Peter singer nascido em 1946



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PETER SINGER
Nascido em 1946 na Austrália, o filósofo e bioético Peter Singer iniciou sua carreira acadêmica em 1971, ensinando ética na Universidade de Oxford. Em 1977, Singer tornou se professor de filosofia na Universidade de Monash, em Melboume, onde entrou para o Centro para a Bioética Humana, que se dedica a estudar as implicações morais das descobertas biomédicas, e ao qual esteve ligado até 1992. Desde 1999 Singer dá aulas no Centro para os Valores Humanos da Universidade de Princeton.

Além de Libertação Animal (1975), Peter Singer é autor de Ética Prática (1979) e How Are We To Live? (1993).


Peter Singer
Libertação Animal

Título original:

ANIMAL LIBERATION

1975, por Peter Singer


Para Richard e Mary, e Ros e Stan, e   em especial   para Renata.


Esta edição é ainda dedicada a todos os que mudaram as suas vidas para tornar mais próxima a Libertação Animal. Foram eles que tornaram possível acreditar que o poder do raciocínio ético pode sobrepor se aos interesses da nossa espécie.


Índice
Prefácio à edição de 1975
Prefácio à nova edição
Agradecimentos
1 Todos os animais são iguais...

ou por que razão o princípio ético sobre o qual assenta a igualdade humana nos obriga a ter igual consideração para com os animais
2 Instrumentos para a investigação...

os seus impostos aplicados
3 Visita a uma unidade de criação intensiva...

ou o que aconteceu ao seu jantar quando ele ainda era um animal
4 Ser vegetariano...

ou como produzir menos sofrimento e mais alimento com um custo reduzido para o ambiente
5 O domínio do Homem…

uma breve história do especismo
6 O especismo hoje...

defesas, racionalizações e objeções ao movimento de Libertação Animal, e progressos efetuados na sua resolução
Apêndices
1. Bibliografia

2. Vida sem crueldade



3. Organizações
Notas
Índice Remissivo


Prefácio à edição de 1975
Este livro fala da tirania dos animais humanos sobre os não humanos. Esta tirania provocou e provoca ainda hoje dor e sofrimento só comparáveis àqueles resultantes de séculos de tirania dos humanos brancos sobre os humanos negros. A luta contra esta tirania é uma luta tão importante quanto qualquer outra das causas morais e sociais que foram defendidas em anos recentes.
A maior parte dos leitores considerará que aquilo que acabou de ler é um exagero completo. Há cinco anos, também eu teria feito graça das afirmações que agora escrevo seriamente. Há cinco anos, eu não sabia o que sei hoje. Se você ler este livro atentamente, prestando especial atenção aos capítulos 2 e 3, saberá tanto quanto eu acerca da opressão dos animais, e que é possível incluir num livro de tamanho razoável. Depois, poderá julgar o parágrafo inicial: será exagero ou a constatação sóbria de uma situação praticamente desconhecida do grande público? Tudo o que peço é que suspenda o seu julgamento até ter lido o livro.
Pouco tempo após ter começado a trabalhar neste livro, a minha mulher e eu fomos convidados para tomar chá   vivíamos então na Inglaterra   por uma senhora que sabia que eu tencionava escrever sobre animais. Ela própria se interessava bastante sobre o tema, disse, e tinha uma amiga que já tinha escrito um livro sobre animais e gostaria muito de nos conhecer.
Quando chegamos, a amiga da nossa anfitriã já lá se encontrava e, realmente, mostrou muita vontade de falar sobre animais. "Adoro animais," começou ela. "Tenho um cão e dois gatos, e, sabem, dão se todos extremamente bem. Conhecem a Sra. Scott? Ela dirige um hospital para animais de estimação doentes..." e por aí afora. Fez uma pausa enquanto se servia do chá, pegou um sanduíche de presunto, e perguntou nos que ani­mais de estimação tínhamos.
Dissemos lhe que não tínhamos animais de estimação. Pareceu um pouco surpreendida, e mordiscou o sanduíche. A nossa anfitriã, que tinha acabado de servir os sanduíches, juntou se a nós e retomou a conversa: "Mas é verdade que se interessa por animais, não é, Sr. Singer?"
Tentamos explicar que nos interessava evitar o sofrimento e os maus tratos; que nos opúnhamos à discriminação arbitrária; que considerávamos errado infligir sofrimento desnecessário a outro ser, mesmo não sendo esse ser membro da nossa espécie; e que acreditávamos que os animais eram explorados de forma impiedosa e cruel pelos humanos, e queríamos que tudo isto fosse alterado. Para além disto, os animais não nos "interessavam" especialmente. Nenhum de nós tinha gostado excessivamente de cães, gatos ou cavalos, ao contrário de algumas pessoas. Não "adorávamos" animais. Queríamos simplesmente que eles fossem tratados como os seres independentes e sencientes que são, e não como um meio para os fins humanos   como tinha sido tratado o porco cuja carne estava agora nos sanduíches servidos pela nossa anfitriã.

