Personagem professora



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WAL

Wal contempla a vida do alto de seus 23 anos de idade e 4 de carreira. Ao tentar fazer acomodações pensa que parte para a mudança.


Diz inquietar-se muito com o que não gosta e mostra-se alegre quando fala sobre o que gosta.
Wal não sabia o que era ser professora quando sua mãe a incentivou a fazer o Magistério (afinal de contas, ela queria uma filha professora). Foi e diz que gostou... gostou e ficou... ficou e continua... Sua trajetória revela uma professora-menina, que não querendo se adaptar a determinadas coisas neste mundo, pensa que busca adaptar as coisas deste mundo à sua maneira de ser.
Wal é uma professora de pré-escola que diz ter clara intenção de continuar no Magistério (“profissionalizou-se para isso”)

como iniciante, a professora não queria trabalhar longe e mudou-se para uma escola mais próxima de sua casa

como substituta, a professora buscou uma sala para si e a encontrou

como mulher de marido-professor, a professora acha que é muito bom – falam a mesma linguagem

como mãe de um nenê de 6 meses, a professora entende que é ótimo – vai levá-lo consigo para “a escolinha”

reunindo dessas muitas facetas, a professora vai pra uma escola sua (em janeiro) onde tem esperanças de corrigir algumas coisas que observou em seus quatro “curtos-longos” anos na profissão

– a ausência de uma filosofia nas escolas;

– o direito que os pais pensam que têm de se intrometer no trabalho (e “acabam conseguindo!”)

– o salário das professoras que é muito baixo em relação às mensalidades dos alunos, que são muito altas (“numa sala de 20 alunos, dois pagam a professora”)
Wal partiu para o Magistério por incentivo da mãe, que como outras-muitas mães acreditava ser essa uma profissão adequada para a sua filha mulher.

eu comecei a fazer o Magistério mais por incentivo da minha mãe”

sem saber muito bem o que isso significava; o que era ser professora

eu não conhecia muito o que era”


A professora-menina começou dando aulas numa escola pequenininha, com professoras muito unidas – achou muito bom

a diretora (que também era professora) ajudava muito a gente”

mas depois foi para escolas maiores – achou muito ruim.

eles impõem um ritmo de vida pra gente, passam o ponto de vista deles pra gente e querem que se trabalhe aquilo.”


A queixa de Wal não é única, as professoras não gostam “dessa mania que algumas instituições de Educação Infantil têm de querer moldar as professoras à sua imagem e semelhança.
Wal não sabia o que estava fazendo quando começou; foi assim que se juntou à população economicamente ativa, mas diz que gostou do que estava fazendo, só não gostou do que estavam fazendo com ela

eu passei bastante dificuldade, porque você quer fazer coisa diferente e “eles” não deixam.”


E o que é pior nisso tudo? O pior é que

eles nem têm o domínio daquilo que querem que você passe. O Construtivismo por exemplo, é um modismo em Campo Grande; muitas escolas dizem pra trabalhar o Construtivismo, nem sabem bem o que é e deixam a gente na mão!”


Wal aqui é uma voz que se levanta contra o problema dos modismos que têm assolado a Educação Infantil e que pecam pela falta de seriedade com que as instituições têm corrido atrás das novidades. As teorias vão sendo transformadas em metodologias sem a profundidade que merecem (“sem nem saber bem o que é”) e sem o apoio que deve ter o professor (“e deixam a gente na mão!”) A Educação Infantil parece ser o espaço onde mais ocorre isso, em função das contribuições que as teorias psicológicas vêm oferecendo ao desenvolvimento e à aprendizagem das crianças, e à corrida maluca que os profissionais da área vêm realizando atrás dessas contribuições.
Wal entende que não tinha prática quando começou (nem conhecia o que era) mas gostou da escola pequena onde todos se ajudavam através das trocas realizadas e também de ser professora, mas não concorda com algumas coisas.
Mostra-se uma professora-menina, toda-denúncia

quando a diretora não assume a sala, fica por fora daquilo que a gente está trabalhando



são poucas as escolas em Campo Grande que têm uma Filosofia; os pais mandam na escola.”
Mas acha que para ser professora tem que gostar daquilo que faz

tem bastante trabalho e o salário não dá.”


