Personagem professora



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ADRI

Adri só tem 27 anos de idade, mas já tem 11 de carreira e esse fato lhe dá estatuto de respeitada.

Afinal de contas, é uma professora cria da profissão que abraçou.

Crê-se que ela é cúmplice da professora.


Esta é a trajetória de uma menina que diz ter sonhado um dia em ser professora e entende que passou de inexperiente a experiente num crescer paralelo ao das crianças. Esta é a trajetória de Adri, uma professora que se acha “galinha-choca”, solta emoção pelos poros, diz que não quer mudar de profissão, permanece na mesma escola em que começou a trabalhar e que a adotou como filha e que ela adotou como mãe.
Ontem: uma professorinha inexperiente que só queria começar a trabalhar
hoje: uma professora que se diz experiente, que

“tira-de-letra” os problemas do cotidiano


no intervalo, o crescimento feito na relação com as crianças – as crianças crescendo, a professora sentindo-se melhor
a voz fica presa na garganta (sai desafinada) os olhos mais brilhantes
a 1ª emoção – o momento em que lembra o crescimento, a lembrança que marca
a 2ª emoção jorra por conta da filha que queria e não podia ter
a 3ª emoção vem junto com a imagem das crianças com quem convive, no movimento do construir/construindo-se
nos desdobramentos da profissional/esposa/mãe, ela congrega a professora “galinha-choca” muito mãezona, gestada na própria atividade que desempenha
Faz 10 anos que Adri é professora; sempre trabalhando com crianças pequenas, desde o dia que chegou de Bauru, muito “novinha”, e foi procurar um emprego na escola onde está até hoje.
Diz que sempre quis ser professora, nunca pensou em ter outra profissão, por isso resolveu fazer o Magistério, foi um caso de amor à primeira vista.

gosto muito do que faço, me realizei tanto que não tenho vontade de mudar e até pretendo fazer uma Pedagogia”


A professora, ao receber seu diploma, torna-se professora assumindo uma identidade, que lhe foi dada e, a partir daí passa a corresponder à condição de professora-nesse sentido é que ela pode aproximar-se da “personagem-mito”, perdendo a possibilidade de constituir-se no movimento e na história. É como se ela estagnasse, transformando-se sim, mas essa transformação pode significar uma mera reprodução do social.
Mas Adri acha que a melhor coisa que existe nessa relação amorosa é o crescimento paralelo professora/criança, nas experiências do dia-a-dia; a criança mudando de nível e a professora transformando-se em melhor.
Quando começou, Adri era muito inexperiente, agora se sente mais segura em relação à criança e ao trabalho. A inexperiente transformou-se naquela que “tira-de-letra” os problemas da profissão.
Adri acha que cresceu muito e a escola também; cresceram junto e que a escola está dando oportunidade para a professora e para as crianças crescerem. A oportunidade que a escola oferece inclui que a professora corresponda às suas exigências.
Entende que a profissão de professora tem tudo a ver com a sua vida pessoal (o que não é novidade)

você vê, agora eu sou mãe e tenho uma menininha de um ano e meio, então tudo o que eu aprendo na minha escola... tudo de bom que aprendo faço em casa, com a minha filha’


Sua profissão ajuda-a a conduzir a sua vida particular

se eu vejo que estou fazendo alguma coisa errada com minha filha, troco experiências com as colegas, com a direção, com a coordenadora”


Nesse sentido há uma relação muito forte entre a professora e a mãe, a casa e a escola.
Tudo que não sabe, Adri fala que pergunta, indaga, procura saber, como as suas colegas mais novas fazem com ela; buscam-na como uma professora mais experiente para troca de experiências. Adri tem muito acesso à diretora, que é a dona da escola, o que lhe dá um certo “poder” diante das colegas.

do mesmo modo que as minhas colegas mais novas me procuram para perguntar, porque me acham mais experiente que elas”


Adri, nesses 10 anos, transformou-se de inexperiente em experiente que ajuda, com suas experiências a inexperiência das outras e já aprendeu a corresponder ao que dela se espera, ou seja “à proposta da escola”.

e o que eu posso ajudar, eu ajudo, a diretora também me ajudou muito, foi uma pessoa extraordinária”


Adri cresceu junto com a diretora de quem é muito amiga e com quem faz muitas trocas (até no Shopping falam de crianças) e os maridos ficam de lado.
Nesse sentido, a professora é mais forte do que a esposa

ser professora é isso, é estar sempre falando de crianças”


Mas, a mãe é mais forte do que a professora

quando estou com as crianças, eu sou muito mãezona mesmo, aquilo ali é meu, tem hora que eu protejo demais”


Adri não é mãezona, é super-mãe

eu vivo no mundo deles, se eu vejo eles brincando de uma forma muito diferente do adulto eu vou pro meio deles, eu procuro imitar eles em tudo, viver junto com eles mesmo, descer lá em baixo, começar a infância de novo”


A professora experiente – mãezona é “galinha-choca” também e tem muito ciúme dos “pintinhos”, não gosta de dividi-los com ninguém. E nesse sentido, seu discurso repete os estereótipos presentes nas propostas de pré-escola.

eu vejo um pintinho assim longe de mim, eu já vou e falo, quero saber de tudo, eu não aceito”


Adri entende que as professoras são muito unidas no pequeno espaço, mas a categoria é desunida, não deveria ser. Acha que os professores poderiam organizar-se como categoria para poder reivindicar os seus direitos, mas fica distante das lutas da categoria.
Nesse sentido, a estória repete-se. Adri acha que existe muita coisa por conquistar.
Adri diz que quer continuar como professora mesmo, não quer mudar de profissão, nem nunca pensou nisso, diz que se sente bem como está, e nessa afirmação pesa o bom relacionamento dentro da escola.
Nesse momento uma outra emoção que molha os olhos

eu queria uma filha menina, eu adoro meninas, eu me apego com elas... eu lidando com tantas crianças e não tendo a minha”


Mas, seu sonho foi realizado e nesse momento, sonha outros sonhos – esforçar-se mais para se tornar coordenadora, mas sem deixar de ser professora. Ser coordenadora é a função com mais prestígio para as professoras na profissão.

mas eu não quero sair da sala de aula, quero ser os dois”


Adri vive um caso com o Magistério, um relacionamento feliz, com todos os ingredientes necessários para se viver um grande amor – paixão, ciúme, zelo, maternagem, emoção. É um relacionamento que tem suas marcas: a criança com quem se apegou demais, a relação com a diretora e uma certa adequação ao papel a que se propôs desempenhar.
Mas, Adri desenvolveu-se ali, na escola, com a diretora; entrou muito nova e foi se constituindo assim, nesse movimento – escola, diretora, trabalho, crianças, colegas, experiências... tudo o que marca.

a escola é a vida da Adri”

seu primeiro emprego, seu primeiro amor.
O fato da professora valorizar tanto o apoio recebido por parte das pessoas mais experientes ou da instituição pode ser entendido como uma necessidade de segurança. Ela passa a entender que não está sozinha em suas dificuldades. O desenvolvimento de seu nível de consciência é que vai permitir que a professora compreenda o que é apoio, o que é desejo que ela corresponda à expectativa nela depositada.
Adri compreende que não é nada fácil conciliar tantas facetas – professora/esposa/mãe; o marido puxa de um lado.. os cadernos esperam do outro... a esposa morrendo de culpa... a mãe com remorsos... Enfim, é uma luta em que diz que sai “vencedora”. Mas, é uma vitória com sabor de ressaca. O esforço gasto é muito grande, principalmente nos finais de semana, quando o marido quer sair e ela está mergulhada em papéis, até a cabeça. Mas, o marido agora também é muito mais compreensivo, entendeu que a vida profissional é importante pra ela (conheceu-a assim) e até ajuda, cuidando da filha, nos finais de semana. Está mais tranqüila para viver a sua profissão, não se sente mais tão pressionada. Mas, Adri parece que se sujeita a viver esse papel que não acompanha as mudanças e ainda se sente vencedora porque o marido “concorda” com a sua profissão. Nessa perspectiva, as professoras dão a impressão que pararam no tempo - estão sempre tentando conciliar os espaços e são dependentes da aceitação de seus maridos para viverem a sua profissão em paz.
Mas, não resta a menor dúvida, de que o apoio e a compreensão do marido (principalmente a compreensão) ajudam muito a professora na difícil conciliação dos espaços doméstico e profissional, e sempre que a professora está falando em vitória, está se referindo a essa conquista. Não é nada fácil viver sob pressão.
Adri diz que sempre quis ser professora de crianças; (“quando era pequena,. ganhava lousa de presente de Natal”); já foi convidada para trabalhar no Shopping, mas não quis (é uma moça bonita e faria uma boa figura no Shopping) também foi incentivada a ser professora pela sua irmã que era professora em Bauru.

ela trabalhava com crianças carentes e pedia para minha madrinha fazer lanches e arrecadar agasalhos para levar para os seus alunos e isso mexia muito comigo”


Ser professora é um pouco isso também – viver muito próxima aos problemas dos outros; é difícil lidar com pessoas sem se envolver, e quando essas pessoas são crianças o envolvimento ainda é maior. Como trabalhar com crianças pequenas sem se preocupar com a fome e o frio que estão passando! Mas Adri diz que teve mais sorte, trabalha com crianças que vivem em boas condições objetivas de vida.
Adri é cria da escola em que trabalha. Ali sempre viveu, desde o dia que chegou a esta cidade procurando um emprego. Procurava um emprego mas achou uma profissão na qual vem se constituindo como professora “galinha-choca”. Passa muita emoção, os olhos ficam molhados quando fala nas crianças e no envolvimento pessoal que tem com tudo o que se refere a elas. Adri é uma legítima representante da escola em que trabalha.
É interessante imaginar como ela seria se trabalhasse no Shopping – uma moça loura, com os olhos bem verdes, vendendo roupas. Será que passaria, ao vender peças de roupas, a mesma emoção que passa ao falar de “suas crianças?” Será que seria uma vendedora “galinha-choca?” Uma vendedora muito mãezona” com ciúmes de suas peças?
Parece que Adri apresenta-se assim porque vem se constituindo naquilo que faz e que pretende continuar fazendo, de acordo com as expectativas que são nela depositadas.
Afinal, ela não é aquilo que faz, através do que é reconhecida? Adri faz questão de viver “bem” o papel que vem representando.
Trajetória nº 9

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