Este livro não é sobre animais de estimação. Não é provável que constitua uma leitura confortável para aqueles que consideram que o amor pelos animais só se exprime fazendo uma festa ao gato ou dando comida aos pássaros do jardim. Destina se, ao contrário, às pessoas que se preocupam com o fim da opressão e da exploração, onde quer que estas se encontrem, e pretendem que o princípio moral básico da igual consideração de interesses não se restrinja arbitrariamente à nossa própria espécie. A presunção de que é necessário ser "amante dos animais" para se interessar por estes assuntos constitui, em si mesma, uma indicação da ausência da menor idéia de que os padrões morais que aplicamos aos seres humanos deveriam abranger os outros animais. Ninguém, exceto um racista que pretenda insultar os seus adversários chamando lhes "amantes dos pretos", sugeriria que se tem que adorar as minorias raciais   ou considerá las engraçadas e fofinhas   para mostrar preocupação pela forma como são maltratadas. Sendo assim, por que presumir isto relativamente às pessoas que trabalham para a melhoria das condições dos animais?


O retrato daqueles que protestam contra a crueldade para com os animais como "amantes dos animais", sentimentais e emotivos, teve como consequência a exclusão de toda essa questão do nosso tratamento dos não humanos do debate político e moral sério. É fácil ver porque fazemos isto. Se considerarmos seriamente a questão, se, por exemplo, virmos de perto as condições em que os animais vivem nas explorações pecuárias modernas que produzem a carne que consumimos, podemos sentir nos pouco à vontade em relação a sanduíches de presunto, à carne assada, à galinha frita e a todos os ingredientes da nossa dieta que preferimos não considerar como animais mortos.
Este livro não faz apelos sentimentais à simpatia por animais "fofinhos". Não me choca mais a morte de cavalos ou cães com fins alimentares do que a morte de porcos para o mesmo fim. Quando o Ministério da Defesa dos Estados Unidos descobriu que a utilização de beagles nos testes de gases letais provocara uma onda de protestos e resolveu usar ratos, não me considerei satisfeito. Este livro constitui uma tentativa de pensar atenta e coerentemente a questão de como devemos tratar os animais não humanos. No processo do raciocínio, expõe os preconceitos que subjazem às nossas atitudes e comportamentos atuais. Nos capítulos que descrevem o que essas atitudes significam em termos práticos   como os animais sofrem devido à tirania dos seres humanos  , existem fatos que despertarão alguns sentimentos. Estes, espero, serão sentimentos de raiva e indignação, que surgirão juntamente com a vontade de fazer algo quanto às práticas descritas. No entanto, em lugar nenhum deste livro eu faço apelo a sentimentos do leitor que não se possam basear na razão. Havendo coisas desagradáveis, seria desonesto tentar descrevê las de uma forma neutra que ocultasse a sua verdadeira "desagradabilidade". Não é possível escrever objetivamente sobre as experiências conduzidas pelos "médicos" dos campos de concentração nazistas naquelas que eram consideradas criaturas "sub humanas" sem despertar sentimentos; o mesmo se aplica à descrição de algumas das experiências levadas a cabo hoje em dia em seres não humanos em laboratórios dos Estados Unidos da América, da Grã Bretanha e de outros países. No entanto, a justificação essencial para a oposição a ambos os tipos de experiências não é emocional. É um apelo a princípios morais básicos que todos aceitamos, e é a razão   e não o sentimento   que exige a aplicação destes princípios às vítimas de ambos os tipos de experiências.
O título deste livro tem implícita uma idéia séria. É necessário um movimento de libertação que dê fim aos preconceitos e à discriminação baseados em características arbitrárias como a raça ou o gênero. O exemplo clássico é o movimento de Libertação dos Negros. A imediata atratividade deste movimento e o seu sucesso inicial, embora limitado, tornou o num modelo para os outros grupos oprimidos. Depressa nos familiarizamos com o movimento de Libertação dos Homossexuais e de movimentos em prol dos índios americanos ou dos americanos falantes de castelhano. Quando um grupo maioritário   as mulheres   iniciou a sua campanha, alguns pensaram que se tinha atingido o fim. A discriminação baseada no gênero, disse-se, era a última forma de discriminação a ser universalmente aceita e praticada aberta e assumidamente, mesmo naqueles círculos liberais que há muito se orgulhavam da sua ausência de preconceitos relativamente às minorias raciais.
