Personagem professora



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RENI



Em 10 anos de carreira que possui, dos 40 já vividos, Reni acha que conseguiu ser uma professora do asfalto mas não abdicou da professora da favela.

Entende que a travessia trouxe-lhe experiência mas não apagou do coração as marcas do seu despertar.
Relata-se aqui a trajetória de uma professora que começou a despertar na favela, onde também foi mãe e protetora, enfrentou o medo da mudança e, por esses atalhos chegou até à pré-escola. Uma professora que já foi convidada pra mudar de emprego mas diz que não quer. Enquanto puder manter “o pique” quer continuar como está: metade professora, metade protetora, e na pré-escola.
Primeiro dividindo-se entre a professora

e a assistência as famílias

em seguida, experenciando, de série em série

depois no “prezinho”, permanecendo

de lá para cá, a mudança

da favela ao asfalto, a vivência

nas muitas experiências – no início,

engatinhava, agora diz que sabe até onde pode

ir com as próprias pernas

entre o despertar na favela e a permanência

no pré – a escola, a família, a vida,

a emoção do constituir-se na e

pela convivência com as suas muitas crianças

como professora, fez assistência, como assistente,

foi professora

hoje, a professora mistura-se à esposa,

à mãe e à preocupação com a assistência

à criança e às famílias.


Reni não tinha a menor intenção de ser professora; só foi fazer a Pedagogia porque queria ter um curso superior. E porque, teve que fazer um estágio, e para fazer o estágio escolheu a própria escola onde a sua filha estudava. Como não queria ficar vindo pra casa e de casa, colocou-se à disposição da escola (enquanto esperava a filha) em condição de coringa numa atuação tapa-buracos.

eu ficava lá, então eu ficava ajudando um, outro, ajudava as professoras qualquer coisa que precisassem, eu estava lá, ajudando”


Foi assim que se tornou professora, numa atividade-tampão, na sala da 4° série e foi (já professora) percorrendo as outras séries, por sugestão de uma colega. Passou pela 4ª; não gostou da 3ª; da 2ª também não; e, nesse percurso exploratório, chegou até a pré-escola.

adorei a pré-escola. Brincava com as crianças e chegava em casa mais suja do que elas... aí fiz o estágio também no pré”


Reni fez o concurso da Prefeitura (para 1 a 4) porque já tinha resolvido ser professora mas teve que fazer o curso para poder dar aulas no pré. De lá para cá, desde que deixou de ser coringa para virar professora, lá se vão 9 anos de paixão ardente, de amor compartilhado, de “identificação.”

eu adoro a pré-escola, adoro as crianças, as crianças me adoram. Eu me identifico com eles, a gente conversa, são umas crianças obedientes e compreensivas. Mas não são carentes”


Reni diz que as crianças não são carentes porque começou na favela, onde despertou para o trabalho com as crianças pequenas e onde exercia sua profissão num misto de professora e de assistente

num período dava aula e no outro ia fazer visitas, conhecer as famílias, fazer levantamentos sobre a vida deles”


E nessa atuação levava comida de sua casa, dava banho nas crianças, levava toalha de casa e deixava lá. Quando as crianças chegavam urinadas na escola e não se podia estudar por causa do cheiro forte, ela perguntava

se eles queriam tomar um banhinho bom, gostoso, com sabonete, de água gelada com buxinha par se esfregarem; eu levava sempre as roupas de meus filhos que não serviam mais e deixava lá; no outro dia trocava e ficava uma de reserva”


Nesse sentido, como professora, Reni não deixou de ser coringa fazendo as vezes de profissional, mãe, protetora, enfermeira e entendendo a favela do bairro Tiradentes como uma extensão de sua própria casa.
Nessa relação, não faltou o toque do materno-afetivo na caracterização da professora, embora o seu objetivo parecesse bem claro

queria conhecer as crianças e os pais”


