Pesquisa Qualitativa e Violência Doméstica contra crianças e adolescentes (vdca): por que, como e para que investigar testemunhos de sobreviventes



Baixar 67.23 Kb.
Encontro30.07.2016
Tamanho67.23 Kb.
Pesquisa Qualitativa e Violência Doméstica contra crianças e adolescentes (VDCA): por que, como e para que investigar testemunhos de sobreviventes.
Dra. Maria Amélia Azevedo

Professora Titular/IPUSP

Coordenadora/LACRI-IPUSP


RESUMO


Partindo do pressuposto de que as várias modalidades de VDCA constituem formas mais ou menos completas do “crime perfeito”, o trabalho se propõe a discutir a fundamentação teórica, as estratégias metodológicas e as finalidades sócio-psicológicas da investigação dos testemunhos de sobreviventes da VDCA, dentro do paradigma HISTÓRICO-CRÍTICO de PESQUISA QUALITATIVA.


Palavras chave: Ciências Sociais – Pesquisa – Violência Doméstica


  1. Introdução


O presente texto tem como objetivo principal discutir o porquê o como e o para que de uma certa modalidade de Pesquisa Qualitativa na área da Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes (VDCA) no Brasil. Toma sempre como referencial a experiência de mais de dez anos de investigações sobre essa problemática, realizadas pelo LACRI/Laboratório de Estudos da Criança, vinculado ao Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade (PSA), do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP).

Foi redigido intencionalmente no estilo minimalista de modo a propiciar ao leitor o recurso à intertextualidade enquanto modalidade privilegiada de leitura. Só quando indispensáveis à clareza textual, conceitos básicos foram definidos e explanações apresentadas nas NOTAS e REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS do final.


  1. O Programa de Pesquisas do LACRI/IPUSP (2000-2005)


2.1. Os antecedentes



Em 1995 o LACRI concluiu uma pesquisa diagnóstica, procurando conhecer melhor a produção bibliográfica dos últimos 50 anos na área da VDCA, oriunda das principais Universidades de São Paulo. Consultados 14.779 trabalhos (teses, dissertações, comunicações em congressos, artigos de periódicos científicos), concluímos melancolicamente que se tratava de uma produção:



  • marginal – apenas 22 trabalhos existentes, significando 0,15% da produção global do período;

  • rarefeita – os trabalhos se multiplicam, mais especificamente, a partir da década de 80;

  • dispersa – quase todas as áreas do conhecimento estão representadas, embora com ausências significativas (Pedagogia, Educação Física, Comunicação Social, Odontologia);

  • periférica – a abordagem focal é minoritária (31,8%), dentre os 22 trabalhos estudados;

  • clandestina – apenas 13,6% dos 22 trabalhos analisados foram publicados;

  • d

    esinteressada
    – 68,1% dos trabalhos produzidos estão mais interessados em descrever, explicar e/ou compreender o fenômeno do que em se comprometer com sua proscrição;

2º - esse perfil levou a afirmar que a compreensão do fenômeno da VDCA em nossa realidade e naquele momento histórico era lacunar e reprodutivista de trabalhos produzidos no Exterior;

3º - a Universidade paulista ainda não havia atribuído cidadania acadêmica a essa temática.

A explicação para esse panorama de quase olímpica indiferença – para com uma problemática que (já o sabíamos) é “perversamente democrática” – foi buscada nas raízes de nosso processo sócio-histórico e mais especialmente no fato de a VDCA representar um “escândalo na estrutura da sagrada família”, devendo pois permanecer secreta e camuflada.
“Já se afirmou que a VIOLÊNCIA DOMÉSTICA contra Infância e Adolescência é o protótipo do fenômeno INDIZÍVEL porque IMPENSÁVEL, na medida em que nega aquilo que todos nos esforçamos por acreditar: a proteção incondicional dos pais para com os filhos, enquanto um dos mitos fundantes do modelo burguês de família – patriarcal e adultocêntrica...


