Personagem professora



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CACÁ

Cacá representa a própria atividade. Os seus 29 anos de idade e 11 de carreira devem fazer parte do futuro, porque já viveu durante séculos. Difícil imaginá-la parada.

Acredita-se que jamais ficará sem fazer nada... Mantém um pacto com o movimento.
Cacá diz-se uma professora da “noite-pro-dia”, que percorreu a trilha do Magistério por muitas noites e muitos dias e foi permanecendo... Esta é a trajetória de uma professora-convicta, que não sabe como deveria terminar os seus dias, isto é, não sabe se faz Direito ou Pedagogia – professora já é; advogada acrescentaria Direito? Por que não?

Cacá professora de pré-escola

assenta sua trajetória no tripé

família-profissão-religião,

a professora faz o elo da engrenagem

a linguagem jorra aos borbotões

e vai organizando o pensamento

que é prático, muito prático...

objetiva-se na ação,

apresenta-se pragmática, mas

diz-se emocional

a presença da mulher-atirada;

mãe-dedicada; dona-de-casa “perfeita”

esposa-mãe;

filha-preocupada é forte na

família


o contorno da esposa é débil, apagado...

mostra-se muito mais mãe.

na profissão diz-se também mãe

mistura os espaços com freqüência e convicção.

a professora está no vértice.
Cacá resolveu fazer o curso de professora da “noite-pro-dia”, porque ia se casar e seu marido (“como muito marido que se preza”) não concordaria que ela trabalhasse no escritório. Mas, como professora iria conviver com crianças e aí não teria problemas no casamento. Já se disse que o papel de ensinar ecrianças é o que mais tem-se adequado às mulheres.

aí, eu me interessei pelo Magistério...”


Trabalhava durante o dia e estudava à noite. No 2º ano do curso, surgiu a oportunidade de ir para a sala de pré, em substituição a filha de uma professora

a diretora gostou muito do meu trabalho...”

e enfatiza

da minha alegria para trabalhar com as crianças”


Já se falou também da exigência das qualidades pessoais que a professora precisa ter para trabalhar com crianças.
Cacá permaneceu nesse trabalho até hoje, e são 11 anos de professora, mas nesse momento pesou muito a “sua alegria” para trabalhar com as crianças.
Ao engravidar de sua filha aconteceu o momento de sua primeira dúvida

parar... por que parar?



pensei melhor... vou dar continuidade.”
Pesou muito nesse momento também a ajuda recebida. Cacá acha que sempre trabalhou com pessoas que lhe deram o apoio necessário.
Nesse sentido a profissão de professora é uma grande família. O pessoal da escola reúne-se para tratar de assuntos relativos às dúvidas com o trabalho das crianças, mas trata de problemas pessoais também e

durante a gravidez foi muito importante ter trabalhado com crianças pequenas...”


O espaço profissional do trabalho na Educação Infantil é teoricamente público, mas na prática, ele se mistura constantemente com o privado e a professora acaba sendo a mãe de todas as crianças e a irmã de todas as companheiras (nas horas difíceis).
Mas Cacá mostra-se feliz em poder “ensinar” as crianças, “identifica-se” mais com o Jardim II17, porque é o momento em que a criança começa a aprender

o que é letra, o que é número, você vai ensinar a criança.”


Apresenta-se como uma profissional muito convicta, que resolveu ser professora da “noite-pro-dia” mas que diz gostar muito do que faz, adora “alfabetizar”, até adultos com quem já trabalhou

você vê toda aquela alegria, aquele entusiasmo de aprender.”


É certo que a escolha de Cacá pode ter sido orientada por valores sociais que a encaminharam para uma profissão em que ela pudesse conviver melhor com o seu casamento, mas é certo também que ela passa aquela tal “alegria” que chamou a atenção de sua diretora há 11 anos atrás e que, naquele momento lhes pareceu suficiente e que demonstra conservar até agora, nesse trabalho que continua realizando com as crianças.
Cacá entende que a sua profissão é muito importante para o seu casamento (que conseguiu manter)

eu acho que (a profissão) fortaleceu muito (o casamento)”

e para a vida também

a mulher tem que ter um emprego, seja lá o que for, tem que sair de casa, senão fica aquela rotina... eu sou uma pessoa muito prática.”