Aqui é uma professora-menina, toda-sinceridade

eu gosto de minha vida de de professora, você tem que gostar, ter o dom. Você tem que se satisfazer com a criançada e com o que você está fazendo, não pode ser com o salário.”


Wal mostra um certo jeitinho competente de ser, uma competência que (segundo ela) foi adquirida aqui e ali

nos cursos que realizou (“o Magistério foi muito fraco”)



no curso de Atualização para a pré-escola (“foi bom”)

nos congressos, encontros e seminários (sempre participou)

na Faculdade de Pedagogia (“também muito fraca”)

na prática diária, no cotidiano da escola (“aprendi muito!)”
Nesse passar e repassar, a professora-menina, em seus 23 anos de idade e 4 de profissão, viveu intensamente: após o Magistério, Pedagogia à noite; Atualização nas férias; cursos nos intervalos; casamento; filho. Mas, emerge disso tudo com uma certa clarividência. O sentimento que perpassa pela sua fala é de alguém que olha para o mundo com os olhos bem abertos: sabe que foi ser professora por incentivo de sua mãe; entende que o Magistério é uma profissão onde se trabalha muito e ganha-se pouco; denuncia as coisas erradas que existem, mas quer continuar professora porque diz que gosta do que faz e das crianças com as quais trabalha e tem a clareza de saber que é uma profissão onde ela poderá carregar o “neném” consigo (de 6 meses) – vai levá-lo para a “escolinha” junto com ela. Poderia mudar de emprego (tem possibilidades) mas não quer, muito por isso, por causa do neném que quer perto dela e também porque “se profissionalizou para isso”.
Wal diz que gosta de ser professora de crianças, sempre gostou, mas lembra aqui o traço distorcido que marca a atuação da professora de pré-escola - a professora de recortar papelzinho - pelo qual se vê e é vista.

a gente como professora de pré, recorta papelzinho, faz lembrancinha, mas a criança tem uma alegria tão grande que, o que marca pra gente é isso, e daí a pouco, tá tudo no chão, jogado no lixo.”

mas não na mesmice

se você gosta das coisas, elas não ficam cansativas, eu adoro, fica tudo criativo, gostoso...”

mas sabe também que o maior “ chamativo” para ela, nesse momento, é poder levar o filho consigo – e aí parece, é que reside a mesmice.”
Wal entende que está tentando conciliar a sua vida pessoal com a profissional, mas sem dores, sem violência, e seu marido lhe dá o maior apoio

ele até acha graça quando me vê envolvida com os meus papéis; eu nunca tive problemas nesse sentido, e também eu gosto do que faço, sempre gostei.”


Wal saiu da escola pequena onde trabalhava, com dor no coração, não queria sair, mas saiu; a escola mudou para longe e ela não quis acompanhar a mudança (“nessa época ainda não tinha carro”). É uma legítima representante de uma fração da classe média para quem, ser professora é uma opção (sua mãe a incentivou para isso) mas que provém de uma família para a qual o seu salário não representa a sobrevivência (é o complemento da renda familiar e motivo de afirmação pessoal). Aguentou-se sem ele enquanto arrumava outra escola (“mais perto”) para dar aulas (“ainda não tinha carro”) – é a idéia do “segundo” salário, para a “professora-mulher” e para o Magistério como extensão da função doméstica.
Mas, batalhou outra escola e agora se sente muito bem porque

na pré-escola é gostoso, porque tudo é descoberta e você é uma pessoa muito importante para eles; é uma fase muito rica de curiosidade também; eu gosto bastante.”


Na professora-inexperiente, do início de carreira, o sentimento que aparece é o de medo: medo de começar, medo de mudar de turminha, medo de alfabetizar; na professora-atual há mais segurança, adquirida nos caminhos e “descaminhos” das experiências vividas!

você vai tendo muito mais experiência com o tempo e até domínio sobre aquilo que você faz. Eu quero continuar nessa área, não quero mudar, de jeito nenhum, eu gosto e, de repente, eu estou muito melhor do que quando eu comecei.

