Personagem professora



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MALU

Malu está chegando aos 53 anos de idade e 26 de carreira sem ter esquecido os detalhes que marcaram a sua vida e a profissão.


Acha que conserva hoje a mesma força que permeou a sua luta nas tantas “vitórias” alcançadas, e fala dos fatos, intensamente vividos e sofridos.
A intrigante história de Malu que, sendo mulher, esposa, mãe, foi concomitantemente professora, leiga, habilitada, graduada e “passou” (por acaso) para uma classe de pré-escola, onde acabou “se encontrando.”
Malu – professora de pré-escola

uns fios de cabelos brancos escorrem pela testa

fala da energia que diz não ter perdido

em tantos anos de magistério (são 26!)

aposentada (do Estado) continua na ativa

(na Prefeitura) trabalhando com crianças

e fazendo cursos...

impossível revolver a própria história

sem se emocionar – os olhos ficam

cheios de lágrimas...

professora leiga, por necessidade

professora habilitada por imposição

da lei.

professora de 1º Grau por direito adquirido



em curso superior (Pedagogia)

professora de pré-escola, por acaso


várias fases de uma mesma trajetória e diferentes nuances na construção de um processo de “identidade”, no movimento das relações vivenciadas.
Malu terminou o ginásio e foi ser professora leiga.

havia necessidade de professoras e eu precisava trabalhar; eu era muito nova....”


É a Malu-solteira, em início de carreira, transitando do espaço privado da família para o espaço público da vida profissional.

mas, aí veio uma lei do governo do Estado, impedindo as professoras de dar aulas, sem a devida habilitação. Na época, eu fiquei furiosa! Hoje eu entendo que foi muito bom. Foi o certo.”


É a Malu-atual, falando muito conscientemente, porque entendeu que era importante estudar mais para ser professora e ascender na carreira. Na época, importante era manter o emprego que conseguira com dificuldades.

Foi muito bom ter feito o Magistério (curso), hoje eu compreendo, fui obrigada, mas foi muito bom pra mim.”


Malu passa a viver um período de transição, em sua vida de professora.

ai eu fui trabalhar na secretaria da escola, enquanto fazia o Magistério (curso) à noite. Foi uma época muito dura, porque eu trabalhava durante o dia todo e estudava à noite. Como secretária eu tinha que trabalhar o dia inteiro e ainda estudar à noite... foi muito duro, mas eu venci!”


Malu volta-se para o passado e relembra a sua dura luta, mas como uma “vencedora”.
A mulher-professora acha que “venceu” por ter assumido a sua profissão a duras penas, mesmo às custas de seu lado pessoal e fazendo do sacrifício a tônica de sua “vitória”. A atividade que passou a assumir exigiu-lhe muito esforço ao qual ela tenta se adequar, entendendo que a natureza do trabalho que realiza compensa o sacrifício, pela respeitabilidade inerente a ele. Não se aprende pela ideologia que ser professora exige sacrifício, abnegação, renúncia?

eu sofri muito porque, nessa época, eu já era casada e meu marido começou a implicar comigo por ficar dia e noite fora de casa. Não tinha tempo para ele, nem para a casa. Mas eu venci! Eu pensava que o curso ia acabar, uma hora... Era uma situação provisória... uma questão de tempo e paciência...”


Malu de hoje relembra com emoção o esforço dispendido na luta para conciliar o espaço doméstico com o profissional; a briga entre a mulher e a professora, tendo que se haver com as duas... O marido exigindo a mulher (a tirania doméstica); o trabalho exigindo a professora (a tirania profissional). Mas, ela “venceu!” Quem “venceu?” A mulher ou a professora? “Venceu” a mulher – professora e confirmou-se na profissão de Magistério, a possibilidade da conciliação dos espaços público e privado e a impossibilidade de separar o lado pessoal do profissional, na pessoa do professor. E, além da conciliação, na Educação Infantil , aparece nitidamente uma ligação forte entre esses espaços (público/privado). O espaço público (profissional) não chega a ser só público, uma vez que nele aparece também o privado – a insistência na associação da professora de crianças pequenas com a maternidade e da profissão com o apostolado confundem-se nesses domínios.
Nos gestos rápidos e nas repetições, a lembrança da dureza da vida e do que marcou muito fundo

foi duro... eu sofri...foi dureza mesmo... mas eu “venci”! Terminei o curso de Magistério e voltei para a sala de aula, e estou com meu marido até hoje.”