  • Considerando ser imprescindível, para a própria segurança dos filhos, demonstrar que essa proteção nem sempre existe e muito menos é incondicional...

  • Considerando que uma das maneiras de fazê-lo, é desnudando a presença latente, camuflada, negada da VIOLÊNCIA...”,

o LACRI decidiu aceitar o desafio de tirar essa temática “da senzala” dando-lhe foros de credibilidade cientifica e reconhecimento social.


2.2 O Programa propriamente dito
Decidimos então organizar e desenvolver um amplo Programa de Pesquisas que fosse temático (isto é referente à VDCA) e, no mínimo qüinqüenal. Em suas duas últimas versões ele foi estruturado em torno da seguinte PERGUNTA CHAVE.
Qual o estado do conhecimento acerca da infância menorizada no Brasil e no mundo?
Para responde-la com consistência teórica definimos que esse Programa seria desenvolvido dentro do PARADIGMA HISTÓRICO-CRÍTICO, cujos pressupostos principais vão enunciados a seguir.

2.2.1 PRESSUPOSTOS




Multicausalidade

Implica no reconhecimento de que a problemática da Infância e Violência em Família é um fenômeno decorrente da interação sinérgica entre uma série de condicionantes e não da atuação de um único determinante”


Porisso dizemos NÃO a MODELOS UNICAUSAIS e MULTICAUSAIS de 1ª, 2ª e 3ª gerações


SÓCIO-PSICO-INTERACIONISMO

Como um fenômeno humano, sua produção e reprodução dependem da INTERAÇÃO constante e auto-modificadora de condições sociais e psicológicas com predomínio hegemônico das primeiras (SOCIOGÊNESE).”


Porisso dizemos NÃO à hegemonia da PSICOGÊNESE.




historicidade

Sendo historicamente produzida, enquanto fenômeno humano, a Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes acaba interferindo na sociedade que a produziu e criando, a médio e longo prazo, condições para sua superação.”


Porisso dizemos NÃO a pesquisas que prescindem do diálogo com documentos, dados e trabalhos já existentes sobre a questão. Pesquisas sem passado costumam não ter futuro!



Abordagem indiciaria e desmistificadora de pesquisa qualitativa.





A abordagem indiciaria, segundo ginszburg, corresponde a um “paradigma que no final do século XIX, emergiu silenciosamente no âmbito das ciências humanas... baseado na semiótica médica “e não por acaso brilhantemente praticado por três médicos: Morelli, Conan Doyle e Freud. Segundo esse modelo epistemológico, cujas raízes são muito antigas, o conhecedor de arte e o conhecedor de almas são comparáveis ao detetive que desvenda um crime ou sua autoria, a partir da “leitura” (enquanto decifração do significado) de indícios imperceptíveis para a maioria dos observadores. Recentemente pode-se acompanhar a adoção desse paradigma na obra de Cornwell, Patrícia. D. Retrato de um assassino./ Jack o Estripador. Caso encerrado. São Paulo, Companhia das Letras, 2003.
A abordagem desmistificadora implica num certo tipo de leitura critica dos significados das palavras e/ou imagens procurando entrar em confronto com eles a fim de desvelar seu SENTIDO MISTIFICADOR, característico da CONSCIÊNCIA INGÊNUA.


Segundo Bogdan e Biklen , cinco são as características principais da pesquisa qualitativa.




  1. Tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento.

  2. Os dados coletados são predominantemente descritivos.

  3. A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto.

  4. O significado que as pessoas dão às coisas e a sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador.

  5. A análise dos dados tende a seguir um processo indutivo.





A pesquisa qualitativa ou naturalística, portanto, envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes.

Isto significa não sucumbir ao falso conflito entre PESQUISA QUALITATIVA x QUANTITATIVA mas reconhecer que o recurso ao quantitativo só será válido


num continuum de investigação que tem no qualitativo seu ponto de partida e de chegada. Significa também não realizar pesquisas descomprometidas da critica ideológica dos saberes sobre VDCA.





