Poder, sem artigo definido



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Poder, sem artigo definido*
Tereza Cristina Rezende de Carvalho**

Este texto trata da analítica de Michel Foucault em torno do poder, uma analítica que passa por deslocamentos sem pretender mostrar uma teoria geral de poder. Ao contrário, pretende-se mostrar que a problematização de Foucault é com o “como” do poder e não com “o que é” o poder, onde está localizado, qual a sua essência; e também que sua analítica do poder não pode servir como uma proposta política revolucionária.

"Esse termo de ‘poder’, porém, corre o risco de induzir a vários mal-entendidos. Mal-entendidos a respeito de sua identidade, forma e unidade. Dizendo poder, não quero significar ‘O Poder’, como conjunto de instituições e aparelhos garantidores da sujeição dos cidadãos em um Estado determinado. Também não entendo poder como modo de sujeição que, por oposição à violência, tenha a forma da regra. Enfim, não o entendo como um sistema geral de dominação exercida por um elemento ou um grupo sobre outro e cujos efeitos, por derivações sucessivas, atravessem o corpo social inteiro".1

Aventurar-se pela analítica de Foucault acerca do poder na sociedade disciplinar, do biopoder e da governamentabilidade é como ousar um passo diferente na dança dos saberes. Num primeiro momento, os passos são desconexos e fora de ritmo, acompanhados de um prazer enorme do contato com o novo, com o fora dos padrões, com a própria ousadia de ver diferente do convencional. É desconcertante, porém excitante. E é também reconfortante quando, percebendo seu interlocutor assustado e com medo do que está por vir, Foucault exclama que sua coreografia ainda não está pronta, é ainda provisória, acidental e limitada, pois o que importa é o exercício. Ele nos instiga a filosofar, mas filosofar uma filosofia que se concentre mais na relação de poder que nos jogos de linguagem, uma filosofia que chama de analítico-política, uma filosofia, cuja função não seja ter relação com a verdade e nem interrogar o ser. Uma filosofia que teria a possibilidade de desempenhar um papel em relação ao poder, que não seria o de sua fundação ou o de sua recondução, e que, ao lado do contrapoder,



“se dê por função analisar, elucidar, fazer visível e, portanto, intensificar as lutas que se passam em torno do poder, as táticas utilizadas, os focos de resistência, a condição de que a filosofia pare de colocar a questão do poder em termos de bem ou de mal, mas em termos de existência.”2

Foucault utiliza o termo “analítica do poder” para justificar que não é seu objetivo elaborar uma teoria geral de poder, mas apenas investigar tal problemática, com suas características, táticas e estratégias. Ele procura analisar dispositivos3 que vão nos propiciar essa analítica do poder em suas várias roupagens. Quer investigar



“quais são, em seus mecanismos, em seus efeitos, em suas relações, os diversos dispositivos de poder que se exercem a níveis diferentes da sociedade, em domínios e com extensão tão variados”.4

Se perguntarmos, em estilo jornalístico, a alguém que anda pelas ruas o que entende por poder, poderíamos ouvir afirmações como estas: "exercer influência sobre outras pessoas"; "liderança"; "comando"; "desejo de ser mais que o outro"; "indução"; "autoridade"; "levar determinada pessoa à ação, seja pelo convencimento ou pela força"; "é o meu chefe que me domina"; "são os homens do governo"; "está em Brasília"; "na sociedade, está muito influenciado pelo aspecto do Estado"; "uma classe que se coloca sobre a outra e a domina"; "é diferente de querer" etc... Uma série de respostas de acordo com o senso comum, algumas até permeadas por uma visão marxista, mas, na maioria delas, o poder é visto como algo que expressa uma conotação negativa ou será relacionado à ambição que existe dentro de cada indivíduo no sentido de dominar, ser servido; uma visão muito impregnada ainda pela idéia da onipotência divina que se infiltrou no pensamento do homem por tantos séculos.

