Personagem professora



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LAU

Lau é a professora que é, mas que poderia não ter sido. Trocou o certo pelo duvidoso.

Pensa-se que foi assim que o duvidoso virou o certo.

Isso em apenas 20 anos de idade e 2 anos e meio de carreira.


Esta é a trajetória de Lau, uma professora que está fazendo Pedagogia. Diz que é profesora por que gosta, acha que o Magistério é bom para ela, entende que o trabalho é penoso mas que o resultado é compensador.
Lau diz que é professora porque gosta e o que mais gosta

na professora é ver o que acontece: as crianças aprendendo

terminando o curso (de Pedagogia este ano) vai cursar o

Magistério (já está matriculada) acha que é importante

percorre o caminho inverso

pretende continuar sempre professora

no futuro quer ir para a Universidade, mas

para ser professora de professoras de pré-escola

não foi por falta de aviso que se tornou professora;

seu pai bem que a alertou para a atitude que estava tomando

– pense bem!

pensou, refletiu

refletiu, insistiu

insistiu, permaneceu

permaneceu, e acha que vai continuar.
Lau contrariou o pai para ser professora – saiu, preencheu uma ficha na escola que estava precisando de profissionais e começou a trabalhar (“sempre eu quis ser professora”).
Seu pai não concordava que ela tivesse essa profissão, pensava na questão salarial e no problema da desvalorização da figura do professor. Sonhava com outros horizontes para a sua filha, mas teve que se conformar.
Insistiu bastante, colocou-se na oposição, tanto que, quando Lau acabou o 1º Grau foi fazer o Científico e não o Magistério

meu pai falou: se você fizer o Magistério não vai dar para fazer uma Faculdade (o Vestibular) só Pedagogia; mesmo assim é um curso fraco; e, se você mudar de opinião nesses 3 ou 4 anos, não vai poder voltar e optar por um outro. Depois, se realmente você quiser ser professora, você volta e faz o Magistério.”


Bem que ele lutou contra. Lau provém de uma família da classe média para a qual o Magistério já não representa uma opção. Seu pai não queria para a filha, uma carreira que não traz prestígio social nem oferece um salário condizente com as suas necessidades.
Ser professora de crianças é uma idéia que já não atrai as frações mais altas da classe média, é apenas uma atividade que a ideologia consagrou como adequada para as mulheres.
Mas o pai de Lau havia deixado uma opção, em aberto

depois, se realmente você quiser ser professora, você faz o Magistério.”


Foi o que aconteceu. Lau trabalhou um ano como auxiliar e depois assumiu uma sala – Jardim III.

fiquei apaixonada pela pré-escola, quero continuar nessa área, fiz Pedagogia, estou terminando este ano... e começando o Magistério”


Está percorrendo o caminho da formação profissional ao contrário, porque seu pai exigiu que ela refletisse melhor, no que estava fazendo.
Mas Lau diz que se sente muito feliz com o que está fazendo e demonstra sinceridade. Em sua alegria espontânea e na forma de se expressar não passa nenhum sentimento de rebeldia. Se optou pelo Magistério o fez com serenidade

gosto muito de crianças, sempre gostei; acho muito maravilhoso, e também o resultado do trabalho você vê, ali na sua frente o que você está fazendo e o resultado disso é muito recompensador”


As salas de Educação Infantil estão cheias de mulheres que adoram dar aulas e “identificam-se” muito com as crianças. Parece que esse é o modelo feminino de trabalho docente.
Lau é uma professora-emoção, nela, é a relação materno-afetiva que dá o tom para a sua prática pedagógica

eles estão numa fase de brincar, tomando pé das coisas e você colhe coisas maravilhosas que eles falam. Os comentários deles quando você está falando sobre alguma coisa; os comentários deles, tudo me encanta muito”... Eu tenho um carinho muito grande por filhos, não tenho ainda mais vou ter.”


Na representação que a professora de pré-escola faz de si mesma e da própria atividade ela coloca a ilusão da “emoção. Como ponto relevante. Na verdade, seu trabalho não traz em si mesmo mais ou menos emoção do que os outros trabalhos. No entanto, ela está sempre se qualificando, colocando-se atributos que a rotulam como “afetiva”, “alegre”, “extrovertida”com “suas”crianças. Ciampa fala de um conhecimento invertido, “o conhecimento invertido como ilusão acerca de si mesmo”(1987:194). Nesse sentido, pode estar havendo “simulação”, teatralidade”.
No trabalho com crianças pequenas, bem como para as mulheres que convivem com elas diariamente, o universo doméstico tem uma importância muito grande, acabando por se misturar no universo profissional, e nessa interligação surge um modelo de atuação em que o afetivo cumpre um papel importante. E, nesse espaço, aparece um jeito de ensinar que é doméstico/profissional e um jeito de ser professora/mãe.