Seu marido, com ares profissionais masculinos ria-se disso e aconselhou-a a chamar as mães para conversar e não ir atrás delas, além disso ela estava dispensando muito tempo nesse trabalho, tempo que deveria ser dedicado ao lar-doce-lar.
Reni agüentou um ano nessa maratona, mas no 2° ano de trabalho resolveu seguir os conselhos de seu marido e chamar as mães na escola para contarem suas vidas e seus problemas com as crianças.
Além disso, o bairro Tiradentes ficava muito distante de sua casa e precisaria de sair meia hora antes para poder chegar lá, em tempo.
Foi quando surgiu uma vaga na escola para onde foi e ficou até hoje, uma escola central, de fácil acesso. Seus colegas de trabalho foram contra a sua mudança para lá

o pessoal falava muito, falava que a diretora era enjoada, que as professoras eram velhas, que o ambiente era ruim”

mas Reni entendia que fazendo sua parte bem feita, ninguém iria implicar com ela

eu não vou entrar no departamento delas; fazendo a minha parte bem feita, acho que ninguém vai implicar comigo”


Reni viveu nesse momento um grande conflito interno, ao deixar as suas crianças; era a própria mãe, a super-mãe cheia de culpas, morrendo de pena por ter que abandonar os filhos; jogá-los à própria sorte.

a diretora perguntou – você vai deixar essas suas crianças? os pais, quando souberam, ligavam lá para casa e, eu com dó; fiquei 4 anos na pré-escola e eu com dó; eu me apeguei demais”


Reni passou por uma intensa dúvida, saía ou não saía de lá. A outra escola era mais perto, mas o pessoal a assustava; ficou indecisa. Reuniu a família e pediu consultoria. A junta familiar decidiu por ela.
Reni sentia-se responsável pelas crianças da favela e no envolvimento em que se perdeu na sua atividade de professora, sentia-se incapaz de decidir. Estava atolada até a cabeça. Mas, a junta familiar, convocada às pressas (composta de marido, dois filhos e uma filha) e menos “emocional” que ela, até porque mais carente (a família é que havia ficado carente) deu o veredito final:

era melhor ir para a outra escola mais central, até por causa do transporte, quando precisasse ir a pé”


O primeiro ano na nova escola foi cheio de medos, de tensão, de preocupações com a própria atitude, afinal de contas estaria deixando de ser uma super-mãe-protetora-enfermeira da favela para se transformar numa professora da cidade.
A troca doeu; Reni precisou de um tempo para acomodar as emoções, para digerir sentimentos

nem dava a minha opinião de medo, meu Deus do céu”


Mas, com o passar do tempo e o desenrolar das experiências, tudo foi se acomodando

o medo foi passando, a supervisora foi ótima, me ajudou bastante; a diretora ótima, como professora e como profissional.”


Foi assim que se transformou na professora que é hoje, sem medos, tranqüila e segura e que até já foi convidada para ir para a Delegacia do MEC, mas pensa, repensa, pensa novamente, só que desta vez a história não se repete, Reni não vai, diz que está bem assim.
Não vai porque diz adorar as “suas” crianças

enquanto eu tiver pique, que eu puder passar alguma coisa minha para eles, eu vou ficar na sala de aula; eu gosto das crianças demais.”


Esse sentimento de posse que envolve a docência é muito característico da professora de pré-escola, as crianças são suas e a relação é sempre muito próxima; é na razão de: minhas crianças pra mim para: minhas coisas para elas.
O trabalho é realizado em conjunto – professoras e supervisora, num bom relacionamento, a professora não “alfabetiza” (é rede pública) mas acha que ensina muito, dando uma boa bagagem para a criança.
Reni acha que mudou muito, desde o dia em que despertou na favela e considerava-se sem experiência

lá eu estava começando a trabalhar, engatinhando, agora eu sei o que quero até onde eu posso ir com as minhas próprias pernas”

e pensa que evoluiu, desde o despertar na favela, aprendendo a engatinhar para finalmente andar com as próprias pernas e mais, pensa que sabe até onde pode ir com elas e através delas.

antes, eu sempre precisava de uma amiga, uma orientação para ajudar, me dar mais embasamento; agora não, agora eu sei até onde posso ir”


A professora de hoje relembra a professora de ontem com ares de maturidade, mas entende que para o crescimento pessoal, a experiência valeu muito porque

as crianças precisavam demais da gente, do carinho; porque professor quer ensinar, ensinar e não passa uma mão na cabeça da criança, não dá um beijinho, não conversa.”