Devemos sempre acautelar nos ao falar da "última forma de discriminação subsistente". Se aprendemos alguma coisa com os movimentos de libertação, deve ter sido precisamente a dificuldade de reconhecimento de preconceitos latentes nas nossas atitudes relativamente a grupos específicos, até esses preconceitos nos serem apontados ostensivamente.
Um movimento de libertação exige o alargamento dos nossos horizontes. As práticas que anteriormente eram consideradas naturais e inevitáveis passam a ser vistas como resultado de um preconceito injustificável. Quem pode afirmar com alguma confiança que nenhuma das suas atitudes e práticas pode ser posta legitimamente em causa? Se desejamos evitar ser contados entre os opressores, devemos estar dispostos a repensar as nossas atitudes face aos outros grupos, incluindo as mais básicas. Devemos considerar as nossas atitudes do ponto de vista daqueles que sofrem devido a elas e devido às práticas que lhes estão associadas. Se conseguirmos proceder a esta invulgar mudança de perspectiva mental, talvez consigamos descobrir um padrão nas nossas atitudes e práticas cujo objetivo é o favorecimento constante do mesmo grupo   geralmente o grupo ao qual nós mesmos pertencemos   à custa de outro grupo. Chegamos assim à conclusão de que há argumentos a favor do aparecimento de um novo movimento de libertação.
O objetivo deste livro é levar o leitor a proceder a esta mudança de perspectiva mental nas suas atitudes e práticas relativas a um grupo muito vasto de seres: os membros das espécies que não a nossa. Acredito que as nossas atitudes atuais para com estes seres se baseiam numa longa história de preconceitos e discriminação arbitrária. Defendo que não pode haver qualquer razão   com exceção do desejo egoísta de preservar os privilégios do grupo explorador   para a recusa de inclusão de membros de outras espécies no princípio básico da igualdade. Peço ao leitor que reconheça que as suas atitudes relativas a membros de outras espécies constituem uma forma de preconceito não menos condenável do que o preconceito aplicado ao gênero ou raça de uma pessoa.
Em comparação com outros movimentos de libertação, o movimento de Libertação Animal apresenta várias dificuldades. A primeira, e mais óbvia, é o fato de os membros do grupo explorado não poderem, por eles mesmos, protestar de forma organizada contra o tratamento que recebem (embora possam protestar, e o façam o melhor que podem, individualmente). Temos de ser nós a falar em nome daqueles que não podem fazer isso por si próprios. É possível constatar a gravidade dessa dificuldade se perguntarmos a nós próprios quanto tempo teriam de ter esperado os negros pela igualdade de direitos se não tivessem sido capazes de falar por si mesmos e de exigir tal igualdade. Quanto menos um grupo for capaz de se tornar visível e de se organizar contra a opressão, mais facilmente será oprimido.
Ainda mais significativo para o futuro do movimento de Libertação Animal é o fato de quase todos os elementos do grupo opressor estarem diretamente relacionados com a opressão, considerando se beneficiários desta. Efetivamente, existem poucos humanos capazes de considerar a opressão dos animais com o afastamento que tiveram, por exemplo, os brancos do Norte ao debaterem a instituição da escravatura nos estados do Sul da União. As pessoas que comem diariamente pedaços de seres não humanos abatidos consideram difícil crer que estão a agir incorretamente; e também consideram difícil imaginar que outra coisa poderiam comer. Nesta questão, todos os que comem carne são parte interessada. Beneficiam-se   ou, pelo menos, julgam se beneficiar   da desconsideração atual dos interesses dos animais não humanos. Isto torna a persuasão mais difícil. Quantos proprietários de escravos do Sul se convenceram com os argumentos avançados pelos abolicionistas do Norte, atualmente aceitos por quase todos nós? Alguns, mas não muitos. Posso pedir, e peço mesmo, que ponham de lado o seu interesse no consumo de carne ao considerarem os argumentos contidos neste livro, mas sei, de experiência própria, que mesmo com a melhor vontade do mundo isto não é fácil de se conseguir: subjacentes ao desejo momentâneo de comer carne numa ocasião particular, estão muitos anos de consumo habitual de carne que condicionaram a nossa atitude para com os animais.
