Pierre verger e o projeto colúmbia



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Foi Metraux, por exemplo, quem mostra em 21 de outubro de 1948 aos membros da comissão da ONU uma série de fotos tiradas por Verger no Haiti, no período de 4 a 9 de junho de 48 (Le BOULER, p.180). A receptividade foi tanta que ele logo respondeu ao fotógrafo que querem que ele exponha as fotos na Conferência de Beirute. Essas fotos foram tiradas durante sua estada no Haiti, que aconteceu devido ao fato da demora da saída da bolsa ofertada por Theodore Monod, diretor do IFAN, o Instituto Francês para a África Negra, que a ofereceu no dia de deixar Recife e retornar pra Bahia para que ele fosse estudar na fonte (África) a origem dos cultos africanos implantados no Brasil. Recebera o convite da bolsa em outubro de 1947 em Recife, quando aproveitou para estudar e tirar fotos sobre o culto a Xangô, e mandou-as à Monod, indicando que essas fotos comprovariam a influência do culto africano no país, porém somente embarcou para Dacar no fim do ano de 1948, exatamente 24 de novembro.(LE BOULER, p.164 e 166 e 188)

O fotógrafo chegou ao Brasil após sair da Bolívia, chegando à cidade de Corumbá em 13 de abril de 1946, e quase que imediatamente partiu de trem para São Paulo, onde encontrou Roger Bastide. A leitura de uma cópia francesa do livro Jubiabá, de Jorge Amado e os calorosos elogios de Bastide à Bahia e sua influência africana atiçaram o desejo de Verger em ir para Salvador, chegando em 5 de agosto de 1946.


Foi Metraux quem, indiretamente, solucionou dois problemas de Verger. Ao saber que o fotógrafo iria para o Rio de Janeiro antes de aportar na Bahia, pediu que o mesmo fosse cumprimentar uma grande amiga sua, Vera Pacheco Jordão (LE BOULER, pag 155-156) que estava a escrever para a revista o Cruzeiro uma matéria, coincidentemente, sobre o Peru, local que Verger esteve antes de passar pela Bolívia e vir ao Brasil e, é claro, tirou diversas fotos. Quando viu as mesmas, logo o indicou para apresentá-las ao Cruzeiro que imediatamente se interessou. Ademais, ao saberem da sua intenção em seguir para a Bahia, logo a revista o contratou, assinando no Rio de Janeiro em 8 de julho de 1946 o contrato, o que lhe garantiu não somente um salário, como também o visto permanente de estada no Brasil. Quando chega a Salvador, já chega como um fotógrafo contratado pela revista, pertencente ao grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Metraux relata em seu diário o almoço que tivera com Vera Pacheco em 19 de outubro de 1950, na qual ela o relatou sobre o encontro com o amigo Verger (METRAUX, pag.299)

Verger afirma que "assim que cheguei nesta cidade [Salvador], fiz parceria com Odorico Tavares [pernambucano que já trabalhava na revista de Chatô em Recife, e fora deslocado para a sucursal de Salvador pelo próprio dono da empresa, depois de uma série de ameaças do governo Vargas a jornalistas pernambucanos] que havia aceito escrever textos para acompanhar as fotos para O Cruzeiro. Fiz durante os anos seguintes aproximadamente 80 dessas reportagens em diversos lugares."(LE BOULER, p 158-159).

III – Verger na Bahia


Na introdução do livro "Odorico Tavares; Canudos 50 anos depois", publicado pela FUNCEB em fevereiro de 1993, José Calazans afirma que Tavares foi a Canudos “na companhia de um jovem fotógrafo francês recentemente chegado ao Brasil, a quem o chefe do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o extraordinário Rodrigo Melo Franco Andrade, depositando a maior confiança, mandara ao Nordeste para fazer as fotos do nosso acervo documental. O moço, chamado Pierre Verger, tornar-se-ia um dos mais notáveis conhecedores da problemática afro-brasileira”.

O chefe do SPHAN conhecera Verger através de Marcel Gauteroth, outro excelente fotógrafo francês, considerado pelo arquiteto Lucio Costa como o "o mais artístico dos fotógrafos do patrimônio chegando ao SPHAN” e cujos primeiros trabalhos foram ampliações de chapas feitas por Alfred Métraux, na Ilha da Páscoa, para a exposição sobre as civilizações no Pacífico, preparada por George-Henri Rivière. Em 1937, fotografa a Exposição Universal, publicando 48 fotos na revista Arts et Métiers Graphiques (VERGER, 1982, p. 95). O arquiteto relata que Marcel “irrompeu repartição adentro sobraçando uma pasta com belas fotos da Acrópole, na companhia de Pierre Verger". Rodrigo Mello Franco de Andrade entusiasmou-se com o material, acolhendo como um de seus colaboradores, assegurando-lhe trabalhos comissionados. Por seu intermédio, passa a freqüentar intelectuais modernistas da cidade como Carlos Drummond de Andrade, o próprio Lucio Costa, Alcides Rocha Miranda e Mário de Andrade, este último aquele que instaurou no SPHAN.