Aqui “venceu” a esposa-professora. Malu oferece-se em sacrifício para conseguir “vencer” na profissão e adequá-la à vida pessoal. Não se vê como uma professora que mereceu a conquista desse direito.
Terminado o curso de Magistério foi ser alfabetizadora. A Malu atual, mais consciente acha que a luta valeu a pena e começa a falar da alfabetizadora, a professora de crianças pequenas, como passou grande parte de sua vida profissional, que não foi nem um pouco fácil.

porque naquela época não havia pré separado, e a gente tinha que trabalhar todas as fases do pré e a alfabetização15; foi duro!


Foi duro pois, nesse tempo já era mãe e tinha que ir à escola preocupada, porque além de ser mãe, era mãe de uma filha que tinha nascido com um problema cardíaco.

um problema congênito... uma luta terrível, nem quero lembrar...”


Não dá para mexer na ferida, sem doer. Outras e diferentes lutas entre a alfabetizadora e a mãe cheia de culpas. O que é uma constante, é o grau de exigências externas e internas que transparecem nessas lutas, entre a mulher, a esposa, a mãe e a professora.
Mas, a Malu atual pensa que saiu fortalecida das batalhas e afirma

mas eu venci, minha filha foi operada, ficou boa e hoje é uma mulher.”


Agora “venceu” a mãe-professora.
Malu acha que precisa crescer na profissão e começa a fazer um curso superior (Pedagogia). Isso significa ascender na profissão e ganhar mais. Significa também viver um novo momento e passar a ser professora de 1º Grau. Mas, por pouco tempo, porque não gosta.

lidar com crianças grandes é horrível. A gente não está preparada. A gente que teve uma educacão tradicional não sabe lidar com os meninos nessas idade... não dá.”


É a professora de meninos grandes brigando consigo mesma, com suas próprias dificuldades que não foram sanadas (como esperava) no curso superior que fez na Faculdade – tradicional demais para entender ou para ensinar a lidar “com essa meninada”. Voltou a trabalhar na sala de crianças pequenas – “venceu” a professora de pré-escola – onde fica até a aposentadoria chegar.

bem, aí é como sair de uma zona de atrito, de intenso movimento, para ficar em paz.”


Contou pontos também o desejo de continuar com o pré

as crianças são muito queridas, muito puras.”


Nesse sentido, a imagem da criança que aparece, é uma imagem elaborada pelo adulto (pela professora) pela sociedade e pela pedagogia da maternidade simbólica. A criança é por natureza, dependente do adulto, inocente, espontânea e curiosa...
Malu aposenta-se como professora pelo Estado... não aguenta... os olhos ficam cheios de lágrimas:

aquela escola era a minha vida. Teve festa de despedida e tudo... nunca tive problemas de relacionamento... era muito estimada lá... As mães das crianças disputavam as vagas da minha sala. Só colocavam seus filhos com outras professoras, quando não tinha mais vaga na minha sala.”


É a Malu-atual fazendo auto-avaliação e auto-avaliação positiva. Na pessoa da professora, há um entrelaçamento forte entre os lados profissional /afetivo.
Dois acontecimentos marcaram muito essa época:

um, foi o caso de uma menininha chamada Gláucia, que nunca tinha aprendido nada com ninguém e aprendeu comigo...



outro, foi o caso de quatro crianças que a professora anterior me passou, dizendo que não me preocupasse em ensiná-las, porque eram retardadas; e, em pouco tempo estavam aprendendo... não eram retardadas! Foi um fato que me marcou muito.”
O orgulho de Malu parece muito menos ligado à opção pelo Magistério e muito mais ligado ao próprio desempenho na profissão (aqui é ela mesma falando e além do lado afetivo, suas lembranças são de uma professora bem sucedida).
Mas, a sua fala não pára, nem a sua história. Ela estava acumulando novas e secretas reservas de energia. É o começar de novo. Desta vez na escola da Prefeitura. A professora do pré estava doente e Malu foi substituí-la (foi nessa substituição que ela se “achou”). O “prezinho” já estava separado.

Nessa substituição eu me achei, pedi para a diretora, é aqui que eu quero ficar... e estou até agora.”


Malu-assumida, fala da necessidade de mudar , de ser flexível para entender essa “nova criança”:

as crianças hoje são muito mais críticas do que quando eu comecei; elas se defendem, e são avançadas, até demais... defendem suas teses; no pré elas não são mais bobinhas, a gente é que ficou pra trás...”

e arremata, com convicção

ser professora de pré, hoje em dia, é como pisar em areia-movediça...”