Ótica emancipatória centrada muito mais na PREVENÇÃO que no TRATAMENTO, buscando atender ao compromisso de chegar sempre antes que uma criança ou adolescente seja vítima de Violência Doméstica, tornando-se:

um prontuário médico,

um boletim policial,

um processo judicial,

um dossiê psicossocial,

uma notícia de jornal ou...

Um Corpo no Necrotério.
Esse compromisso representa um GRANDE NÃO à ótica patologizante/defectológica, segundo a qual a (re)produção da VDCA seria devida a déficits individuais e/ou sociais.



2.2.2 Resultados
No site do LACRI (www.usp.br/ip/laboratorio/lacri) é possível analisar a estrutura do Programa Plurianual de Pesquisa – Lacri (2000-2005), constatando que há um Projeto concluído no Módulo I INFÂNCIA VÍTIMA de VIOLÊNCIA ENTRE CLASSES SOCIAIS / “INFANCIA POBRE” e seis no MÓDULO II – INFÂNCIA VÍTIMA DE VIOLÊNCIA INTRA CLASSES SOCIAIS / “INFÂNCIA vitimizada no lar”. Estes últimos cobrem as varias faces da VDCA em nosso País. (Violência Física, Sexual, Psicológica, Fatal, Negligência) e sempre a partir dos conceitos básicos, a seguir.

Violência
“Uma realização determinada das relações de força, tanto em termos de classes sociais quanto em termos interpessoais. Em lugar de tomarmos a violência como violação e transgressão de normas, regras e leis, preferimos considerá-la sob dois outros ângulos. Em primeiro lugar, como conversão de uma diferença e de uma assimetria, numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação, de exploração e de opressão. Isto é, a conversão dos diferentes em desiguais e a desigualdade em relação entre superior e inferior. Em segundo lugar, como a ação que trata um ser humano não como sujeito, mas como uma coisa. Esta se caracteriza pela inércia, pela passividade e pelo silêncio, de modo que quando a atividade e a fala de outrem são impedidas ou anuladas, há violência.”




Violência Doméstica contra Crianças e/ou Adolescentes
Todo ato ou omissão praticado por pais, parentes ou responsáveis, contra crianças e/ou adolescentes que – sendo capaz de causar à vítima dor ou dano de natureza física, sexual e/ou psicológica – implica de um lado, numa transgressão do poder/dever de proteção do adulto e, de outro, numa coisificação da Infância, isto é, numa negação do direito que crianças e adolescentes têm de ser tratados como sujeitos e pessoas em condição peculiar de desenvolvimento.
Violência Doméstica Fatal Dirigida a Crianças e/ou Adolescentes
Atos e/ou omissões praticados por pais, parentes ou responsáveis em relação a crianças e/ou adolescentes que – sendo capazes de causar-lhes dano físico, sexual e/ou psicológico – podem ser considerados condicionantes (únicos ou não) de sua morte.
Modalidades
Física

Toda ação que causa dor física numa criança; desde um simples tapa até o espancamento fatal representam um só continuum de violência.



Sexual

Todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou homossexual entre um ou mais adultos que tenham para com ela uma relação de consangüinidade, afinidade e/ou mera responsabilidade, tendo por finalidade estimular sexualmente a criança ou utilizá-la para obter uma estimulação sexual sobre a sua pessoa ou a de outra pessoa.



Psicológica

Também designada como tortura psicológica, ocorre quando pais ou responsáveis constantemente depreciam a criança, bloqueiam seus esforços de auto-aceitação, causando-lhe grande sofrimento mental.


Negligência

Configura-se quando os pais ou responsáveis falham em termos de prover as necessidades físicas, de saúde, educacionais, higiênicas de seus filhos e/ou de supervisionar suas atividades, de modo a prevenir riscos e quando tal falha não é resultado das condições de vida além do seu controle.


...
Dentro desse Programa, dois Projetos merecem destaque por enfocar temas inéditos na realidade brasileira, tal como se indica a seguir.