Hábito. Esta é a barreira final que o movimento de Libertação Animal enfrenta. Hábitos não só dietéticos, mas também de pensamento e linguagem, que têm de ser postos em causa e alterados. Os hábitos de pensamento levam nos a rejeitar as descrições de crueldade para com os animais, considerando as emotivas e destinadas apenas a "amantes dos animais"; ou, se não isso, fazem nos crer que, de qualquer forma, o problema é tão trivial em comparação com os problemas enfrentados pelos seres humanos que nenhuma pessoa sensata gastaria com ele tempo e atenção. Também isto é um preconceito   pois como se pode saber que um problema é trivial até se ter despendido algum tempo a analisar a sua dimensão? Embora, por forma a permitir um tratamento mais completo, este livro trate de apenas duas das muitas áreas em que os humanos provocam sofrimento aos outros animais, não creio que qualquer pessoa que o leia até ao fim fique a pensar que os únicos problemas que merecem tempo e energia são os problemas que dizem respeito aos humanos.
Os hábitos de pensamento que nos levam a desconsiderar os interesses dos animais podem ser postos em causa, tal como se faz nas páginas seguintes. Este desafio tem de ser expresso numa língua que, neste caso, é o português. A língua portuguesa, como outras línguas, reflete os preconceitos dos seus utilizadores. Assim, para os autores que desejam pôr em causa estes preconceitos, aparece uma dificuldade bem conhecida: ou utilizam a sua língua, que reforça os próprios preconceitos que desejam questionar, ou não conseguem se comunicar com o público. Este livro constitui já, por força das circunstâncias, uma concessão à primeira destas vias. Utilizamos comumente o termo "animal" para designar os "animais que não os seres humanos" Esta utilização destaca os humanos dos outros animais, implicando que nós próprios não somos animais   uma implicação que qualquer pessoa que tenha recebido lições elementares de biologia reconhecerá como falsa.
Na mente popular, o termo "animal" reúne seres tão diferentes como ostras e chimpanzés, colocando um fosso entre chimpanzés e humanos, embora a nossa relação com esses símios seja muito mais próxima do que a deles com as ostras. Uma vez que não existe uma outra designação breve para os animais não humanos, tive de usar, no título e noutras instâncias do livro, a palavra "animal" como se ela não incluísse o animal humano. Esta é uma falha lamentável em termos de pureza revolucionária, mas parece ser necessária para conseguir uma comunicação eficaz. No entanto, e para recordar que isto é apenas uma questão de conveniência, utilizarei ocasionalmente modos mais extensos e precisos de me referir àquela que foi em tempos chamada "criação bruta". Noutros casos, tentei também evitar a utilização de uma linguagem que tenda a degradar os animais ou a disfarçar a natureza da comida que ingerimos.
Os princípios básicos da Libertação Animal são muito simples. Tentei escrever um livro claro e fácil de entender, que não requeresse conhecimentos particulares de qualquer tipo. No entanto, é necessário começar com uma análise dos princípios que formam a base daquilo que tenho a dizer. Apesar de não haver nesta obra nada que seja de compreensão difícil, os leitores não familiarizados com este tipo de análise poderão considerar o primeiro capítulo muito abstrato. Não se assustem. Nos capítulos seguintes passamos aos pormenores pouco conhecidos acerca da forma como a nossa espécie oprime as outras que se encontram sob o seu domínio. Não há nada de abstrato nesta opressão nem nos capítulos que a descrevem.
Se as recomendações sugeridas nos capítulos seguintes fossem aceitas, pouparia-se uma dor imensa a milhões de animais. Mais ainda, milhões de humanos tirariam igualmente proveito dessa mudança. Enquanto escrevo, há pessoas que morrem de fome em muitos locais do mundo, e muitas mais encontram se em perigo iminente de morte por subnutrição. O govemo dos Estados Unidos da América afirmou que, devido a colheitas escassas e a existências reduzidas de cereais, apenas podia fornecer um auxílio limitado   e inadequado; mas, como se torna claro no capítulo 4 deste livro, a acentuada ênfase na criação de gado por parte das nações ricas leva ao desperdício de várias vezes a comida produzida. Se cessarmos de criar e matar animais para consumo, poderemos disponibilizar tanta comida para os humanos que esta, distribuída de forma correta, erradicaria a fome e a subnutrição do nosso planeta. A Libertação Animal é também a Libertação Humana.


