo Silva (1995),

“em termos de aproximação geral, podemos conceber identidade como uma fusão dinâmica de traços que caracterizam, no tempo e no espaço, de maneira inconfundível, uma pessoa, um objeto, ou qualquer outra entidade concreta. Desejos, ações, pensamentos, sentimentos etc. são conjugados ou fundidos ao longo da existência da pessoa, permitindo que outras pessoas a diferenciem e reconheçam-se na sociedade.” (Silva, 1995:31)


Mas, ele mesmo afirma que:
“é mais seguro abordar uma identidade como verbo (vir - a - ser) e não como substantivo (é o que é), ou seja “dando-se” a partir das diferentes configurações e determinações da ordem social.” (op. cit. : 32)
Para Ciampa (1994), identidade é transformação, é articulação de várias personagens, articulação de igualdades e diferenças, constituindo e sendo constituída por uma história pessoal; “identidade” é metamorfose.
“Identidade é história. Isto nos permite afirmar que não há personagens fora da história, assim como não há história (ao menos história humana) sem personagens”. (Ciampa, 1994 : 157)
Identidade pode ser entendida ainda como uma construção do homem unificado, através do pensar, sentir, agir (Heller, 1989), mas o que é importante, principalmente entender, é que a identidade é constituída no movimento, não é pronta nem acabada, mas é contraditória e está sempre em processo de transformação.
Guimarães Rosa (1975), observa que há bons e maus espelhos, os que favorecem e os que detraem e os que são apenas honestos. Nesse sentido,
“como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos no visível?

... simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi.(Rosa, 1975: 71-74)


É ainda ele, que falando de retratos, chama a atenção para o modo incorrigível de viver do ser humano, distraído dos fenômenos sutis e das coisas importantes (ou será do mistério que se esconde atrás da estática do semblante?)
O homem nasce num mundo já existente, com valores estabelecidos anteriormente. E, no decorrer do seu desenvolvimento, esse homem de acordo com as condições sociais estabelecidas, vai se apropriando das formas historicamente construídas, forjando os seus interesses, simbolizando as suas experiências, agindo sobre o meio em que vive e recebendo de volta a ação desse meio, enfim, vai vivendo, nesse movimento, o seu processo de transformação, que poderá ser uma transformação qualitativa ou não.
Seu processo de constituição então vai acontecendo numa relação complexa, através de atos pessoais mediados.
“Somos atividade e o dado é o resultado do dar-se”. (Ciampa, 1994 : 153)
Na perspectiva de Silva (1995),
“em relance rápido, perigoso raspar apenas a superfície, no aparente homem nenhum se define ou se explica, em essência, pela sua impressão digital... Para ver e enxergar a identidade de alguém é melhor dar golpes contínuos de esguelha, variando os ângulos do olhar.

O descuido deforma, quando não adultera os elementos da imagem; o ser humano é sempre muito mais...” (Silva, 1995 : 30)