eu comecei a dar aulas, um mês antes de me casar e sempre consegui conciliar o casamento, a professora e a Faculdade, nestes 3 anos... ter filhos é uma coisa que ajuda, você se sente mais segura na profissão porque você vai observando as coisas nos filhos e se sente mais segura como mãe porque vai observando as coisas nos alunos; eu não sei se vou saber fazer isso com meus filhos, mas eu acho que ser professora ajuda muito.”


Sabe-se que esse processo foi engendrado no próprio movimento da socialização da mulher que a direcionou para a vida no lar e para as vivências do afeto, mas o fato é que hoje (1997) ele está muito presente no cotidiano doméstico e profissional dessas mulheres-professoras, que continuam na sala de aula, mesmo tendo consciência da desvalorização do Magistério como profissão e do baixo salário (Lau foi alertada para esse fato pelo seu pai) contentando-se com as recompensas obtidas do resultado do próprio trabalho (que dizem “adorar”) e que não são materiais, e com o convívio com as crianças (com as quais falam que se identificam).

então, o maior valor daquilo que eu faço são as crianças, claro que existe a questão do salário, a questão financeira, mas é muito bom ver as crianças, o jeito que estão e o resultado do seu trabalho.”


Lau acha que mudou muito do começo até aqui, em sua caminhada de professora. No início era a inexperiência.

quando eu comecei, eu nunca tinha dado aulas antes; eu gostava mas não tinha experiência nenhuma; foi uma grande oportunidade para mim, entrei sem nenhuma experiência mas eu acho que cresci na escola, nesse ambiente bom.”


Agora pensa que cresceu, recebeu bastante incentivo

é bom trabalhar num ambiente onde as pessoas se interessam por aquilo que estão fazendo, por educação.”


E muita coisa mudou, desde o dia em que, desobedecendo o pai, entrou nessa escola (em que está até hoje) para preencher uma ficha e ser assistente e onde se transformou, três anos depois, em professora.

do dia em que eu entrei até hoje, muita coisa mudou, eu me sinto mais amadurecida, muito mais preparada. “


É uma professora-emoção que começou inexperiente e se transformou em amadurecida mas que se sente incompleta, é professora-engatinhando, que pensa ter muito ainda o que aprender e que traz em si a marca da busca.

estou engatinhando nas coisas que tenho pela frente, mas uma coisa que me marca muito é essa coisa de sempre buscar; não é que você esteja insatisfeita com o que está fazendo, mas não pode achar que já está sabendo demais.”


E nessa procura, surge a reflexiva e na reflexão, aparece a professora-dúvida

será que o que eu estou fazendo é o melhor? será que os meus objetivos estão sendo alcançados? será que é isso mesmo o que eu quero para os meus alunos? Não é?”


Lau, nesse momento, é só interrogação. Mas para ela resta uma certeza: “adora alfabetizar”

é uma coisa que me marca muito, estar aqui este ano para mim foi maravilhoso, ver esse processo nas minhas crianças foi uma coisa muito boa, poder participar desse processo.”


Como a profissional que se diz ser , Lau expõe suas crenças e posicionamentos pedagógicos e parece segura em relação a eles. Suas dúvidas não têm relacão com as concepções técnicas que diz adotar. Parece muito segura quando revela as suas idéias sobre o trabalho a ser realizado com a criança

a criança sempre sabe muito para a vida dela; ela tem noções, conceitos que são dela e que devem ser respeitados e, a partir daí, serem trabalhados. Eu acho, principalmente, que a criança tem que ser respeitada naquilo que ela sabe. É claro que, se eu estiver desenvolvendo uma criança quanto às suas potencialidades, eu vou estar preparando essa criança para o futuro, mas não deve ser assim: Jardim II para o Jardim III. Não; devo pensar nela agora.”