Prefácio à nova edição
Reler o prefácio original deste livro é como regressar a um mundo semi esquecido. As pessoas que demonstram preocupação pelos animais já não me oferecem sanduíches de presunto. Nos grupos do movimento da Libertação Animal, os ativistas são agora todos vegetarianos; mas mesmo no movimento mais conservador, a favor do bem estar dos animais, existe alguma consciência da questão do consumo de animais como alimentação humana. Os que o fazem sentem se constrangidos e prontificam se a fornecer alternativas quando preparam refeições para terceiros. Existe uma nova consciência da necessidade de estender as simpatias aplicadas agora aos gatos e cães também a porcos, galinhas e mesmo ratos de laboratório.
Não tenho certeza de qual seja a responsabilidade do livro Libertação Animal nesta alteração. Os jornalistas de revistas populares apelidaram no "bíblia do movimento de libertação animal". Não posso deixar de me sentir lisonjeado, mas, ao mesmo tempo, sinto me pouco à vontade. Não acredito em bíblias: nenhum livro tem o monopólio da verdade. Em todo o caso, nenhum livro pode conseguir seja o que for se não tocar os leitores. Os movimentos de libertação dos anos 60 tornaram a Libertação Animal um passo seguinte óbvio: este livro apenas reuniu os argumentos e deu lhes uma forma coerente. O resto foi feito por algumas pessoas excelentes, eticamente empenhadas e trabalhadoras incansáveis   primeiro um punhado de pessoas, depois centenas, e, gradualmente, milhares e, agora, talvez milhões   que constituem o movimento de Libertação Animal. Dediquei lhes esta edição revista porque, sem eles, a primeira edição teria conhecido o destino do livro de Henry Salt, Animal's Rights, publicado em 1892 e deixado a acumular pó nas prateleiras da biblioteca do Museu Britânico a acumular pó nas prateleiras da biblioteca do Museu Britânico