Outra revista que propiciava a Verger publicar suas fotos era A Cigarra, que foi criada em 1914, adquirida por Assis Chateubriand em 1933, em 1944 foi passada para o seu sobrinho, Freddy Chateaubriand, que dinamizou a revista, conforme Medeiros (TACCA, 1986, p. 17) e fora extinta em 1956. Era a “irmã menor” d’O Cruzeiro, iniciada em 1928 e contava com a mesma equipe de fotógrafos e jornalistas de sua “irmã maior”, sendo de formato menor, mensal e utilizava o mesmo padrão imagético cristalizado por Jean Mazon. Numa reportagem d’A Cigarra de junho de 1949 intitulada “Caroá" e escrita por José Leal e imagens de Verger, há um breve relato sobre o fotógrafo:


"Pierre Verger é um espírito irrequieto, um homem apaixonado pelas aventuras arriscadas, um fotógrafo internacionalmente conhecido. Sei que ele é francês mas nunca lhe pergunte em que parte da França nasceu. Está entre os quarenta e cinco anos de idade, já percorreu a maior parte do mundo, e sua bagagem consta apenas de três blusões, três calças, um par de sapatos, roupa interna, sua máquina fotográfica e um arquivo de negativos que constitui um documentário riquíssimo. Alto, apressado, afável, bom companheiro, ele pensa unicamente em viajar. Esteve no Brasil por mais de dois anos, morou na Bahia e fez centenas de reportagens e agora está na África de onde escreveu longa carta para José Medeiros. Certa vez encontrei com ele no interior do Maranhão. "Oh, sua chegada foi muito oportuna. Eu estou querendo fazer um passeio a Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Quer ir comigo para fazer os textos das reportagens que pretendo fazer? “- Naquele mesmo dia embarcamos num caminhão de carga, vencendo estradas perigosas, até chegar em Campina Grande, na Paraíba. Nessa cidade tomamos um avião que nos deixou no Recife. Mais tarde, Verger conseguiu o avião particular de um amigo para sobrevoar o estado do Pernambuco. O mau tempo entretanto impediu nossa viagem de observação. Os planos dele foram abaixo e na mesma semana Verger decidiu fazer uma reportagem sobre o caroá, planta nativa que cuja fibra resulta em cordas e tecidos, que enriqueceu um grande número de nordestinos."

Le Bouler nos traz uma informação interessante a pagina 209 da biografia de Fatumbi:


em julho de 1950 Verger soube, por intermédio de Charles Wagley, antropólogo e professor da universidade Columbia, de Nova York, que Métraux se propõe a vir em outubro ao Brasil. E exatamente neste mês de julho que se iniciam três investigações, conduzidas simultaneamente por três antropólogos: Harry William Hutchinson, Marvin Harris e Ben Zimmerman. Estas investigações, iniciadas em julho de 1950, terminaram em junho de 1951, assinala Wagley, em dezembro de 1951. Os três antropólogos têm, respectivamente como ‘campo’: ‘o Recôncavo (Estado da Bahia)’, ‘a parte montanhosa do centro do Brasil’ e o ‘Sertão, região árida do nordeste do estado da Bahia". O estudo de Hutchinson terá por título: ‘As relações raciais em um município rural do Recôncavo (estado da Bahia)’; o de Harris: ‘As relações raciais em Minas Velhas, comunidade rural da região montanhosa do Brasil central’; e o de Zimmerman: ‘As relações raciais na região árida do Sertão’. Métraux, por fim, só chegará à Bahia por volta de 16 de novembro de 1950.”
IV - Pierre Verger, Metraux, Charles Wagley e o projeto Colúmbia.
Wagley e Verger já se conhecem, e mais ainda, os dois eram amigos de longa data de Metraux os quais mantinha sempre contato, entre outros, como Roger Bastide. Curiosamente em seu diário Itinéraires interrompe os relatos no periodo de 14 de novembro de 1950 à 15 de janeiro de 1951. Verger também não havia comentado sobre a presença nem no livro 50 anos de fotografia nem em "Trinta anos de amizade com Alfred Métraux". Le Bouler perguntou a Verger sobre este fato, em 16 de junho de 1991, no qual trouxe a seguinte resposta:
"Levantei nas minhas anotações a chegada de Métraux na Bahia em 17 de novembro de 1950 e sua partida para o Rio de Janeiro no dia 27. Ele voltaria à Bahia em 8 de dezembro. Fizemos, então, uma viagem pelo interior do Estado da Bahia entre os dias 10 e 14 de dezembro, na companhia de Thales de Azevedo e Charles Wagley para visitar os 3 antropólogos da Columbia University. Métraux retornou a Nova York em 18 de dezembro".

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