É assim que o sujeito concreto constitui-se em sua relação interna, frente à atividade que realiza, com uma unidade entre os seus processos cognitivo e afetivo.
“Identidade” é pois transformação, o processo através do qual a pessoa vai se constituindo, nas relações sociais e dentro da história.
A questão então, está em entender como o homem constrói a sua própria existência e como se dá esse retorno, isto é, como a sua existência o transforma, no movimento das relações idas e bem (ou mal) vividas.
Ciampa (1985), observa
“Podemos imaginar as mais diversas combinações para configurar uma identidade como uma totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no entanto una. Por mais contraditória, por mais mutável que seja, sei que sou eu que sou assim, ou seja, sou uma unidade de contrários, sou uno na multiplicidade e na mudança.” (Ciampa, 1985 : 61)
Para Lane(1995), as emoções estão presentes nas ações, na consciência e na “identidade”do indivíduo, que se diferencia por meio da linguagem.
A esfera afetiva do indivíduo assim acaba captando em forma de valores a ideologia reproduzida pelas instituições a que pertencem, e conforme a maneira como os valores são captados eles poderão inibir o desenvolvimento da consciência, atribuir falsos significados à atividade, fragmentar a afetividade, ou não.
Entende-se pois a emoção como um elemento importante no processo de constituição da “identidade”. Mas, em relação à professora de crianças pequenas essa questão assume maiores proporções. Parece existir um consenso de que a porfessora de Educaçào Infantil tem a “obrigação” de ser afetuosa, terna, emotiva. Esses atributos são esperados da professora e a professora sente necessidade de corresponder a eles. Só uma transformação no nível da consciência é que vai fazê-la enxergar o aspecto da “emoção” em sua devida dimensão.
1.3.1. A “identidade” sob a forma de “personagem”
Já se disse que o processo de constituição do ser humano vai acontecendo em suas relações sociais. Mas é importante que se leve em consideração o modo como esse homem age diante dos outros e a forma pela qual é reconhecido.
Goffman(1983), utilizou-se da metáfora da “ação teatral” para explicar a idéia de que todo ser humano, em qualquer situação social apresenta-se diante dos outros procurando dirigir ou dominar as impressões que causa em seus semelhantes. Nesses sentido, é que o homem emprega determinadas técnicas para sustentar seu desempenho, igualando-se a um “ator”, que representa uma “personagem” diante do público. O indivíduo representa um papel solicitando(implicitamente) de seus observadores que o levem a sério(1983:25).
É fato que no teatro o ator representa um papel e dessa maneira é que o papel representa e caracteriza a personagem. Nessa perspectiva, pode-se dizer que é pela ação de ensinar que a mulher se torna professora e passa agir como tal. Compreende-se dessa forma que ela espera ser tratada como tal e tenta corresponder às expectativas nela depositadas. É assim que o seu papel a caracteriza.
Ciampa(1994) observa que a “identidade”, a princípio, assume a forma de um nome para ir adotando em seu processo de desenvolvimento outras predicações como os papéis, mas a forma que melhor a explica em sua generalidade é a “personagem”. Dessa forma o nome revela o indivíduo isolado(o lado estático de sua identidade) e as suas ações revelam uma personagem ativa que se vai transformando na vivência de suas relações e que continua a existitir dependentemente da atividade que a engendrou(1994:131-135). Portanto uma professora continuará professora mesmo tendo parado de dar as suas aulas ou mesmo deixado de representar o seu papel.
Mas a personagem vai se transformando aos poucos, ao longo do tempo, desdobrando-se em muitas outras, conforme as relações vivenciadas. A questão que se coloca é tentar entender como se dá esse movimento, como acontecem nessas relações, as suas transformações. Torna-se importante observar se as transformações envolvem saltos qualitativos ou não; se as mudanças da personagem revelam desenvolvimento no nível da consiência, se há superação das contradições, ou se as personagens simplesmente se alternam e se substituem umas às outras no processo de constituição da “identidade”.
Ciampa(1994), chama de autodeterminação o movimento de transformação das condições exteriores(e não uma simples libertação dessas condições) e de re-posição a não-transformação. A re-posição envolve uma “identidade” pressuposta” que é re-posta a cada momento: “uma réplica”(p. 163), como a professora de pré-escola que diz ser porfessora só porque adora as “suas”crianças. Daí pode-se entender porque as pessoas procuram agir de acordo com as expectativas nelas colocadas e esperam o retorno disso.
É certo que os problemas oriundos de condições sociais adversas fazem a imediação no processo de constituição da “identidade”e nesse sentido com as condições ruins de trabalho e com as violências sociais o que se vê submetido o ser humano na sociedade capitalista moderna, esse processo pode vir a se cristalizar, a não se desenvolver plenamente, tornando-se a “personagem”apenas uma repetição de si mesma14 ou da sociedade – “é o fetiche da personagem”, a “identidade-mito”, conforme Ciampa, a “não-metamorfose”(1994:46).
Nesse sentido, o conhecimento das trajetórias das professoras de pré-escola pode fornecer dados importantes que levem a revelar como elas vão se transformando e desvendar a “personagem” professora no desempenho de seus papéis e no movimento de seu processo de constituição.
Importante observar se essas professoras tornam-se abertas para o saber e se, nas reflexões que realizam modificam-se também revelando uma tomada de consiência. Há que se analisar como ocorrem as suas mudanças, se elas envolvem transformações efetivas ou não, embora se entenda a limitação dos recursos que ficam restritos às representações conscientes reveladas por elas.
Foi por essa razão que se desejou ouvi-las, na tentativa de buscar entender melhor o seu processo de constituição, nesse movimento.

PARTE II
ESTÓRIAS QUE SE FAZEM NAS TRAJETÓRIAS DE VIDA

2.1. As trajetórias das professoras de pré-escola e o sentido atribuído às proprias experiências.
As trajetórias das professoras de pré-escola nesta pesquisa foram escolhidas utilizando-se como recurso entrevistas livres. A intenção foi tentar compreender o movimento de constituição da “identidade” dessas professoras nas trajetórias narradas, a partir do entendimento que elas têm de seu próprio processo.
Goffman(1983), observa que há dois tipos de “atores”, aquele que está inteiramente convencido do papel que representa e aquele que não está compenetrado da própria prática. Nesse sentido, “ninguém está em melhor posição para observar o número do que a pessoa que o executa”(1983:25).
Partindo-se da idéia de que o processo de constituição da “identidade” se desenvolve pelas transformações dos atores enquanto vivem as suas personagens em sua trajetória pessoal, nas relações sociais, tornou-se importante ouvir as professoras para tentar compreendê-las. A partir daí é que se utilizou neste trabalho, as entrevistas livres como recurso metodológico para a coleta das trajetórias. Sabe-se que esse é um recurso que vem sendo utilizado em outras abordagens de pesquisa, mas a intenção de recorrer às trajetórias foi buscar encontrar a personagem que coporifica a professora de pré-escola. Se entendenmos que a vida humana é uma história vivida por personagens, é importante saber como essas personagens agem, pensam, relacionam-se, para melhor compreendê-las em suas transformações. E se entendemos o processo de constituição da “identidade” como transformação efetiva e não como repetição, é importante saber qual o significado que o sujeito atribui à sua própria vida.
As trajetórias aqui registradas foram relatadas pelas professora de Educação Infantil, isto é, que trabalham em programas de atendimento à clientela de 0-6 anos, selecionadas entre aquelas que atuam na pré-escola, em instituições escolares de Campo Grande, e forma colhidas livremente, pedindo-se a elas que falassem a respeito de suas trajetórias.
O critério de escolha obedeceu à diversidade, diversidade em relação à idade, tempo de serviço, grau de escolaridade, escola e natureza da instituição em que dão aulas essas professoras. Esse procedimento aleatório deveu-se ao fato de o interesse deste trabalho estar voltado às trajetórias dessas professoras, que, tanto mais variadas e diferentes, mais ricas, no sentido de fornecerem:
– as relações que existem entre os aspectos pessoal e profissional dessas trajetórias – onde se ligam, onde se distanciam, onde se chocam;
– como se constitui o processo de “identidade” das professoras, no movimento dessas trajetórias.
Pretendia-se organizar as categorias de análise a partir das narrativas colhidas, mas para que não fossem deixados de lado, aspectos considerados significativos, foi tomada a precaução de levantar-se, anteriormente, alguns pontos que deveriam ser suscitados, caso as professoras entrevistadas os omitissem e que se referiam:
– à interferência do aspecto emocional no profissional e vice-versa;
– aos planos e projetos futuros;
– ao relacionamento interpessoal;
– à concepção do professor como categoria.
A intervenção foi mínima, nesse sentido. As professoras desfiaram com muita clareza e emoção as suas trajetórias e, com tanta riqueza de detalhes que acabaram se tornando fiéis colaboradoras e principais intérpretes deste trabalho.
Não se fizeram de rogadas, foram cooperativas, discutiram educação e, enquanto falavam, refletiam sobre a própria atuação, e enquanto refletiam, repensavam as suas ações.
As entrevistas foram gravadas com a permissão das professoras que não se mostraram nem um pouco preocupadas com esse fato e posteriormente foram transcritas, na íntegra.
As conversas da chegada, da saída e do cafezinho também foram registradas e transcritas.
Era comum vê-las afirmar

olha, eu nem havia pensado nisso, depois de tanto tempo eu vejo aquele mundinho, tão pequenininho, a sala de aula... só recorte e colagem... hoje eu vejo tudo tão diferente...” (Profª. Cacá, 29 a)


As narrativas foram colhidas em locais diferentes, em casa, nas pracinhas perto das escolas, num clima bem informal e duraram em média 50 minutos. Das 12 entrevistas realizadas, foram registradas 10.

O contato foi feito nas escolas, e, em alguns casos, com a própria professora; por curiosidade pretendia-se verificar se a professora daria uma entrevista gravada (mesmo sendo sobre sua própria vida) independentemente da permissão da direção da escola.


Em outros casos, as professoras concordaram em dar a entrevista, de boa vontade, mas acharam por bem, avisar a coordenadora.
E, finalmente, algumas foram indicadas para a entrevista, pela coordenadora, em comum acordo com elas e com a entrevistadora, a partir de algumas observações feitas, referentes à diversidade na escolha.
Não houve problemas em relação à ado no peito.

A minha experiência agora me faz perceber tanto o trabalho que é feito como o retorno dele e a descoberta do aluno. Mas eu não tinha analisado isso, como estou fazendo nessa conversa.” (Profª Mazé, 33 a)


Eu acho incrível a gente estar aqui conservando sobre isso, porque a gente não pára pra pensar nessas coisas, e é bom falar sobre isso, a gente acaba refletindo um pouco mais.” (Profª Su, 43 a)
Mas eu não tinha observado isso antes, você vê? Conversando a gente vai colocando as idéias no lugar.” (Profª Adri, 27 a)
Achei muito legal estar aqui falando sobre isso porque a gente esclarece muitas coisas.” (Profª Moca, 28 a)
Merece registro a observação de que à professora interessa falar, discutir, refletir sobre o próprio trabalho, dizer o que faz, e ao dizer, expor o que gosta em seu fazer.