até, oitenta anos mais tarde, uma nova geração reformular os argumentos, tropeçar em referências obscuras e descobrir que já tudo tinha sido dito, mas sem resultado.
Desta vez não será em vão. O movimento cresceu demais para isso. Já se alcançaram importantes benefícios para os animais. Outros ainda maiores estão por vir. A Libertação Animal é agora um movimento mundial e constituirá uma questão importante durante ainda muito tempo.
As pessoas perguntam me muitas vezes se estou satisfeito com o modo como o movimento cresceu. Pela maneira como formulam a questão, é claro que esperam que eu diga que nunca tinha sonhado que o livro pudesse ter tamanho impacto. Enganam se. Pelo menos nos meus sonhos, todos os que lessem o livro diriam: "Sim, mas é claro..." e iriam imediatamente tornar-se vegetarianos, revoltados com o que fazemos aos animais, para que mais pessoas tivessem conhecimento da mensagem da Libertação Animal, e pelo menos as formas mais extremas e desnecessárias de sofrimento dos animais terminariam devido a uma irresistível onda de protesto público.
É verdade que tais sonhos eram contrabalançados pela minha consciência das dificuldades: o conservadorismo da maioria de nós no que se refere àquilo que metemos no estômago; os interesses econômicos que lutariam até o último milhão para defender o seu direito à exploração dos animais, para deles retirar o lucro máximo; e o peso sólido da história e da tradição, que apóiam as atitudes que justificam a exploração. Portanto, deu me prazer receber cartas e encontrar muitas, muitas pessoas que leram o livro e disseram: "Sim, mas é claro...", deixando de comer animais e tornando se membros ativos do movimento de Libertação Animal. Retirei ainda mais prazer, claro, do fato de, depois de tantos anos de luta levada a cabo por tantas pessoas, o movimento de Libertação Animal ter se tornado uma realidade política e social. Mas, mesmo assim, não basta; nem sequer está lá perto. Como esta edição mostra claramente, o movimento teve ainda um impacto muito restrito nas principais formas de exploração dos animais.
O livro Libertação Animal foi publicado pela primeira vez em 1975 e, desde então, tem sido editado quase sem alterações. Há agora três aspectos que se encontram já prontos a ser revistos. Em primeiro lugar, quando o livro surgiu não existia o movimento de Libertação Animal. A própria designação era desconhecida e não existiam grandes organizações   e muito poucas pequenas   que se dedicassem à implementação de alterações radicais nas nossas atitudes e práticas para com os animais. Quinze anos depois, é decididamente estranho que um livro intitulado Libertação Animal não faça referência à existência do moderno movimento de Libertação Animal e, por conseguinte, não comente o rumo assumido pelo mesmo.