1º) O Projeto I – Infância e Violência Fatal em Família / Primeiras Aproximações ao Nível de Brasil . “Este trabalho foi resultado de sete anos de investigações desenvolvidas pelo Lacri.

Representa uma incursão inédita pela Arqueologia dos Saberes, acerca de uma das mais trágicas e, talvez por isso, menos conhecida modalidade de Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes: a Violência Fatal.


  • Saberes contidos em Relatos Míticos, Teológicos, Científicos...

  • Saberes inscritos:

    • na Cultura popular das próprias famílias com ocorrências de óbito infanto-juvenil;

    • na Cultura de Massa das notícias veiculadas sobre morte em família de crianças e/ou adolescentes;

    • na Cultura Erudita dos pesquisadores na área e dos profissionais de Segurança, Justiça e Bem-Estar chamados intervir em casos denunciados.

  • Saberes, cujo resgate se fez:

    • no marco referencial de uma abordagem Histórico-Crítica, assentada na concepção do materialismo histórico-dialético, acerca das relações sociais de classe, gênero, etnia etc., constituintes do caldo de cultura no qual germinam, não apenas as sementes de violência (enquanto exercício arbitrário de poder familiar), mas também as possibilidades de sua transformação;

    • dentro do paradigma indiciário de pesquisa qualitativa, exercido através da paciente reunião de pistas e indícios inscritos, tanto na História da infância, quanto no cotidiano da vida de famílias e instituições jurídico-policiais do município de São Paulo;

    • dentro da ótica emancipatória do fortalecimento de potencialidades, sobretudo das mães, a fim de que recusem representar o triste script de cúmplices silenciosas da Violência Doméstica, enquanto metade vítimas, metade cúmplices..., e possam aderir ao papel para o qual deveriam ser realmente educadas: o de protetoras efetivas dos filhos e artífices de uma nova ordem familiar não falocêntrica, nem adultocêntrica, porque assentada numa estrutura democrática das relações interpessoais de gênero e geração.

...Os resultados obtidos testemunham o sofrido processo histórico de construção científica do fenômeno da Violência Doméstica Fatal na Infância e Adolescência e as resistências que renitentemente vêm se lhe antepondo ao nível de Estado e Sociedade. A pesquisa empírica evidenciou uma quase unanimidade na Negação do Fenômeno através de dupla camuflagem:



  • a das “explicações pseudocientíficas” de tipo acidentes domésticos, a que freqüentemente recorrem Polícia e Judiciário;

  • a das “explicações anticientíficas” de tipo fatalidades fortuitas, a que freqüentemente recorrem as famílias dentro do pragmatismo ingênuo que impregna seu cotidiano, segundo Agnes Heller e, sobretudo, se e quando pertencem às classes subalternas.

...E, no entanto, como a paciente análise dos dados revela, todas as mortes estudadas poderiam ter sido evitadas se o fenômeno da Violência Doméstica Fatal na Infância e Adolescência tivesse sido reconhecido e admitido como uma possibilidade concreta dentro da vida familiar.

A principal lição que se pode extrair deste trabalho é, portanto, a de que as Mortes em Terra Idade, que estudamos, bem poderiam ser consideradas casos emblemáticos de Violência fatal enquanto Mortes Anunciadas e, portanto, perfeitamente evitáveis, se os inúmeros sinais de perigo tivessem sido detectados precocemente por olhos instrumentalizados com as lentes do conhecimento científico acerca das possíveis conseqüências mortais para crianças e adolescentes, da Violência Doméstica de tipo Físico, Sexual, Psicológico ou Negligência.”



Porisso mesmo todo o monumental trabalho de investigação desenvolvido resultou num PROJETO MULTIMÍDIA, integrado por um Livro, um Dossiê de Casos, um Vídeo e, mais recentemente uma História em Quadrinhos, destinados respectivamente a pesquisadores, pais, professores e público em geral.
2º) O Projeto V, Vozes da Juventude e Violência Psicológica Doméstica, brevemente resenhado e ilustrado a seguir:

Definido como:



“um fenômeno que diz respeito a ações e omissões dos pais ou responsáveis capazes de produzir dor e sofrimento mental emocional no(a) filho(a)s”,
o constructo de Violência Psicológica Doméstica (VPD) foi operacionalizado em 5 atos considerados mais expressivos pela literatura resenhada e ilustrados a seguir.