Esse fato lhe valeu uma aprendizagem

tem uma hora que a criança quer conversar e o professor ignora... eu comecei a despertar na favela; até hoje quando uma criança não quer trabalhar, a gente senta perto, conversa, às vezes ela quer desabafar algum problema de casa e depois que ela desabafa, começa a estudar, a progredir.”


Na favela aprendeu que a criança tem um lado pessoal que deve ser preservado para que ela se abra para a aprendizagem formal e com essa idéia meteu-se pela profissão-à-fora, pensando sempre nisso e olhando para a criança sem perder de vista a dimensão emocional.
Na profissão, entende que uma “coisa completa a outra”, o que significa dizer que a professora não existe sem a pessoa.

eu sou mãe de três filhos; o que eu passei para eles, eu estou passando para meus alunos”


Nesse sentido, o profissional e o doméstico cruzam-se para maior tranqüilidade da mãe-professora

às vezes ficam umas falhas da gente, como mãe e a gente vai estudando mais, lendo revistas, vendo o que é importante, despertando, adquirindo experiência e eu penso: isso não fiz com meus filhos, vou fazer para os meus alunos.”


A professora tenta compensar em sua atividade, as falhas da mãe, e a mãe desdobra-se em carinhos para os alunos, carinho que não teve tempo de dar para os próprios filhos

eu sei que a mãe não tem tempo; assim como eu não tive tempo de passar para os meus filhos, eu vou passar na escola, porque a mãe deles, também não está tendo tempo.”


Reni acha que “a gente tem que passar alguma coisa diferente”, e, nesse sentido, o que é diferente, em se considerando a professora de pré-escola? A relação materno-afetiva? A professora substituindo a mãe? A mãe substituindo a professora ou ambas coexistindo numa ajuda mútua – a professora suprindo as falhas da mãe; a mãe apoiando o desempenho da professora?
Como o pré é separado do resto da escola, não gosta de ficar isolada, vai conversar com a supervisora, afinal de contas, professor de 1 - 4 só gosta de reclamar

eles não conversam sobre o aluno nem trabalho, é só reclamação – se o assunto é aluno é só reclamação e não fazem nada para ajudar, ou então reclamam do dinheiro”


É interessante observar que a professora de crianças pequenas não se constitui na reclamação do aluno, nem do salário, embora ela sempre aponte o problema

esquece (professor de 1 a 4) que é a profissão que escolheu – tem outras profissões que pagam melhor e é só dar a vaga para outro, não é?”


E é também uma professora que se mostra interessada na formação profissional – é a profissional correndo atrás da profissão, numa corrida que é difícil mas que a professora tem enfrentado

eu gosto de fazer cursos: todos têm alguma coisa diferente... eu gostaria de fazer mais cursos futuramente para enriquecer o trabalho com as crianças”


A Educação Infantil existe em separado, ela forma núcleos compactos dentro da escola, como se disse, e nesse sentido, as professoras convivem, apoiam-se umas às outras e tentam trabalhar em equipe, percebendo-se distantes da categoria

a pré-escola tem tudo separado, até as reuniões; a pré-escola é muito mais unida, a gente se junta para trabalhar, mas os outros não. O pessoal da pré-escola não compete; nossa categoria é desunida.”