Do alto de seus 4 anos de profissão (que parecem séculos) a Wal-experiente contempla o seu início de carreira com uma certa maturidade – “não sabia nada” e era “cheia de medos ; “de repente, não mais que de repente’ sente-se muito melhor; mas não foi tão de repente assim – ela lutou muito, serenamente, com conforto, o que não desmerece nem um pouco a sua luta; conseguiu muita coisa em seus 4 “curtos-longos” anos de professora.


Para chegar à Wal de hoje colocou-se objetivos, planejou suas ações, organizou sua vida, de maneira a fazer o que pretendia. Algumas conquistas pesaram na balança da vida

eu tinha que alfabetizar e não sabia como; mas é muito gostoso ver que, de um dia pro outro, eles aprendem; às vezes, num dia não sabem e no outro já sabem; é muito gostoso!”


Busca novamente o seu jeito meio crítico de ser e de viver

o que existe contra o professor (além do salário) é o preconceito; parece que ser professor é uma profissão das menos capacitadas, mas não é; você precisa ter muito conhecimento para passar para uma criança;



é uma categoria muito desunida, fica difícil trabalhar; o que pesa é o salário, super-baixo, mas as mensalidades para os alunos são altas; numa sala de 20 alunos, dois te pagam, isso chateia a gente, é triste.”
Mas pondera

para mim, com o meu filho é uma profissão muito boa, porque posso levá-lo comigo”


Nessa disputa entre a questionadora e a mãe, quem sai ganhando é a professora-mãe. Wal não é uma mera repetição; a mesmice corre por conta das condições objetivas que cercam a vida da professora-mulher. O Magistério é uma profissão que favorece a conciliação dos espaços, e a pré-escola não é uma extensão do lar?
A profissional é que vai confirmar

mas, para mim, com o meu filho é uma profissão muito boa, porque posso levá-lo e, até para trabalhar com ele, eu aprendi muito. Com o meu filho é assim... é como você ter uma experiência o dia inteiro... e agora que ele está descobrindo as coisas, eu sei que tenho que estimular muito para ele poder desenvolver tudo o que ele tem para desenvolver. E eu aprendi como professora.”


Fica difícil saber quem é quem. Nesse sentido parece que a mulher se encaminha para a carreira mais adequada e que lhe favoreça essa combinação, levando-a a gostar de sua profissão. Esse sentir tão pessoal, essa relação ao trabalho com crianças, compensa o baixo salário e o preconceito contra a profissão. Sabe que poderia mudar, mas fica e diz que gosta de permanecer, sente-se bem.
É necessário para a mulher ter uma profissão e exercê-la (afinal de contas “profissionalizou-se para isso”); é importante para a profissional-mulher casar e ter um filho (“agora eu tenho o neném”); é importantíssimo para a profissional-mãe ficar junto do filho trabalhando (“é uma profissão muito boa porque posso levá-lo comigo”); é interessante para a mãe ser profissional (“é como você ter uma experiência o dia inteiro”); é importante para a profissional ser mãe (“eles se apegam na gente, é uma fase muito rica”).
Nesse sentido, dá gosto observar os contornos do processo de “identidade” se delineando e se interligando no jogo das relações sociais, diante dos desafios que lhe são impostos. E não há de restar dúvidas de que, no trabalho com crianças pequenas, a adequação das diferentes nuances que a constituem, para a professora-mulher fica bem menos complicada.

O Magistério não atrapalhou meu casamento; um não atrapalha o outro.”


A marca do início ficou; a passagem da assistente para a professora – uma sala só sua –“você tem o controle, a responsabilidade é sua.”agora a situação se repete – uma escola só sua – mas hoje acha que cresceu – quer uma escola com uma Filosofia, quer fazer cursos, especializar-se. Diz que quer continuar professora, mas numa escolinha só sua e vai para lá, em janeiro de 97.
Abrir uma escola representa para professora uma saída, tanto em relação à questão da autonomia profissional, como à melhoria financeira. No caso de Wal isso fica bem claro. O que se observa também é que ela coloca intencionabilidade em suas ações e afirma que quer crescer na profissão.

Trajetória nº 4


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