Rejeição

Humilhação

Isolamento

Indiferença

Terror



Analisados a partir de um modelo multicausal de 4ª geração, os dados revelaram que a VPD esteve presente na infância e adolescência de quase 30% dos calouros/2000 da USP, embora lamentavelmente eles nem desconfiem disso, pois não aprenderam a julgar criticamente atos que fizeram parte do cotidiano de sua vida familiar.

A VPD revelou-se “uma presença até certo ponto inesperada, considerando o retrato do calouro uspiano, egresso de competitiva maratona seletiva de jovens de cor branca, ambos os sexos, solteiros, que não trabalham, oriundos de famílias onde os pais são proprietários/funcionários e/ou profissionais liberais, os quais disputaram as 7.115 vagas da USP no universo de 130.466 candidatos do vestibular 2000.
A VPD constituiu também uma presença de certa forma paradoxal, porque:
a. discreta porém extensa

Discreta já que sua prevalência foi registrada em menos de um terço da amostra de calouros (27,3%). Não obstante isso, pode-se estimar que ela afete um total de 10.571 estudantes de graduação da USP, o que está longe de ser desprezível, merecendo a designação de extensa;
b. oculta porém palpável

Oculta porque camuflada em ATOS que a absoluta maioria dos sujeitos parece não ter aprendido a considerar VIOLÊNCIA.

Palpável porque os cinco ATOS definidores do constructo VIOLÊNCIA DOMÉSTICA de natureza Psicológica – embora com variações – estiveram consistentemente presentes na absoluta maioria dos cursos pesquisados;
c. comprometedora e não comprometedora

Os ATOS de VPD foram considerados não comprometedores da qualidade de vida familiar pela maioria dos sujeitos pesquisados (66,5%), enquanto para 29,6% deles, sua presença tornou insatisfatória a qualidade de vida familiar).

A explicação para esse perfil, aparentemente contraditório, deve ser buscada de um lado na precária visibilidade da Violência Doméstica de natureza Psicológica, seja enquanto objeto de pesquisa, seja enquanto problema social, impedindo a conscientização das vítimas e a sua própria constituição subjetiva enquanto tal. De outro lado, deve ser investigada no próprio clima sócio-cultural característico da pós-modernidade e nos seus reflexos sobre a banalização da violência nas práticas societárias de paternagem.”

Não há como negar que – além de sobreviventes de VPD – os calouros/USP costumam ser sobreviventes de um duro processo seletivo o que de certa forma os caracteriza como “especiais”, jovens-esperança talvez. Considerando que apesar dessa condição, a esmagadora maioria das vítimas revelou não conceber como violência, os atos que nós definimos como VPD, ocorreu-me indagar se jovens-esperança em outras culturas também evidenciariam esse tipo de falsa consciência.
2.2.3 Desenvolvimentos presentes e futuros
Iniciei então um estudo exploratório de diários e relatos autobiográficos, escritos por jovens. Por que diários? Porque são relatos do cotidiano no qual se revela sempre a personalidade por inteiro de cada pessoa, como nos lembra Agnes Heller : “a vida cotidiana é a vida de todo homem... vida cotidiana é a vida do homem inteiro... O homem nasce já inserido em sua cotidianeidade...” Além disso – ao contrário das autobiografias nas quais o autor nos revela só o que quer revelar – os diários por serem mais episódicos e espontâneos favorecem a análise dos textos dentro do paradigma indiciário e a partir de chaves de leitura que devem estar teoricamente saturadas. Porque relatos de jovens? Porque seu valor testemunhal provavelmente não sofre tanto a interferência do esquecimento...

Escolhi para análise inicial textos de duas grandes escritoras juvenis.