Da professora-inexperiente da favela à professora-experiente do asfalto, dos muitos medos a um pouco mais de segurança, das “pernas bambas” para as que sabem onde querem ir, Reni viveu a sua trajetória sentindo com intensidade cada momento vivido: na favela foi muito feliz; na viragem foi muito infeliz – a sua felicidade transformou-se em dúvidas atrozes; na nova escolha, foi muito medrosa – mas o medo foi se transformando em segurança, uma tranqüilidade que se vai concretizando nas muitas experiências vividas nos 9 anos de profissão.
De greves, Reni não participa mais – não se consegue nada e tem que se “esperar a boa vontade do prefeito”.

o salário estacionou faz dois anos”

e o que sobra, no final, é a reposição das aulas durante as férias.
Reni ficou muito impressionada com um fato que leu na revista – uma professora da Inglaterra que não podia se esquecer de sua aluninha e que gostaria muito de revê-la; ficou lembrando do seu “sujinho” – e a professora do asfalto reencara com muita emoção a professora da favela; como poderia esquecer o “seu sujinho” aquele em que dava banhos? – Qualquer dia desses vai encher esta casa de favelados – voz de seu marido saindo do túnel do tempo.
Trajetória nº 7
SU
Dos 43 anos idos e bem vividos, Su tem 15 de profissão na qual se considera alegre e extrovertida.

Compreende-se que ela faz esforço por manter-se assim – mente sã em corpo são.
Esta é a trajetória de Su, a professora que começou na educação porque, como se pensava “mulher que sai de perto da família vira prostituta” e foi parar na pré-escola sem pensar que fosse. Não pensou mas gostou porque acredita que assim aprendeu a “ficar de bem com a vida”, tanto que não abre mão de si mesma, ao trabalhar, fazer ginástica, ainda achar um tempinho para dançar nos finais de semana e tudo sem perder “o pique”.
Su foi parar na pré-escola porque era “habilitada” para isso
Su foi parar na pré-escola porque achou que, dessa forma, não iria se cansar tanto
Su foi parar na pré-escola porque fez concurso para o cargo
Mas, a verdade é que ficou na pré-escola e diz que se sente bem onde está
entre a professora iniciante e a de hoje, lá se vão 15 longos anos de trabalho, de luta, de aprendizagem
considera-se extrovertida, alegre, animada, de bem com a vida, na família e na pré-escola
sonha com melhores condições de vida para a professora que precisa de mais tempo para “viver”
descobriu que está viva
Su foi ser professora porque, na época em que começou não era comum a mulher sair de perto da família para estudar, e segundo conceito popular “virava prostituta”; o Magistério foi a opção que lhe sobrou

foi o que eu tinha para fazer e comecei a dar aula”


Fez Pedagogia, que pôde fazer e foi ser supervisora, depois professora da Escola Normal e, finalmente fez concurso na Prefeitura, para professora de 1 - 4.
Quando assumiu a vaga, percebeu que poderia ira para a pré-escola, uma vez que possuía o curso de Habilitação para o Magistério e entendeu que seria mais fácil o seu trabalho, pois já era professora de pré do Estado, e desse modo

eu poderia fazer um bom trabalho nos dois lugares e não iria me desgastar tanto”


Foi assim que se deu o seu ingresso na pré-escola e, embora nunca tivesse pensado nisso, diz que acabou se “identificando” muito com o trabalho

hoje eu acho que foi a melhor escolha que eu fiz, a de trabalhar com crianças pequenas”


Atualmente, Su pensa que fez uma boa coisa, não poderia ter sido melhor (ou não teria existido outra melhor).

porque você orienta, politiza, faz com que se tornam mais independentes, que elas tenham iniciativa própria”


Su começa a enumerar as vantagens em ser professora de crianças pequenas e nesse sentido começa a exibir as regalias que observa no fato de ser professora de pré-escola.

é muito mais fácil de trabalhar do que com 1-4 ; e tem também as regalias: você não tem recuperação; não tem nota, você tem ficha de avaliação; você tem diário para preencher, mas é uma coisa menos desgastante”


Su diz que está gostando muito da pré-escola, e quando chega o final do ano

eu não estou tão estressada como as minhas colegas”


Aí, fica difícil perceber se Su realmente gosta da pré-escola ou sente-se contente com as “regalias” que ela pode lhe oferecer, até porque confessa, que dessa forma pode levar com tranqüilidade os dois períodos em que trabalha – Estado e Prefeitura. Nesse sentido parece que Su encontrou a fórmula de unir o “útil ao agradável”. Su parece demonstrar que essas “regalias” representam o motivo maior de sua permanência no pré, e a forma de poder conciliar o trabalho, afirmando em seguida.

eu adoro as crianças, a vitalidade delas; a criança agora da pré-escola é uma criança muito mais de bem com a vida, como mundo. Dificilmente você encontra uma criança de mau-humor, elas são felizes e é gostoso trabalhar com elas”


Su, como professora, entende que essa criança de hoje é muito diferente e poderá se tornar ainda mais no futuro, mas deixa bem claro que gosta de pré-escola porque esse é um espaço melhor para se trabalhar, tanto em relação à criança, como aos professores, como ao trabalho de um modo geral – são mais “de bem com a vida” e ela não gosta de mau-humor, e como já afirmou anteriormente, na pré-escola existem algumas regalias.
Hoje, sente-se muito melhor do que ontem, quando começou na pré-escola

eu me sinto hoje uma pessoa muito melhor, mais madura, mais competente e até digo que poderia fazer um trabalho bem melhor, se tivesse melhores condições, mas eu acho que faço um trabalho bom”


E por que Su acha que poderia fazer “o trabalhado ainda melhor” que não faz? Por causa da correria, pelo fato de ter que trabalhar em dois horários para poder sobreviver, porque a professora, apesar de “estar bem com a vida”, parece que vida não está muito de bem com ela

a gente tinha que ter um tempo maior pra se dedicar e fazer um trabalho melhor”


A professora de hoje acha que vê “as coisas com muito mais clareza do que quando começou, mas, o que a fez ficar assim, se a Faculdade “te joga no mercado de trabalho sem muito preparo?” É porque

você vai aprendendo aos poucos. Então foi esse tempo de Supervisão, de 2º Grau, de dar aulas para 1 a 4, de dar aulas para a 4ª série e pré-escola que serviu para dar uma visão muito grande de tudo”


Su entende ainda que esse tempo gasto no amadurecimento das idéias, instrumenta-a também a não “cair de cabeça” nas coisas; a administrar melhor as suas emoções e a lidar com as imposições que são feitas a respeito das “inovações”

por mais que existam inovações, coisas diferentes... você vai com calma. Você aprende a retirar de um curso aquilo que é melhor, que é fundamental para a criança e não entra naquela de modismos”


Su compreende esse fato como amadurecimento

o Construtivismo como o tradicional tem as suas coisas boas e ruins; eu procuro tirar as coisas boas e não entrar no fanatismo, vestir a camisa de vez”


Ela compreende isso como amadurecimento, melhora qualitativa adquirida com o passar do tempo e nas vivências de suas experiências e, em função acha que disso tem hoje uma “visão maior das coisas” e “mais paciência com as crianças.”
A profissão pela profissional:

eu me identifiquei muito com a pré-escola por ser uma pessoa muito extrovertida, alegre, de bem com a vida, de alto astral, eu dificilmente estou de baixo-astral e se um dia dou uma caída, eu levanto; então eu acho que eu curto muito essa de brincadeira, de trabalhar com as cores, de contar estórias, então eu me identifiquei muito; a minha vida é a pré-escola”


Su fala aqui, como se para ser professora de pré-escola bastasse isso, bastassem as suas qualidades pessoais para realizar um bom trabalho quando se sabe que “curtição” não é a mesma coisa que trabalho de qualidade.
Nessa alegria tão espontânea de Su e no fato de se considerar uma pessoa extrovertida, parece que há embutida uma certa busca por essa “tal alegria” que a criança passa e que a ela acha que a pré-escola é capaz de proporcionar. Afinal, ela não se dá bem com o mau-humor e se está de baixo-astral procura levantar. Nesse sentido a profissão parece funcionar para a professora como uma forma de “terapia”.

eu acho que eu curto muito essa de brincadeira, de trabalhar com as cores, de contar estórias”


Será que a professora estará buscando na pré-escola, uma certa alegria que não existe nos outros espaços da profissão-Magistério e que procura encontrar na vida familiar também?

com meus filhos também, eu procuro levar uma vida assim, bem organizada, tranqüila e com muita brincadeira, com muita gozação, então eu me identifiquei muito com a pré-escola”


Mas nem só de “alegrias” se reveste a profissão da professora e fica difícil saber se a mãe é uma extensão da professora ou se a professora é uma extensão da mãe, ou será que ambas se entrelaçam para maior apoio, para maior ajuda, para que se sintam mais de “bem com a vida”?
Há na fala de Su, uma necessidade de adequação entre a pessoa e a profissional – está na pré-escola porque gosta; gosta porque isso a torna mais feliz e tona-se mais feliz porque gosta de sentir-se assim: mais leve, mais “de bem com a vida”. Não quer mudar de emprego porque é isso que sabe fazer e o outro emprego não vai lhe dar o que ganha na escola – conclusão: fica onde está porque diz que gosta, em paz e “de bem com a vida”, sem o mau-humor dos professores de 1º Grau, até porque a pré-escola é menos “estressante”, “as crianças são muito mais felizes, e é gostoso trabalhar com elas”, e tem lá, as suas “regalias”.
Su entende que a categoria-professor é muito desunida; lembra Darci Ribeiro ao dizer que “o professor não sabe a força que tem”. Acha que o professor poderia usar melhor a sua força para conseguir mais vantagens para a categoria, e nessas vantagens aponta mais

tempo para estudar, para pesquisar, para fazer as coisas melhores”


E se pensar que os outros empregos também estão ruins, ela entende que o professor até que não está tão mal assim

poderia estar melhor, mais bem pago”


Divide os professores entre:
– aqueles que trabalham para se ocupar em meio-período, sair de casa ou ter um dinheirinho a mais;

– aqueles que trabalham pela sobrevivência mesmo, porque não têm outra opção;

– aqueles que trabalham porque gostam e não estão preocupados com o dinheiro e até têm outra renda que segura o orçamento;

e, assim sendo, com tantas divisões e interesses que não são comuns, o professor não se organiza numa categoria e deixa de exercer uma força enorme que possui e que não aproveita.


E Su, onde se coloca nessa classificação apressada? Como professora também que é, resume um pouco de cada um deles e nessa composição explica-se

no meu caso, é o que eu sei fazer”

e se for trabalhar em outra coisa, vai ganhar ainda a metade do que ganha na escola.
Mas, a professora entende que se conseguisse alguma vantagem para a categoria (com a força que acha que o professor tem) poderia trabalhar só um período, continuar ganhando a mesma coisa que ganha e reservar o outro período para estudos e pesquisas e

o rendimento seria muito maior; o que reverteria em benefício das crianças; seria uma coisa muito maior”


Su procura trabalhar “intensamente” para não levar serviço para casa, porque ali não teria condições de realizá-los em função de seus afazeres que são muitos: serviços, compras em super-mercado, banco, filhos adolescentes. Mas, de certa forma fica difícil entender o que é “trabalhar intensamente”, se o professor tem o tempo de suas aulas; seria usar a hora do recreio, o momento do cafezinho, ou o quê?
Mas Su observa que não poderia mesmo levar serviço para casa porque

como é que fica a minha vida sem direito a lazer, a nada?”