Em segundo lugar, a emergência do movimento de Libertação Animal tem sido acompanhada por um aumento incrível da quantidade de literatura produzida sobre este assunto   muita dela consistindo em comentários sobre a posição assumida na primeira edição deste livro. Também passei longas noites discutindo tanto as questões filosóficas como as conclusões práticas com amigos e companheiros de trabalho do movimento de Libertação Animal. Era necessária alguma reação a todo este debate, mesmo que fosse só como indicação do ponto até ao qual eu alterara ou não as minhas opiniões.
Finalmente, o segundo e terceiro capítulos deste livro descrevem aquilo que as nossas atuais atitudes relativamente aos animais significam em duas áreas principais da utilização dos animais: experimentação e criação. Mal comecei a ouvir as pessoas dizerem coisas como "Claro, as coisas melhoraram muito desde que isso foi escrito...", percebi que era necessário documentar o que está agora a acontecer nos laboratórios e nas explorações pecuárias, apresentando aos leitores descrições que não podem ser rejeitadas com o argumento de pertencerem a uma era das trevas distante.
Estas novas descrições constituem a maior parte das diferenças exis­tentes entre esta e a edição anterior. No entanto, resisti às sugestões que me foram feitas no sentido de incluir descrições semelhantes de outros tipos de abuso dos animais. O objetivo do material factual não é servir como um relatório exaustivo do modo como tratamos os animais; é antes, como afirmo no final do primeiro capítulo, revelar de uma forma séria, clara e concreta as implicações da concepção filosófica mais abstrata do especismo, apresentada no primeiro capítulo. A omissão de consideração da caça e das armadilhas, da indústria dos curtumes e das peles, do abuso dos animais de estimação, dos rodeios, dos jardins zoológicos e dos circos não significa que estas questões são menos importantes, mas, antes, que os dois exemplos fulcrais da experimentação e da produção alimentar são suficientes para o que pretendo.
Decidi não responder a todas as objeções levantadas pelos filósofos acerca dos argumentos éticos desenvolvidos no livro. Fazê lo implicaria a alteração da natureza do próprio livro, que se transformaria numa obra de filosofia acadêmica, com interesse para os meus colegas de profissão, mas enfadonha para o leitor comum. Ao invés, optei por indicar, nos locais pertinentes do texto, outros escritos onde se podem encontrar as minhas respostas a determinadas objeções. Também reescrevi uma passagem, no capítulo final, por ter mudado de opinião relativamente a um aspecto filosófico que tem apenas uma relação periférica com a fundamentação ética sobre a qual se assenta a argumentação apresentada neste livro. No que diz respeito a esta fundamentação, já a lecionei, referi em conferências e seminários de departamentos de filosofia, e discuti amplamente, tanto verbalmente como por escrito. Nunca se me depararam objeções inultrapassáveis, nada que me levasse a pensar que os argumentos éticos simples em que se baseia o livro não são sólidos. Tem sido reconfortante perceber que muitos dos meus mais respeitados colegas de área do conhecimento concordam comigo. Assim, esses argumentos são mantidos neste livro, inalterados.
Assim, resta o primeiro dos três aspectos que necessitam de ser atualizados e que mencionei acima: uma referência ao movimento de Libertação Animal e à sua evolução.
Refiro-me a algumas das principais campanhas e vitórias do movimento tanto nas descrições da experimentação laboratorial e da criação intensiva como no capítulo final desta edição revista. Não tentei descrever as campanhas em pormenor, uma vez que alguns dos ativistas mais importantes já o fizeram num livro intitulado In Defense of Animals, que editei não há muito tempo. Mas há uma questão importante para o movimento que precisa ser abordada num local proeminente deste livro, e faço o aqui. Trata se da violência.
Os ativistas aplicaram vários meios para se aproximarem do objetivo do movimento de Libertação Animal. Alguns procuraram alertar o público, distribuindo folhetos e escrevendo cartas para jomais. Outros exerceram pressão junto aos funcionários governamentais e aos seus representantes eleitos, com assento no Parlamento ou no Congresso. As organizações de ativistas promoveram manifestações e protestos no exterior de locais onde se inflige sofrimento aos animais para servir objetivos humanos menores. Mas muitos impacientaram se com a evolução lenta conseguida por estes meios e pretenderam agir mais diretamente para fazer cessar de imediato o sofrimento.