  • Evelyn Lau, autora do celebrado A Fugitiva/O Diário de uma menina de rua. São Paulo. Scipione Cultural, 1997.

  • Adeline Yen Mah, autora do best seller internacional Falling leaves/The true story of an unwanted chinese daughter, London, Penguin Books, 1997.

Escrito um, no Canadá e outro, na Inglaterra – ambas as autoras, de origem chinesa mas vivendo em mundos e tempos diferentes – revelaram-se brilhantes escritoras mas acima de tudo “pesquisadoras da existência” na consagrada expressão de Milan Kundera. Ambas dão um sofrido testemunho de como a educação familiar de inspiração chinesa pode ser despótica e psicologicamente violenta, tolhendo a liberdade das jovens e confiscando o direito de serem sujeitos de sua própria história. Enquanto crimes perfeitos, a VDCA – e mais especificamente a VPD – geralmente têm apenas a vítima por testemunha. Daí a importância dos relatos escritos delas: embora não conscientes de toda a violência sofrida nos respectivos lares, elas têm em comum o fato de terem sobrevivido a isso e de saberem que podem sobreviver fazendo da escrita “um jeito de viver” e uma obra de arte. Os dois minitextos, a seguir, revelam como as autoras vivenciaram a VPD, enquanto perversa modalidade de VDCA, praticada por “pais perigosos”, entre as quatro paredes do que chamam lar...


Diário nº 1
“Externamente, eu não era rebelde. Nunca manifestava raiva, uma vez que era punida por isso. Tornei-me extremamente vulnerável a tudo – simplesmente não me sentia capaz de proteger a mim mesma da dor...

Uma vez, quando eu cursava a quinta série, a nota que recebi num exame foi 89. Era impossível ir para casa com aquela nota imperfeita, e, desvairada, contei a uma amiga que iria cometer suicídio. A professora, por acaso, ouviu minha conversa e marcou para mim uma sessão com a psiquiatra da escola, mas eu não diria nada àquela mulher. Ela pediu para ver meus pais – minha mãe foi, mas, depois, a caminho de casa, fez-me prometer que não contaria a ninguém sobre aquele incidente, por temer que isso traria vergonha à minha família...

Meus pais não aprovaram meu envolvimento com protestos pela paz nem minhas pretensões literárias. Proibiram-me de escrever se eu não tirasse somente notas A na escola e, até eu ir embora de casa, aos quatorze anos, não me permitiram sair a não ser para comparecer às aulas de piano – nem nos finais de semana, nem depois da aula. Eu me dirigia de modo submisso ao meu quarto e lá permanecia, caindo em depressão por meses seguidos, aliviada apenas pelo fato de que continuaria escrevendo em segredo por baixo de um livro de matemática. Minha mãe entrava furtiva e silenciosamente em meu quarto para verificar se eu estava fazendo meus deveres; eu segurava meu livro, inclinando-o para cima com uma mão, e com a outra escrevia, largando-o quando ouvia seus passos. Como resultado, sentia-me

constantemente em pânico, sempre com os nervos à flor da pele com tudo o que ocorria.

Ao mesmo tempo, desenvolvi uma doença chamada bulimia, o que meus pais não entenderam; também comecei a apresentar graves sintomas de estresse, que trato com remédios até hoje. Entrava em inacreditáveis depressões, indo cada vez mais fundo, sem me sentir capaz de sair delas. Era como viver embaixo de uma nuvem. Eu pensava com frequência em suicidar-me, mas nunca pude suportar a idéia de desapontar e constranger os meus pais por causa disso.