olha, a coisa melhor que existe é você ver uma criança crescer junto com você, ela crescendo como criança e você crescendo como professora; a criança mudando de nível e você se tornando melhor a partir do crescimento dela. Ver a criança crescendo junto com a gente, você já pensou?” (Profª. Adri, 27 a)

e o que não gosta também

eu acho que a pré-escola saiu daquele tradicionalismo de pintar dentro do quadradinho, você explora a inteligência da criança, seu conhecimento, mas eu acho que existe um modismo muito grande que não leva a nada e ainda retira o interesse dela, porque adiante ela vai ver essas coisas.” (Profª. Su, 43 a)


O interessante em coletar histórias de vida está no fato de que ninguém prepara um discurso pedagógico encomendado e embora, ele possa transparecer nas concepções cristalizadas, o sentimento jorra torrencialmente junto com ele e, principalmente, em se tratando de pré-escola, a emoção faz o clima, a afetividade é que dá o tom, põe o colorido nas narrativas das professoras.
São professoras em aberto, incompletas, com muitas dúvidas e sem tantas certezas, que se vão constituindo na tentativa de construir sua prática docente.
Seus nomes são fictícios por cuidado da entrevistadora que achou por bem mantê-los em segredo, mesmo porque um nome é só um nome, não é identidade, não é nada.
QUADRO I - Apresentação das professoras entrevistadas

Nome

Idade

Escolaridade

Tempo de Serviço

Natureza da Instituição

Malu

54 a

Magistério (3a) Habilitação p/ Pré em Curso de 120 hs. 3º G - Pedagogia

26 a

Municipal

Cacá

29 a

Magistério (3a) Habilitação p/ Pré em Curso de 120 hs

11 a

Particular

Wal

23 a

Magistério (3a) Habilitação em Curso de 240 hs 3º G - Pedagogia

4 a

Particular

Lau

20 a

Científico com habilitação em Curso de 240 hs 3º G - Pedagogia (cursando)

2 a e meio

Particular

Mazé

31 a

Magistério de 4a c/ especialização para Pré 3º G - Pedagogia - Especialização em Psicopedagogia (cursando)

11 a

Estadual

Reni

40 a

Magistério de 3a c/ Curso Habilitação p/ Pré (120 hs) 3º G - Pedagogia

10 a

Municipal

Su

43 a

Magistério (3a) Curso de Habilitação (120 hs) Pedagogia

15 a

Municipal

Adri

27 a

Magistério de 3a c/ Curso de 120 hs

11 a

Particular

Julie

21 a

Magistério de 4a c/ Especialização p/ Pré

5 a

Particular

Moca

28 a

Magistério de 3a c/ Curso de 120 hs

13 a

Particular

Optou-se por recontar os depoimentos dessas professoras para não fragmentá-los, na tentativa de dar uma certa continuidade para os seus discursos e para que elas emergissem inteiras das entrevistas, ao mesmo tempo em que se procurava mostrar as semelhanças, as diferenças e as contradições presentes em suas trajetórias.


A reescrita dessas trajetórias que se seguem é uma tentativa de “redescobrir” essas professoras através de seus próprios depoimentos e constitue-se numa primeira forma de análise.
A linguagem utilizada na reescrita não tem a intenção de passar uma visão otimista dessas professoras mas a de passar um pouco da atmosfera da sua fala que o contato da entrevista pôde favorecer.
Para este trabalho, o objetivo das entrevistas não era simplesmente a busca de informações ou a denúncia das evidências que existem a respeito da situação em que se encontra a professora hoje(e se encontrou sempre) mas a de revelar a maneira como ela olha para si mesma e enxerga a própria vida na trajetória narrada; a questão está no significado que as professoras dão aos acontecimentos vividos. Quando a professora conta um fato passado, ela já o interpreta, dando-lhe um novo significado.
Os depoimentos das professoras não revelam toda a sua trajetória, mas as suas representações conscientes, os fatos que elas selecionam e dão importância em sua vida. E é justamente o modo como elas falam, como ordenam os fatos, vividos, onde colocam ênfase, o que elas omitem, o que retomam constantemente, como se vêem nos acontecimentos e a qual a posição que ocupam, que vão revelar o processo da constituição das personagens dessas trajetórias.
A fala dessas professoras pode estar revelando a mesma coisa, elas podem estar usando o mesmo discurso, mas cada fala é única e não se torna repetitiva no que ela traz de “pessoal” embora conserve impressa a marca do social.
Nesse sentido, é importante ouvi-las através de suas próprias vozes para tentar compreender o seu processo de constituição.
Trajetória nº 1

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