Cacá mistura constantemente as fatias (profissão/emprego/família) e vai transitando entre elas com muita propriedade. Apesenta-se como várias personagens que mescla a todo momento. Como professora de Educação Infantil é mulher, mãe, dona de casa, filha e evangélica constantemente, ao mesmo tempo, num ir e vir contínuo.
Lembrando Nóvoa (1992),

“Esta profissão precisa de se dizer e de se contar: é uma maneira de a compreender em toda a sua complexidade humana e científica. É que ser professor obriga a opções constantes, que cruzam a nossa maneira de ser com a nossa maneira de ensinar, e que desvendam na nossa maneira de ensinar a nossa maneira de ser.” (Nóvoa, 1992a: 9)


Considera-se uma pessoa muito prática que, além de ser professora, faz todo o serviço da casa, dá conta e não manda lanches comprados para as suas filhas (tem duas) na escola.

eu sempre preparo um sanduiche, uma torta, uma fruta, eu me preocupo muito com isso.”


Cacá põe um colorido forte no seu lado de dona-de-casa e mãe preocupada. Considera-se “muito prática” porque chega em casa à noite e dá conta de fazer todo o serviço e ainda preparar

pão para as crianças levarem de lanche.”


Mas, diante da admiração de seu marido (“meu marido fica admirado”) e das suas companheiras de trabalho (“como você consegue dar conta de tudo isso?”) responde cheia de moral

eu já consegui o meu lugar no céu.”


Será que Cacá estaria oferecendo a sua cota de sacrifício para isso? Não seria a evangélica falando, dando-se em penitência para conseguir um lugar no céu? E justamente através da missão – apostolado de que se reveste o Magistério? Tudo numa união muito adequada – mulher-magistério-religião?
Mas, o certo é que trabalhando em dois períodos (durante quatro anos) ainda chegava em casa e achava tempo para “tudo”.
O “tudo” para Cacá é a conciliação entre a família e a profissão. O distribuir-se entre tantas fatias e tentar aparecer inteira em cada uma delas. O “tudo” pode envolver um grande mistério feito de suas tantas ações como de suas tantas renúncias. O “tudo” pode se constituir na forma como divide o seu tempo entre lá e cá, entre ir e vir, num processo insano em que, ao acumular tantas funções, tornou-se escrava delas. A mulher ao querer conquistar o espaço público, não conseguiu se desfazer dos papéis domésticos(até por uma questão financeira) e vive transitando de um espaço para outro numa dupla jornada de cobranças perversas.
Além de ser professora, faz bolos e tortas para vender e repete com orgulho as opiniões dos outros a seu respeito.

como você consegue?



Meu marido admira.”
Diz que faz isso por causa do salário (“só o fixo não dá”). Em vez de ficar reclamando que o salário é pouco, faz bolos e tortas para vender – a ação aparece muito presente em sua fala sempre, e gosta de ser reconhecida por isso. Nesse sentido, sente-se orgulhosa em corresponder à imagem que os outros já criaram para ela. Não perde tempo com bobagens, com futilidades; estar “bonita, bronzeada, cheirosa”; faz lembrar o provérbio caipira:

sapo não pula por boniteza mas, porém por precisão...
Hoje acha que quando começou dava muita importância a determinados aspectos no trabalho com as crianças, como decoração, enfeites, mas agora tem plena consciência de que não é isso que vale, mas outras coisas – é a professora de hoje fazendo revisão de ontem.
Cacá vai se revelando nas opiniões pessoais que emite sobre si mesma, as coisas, o mundo

hoje em dia, a mulher tem que trabalhar...



eu sou uma pessoa muito prática...

a mulher tem que sair de casa para não cair na rotina...

além de ser professora, faço outras coisas...

não adianta ficar reclamando do salário...

não sou professora só por causa do fixo, ele importa mas não é só isso...

hoje em dia, os pais olham muito o lado financeiro...

as creches estão desacreditadas, ninguém mais acredita em creches...

as pessoas acham que o pessoal da creche não é capacitado.”
Cacá demonstra que observa muito a realidade e vai formulando concepções a respeito da vida e do mundo. Isso lhe dá o “tom”, isto é, de certa forma, a caracteriza. É o seu jeito de filtrar a realidade e ir se apropriando do sentido das coisas, na vivência dos muitos papéis que representa. A construção do processo da “identidade” passa por esse processo.

“um tempo para refazer identidades, para acomodar inovações, para assimilar mudanças.” (Nóvoa, 1992a : 16)


Cacá reflete sobre muitas coisas em sua vida de professora e chama em seu discurso as conversas e as opiniões com as companheiras de trabalho, principalmente a família. Seu irmão, sua mãe não entendem como ela sendo uma pessoa “tão capaz” ainda não fez uma faculdade, nem mudou de emprego (no Banco, por exemplo para ganhar mais no dizer de seu irmão). Ser “tão capaz”, nesse sentido, é um atributo que pode ser considerado como um desperdício para uma professora. Não mudou porque segundo ela afirma se “identifica” muito com as crianças (quanto a isso diz que não tem a menor dúvida)

o que adianta ganhar mais e fazer uma coisa que eu não gosto?”


Por isso assume a professora e lança mão da “confeiteira” para complementar o salário (“o lado financeiro é muito importante”)
Cacá diz que viveu muitos problemas pessoais este ano e vem se constituindo assim, no trabalho, na família e na religião, numa relação compartilhada.
Bem, nesse momento explode a professora de pré-escola

ainda bem que eu tenho essa profissão de me apegar; eu chego na escola parece que eu esqueço de todos os meus problemas lá fora e a criança, ela toma todo o seu tempo. Não tem hora de ficar triste, de ficar pensando nos problemas, é o tempo todo te chamando tia, tia, e o tempo todo chamando a sua atenção. Tem criança que faz as suas atividades tranquilas, mas outras você tem que ficar orientando; elas contam estórias, elas cantam e isso é muito bom para mim.


Cacá representa aqui o papel da mulher que foi “educada”para se casar, ser boa esposa, boa mãe e professora.
E a professora fica frente-a-frente com sua profissão

foi uma profissão que hoje eu vejo assim que me ajudou muito. Então foi um passo que da noite-pro-dia eu resolvi fazer, mas hoje eu vejo que foi muito bom pra minha vida, pra esses meus anos. Eu tenho 13 anos de casada e isso me ajudou muito a conciliar.”

com a educação

você trabalhando com a educação não vê só o lado exterior da pessoa, você tenta conhecer o interior da criança.”

e com a vida

isso foi muito bom (a profissão) porque eu tento ver o meu marido, os meus amigos, que vivem ao meu redor... ninguém é grosso, ninguém te trata mal sem motivo – é alguma coisa que a pessoa está passando. E a profissão me ajudou muito.”


É certo que as suas emoções, seu pensamento e sua linguagem fazem as mediações nessas ações que ela executa, portanto, lembrando Lane (1995)

“somos as atividades que desenvolvemos, somos a consciência que reflete o mundo e somos a afetividade que ama e odeia este mundo, e com esta bagagem nos identificamos e somos identificados por aqueles que nos cercam.” (Lane, 1995 : 62)


Cacá-professora vai se “camaleando” entre a professora-convicta, a mãe-dedicada, a dona-de-casa que acha tempo pra “tudo”, a esposa que é mais mãe do que esposa, a irmã, a filha, a religiosa, na atividade de ensinar, numa relação dinâmica e compartilhada que marca muito bem o seu modo de ser e de viver professora. A profissional faz o pano de fundo desses encontros clandestinos; a religiosa é a sentinela, está sempre alerta para apoiá-la e manter bem firme as suas convicções.
Cacá utiliza-se de suas diferentes personagens para revelar-se, esforçando-se para mostrar que é assim; parece que adotou como atributos seus as coisas que lhe disseram que é. Nesses momentos, as suas personagens repetem-se.
Cacá observa que sempre gostou de crianças – nos fins de semana leva os sobrinhos pra casa (só não o faz, quando quer descansar, ler um livro ou passear com o marido); nas férias sente saudade dos alunos.
Diz que encontra forças na profissão; fala da profissional como religiosa. A religião é a sua segunda pele. Volta a encarar a profissão

essa profissão de Magistério, eu creio que é como uma religião – você se apega, e você tenta buscar nela forças. Se você tem alguma alegria, você tem como compartilhar isso – eu tenho um grupo de amigas ótimo! Uma vez eu tive uma crise com meu marido, elas que me atenderam. O nascimento das minhas filhas também, elas compartilharam comigo essa alegria.”

e, nesse movimento não dá para separar as várias nuances da mesma professora, porque são muitas convivendo no mesmo espaço.
Guimarães Rosa (1975), falando de sua personagem que procurava a duras penas, se reconhecer, observa

“Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está intacto... o que se deveria ao contágio das paixões manifestadas ou latentes, o que ressaltava das desordenadas pressões psicológicas transitórias... careceríamos de dias, para explicar-lhe.” (Rosa, 1975 : 76)


Mas, o fato é que Cacá retoma a antiga professora que fazia coisas “sem importância”, com um certo grau de consciência adquirido em suas experiências de professora, é capaz de criticá-la através da vivência profissional e da maturidade que sente que conquistou também, no convívio com as companheiras de trabalho, a família e a igreja.

mas eu vejo que amadureci muito. Mas não é assim, de 10 anos atrás, não; cada ano que passa você amadurece.



... hoje eu me sinto mais amadurecida, mais mulher, mais mãe, mais professora, tudo junto.

Quando comecei, as coisas pareciam um relógio (eu estava com os antigos donos da escola): planejamento! crianças!”

e volta a encarar a Cacá de ontem

antigamente era só decoração, tudo tão pequenininho, aquele mundinho tão pequeno, aquela vontade de trabalhar na sala de aula; eu fazia o Magistério (curso), então eu estava nada, cruazinha, foi com o passar do tempo que eu fui aprendendo”
A “Cacá-nada-cruazinha” transformou-se (em cada ano que passou) na Cacá-experiente que sabe hoje, muito bem, “as coisas que não faria” e que admite que fez, quando “não era bem orientada, não tinha uma boa coordenadora e nem a direção à sua disposição, como agora tem.

hoje eu acho que trabalho maravilhosamente; nada como a experiência; o passado... antigamente era só decoração”


Cacá mostra-se capaz de refletir sobre as coisas, sobre o mundinho “tão”pequenininho que deixou para trás e aí parece uma nova personagem, mais crítica e nesse momento, não há repetição.
É interessante observar como Cacá transita entre seu mundo profissional e seu mundo pessoal, fazendo as amarras que ela sabe que faz e acha importante fazê-las

tudo que a gente faz é com criança; não sei se é por causa da profissão de Magistério ou porque eu casei e tive duas filhas e agora as amigas vêm em casa, vai batendo uma saudade da escola, do dia-a-dia; pra minha vida pessoal é muito bom, só pensei em largar, trabalhar com doces e tortas (porque o lado financeiro tem retorno) só que eu nunca larguei



até hoje não me decidi e possivelmente não vou largar. Isso tem muito a ver com o meu lado pessoal, emocional.”
Através da linguagem que jorra com muita facilidade ela vai reproduzindo os conhecimentos que adquiriu acerca das coisas e também os seus valores que estão muito ligados às atividades que realiza, expondo nesse movimento a sua visão do mundo. Sua linguagem, neste momento, a representa, representa o seu processo de “identidade” que se vai constituindo na forma como ela se apropria da realidade e a interpreta, realidade esta mantida pelos próprios valores dos grupos com os quais convive e faz as suas “trocas”.

olhe, você tem que mesclar Magistério, igreja, casamento, família; há um elo, sabe? uma ligação entre tudo isso.”


Para senti-la melhor, talvez fosse importante ouvi-la em suas várias falas:

de profissional:

as minhas filhas, eu sempre deixei com a minha mãe – doentes, com catapora, com sarampo, para ir trabalhar; pode ser que mais tarde eu me arrependa disso, hoje eu acho que o importante foi ter deixado elas para ver o meu lado profissional; fazer cursos, ir dar aulas; preocupada, mas eu ia.”

de professora:

ora, todo ser humano tem dúvidas. E a gente como professora, quer conversar, discutir, ver o melhor caminho.”

de professora pré-escolar:

eu tenho que trabalhar o lado afetivo da criança. Colocar a criança no colo, passar a mão no cabelo, dar um beijo”.
Cacá também ao se referir ao lado afetivo da criança o faz dentro do “modelo” do colo, abraço e beijo, do estereótipo que cerca a questão da afetividade no trabalho com a pré-escola.

de mulher:

eu quero fazer a Faculdade... agora, eu quero fazer. Eu acho que o motivo sou eu mesma. Eu quero porque sou um ser humano, sou uma pessoa; sou uma mulher. eu quero fazer um Faculdade pra isso.”

da esposa:

a gente resolveu voltar e as pessoas disseram que eu voltei pelas minhas filhas, mas eu não voltei. Eu voltei para poder ajudá-lo; se eu chegasse a separar, o que seria dele? Ele é uma pessoa fraca, que precisa de tudo.”

da mãe;


eu apoio as minhas filhas no que elas quiserem ser, mas no fundo, no fundo, eu acho que toda mãe gostaria de ter uma filha médica ou dentista.”

da representante da pré-escola:

este ano eu pensei melhor, porque eu deixava meus alunos com a substituta (pessoal do apoio) para fazer isso, e não é a mesma coisa que a professora, e as crianças acabavam não produzindo a mesma coisa. Não fui mais a representante da pré-escola e até hoje não tem um representante.”

da evangélica:

quando uma pessoa me magoa, eu entrego pra Deus. Nada melhor do que Ele para ajudar uma pessoa. eu não tenho ódio de ninguém, as pessoas podem me machucar. Eu acho que isso é uma coisa da natureza e de minha profissão.”
Importante poder observar qual o sentimento que perpassa nessas várias parcelas que a compõem a sua totalidade. Talvez a própria Cacá explique -se:

uma das características que eu tenho é nunca colocar impecilhos nas coisas... eu sou uma pessoa determinada...eu sou uma pessoa que vai atrás, nunca perguntei pro meu marido se devo ou não fazer algum curso.”