O volume de cartas que eu recebia tornou-se outro problema, culminando em uma briga que motivou minha fuga. A maior parte delas consistia em breves respostas de alguns editores, que recusavam gentilmente meu trabalho coma anotação “devido à idade – Treze anos” no rodapé da página; algumas cartas de aceitação e uns poucos cheques. Naquela época eu vivia amedrontada com minha mãe, seus ataques e gritos violentos, constantemente me dizendo que eu não prestava e não servia para nada. Eu me tornei o que se pode chamar de uma filha-modelo – nunca saía de casa, ajudava no trabalho doméstico, não tinha namorado, apenas poucos amigos, tirava boas notas, nunca havia experimentado álcool ou drogas. Ganhei prêmios por meus trabalhos de redação, mas meus pais se mostraram zangados em vez de orgulhosos, censurando-me por não fazer o dever de casa em lugar de escrever. Nunca me senti amada ou capaz de satisfazer a eles ou a qualquer outra pessoa no mundo.

Foi essa a razão de tudo. Sentia que, não importando o que fizesse, nunca poderia justificar o fato de estar viva e de ser filha deles. Às vezes, quando meus pais saiam, eu começava a gritar e não conseguia parar. Ficar presa horas e horas dentro do meu quarto, era a pior coisa que eu conseguia imaginar. Minha mãe não me deixava em paz e meu pai nunca estava lá. Preferi largar tudo o que me era familiar, inclusive meus trabalhos, para fugir. Eu sentia que, se não o fizesse, acabaria me matando ou enlouquecendo.

Este diário engloba os dois anos da minha vida depois que fugi de casa. Ele é

, de certo modo, similar a todos os outros que destruí – é uma história de sobrevivência. Embora pareça difícil de acreditar, todos os acontecimentos que sucederam durante esses dois anos foram emocionalmente mais leves para mim do que viver em casa, razão pela qual eu nunca mais voltei.”

Fonte: Lau, E. ob. cit. p. 11-12.

Diário nº 2
“Sua mãe deseja ver você agora... Subi as escadas e parei frente à porta fechada de seu quarto... Sabia que algo terrível ia ocorrer, tão logo entrei...

Quem são aqueles moleques lá embaixo, perguntou Niang...

São meus amigos.

Quem os convidou?

Ninguém, eles vieram celebrar minha eleição para presidente da classe.

Essa festa foi sua idéia?

Não, Niang.”

(Niang esbofeteia Adeline, dizendo ser mentira e ordena que mande embora seus colegas. A seguir, o Pai chama-a novamente, manda que ela coloque sobre a cama todos os presentes e ordena que os jogue no cesto de lixo, no que é prontamente obedecido.) – Então o Pai disse: “você violou a confiança depositada em você quando convidou seus amigos para insultar-nos.

O que vai acontecer comigo, perguntei apavorada.

Não estamos certos, foi a cruel resposta do Pai.

Já que você não é feliz aqui, você deverá procurar outro lugar...”



Fonte: Mah, Adeline Yen, ob cit, p. 68-71.
...
As perguntas que ficam no ar – e que estou procurando responder – são duas. Em primeiro lugar, quanto esses diários retratam o perfil típico de sobreviventes de VDP, já desvelado na mencionada pesquisa sobre Vozes da Juventude e Violência Psicológica Doméstica.

Em segundo lugar, quanto são histórias de resistência e sobrevivência, dentro da tradição de uma rígida educação chinesa, tal como comenta Aguilera (20).



3.0 NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



  1. Estilo minimalista é o que exprime uma idéia com mínimo possível de palavras. Exemplo clássico na literatura brasileira é a obra de Dalton Trevisan. Em sua última coletânea de contos (A rara Bêbada, 2004, Record, 109 páginas), nenhum conto tem mais de uma página e alguns se resumem a uma linha.

  2. Intertextualidade – “Mosaico de citações – Muitos escreveram sobre o assunto: Roland Barthes, Tzvetan Todorov, Valéry, Shelley, Samuel Johnson, Bakhtin. Seja um livro inteiro, um pequeno artigo ou apenas uma breve menção, parece que estudiosos de literatura sempre se deram conta da questão, desde que passou a existir o conceito de autoria. Mas a teoria da intertextualidade foi formulada por Julia Kristeva, nos anos 60. Ela diz que ‘todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de textos’. O método de estudo da intertextualidade consiste em averiguar a maneira como os elementos se transferem de uma a outra obra. In Miranda, Ana. Uma aristocracia da sensibilidade. O E. S. Paulo. 27/07/97. p. D2.

