Pierre verger e o projeto colúmbia



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PIERRE VERGER E O PROJETO COLÚMBIA
Ednei Otávio da Purificação Santos – PPGEduC/UNEB

Drª Jaci Maria Ferraz de Menezes – PPGEduC/UNEB

Considerações Iniciais


O convênio de pesquisa firmado no início da década de 50 entre o Governo da Bahia, via Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia (FDC-Ba), com a Universidade de Colúmbia, contou com a presença do "olhar peregrino" de Pierre Verger, com sete de suas fotografias ilustrando o trabalho de pesquisa contratado por Anísio Teixeira. O denominado Projeto Colúmbia previa o estudo de cidades em seis regiões ecológicas do Estado da Bahia, que eles denominaram como: Recôncavo, Nordeste, Chapada Diamantina, São Francisco do Conde, Oeste e o que ele chama de Florestas do Sul - pegando de Ilhéus e Itabuna até Vitória da conquista e do Extremo Sul todo.

Outras regiões que não foram estudadas pelo grupo, porém outros pesquisadores estudaram: Itaparica, com Carlo Castaldi; Ilhéus e Itabuna, com Anthony Leeds; Salvador, que foi estudada por Thales de Azevedo, além de toda a região do Vale do Rio São Francisco, estudada por Donald Pierson. O PROCAD revisita as regiões da Chapada Diamantina (no caso, Rio de Contas), Região do Semiárido (Monte Santo) e do Recôncavo (São Francisco do Conde), prevendo uma comparação com outras cidades nas mesmas regiões: Brumado, Euclides da Cunha e Santo Amaro, de modo a estabelecer uma relação entre o tradicional e a modernidade.

O acervo fotográfico da Fundação Pierre Verger, digitalizado na internet, está todo organizado por continente, país, estado e cidade, o que facilita uma consulta na série de fotos tiradas, especificamente, na Bahia, salientando que reflete apenas um pequeno conjunto do total das fotografias de Verger. Mas é possível perceber que, além de ser um etnógrafo de uma enorme sensibilidade, tem também um olhar especial que estas fotografias captam, ao focar nas pessoas que moram nestas cidades, bem como o ambiente. Ele fotografou quase a Bahia toda.

Essa missão propõe relatar como ocorreu participação de Pierre Verger junto ao Projeto Colúmbia, através de uma pesquisa no acervo de fotógrafo, que fica na Fundação que leva seu nome, na Vila América. A hipótese que surgiu nas discussões das reuniões que seguiram sugere que Verger acompanhou e fotografou as viagens do Projeto Colúmbia em 1950 e existiria no acervo cópia das fotos, como fotógrafo do estudo, nos municípios visitados pela UNESCO - Monte Santo e Euclides da Cunha; São Francisco do Conde e a região das usinas em Santo Amaro da Purificação; e Rio de Contas e Livramento do Brumado, na Chapada Diamantina. Além de fazer o levantamento do material na Fundação Verger, sabendo se este material existe ou não, de modo a adquirir cópia das fotos para digitalizá-las e disponibilizar na home Page do PROMEBA/PROCAD/REDEMEMO.

Quanto ao desenvolvimento das atividades, as mesmas precisaram ser realizadas no período de setembro a novembro de 2010, momento em que as necessidades das disciplinas do Mestrado que estou cursando não interferiram no desenvolvimento da pesquisa. Essas atividades perpassaram pelo âmbito de uma extensa e detalhada pesquisa documental nos livros e documentos e com entrevistas dos funcionários da Fundação e pesquisadores da vida de Verger, bem como na aquisição de livros estrangeiros correlacionados ao tema.

A estruturação deste texto inicia contextualizando o fotógrafo, sua vida na França e saída ao Brasil; depois introduz Alfred Metráux, antropólogo e diretor do Departamento de Pesquisas Raciais da UNESCO e um dos grandes amigos de Verger; depois com o educador Anísio Teixeira, secretário de Educação e Saúde da Bahia e o Projeto Columbia, para finalizar demonstrando as decisões que levaram Anísio e Metráux a utilizarem as fotos de Verger no Projeto UNESCO de Ciências Sociais, Estudos Raciais.


II – Pierre Verger, o fotógrafo.
Pierre Édouard Leopold Verger nasceu em Paris a 04 de novembro de 1902, filho caçula de um industrial belga pertencente a alta burguesia e de grande sucesso no ramo da tipografia (ROLIM), o que lhe permitiu entrar em contato desde cedo com os processos de impressão, edição e cartonagem de artigos destinados à publicidade.

Quanto aos motivos que o levaram a viajar pelo mundo a partir de 32, quatro fatos tem destaque: a morte de um irmão em 1914, do pai em 1915, do outro irmão em 1929 e da mãe em 1932. Sem os laços familiares que o prendiam em Paris, somados ao desgosto que sentia com relação aos costumes da alta burguesia francesa onde fora criado, da qual considerava fútil e superficial, estava assim indo a URSS e pouco depois ao Taiti. (AMARAL & SILVA).

Fundou em 1934 a agência de fotógrafos Alliance Photo, juntamente com René Zuber e com Pierre Bourcher, que o ensinou a fotografar. Paris era considerada, na década de 30, como a capital internacional da fotografia. Este título tornava a cidade ponto de encontro de grande fotógrafos, sendo que muitos deles vieram a participar da Alliance, como Henri Cartier-Bresson, Emeric Feher, Denise Bellon, Maria Eisner e Robert Capa, entre outros.

A divulgação das fotos feitas pela Alliance, como as de Capa sobre a Frente Popular e a Guerra da Espanha, atraía a atenção de todos. Muitas das suas fotos que foram negociadas via agência foram publicadas em tantos lugares, que ultrapassam o conhecimento do próprio Verger. Algumas revistas que publicaram fotos suas são, por exemplo: Voilá (1937/38), Picture Post e Life, nos anos 30, e Regards, nos anos 40 (LÜHNING).

Essa agência lhe permitia fazer diversos acordos tipo “passagem-por-fotos”, uma dessas com a Companhia Geral Transatlântica, que o trouxe da Europa para o México (LE BOULER, p.97). A Drª Iara Rolim nos traz em sua tese os valores monetários praticados pela agência naquele momento: “... as fotos de Verger eram cobradas apenas pelo preço de ampliação, algo em torno de 20 a 30 francos”.
Segundo Le Bouler,

Também foi em 1934, que Paul Rivet (1876-1958), antropólogo francês e diretor do Musée d'Ethnographie du Trocadéro admitiu o fotógrafo Verger como colaborador voluntário, sendo encarregado do laboratório fotográfico. Este museu passa a se chamar Musée de l´Homme em 1937, graças a reorganização feita por Rivet e George-Henri Rivière acercas das coleções de antropologia física e etnologia. Foi neste museu que ele teve contato com a pesquisa etnográfica, devido ao fato do interesse da França em objetos e artefatos na África, principalmente, e com os pesquisadores do museu, entre eles Alfred Metraux. Em maio de 1935, após ter voltado da Espanha, o antropólogo e o fotógrafo prepararam uma exposição sobre Ilha de Páscoa, acerca dos estudos de seu professor, Rivet, e Rivière sobre uma missão franco-belga na Oceania (LE BOULER, p.83).

Metraux nasceu na Suíça, em 5 de novembro de 1902, ou seja cinco horas depois de Verger, o que lhe conferiu o apelido de “quase-gêmeo” (LE BOULER, p.47) e, em 1963, comete suicídio. Desenvolveu sua tese de doutorado sobre os Tupis-Guaranis em 1928, sendo aluno de Paul Rivet, renomado antropólogo. Fundou na Universidade Nacional de Tucuman, Argentina, o Instituto de Etnologia, sendo o diretor pelo período de 28-34. Em 1937 realizou uma pesquisa na Ilha de Páscoa, com uma expedição franco-belga organizada por Rivet, conhecendo no Musée de l´Homme o fotógrafo colaborador do museu Pierre Verger. Em 1938 tornou-se professor da Universidade de Berkeley e de Yale, nos EUA. Em 1939, passa 15 dias com o antropólogo americano Charles Wagley em varias cidades sul-americanas, entre elas no Rio de Janeiro em 9 de fevereiro de 1939, onde conhece Heloísa Torres e é recebido por Getúlio Vargas, participando de pesquisa também com Levi-Strauss e Jehan Vellard. (METRAUX, p.32)

Em 1941, após obter a cidadania americana casando com sua segunda esposa, Rhoda, mãe de Daniel Metraux, sendo que este é nascido em 29 de outubro de 1948, é contratado pelo Instituto Smithsoniano, para assumir o setor desse instituto denominado Escritório Etnológico Americano, em Washington DC, o que lhe proporcionou diversas viagens pela América do Sul, gerando uma enciclopédia sobre os índios sul-americanos (Handbook of South American Indians). Em 1946, ele se tornou chefe de seção na ONU de Assuntos Sociais em Nova York. A partir de 1947 as atividades de Métraux nas Nações Unidas estão em total sintonia com a emergente UNESCO, e ele se tornou um conselheiro desta organização para o projeto da Hyléa Amazônica.

Em seguida, de 1948 a 1950, passa a colaborar mais estreitamente com a UNESCO ao concordar em pesquisar diretamente o Projeto Etnológico do Desenvolvimento Econômico e Social do Vale do Marbial no Haiti, recolhendo a maioria das informações que permitiram a elaboração de seus futuros trabalhos sobre vodu haitiano. Esses dois anos de colaboração culminou com a transferência em definitivo de Métraux para a UNESCO em 1950, fazendo com que retornasse a Paris (METRAUX, p.156). As viagens de Métraux seguiram para o Brasil, Caribe, Guiana, e até mesmo na África Ocidental, culminando na publicação de seu livro sobre vodu, em 1958. Em novembro de 1962, Métraux chegou ao limite de 60 anos na UNESCO, sendo obrigado a se aposentar. 

Mesmo tendo estado em vários lugares do mundo, assim como o amigo Verger, Metraux nunca perdera contato com ele, trocando bastantes cartas que tratavam não somente das pesquisas, bem como suas angustias e alegrias vivenciadas. Em 17 de julho de 1947 que eles se reencontram na cidade de Recife, reencontro este que durou minutos (METRAUX, p.212).

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