Su entende que tem direitos e, nesse sentido acha que o professor deveria se organizar melhor para conseguir algumas conquistas para a categoria

a gente tem uma força muito grande que poderia reverter pro aluno em qualidade e melhorar o salário da gente também”


A profissional, ao encarar a profissão, observa que

a gente tem um desgaste muito grande de cabeça e emocional e por isso o professor precisava ganhar mais, eu acho que isso melhoraria até a questão do nível do professor e da qualidade do ensino”


Observa também que no Município a pré-escola está muito melhor que no Estado e dessa maneira está tentando levar toda a aprendizagem que realiza em um, para o outro.
O Município oferece cursos excelentes para os seus professores; o que é bom, ela aproveita; o que é exagero, deixa de lado; afinal acha que já tem discernimento suficiente para fugir aos “modismos”.
A Su muito-mais-madura apresenta-se como uma profissional que tem direitos a mais vantagens em sua profissão e em sua vida particular.
Entende que a pré-escola cresceu muito ao sair do tradicionalismo de “pintar dentro do quadrinho” mas não concorda com “os exageros” que estão aparecendo em forma de propostas de trabalho e preocupa-se com o choque que a criança possa sentir ao passar para a 1° série, onde os professores “nem cantam” e nem encantam.
Acha que, na pré-escola deve-se trabalhar o básico; o resto pertence ao futuro.
Mas, gosta muito do clima da pré-escola

é uma gente muito mais aberta, um pessoal mais tranqüilo, que quer fazer alguma coisa boa, que quer colocar um alicerce bom para as crianças”


Pronto, Su acaba de descobrir o que é gostoso na pré-escola – tem um pessoal sem o ranço das outras séries; realmente as professoras da Educação Infantil formam um núcleo mais saudável dentro da escola; ainda não trazem o mofo dos outros professores.
E a criança também não carrega a impureza das crianças mais velhas

é uma coisa pura, bem sincera, elas são muito autênticas, e eu trabalho muito a autenticidade delas; a questão das verdades, das mentiras, das coisas que elas têm que observar”


Valeria a pergunta: será que trabalhar essas coisas ao lado do conteúdo básico é menos estressante do que trabalhar “os rios do Brasil”? Ou é o clima da pré-escola que é mais saudável e a criança menor e, por isso o trabalho acaba ficando mais agradável? Ou ainda, as regalias existentes interferem no gosto do professor?
As conversas são, tanto sobre assuntos profissionais, na base da troca, como pessoais, na base da confidência. E isso dá para as professoras de crianças pequenas uma marca registrada no relacionamento – elas formam um grupo dentro da escola, procurando se ajudar, tanto no aspecto profissional, como no aspecto pessoal. Dizem que não há egoísmo e nem competição; não há ranço no relacionamento. Será que é porque todas estão na mesma canoa (furada) da desvalorização aos olhos dos outros professores? Afinal, por que competir uma com a outra, se todas estão em pé de igualdade, todas fazendo parte de um mesmo processo de desvalorização profissional.
As trocas profissionais acontecem e, em grande quantidade, umas com as outras e nos cursos (“muito bons”) que têm feito. A categoria fica distante (nas reuniões da ACP, da qual Su é sócia).
Su gostaria muito de fazer uma especialização, um mestrado, mas o trabalho não oferece condições materiais. O Município não facilita a vida de ninguém que quer estudar, ao contrário, complica. Você não pode pedir afastamento e ficar sem o dinheiro que ganha.
Su, por enquanto, quer continuar dando aulas, mas tem sonhos para o futuro: gostaria de melhorar financeiramente para poder ter mais tempo, dando aulas num só período, desgastando-se menos e fazendo um trabalho melhor.
Mais tarde quer trabalhar com idosos, e nesse sentido repete-se: quer passar um pouco de sua alegria para eles.

pelo prazer de ajudar, de contribuir e fazer o dia deles mais feliz, com mais prazer, viver um momento mais bonito”


Su mostra-se coerente: quer passar um pouco de alegria que trocou com as crianças para os idosos.
Entre a inexperiente e a experiente está a professora que “se gosta” e por isso precisa de tempo para fazer um trabalho melhor e para si mesma. Não abre mão de si mesma, acha que por isso mantém a forma, a saúde, a tranqüilidade e não se estressa tanto. Na relação profissional/pessoal é a pessoa quem dá as cartas.
Su descobre a pessoa que existe dentro da profissional, e uma pessoa que está bem viva.
Trajetória nº 8
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