  3. Azevedo, M.A. (1995) Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes: Compreensão do fenômeno no Brasil. São Paulo(mimeografado).

  4. Azevedo, M.A. e Guerra, V. de A. (1998)– Infância e Violência Fatal em Família. Primeiras aproximações ao nível de Brasil. São Paulo. Iglu, p. 170.

  5. Idem, ibidem, p. 57.

  6. Ginzburg, C. (1989) – Mitos emblemas e sinais/ Morfologia e história. São Paulo. Companhia das Letras, p. 143-179.

  7. Bogdan, R. e Biklen, S. K. (1982) – Qualitative Research for Education. Boston. Allyn and Bacon, Inc.

  8. Luna, S. V. – O falso conflito entre tendências metodológicas in Fazenda, Ivani (org.) (1989) Metodologia da Pesquisa Educacional, São Paulo, Cortez, 21-34.

  9. Azevedo, M. A. e Guerra, V. N. de A., ob cit, p. 11.

  10. Idem, ibidem, p. 176-177.

  11. Chaui, M. (s/d) Participando do debate sobre mulher e violência. In: Perspectivas antropológicas da mulher. Rio de Janeiro, Zahar.

  12. Azevedo, M. A. e Guerra, V. N. de A. ob cit, p. 09-11.

  13. Todo esse material está indicado no site LACRI, já mencionado.

  14. Azevedo, M. A. e Guerra, V. N. de A. (2001) Violência Psicológica Doméstica. Vozes da Juventude. São Paulo, iEditora.

  15. idem, ibidem, p. 65-108.

  16. idem, ibidem, p. 38.

  17. idem, ibidem, p. 111.

  18. Heller, A. (1989) – O Cotidiano e a História. Rio de Janeiro, p. 17-18.

  19. O marco do diário pessoal surge no século XVII com o escritor inglês Samuel Pepys que escreveu sessenta e quatro volumes de diários, em escrita taquigráfica. Há quem afirme que o diarismo é um gênero elitizado, europeu, branco heterossexual e masculino, embora seu desenvolvimento tenha sido marcante a partir dos diários íntimos escritos por mulheres do século XIX (Cf. Carvalho, R. M. – Diários íntimos na era digital / Diários públicos, mundos privados, Internet (consulta feita em 2003).

Hoje, os diários assumem, por vezes, a forma digital (blogs) que, segundo o Relatório da Perseus Development (2003) chegam hoje a 4,1 milhões de endereços virtuais (embora apenas 1 em cada três possa ser considerado ativo) sendo um fenômeno típico do jovem adulto. Os diários – digitais ou não – podem ser importantes enquanto testemunhos de sobreviventes, seja de catástrofes sociais (guerras, terrorismo, etc.), seja de dramas pessoa,is. No primeiro caso estariam:

    1. O famoso Diário de Anne Frank. Escrito por ela entre 1942 e 1944, no esconderijo em Amsterdã, transformou-se no mais lido documento sobre o Holocausto.

    2. Where is Raed? Um diário virtual em que Salam Pax narra a ocupação do Iraque onde mora. (http://dear_raed.blogspot.com/).

No segundo caso, estão os diários mencionados no texto e outros como: Anorexia / Diário de uma adolescente, escrito por Dominique Brand e publicado em São Paulo, 2003, editora Elevação,.

Tanto num caso como em outro, lidos e analisados através de técnicas de análise de conteúdo e/ou discurso, os diários podem revelar seu grande valor testemunhal, dentro das abordagens de Pesquisa Qualitativa (Cf. Denzin, N. K. and Lincoln, Yvonna, S. (editors) (2000) Handbook of Qualitative Research. London, Sage, 2nd ed. Part III, p 366-631.



  1. Aguilera, Christina – Christina Aguilera presents the argument for child abuse – http://www.everything2.com/index.pl?node_id=1468307 (consulta feita em 2003).





Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal