Pierre verger e o projeto colúmbia



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Uma referência feita por Wagley no prefácio a primeira edição do estudo Race and Class in Rural Brazil relata a presença de Metraux no ano de 1950. Nesse texto percebemos a presença dos agradecimentos de Wagley a Anísio, Thales, Ayres e Metraux, entre outros. (WAGLEY, 1951)


Outra referência é do próprio Métraux sobre sua passagem pela Bahia em 1950 é localizada no seu diário, em Intineraires a pagina 320, no dia 1º de novembro de 1951, sendo que neste dia ele e Verger vão visitar um pai-de-santo de prenome Cosme, ‘um dos principais informantes de Verger’:
“J’etais déjà venu le voir l’année dernière”

(METRAUX, 01/11/51, pag.299)


Outra citação intrigante na biografia de Verger feita por Le Bouler faz menção à participação de fotógrafo na missão:
Desde o início da investigação Verger pensa, com razão, que Wagley ‘encontrará meios de fazê-lo entrar em ação qualquer dia desses’. Em 8 de outubro, escreve a Métraux: ‘Vi Wagley, simpático, parecia interessado há dois meses por fotos a serem feitas quando os três antropólogos estiverem mais familiarizados com o meio’. De fato, Races et classes datis le Brésil rural será ilustrado com sete ‘fotografias de Pierre Verger’.

Essa investigação é o Projeto Columbia que viria a se tornar o Projeto UNESCO. E esses meios por Wagley encontrado é justamente o que promove essa mudança.

V – O Projeto Colúmbia e o projeto UNESCO


Após a Segunda Guerra Mundial, a questão racial se tornou um dos motes das preocupações mundiais justamente pelo acontecimento mais insano dessa, o Holocausto. A criação da UNESCO seria uma resposta, a qual estimularia pesquisas que pudessem abordar, sobretudo, a superação do fenômeno racista advindo do conflito judeu alemão. A idéia para o projeto era assim iniciada (CHOR, 1999).

Com a assunção de Metraux na chefia do Setor de Relações Raciais do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO em abril de 1950 (MÉTRAUX, 1978), e do brasileiro Ruy Coelho como seu principal assistente. O projeto seria aplicado apenas na Bahia devido a forte influência da cultura africana nesse cenário, bem como a presença de estudos, nos anos 30 e 40, de pesquisadores estrangeiros como Landes, 1947; Frazier, 1942; Pierson, 1942; Herskovits, 1943, indicando a Bahia (Brasil) como um lugar privilegiado em termos de convívio entre as raças.

Chor Maio (1999) descreve em sua pesquisa que em junho de 1950, Florença, Itália, a 5ª Conferência da UNESCO aprovara uma pesquisa sobre relações raciais no Brasil, que fora idealizado por Arthur Ramos, médico e antropólogo brasileiro, conselheiro daquele órgão falecido em 31 de outubro de 1949, com o contexto da ampliação das investigações sociais e antropológicas no Brasil. Duas semanas após a deliberação da conferência, Wagley estabeleceu contatos com a instituição, mais precisamente com o amigo Metraux, que passou a saber do convênio Universidade de Columbia/Estado da Bahia, “projeto idealizado por Anísio Teixeira, então secretário estadual de Educação e Saúde, na gestão de Otávio Mangabeira (1947-1951), que tinha a intenção de conhecer a vida social de três comunidades rurais próximas a Salvador com o objetivo de colher subsídios para o desenvolvimento de futuras políticas públicas de modernização dessas áreas (Wagley, Azevedo e Costa Pinto, 1950)” (CHOR, 1999).

A descrição da Drª Josildeth Consorte acerca do projeto Columbia é muito interessante, pois é ressaltado, na sua fala, o quão importante era a presença de Anísio Teixeira:



Há outra coisa. Anísio, no mesmo momento em que dava início ao projeto de pesquisas com a Universidade de Colúmbia, punha em prática seu projeto de educação com o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, que incluía a famosa Escola Parque. Isto nos faz pensar que seu objetivo com o projeto dos estudos de comunidade não era propriamente fornecer subsídios para sua atuação, mas buscar este conhecimento com qualidade mais ampla. É o que me parece. Anísio era um homem muito preocupado com nosso atraso. [...] Recentemente, a filha de Wagley trouxe-me a carta do doutor Anísio à chefia do Departamento de Antropologia da Universidade de Colúmbia confirmando a realização do convênio. É o atestado de nascimento do projeto.
Metraux, em um trecho do seu diário, datado de 9 de dezembro de 1951 relata um encontro com Anísio Teixeira:
Longue conversation avec Anisio Texeira, qui vient d'êntre chargé par le gouvernement de faire une sorte d'inventaire des ressources du Brésil en techniciens, et de trouver un moyen de compléter les cadres de l'enseignement. Nous discutons de la possibilité d'obtenir, par l'Assistance Technique, un professeur de sciences sociales, un de science naturelles et un biologiste-généticien. Anisio souhaiterait des spécialistes suscepitibles de rester au Brésil. Je suggère comme thème de recherches "les effets sociaux des nouvelles écoles créées par le Département d'Education".

Ela ainda afirma que seis meses após o início das pesquisas de campo, Metraux chega a capital baiana com uma proposta da UNESCO de estudo das relações raciais no Brasil e que a mesma recebeu um documento recentemente que explicita claramente que “Metraux entregou a Wagley a coordenação deste trabalho na Bahia.”


Wagley era muito bem relacionado e benquisto no Brasil. O trabalho realizado na Amazônia Nas cartas trocadas com Heloísa Torres, do Museu Nacional, diz em uma delas que trabalhou “com Marvin Harris [seu aluno da Universidade de Colúmbia] no Ministério da Educação, a convite de Anísio Teixeira, [onde] conheceu Darcy Ribeiro e Thales de Azevedo e começou uma série de pesquisas de comunidade na Bahia que dariam início a uma longa série de pesquisas feitas por ele e por seus alunos no Brasil.” (CORREA&MELLO, 2008). Sua esposa, Cecília Wagley, durante sua estada em Nova York, endereça uma carta a Torres em 24 de outubro de 1949, comentando acerca de um financiamento: “A nossa viagem ao Brasil no próximo ano parece bem provável. Até agora Chuck [apelido de Charles Wagley, que também era às vezes tratado como Dr. Carlos Wagley] não sabe ainda como arranjará o resto do dinheiro para cobrir as despesas e completar a quantia dada pelo Estado da Bahia, mas temos esperanças que conseguirá. Dessa maneira, se não tivermos o prazer de vê-la por aqui até lá, esperamos poder aproveitar bem de sua companhia em 1950.” (CORREA&MELLO, 2008). Essa quantia deve referir ao financiamento da FDC-Ba ao Programa Bahia-Columbia, colaboração de Wagley com Thales de Azevedo em Salvador, “que também treinava estudantes, brasileiros e americanos, em pesquisas de comunidades. Ver Thales de Azevedo, As Ciências Sociais na Bahia: notas para sua história, Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984 e Charles e Cecília Wagley, Serendipity in Bahia. 1950-70, em Universitas - Revista de Cultura da Universidade Federal da Bahia 6/7, maio/dezembro, 1970.” (CORREA & MELLO, 2008).
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