E, para buscar mais firmeza nesse movimento, vai fazer mais um curso, entre os muitos que já tem – “Atualização para trabalhar na Pré-escola”, da OMEP16.
Malu fala da necessidade de ser móvel, flexível, para encarar uma outra situação. Não pode ser igual, é preciso ser diferente, “as crianças são outras” e as novas condições estão a exigir uma nova professora. Avalia-se “ainda mais a gente que teve uma educação tradicional”. Ficou no prezinho (aí vem a caracterização no diminutivo) porque gostou, ninguém a obrigou, ela mesma pediu – é aqui que eu quero ficar.” Mas, é preciso firmeza para equilibrar-se na “areia movediça” e vai fazer mais um curso. Não é essa a regra comum? Não é fazendo cursos que o professor entende que encontrará novas forças para firmar-se nas areias movediças da profissão?
Mas, não é tão simples assim, e “a criança é sempre uma surpresa”. O curso “ajuda muito” mas é a professora que vai ter que se permutar muito no ir e vir da areia movediça. Ela vai se constituindo nesse movimento, nessas trocas.
Malu-professora-do-prezinho dá importância à formação profissional – para encontrar ferramentas para o trabalho, sim; para manter o emprego, sim; para ascender na carreira, sim; para ganhar mais, sim; para não ficar pra trás, sim; para aposentar-se em melhores condições, sim; mas para não perder a “sua turminha” também, e isso é muito importante para ela.
Por isso fez o curso, por isso tornou-se “habilitada”, para permanecer ali, com “sua turminha” (no diminutivo). Nesse sentido aparece a intencionalidade nos seus atos, uma intencionalidade que permeou suas ações, na atividade profissional, ao longo do tempo, mas na qual se vê muito bem delineada a sua árdua luta pela sobrevivência.
É importante colocar aqui que Malu diz que sempre traçou objetivos para guiar as suas ações e dessa forma mostra que buscou realizar os seus projetos e esforçou-se para tentar as suas transformações.
O lado da carreira contou, mas contou a vontade de permanecer ali, no prezinho, como contou também a necessidade de “segurar” o trabalho na luta por melhores condições de vida para a família, e a sala de pré representou um espaço de maior tranqüilidade e segurança para conseguir isso.

ali eu me achei.”


Será que a professora estará escondendo atrás de seu discurso pedagógico a necessidade de sair de “uma zona de atrito” e ficar numa “zona mais calma” e para que isso aconteça há que se cumprir a exigência de uma “habilitação” a mais?

“Tal qual o topo de uma couve-flor, a identidade como uma totalidade, é uma superfície acidentada que esconde surpresas, e configurações em estado de latência, dando-se conforme as estimulações ou os desafios do meio social.” (Silva, 1995 : 31)


Pelo sim, pelo não, seja Malu quem for, não há vestígios de revolta em suas colocações a respeito de nenhuma exigência sobre esse curso, nem aparece uma palavra com esse sentido em sua fala.

ah, eu vivo fazendo cursos, faço todos que aparecem pra nós... é bom fazer cursos, ajuda a gente a desenvolver o trabalho.”


Bem, e agora Malu?
Agora, o seu lado profissional que assume a fala vai fornecendo as pistas e fazendo as amarras com o seu lado pessoal.
Ao falar do trabalho que vem realizando com as crianças, ela vai despejando o coração pela boca:

as crianças são muito queridas... você vê na criança uma pureza, uma inocência...elas estão despertando para a vida... elas são muito amigas... cada coisinha que você ensina pra elas, cada letrinha que aprendem, cada pinturinha que fazem, tudo é novidade pra elas... tudo é muito interessante... dá muito prazer pra gente; elas chegam, sentam no colo, me abraçam... se machucam lá fora, a gente dá um beijo, diz: já passou... e passa tudo mesmo, é uma coisa muito bonita, eu me sinto bem.



Elas têm na gente aquela amizade de mãe ou de vó, sei lá...