E a professora-emoção vai se permutando na profissional que emerge com muita categoria. Não cabe aqui julgar os valores e as misérias que cercam as propostas metodológicas para a pré-escola, nem o que está certo e o que está errado nelas, mas compreende-se que a idéia da predominância do emocional e do pessoal sobre o abstrato e formal na visão de mundo dessas professoras-mulheres, pode muito bem começar a mudar. A concepção sobre a criança e o envolvimento entre os espaços público/privado aparecem num clima que tem a maternidade como ponto de referência, mas a necessidade de formação profissional está mudando no imaginário dessas mulheres-professoras, embora elas ainda tragam muito vivos os aspectos que marcaram o trabalho na educação de crianças pequenas nas décadas anteriores e as deturpações que o envolveram. Esse parece ser o movimento de partida para romper com as questões cirstalizadas.
O que traz um sentimento de tristeza é ver o professor como uma categoria tão desunida, e outro sentimento

é essa estória de reclamar demais; é claro que o salário importa muito, mas nós professores, muitas vezes, acabamos esquecendo os nossos alunos para reivindicar o salário. Os alunos não têm culpa do salário que o professor recebe, é preciso separar mais isso; eu vou lutar, sem dúvida, por aquilo que eu acho justo pra mim e pra minha valorização enquanto professora, enquanto profissional que merece.”


Lau enxerga-se como “professora, como “profissional que merece receber uma remuneração mais condizente com seu trabalho, mas entende que o professor não pode fazer dessa bandeira, uma muleta para as suas próprias falhas. Embora diga “nós professores” não está se incluindo na categoria.
E como consciente, a profissional critica o professor que não se esforça para melhorar qualitativamente o trabalho, porque ganha pouco

ah, eu não vou me esforçar, professor não ganha; tem muito disso.”


É interessante observar como o professor sempre acha que a própria categoria não é unida, mas em se tratando da Educação Infantil, a questão assume conotações específicas e as professoras acabam formando um “gueto” (principalmente dentro da escola). O espaço é separado, as reuniões são separadas, o planejamento é separado, até do 1º Grau.

acho que o meu relacionamento na escola é muito bom, conversamos sobre tudo, é claro que conversamos assuntos pessoais também. Sobre a nossa vida profissional, a gente procura colocar em evidência as coisas que acontecem na sala, trocar idéias; às vezes a gente não está muito inspirada, chega uma colega e ajuda.”


Nesse sentido, o professor une-se um ao outro, apoia-se mutuamente, formando um grupo onde se trocam experiências tanto profissionais, como pessoais.
De certa forma, o professor aprendeu a ser assim, a contar com o outro, o que está mais próximo e com quem se relaciona melhor (professora de pré com professora de pré).

existem horas na escola que a gente está por ali, saída, entrada, a gente está sempre trocando experiências; sai muito assunto pessoal também, quando as colegas estão com algum problema, a gente conversa sobre eles. Por mais que a gente queira separar a vida profissional da pessoal é difícil. “


A professora muitas vezes não consegue realizar os seus projetos, não consegue concretizar os desejos, que demonstra ter. Nesse sentido, a ausência do êxito não deve ser entendida como falta de vontade de mudar ou baixo nível de consciência. Ela mostra uma certa clareza quando aponta os problemas que cercam a sua profissão, mas as suas dificuldades ligam-se ao “como fazer” para mudar a situação. A questão é que a mudança liga-se ao contexto mais amplo da sociedade, à mudança nas condições sociais.
Uma coisa que a Lau-amadurecida gostaria de ver esclarecida é essa história de o professor achar que na escola particular, o trabalho fica muito diferente, as coisas ficam mais fáceis, como se todos não estivessem fazendo a mesma educação

queria que você trabalhasse numa escola pública... tem muito disso; na sala de aula o espaço é seu, você é capaz de fazer o que é bom, você é capaz de adequar as coisas...”


Lau esforça-se em passar concepções que foi reunindo e juntando através das diferentes personagens vividas. Às vezes elas se repetem mas a questão da busca da “profissionalização” aparece muito fortemente.
Lau foi ser professora à revelia (de seu pai, porque sua mãe é pedagoga) mas acabou ficando na profissão e diz que não pretende sair. Começou a dar aulas um mês antes de se casar e foi constituindo-se concomitantemente às suas trocas sociais, aos cursos que realiza, à vivência com as crianças e com o grupo de trabalho, ao seu casamento, à vida enfim, no amálgama das experiências.
Nesse processo, passou de assistente-sem-experiência à professora-amadurecida, uma amadurecida-engatinhando (por entender que o que conseguiu é pouco diante do que ainda está por vir); como amadurecida tem consciência dos muitos problemas que prejudicam a profissional e afetam a profissão que é sua,, mas não era pra ser, mas foi, sem que o pai quisesse que fosse, e que será se ela continuar querendo que seja.
Quando não quiser mais ser (pretende mudar) vai se transformar. Lau tem um plano para o futuro – a professora vai deixar de ser professora para se transformar em professora de professoras!.
Trajetória nº 5

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