Ninguém que compreenda aquilo que os animais suportam pode criticar tal impaciência. Perante a contínua atrocidade, é muito pouco sentar se e escrever cartas. Há necessidade de ajudar os animais imediatamente. Mas como? Os habituais canais legítimos de protesto político são lentos e incertos. Deveria-se arrombar as portas e libertar os animais? Isso é ilegal, mas a obrigação de obediência à lei não é absoluta. Ela foi justificadamente infringida por aqueles que ajudaram os escravos em fuga no Sul americano, para mencionar apenas uma comparação possível. Um problema mais sério reside no fato de a libertação literal dos animais dos laboratórios e das unidades de criação poder ser apenas um gesto simbólico, pois os investigadores vão se limitar a pedir mais um lote de animais, e quem conseguirá encontrar casa para mil porcos ou l00 mil galinhas? Os raids efetuados pelos grupos da Animal Liberation Front, em vários países, têm sido mais eficazes quando obtêm provas da violência exercida sobre os animais que, de outra forma, não seriam conhecidas. No caso do raid ao laboratório do Dr. Thomas Genriarelli, na Universidade da Pensilvânia, por exemplo, as fitas de vídeo conseguidas forneceram a prova que finalmente convenceu até mesmo o ministro dos serviços humanos e de saúde de que as experiências tinham que cessar. É difícil imaginar outra forma de alcançar este resultado, e só posso louvar as pessoas corajosas, empenhadas e refletidas que planejaram e realizaram esta ação específica.
Mas há outras atividades ilegais de natureza bem diversa. Em 1982, um grupo auto denominado "Animal Rights Militia" enviou cartas armadilhadas a Margaret Thatcher; em 1988, Fran Trutt, uma ativista a favor dos direitos dos animais, foi capturada enquanto colocava uma bomba no exterior dos escritórios da U. S. Surgical Corporation, uma empresa que vinha utilizando cães vivos para testar os seus instrumentos cirúrgicos de grampear. Nenhuma destas ações foi, de forma alguma, representativa do movimento de Libertação Animal. Nunca se tinha ouvido falar da Animal Rights Militia, tendo esta sido condenada de imediato por todas as organizações do movimento britânico de Libertação Animal. Trutt trabalhava isoladamente, e suas ações foram de imediato denunciadas pelo movimento americano. (As provas apresentadas sugeriram a existência de uma armadilha, pois ela foi conduzida aos escritórios da empresa por um informante pago, disfarçado, a soldo do consultor de segurança da U. S. Surgical Corporation.) No entanto, estas ações podem ser vistas como um dos extremos do espectro de ameaças e assédio de experimentadores, negociantes em peles e outros exploradores dos animais, e, portanto, é importante que os membros do movimento de Libertação Animal tornem clara a sua posição com relação a tais ações.
Seria um erro trágico que mesmo apenas uma pequena seção do movimento de Libertação Animal tentasse alcançar os seus objetivos ferindo pessoas. Alguns crêem que aqueles que fazem os animais sofrer merecem que também os façam sofrer. Não acredito na vingança, mas, mesmo que acreditasse, esta seria uma distração prejudicial à nossa tarefa de fazer cessar o sofrimento. Para o fazermos, é necessário mudar as mentes das pessoas da nossa sociedade. Podemos estar convencidos de que quem pratica a violência sobre os animais é completamente mau e insensível, mas nós próprios desceremos a esse nível se ferirmos ou ameaçarmos ferir essa pessoa. A violência apenas gera mais violência   isto é um lugar comum, mas a sua verdade trágica pode constatar se na meia dúzia de conflitos que se desenrolam neste momento no mundo. A força do argumento a favor da Libertação Animal reside no seu compromisso ético: ocupamos um território moral elevado   abandoná lo será fazer o jogo daqueles que se opõem a nós.
A alternativa à via da violência é prosseguir o caminho dos dois maiores   e, não por acaso, melhor sucedidos   líderes dos movimentos de libertação do nosso tempo: Gandhi e Martin Luther King. Com uma coragem e uma determinação imensas, eles defenderam sempre o princípio da não-violência, apesar das provocações e, frequentemente, dos ataques violentos dos seus opositores. No final, tiveram sucesso porque a justiça das suas causas não pôde ser negada, e o seu comportamento tocou mesmo aqueles que se lhes tinham oposto. Os malefícios que infligimos às outras espécies são igualmente inegáveis, uma vez vistos com clareza; e é na justeza da nossa causa, e não no medo das nossas bombas, que residem as nossas possibilidades de vitória.
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