Cacá diz que dá muito valor à formação profissional, mas pensa bem antes de “torrar o dinheiro num curso” que não vai trazer grandes coisas – seu lado prático fala mais alto.

se tiver prática no curso, eu faço porque de teoria todo mundo já está esgotado, eu vou buscando, se tiver prática eu faço com a maior boa vontade. “


Valeria a pergunta de qual teoria “todo mundo já está esgotado”?
A tônica de seu discurso pedagógico parece residir no fato de que o Magistério é mais do que uma profissão, é uma doutrina.

olha a profissão em que eu estou é tão grande; a experiência foi muito boa, não me arrependo de ter feito o Magistério da noite-pro-dia, por causa do casamento, por causa do meu marido.”


Nesse sentido, para ela, o retorno de sua atividade docente não é material, parece residir no reconhecimento social do seu trabalho e numa certa consciência do dever cumprido.
Essa imagem de professor, marcada por conotação religiosa é, segundo Bastos (1994), o que converte o trabalho docente em atividade sagrada, por atitudes de renúncia e solidariedade e por seus objetivos ligados à modelagem de almas, humanização e regeneração da sociedade.
Esse discurso moralizador da prática docente acaba por reforçar os “predicados do espírito na concretização da proposta pedagógica, interferindo também na relação da mulher com o Magistério, principalmente na área da Educação infantil.

hoje em dia, os pais estão muito preocupados em trabalhar, viajar, sair de casa, em comprar, em dar presentes, mas o lado afetivo da criança ninguém está preocupado; então, eu como profissional e como pessoa tenho que, além de ensinar conteúdos, trabalhar o lado afetivo da criança.”


Mas, Cacá está se vendo como profissional, que trabalha o lado afetivo, além dos conteúdos, só que o trabalho com “a afetividade” embora necessário, precisa ser visto numa outra ótica, que vai além de colocar a criança no colo e afagar-lhe os cabelos.
Nessa perspectiva, a atuação da “professorinha” reflete sempre aquela maternidade simbólica, o papel da mulher como responsável pelos seus próprios filhos, como pelos seus alunos, na escola; a concepção do Magistério como uma relação de amor.

colocar a criança no colo, passar a mão no cabelo, dar um beijo (eu vejo que, às vezes eu falho como mãe, nesse aspecto –eu tenho tantas coisas para fazer em casa). Às vezes minhas filhas já estão dormindo, eu deito, dou beijos, converso; sabe aquele adesivo “já beijou seu filho hoje?” eu acho que deveria estar em todos os lugares.”


Mas, um fato que marcou muito a vida de Cacá é de ordem profissional– foi ter lido no jornal uma nota de uma escola procurando professora para o trabalho, e que dizia – precisa-se de professora sem experiência.

por que eles queriam uma pessoa sem experiência?... por que não uma pessoa experiente para fazer a troca?... é incrível um negócio desse! Todo emprego querendo pessoas experientes e uma escola querendo professora sem experiência... Eu não colocaria as minhas filhas lá. Quando eu disse que tinha 10 anos de trabalho e eles disseram que eu não servia, eu vi que eles estavam querendo moldar a pessoa do jeito que eles queriam.”


Cacá preza muito a sua autonomia e a experiência adquirida em “seus anos” de profissão, mas entende que isso não se conquista nos cursos (teóricos) e sim na batalha do dia-a-dia.
É filiada ao Sindicato, gosta de pedir opinião, ser esclarecida a respeito dos aspectos de sua profissão. Mas não é “militante”

já participei de greves, mas não como militante, não puxando os outros, não; parei porque a escola parou; fiquei esperando.”


Cacá foi ser professora “da noite-pro-dia”, mas foi indo... foi indo e acabou sendo. Quem sabe, um dia ainda se torne advogada. Por enquanto advoga em causa própria, defendendo convicções e princípios brotados e adotados em suas relações compartilhadas.
Suas várias dimensões aparecem muito interligadas na fala que expressa o pensamento, revelando-a uma emocional-pragmática.
É uma professora composta de diferentes matizes que se diferenciam em permutações e arranjos. Procura-se a professora, encontra-se a evangélica, procura-se a evangélica, encontra-se a mulher.
Será que lembra Machado

“o resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Mas... hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.” (Assis, 1959 : 441)

ou o poema de Drummond, onde todas se entrelaçam

“para melhor guerra

para maior festa?” (Drummond, 1982 : 7)

Trajetória nº 3




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