Eu me sinto bem, eu me achei, quero ficar no pré.”
A professora de pré-escola está sempre dizendo que se “identifica” com . Mas, ao falar de seu trabalho, não deixa de estar muito próxima, à visão de ternura que permeia a relação professora/criança na pré-escola.
Não se pode tentar entender a professora sem o seu lado afetivo – é uma professora concreta, que, na sua história, se constitui no pensar, no fazer e no sentir. Mas, na professora de pré, aparece muito nitidamente o sentir paralelamente ao pensar e ao fazer e, isso é uma constante.
Parece que ela interioriza com muita força os predicados que lhe são atribuidos e procura revelar que deve ser assim. Aqui, Malu representa o papel de professora de “prézinho” que lhe foi outorgado.
É importante saber se, nessa constituição, houve crescimento. O relato diz que sim. Os dados da trajetória afirmam que a Malu de hoje (mais consciente) não é a mesma de ontem. Aquela que foi fazer o curso de Magistério “furiosa”, “louca da vida” cedeu lugar para esta que diz que “foi muito bom” , “foi o certo” (combateu o bom combate) e defende o direito do professor ter voz e de reunir-se sob a ação de um Sindicato que lute pelos seus direitos. Ao se mostrar “aberta”para um novo saber, Malu parece revelar um certo nível de consciência: quer saber mais para modificar a prática e quem sabe, modificar-se também. Esse é o movimento de romper com as idéias cristalizadas e partir para a superação das contradições.
O sentimento que transparece permeando todos os momentos da sua narrativa é uma certa força motriz interna que a direciona na concretização dos objetivos que traça. Parece que sua vida foi uma corrida para vencer obstáculos ( eu “venci”!) – uma maratona, em que cada etapa cumprida representava um incentivo para a etapa seguinte, (foi duro, mas eu “venci”, e eu já estava pensando em fazer a Faculdade!).
Aqui, a Malu mais consciente fala da questão crucial do Magistério – o salário

isso é uma coisa que parece não ter jeito mesmo, a gente não é professora por causa do salário.”


Valeria a pergunta: por que então “a gente” é professora? Parece que esta questão já foi explicada no início da narrativa

eu terminei o ginásio, eu precisava trabalhar...”

mesmo sendo “muito nova” e como professora “leiga”. Mas acha que

agora está muito melhor. Antigamente ninguém podia nem fazer greve, discutir, ir à rua (refere-se à década de 60)



O professor melhorou muito. Hoje nós temos um Sindicato, Federação, para fazer nossa defesa. Já fomos até ameaçados num governo que passou (na mesma década) de sermos cassados. Imagine, cassados só por causa de uma passeata! Mas, nessa época, nós não tínhamos sindicato.”
A professora com missão de sacerdote também está trocando de lugar com a professora que “trabalha na educação”, participa de movimentos sociais e reivindica seus direitos em movimentos grevistas.
A professora vai fazendo seu discurso, esquecida em sua fala política do problema salarial, mas lutando na prática, pela sua melhoria.

eu participo de todas as greves, de todos os movimentos... nós sempre acabamos conseguindo trazer alguma coisa para a nossa “classe”, pouca coisa, não é ainda o que o professor quer, mas já é alguma coisa...”


É a ativista dizendo que participa de todos os movimentos em benefício de sua categoria, achando que hoje é melhor do que ontem, porque o professor pode falar, discutir, participar de greves e ter um Sindicato que lhe dê apoio.
Nesse sentido, é importante dizer que

“ser professor é estar sempre se fazendo, num permanente constituir-se.” (Teixeira, 1966 : 180)


Malu entende que o relacionamento com os colegas e com o pessoal da escola é muito bom. Reúnem-se para discutir os problemas das crianças e buscar soluções, tanto em encontros formais (reuniões) como informais (rodas de cafezinho, intervalos). Mas, nesses encontros os problemas pessoais também aparecem, e muito. Os professores entendem que têm que se dar as mãos, ajudarem-se mutuamente, e conta

quando eu perdi tudo na enchente, meus colegas de trabalho me deram a maior força, com recursos, dinheiro e até comida...”


O professor parece que não espera nada, em forma de direito adquirido como categoria e conta com a amizade e o apoio dos colegas de profissão, nos momentos difíceis da vida.
Afinal de contas

a categoria não é unida, mas em relação às outras secretarias até que o professor tem conseguido alguma coisa... o governo acaba pagando... tem medo das greves...”


O professor une-se um ao outro, como amigos, mas não se une como categoria e essa “alguma coisa” refere-se ao pagamento do salário atrasado!
E os governos acabam pagando o professor por medo das greves e não por direito adquirido, e o professor acaba aceitando essa situação, até contente, achando que melhorou; antes, ainda era pior, não se podia fazer greves.
Quando parar de dar aulas, Malu vai ser evangelizadora, da igreja carismática – acha que tem tudo a ver com a sua profissão, que também a ensinou a criar os filhos.

a gente aprende muito, nessa profissão”.


No processo de construção da identidade da professora de crianças pequenas os espaços não estão sempre se misturando, e as trajetórias pessoal e profissional se interligando?
E Malu vai se constituindo nesse balanço, num jeito de pensar, de sentir, de viver e de entender a vida adquirido nessas experiências de trabalho com as “suas” crianças e nas vivências das muitas personagens articuladas na representação de seus diferentes papéis.
Trajetória nº 2

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