É interessante perceber o que cada época pode fazer com um determinado conceito, com o significado de uma determinada palavra: PODER. No decorrer da história da humanidade, deparamos com realidades diversas que dão conotações diferentes à palavra poder: umas querem liquidá-lo, dando-lhe uma conotação pejorativa, negativa; outras já se enchem de orgulho de contar com ele. Por isso, escutamos, às vezes, que o poder está em decadência. Dizer isso seria como dizer que a família está prestes a acabar no século XXI, tamanhas mudanças ela tem sofrido com as separações dos cônjuges, produções independentes, escola, sociedade e meios de comunicação interferindo em sua dinâmica. A família não acabará, apenas mudará a sua forma de se estruturar. Assim também é a questão do poder: ele nunca deixou de existir, somente mudou a forma de ser considerado por um ou outro contexto social, institucional. Nesta perspectiva, ele será sempre objeto de ódio, ou de medo, ou de combate, ou de resignação, ou de conquista, mas sempre estará presente.

Indagado por Alexandre Fontana como se sentia por ser o primeiro a colocar no discurso a questão do poder, num momento em que reinava um tipo de análise que passava pelo conceito de texto e pelo texto com a metodologia que o acompanha, Michel Foucault respondeu:



"Não acho que fui o primeiro a colocar esta questão. Pelo contrário, me espanta a dificuldade que tive para formulá-la. Quando agora penso nisto, pergunto-me de que podia ter falado, na História da Loucura ou no Nascimento da Clínica, senão do poder. Ora, tenho perfeita consciência de não ter praticamente usado a palavra e de não ter tido este campo de análise à minha disposição. Posso dizer que houve uma incapacidade que estava sem dúvida ligada à situação política em que nos achávamos. Não vejo quem - na direita ou na esquerda - poderia ter colocado este problema do poder. Pela direita estava somente colocado em termos de constituição, de soberania, etc., portanto em termos jurídicos; e, pelo marxismo, em termos de aparelho do Estado. Ninguém se preocupava com a forma como ele se exercia concretamente e em detalhe, com sua especificidade, suas técnicas e suas táticas. Contentava-se em denunciá-la no 'outro', no adversário, de uma maneira ao mesmo tempo polêmica e global... Só se pôde começar a fazer este trabalho depois de 1968, isto é, a partir das lutas cotidianas realizadas na base com aqueles que tinham que se debater nas malhas mais finas da rede do poder. Foi aí que apareceu a concretude do poder e ao mesmo tempo a fecundidade possível das análises do poder que tinham como objetivo dar conta destas coisas que até então tinham ficado à margem do campo da análise política... Enquanto se colocava a questão do poder subordinando-o à instância econômica e ao sistema de interesse que garantia, se dava pouca importância a estes problemas".5



Tão longa citação faz-se necessária para que o leitor perceba o que nos propomos a discutir neste capítulo: não existe uma teoria de poder em Michel Foucault. Essa sua analítica do poder foge completamente das análises e dos conceitos de poder que tínhamos visto até então. Ele está preocupado com o “como” do poder e não com “o que é” o poder. Quando se refere a uma analítica do poder, não o faz em relação à estrutura do discurso, mas em relação ao fato de que alguém diz algo num dado momento, ao que chama de “acontecimento”. Assim, sua concepção de poder não está ligada às estruturas, mas aos acontecimentos. É o acontecimento que é seu principal objeto de trabalho, e não a lógica do sentido, a lógica da estrutura.

“O problema é ao mesmo tempo distinguir os acontecimentos, diferenciar as redes e os níveis a que pertencem e reconstituir os fios que os ligam e que fazem com que se engendrem uns a partir dos outros. Daí a recusa das análises que se referem ao campo simbólico ou ao campo das estruturas significantes, e o recurso às análises que se fazem em termos de genealogia das relações de força, de desenvolvimentos estratégicos e de táticas. Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não lingüística. Relação de poder e não relação de sentido. Nem a dialética, nem a semiótica não poderiam dar conta do que é a inteligibilidade intrínseca dos confrontos”.6

No momento em que se detém na problematização do poder, observa que, numa concepção ontológica de poder, existiria de um lado “o” poder que ele nomeia de “poder com P maiúsculo” e de outro lado, as resistências de infelizes que são constrangidos a se dobrarem ao poder. Não é de Foucault esse tipo de análise, pois o que descreve como poder não pode ser definido como “o” poder, algo que está localizado, que possui uma essência. O que descreve como poder nasce de múltiplas relações de força e não pode ser definido. Não há interesse numa definição de poder em Michel Foucault:



“As análises que eu tentei fazer...são análises parciais, análises fragmentadas. Não se trata de jeito nenhum de fundar uma teoria do poder, uma teoria geral do poder, nem de dizer o que é o poder, nem de dizer de onde ele vem. Depois de séculos, o Ocidente colocou esta questão e não é claro se as respostas dadas são satisfatórias. Em todo caso, o que eu tento fazer é, a um nível empírico, pegar as coisas de certa forma, pelo meio. Não: ‘De onde vem o poder; para onde ele vai?’, mas: ‘Por onde ele passa e como isso se passa, quais são todas as relações de poder, como se pode descrever algumas principais relações de poder que se exercem em nossa sociedade?’ Eu não entendo o poder no sentido de governo, no sentido de Estado. Eu digo: entre diferentes pessoas... existem relações de poder que se cruzam.”7


Dessa forma, em sua analítica, Foucault tentou descrever as estratégias de poder no Ocidente, desde a época dos feudos até os nossos dias, sem se preocupar em defini-lo ou realizar um projeto revolucionário em torno dele:


“Em primeiro lugar o Estado de justiça, nascido em uma territoriedade de tipo feudal e que corresponderia grosso modo a uma sociedade da lei; em segundo lugar, o Estado administrativo, nascido de uma territoriedade de tipo fronteiriço nos séculos XV e XVI e que corresponderia a uma sociedade de regulamento e disciplina; finalmente um Estado de governo que não é mais essencialmente definido por sua territoriedade, pela superfície ocupada, mas pela massa da população, com seu volume, sua densidade, e em que o território que ela ocupa é apenas um componente. Este Estado de governo que tem essencialmente como alvo a população e utiliza a instrumentalização do saber econômico, corresponderia a uma sociedade controlada pelos dispositivos de segurança.”8

É por onde nos aventuraremos a seguir.




O PODER SOBERANO E A ARTE DE GOVERNAR




“O personagem central de todo o edifício jurídico ocidental é o rei... A teoria do direito, da Idade Média em diante, tem essencialmente o papel de fixar a legitimidade do poder; isto é, o problema maior em torno do qual se organiza toda a teoria do direito é o da soberania”.9

O poder soberano pode ser descrito como a forma tradicional de poder que foi explícita na Idade Média e que continuou a se mostrar até o século XVI, quando então toma nova direção. Esse poder, sim, é um poder com artigo definido, localizado, exercido pelo rei sobre um determinado território, um determinado grupo de súditos. A atuação desse poder é baseada em seus aspectos negativos, proibindo, censurando, interditando, coagindo, onde existiria sempre um soberano que dita as leis e um sujeitado que obedece; onde a lei e o discurso da proibição seriam dominantes, o direito encomendado pelo rei. O poder soberano é um tipo de poder que se exerce muito mais sobre a terra e seus produtos do que sobre os corpos e é totalmente centralizado na figura do rei. Portanto, é preciso entender um pouco as transformações que ocorreram nos séculos XVI e XVII, para que se possa compreender o aparecimento de uma nova mecânica de poder que tragou a soberania e a modificou, donde se entende o surgimento do Estado-território, do poder de Estado, da arte de governar. É quando o edifício jurídico escapa do controle do rei e se começa a questionar os limites do poder desse rei. Observamos uma série de problematizações acerca do governo:



“problema do governo de si mesmo - reatualizando, por exemplo, pelo retorno ao estoicismo no século XVI; problema do governo das almas e das condutas, tema da pastoral católica e protestante; problemas do governo das crianças, problemática central da pedagogia, que aparece e se desenvolve no século XVI; enfim, problemas do governo dos estados pelos príncipes. Como se governar, como ser governado, como fazer para ser melhor governante possível, etc.”10

Uma outra característica que Foucault cita e que é muito relevante para descrever tal momento é o questionamento que passa a existir sobre o modo como se deseja ser espiritualmente dirigido para alcançar a salvação, que vem por meio dos processos de Reforma e Contra-Reforma. Não é mais em nome de Deus que o príncipe mantém seu reinado. É preciso agora que ele se especialize na “arte de governar”. Percebe-se, inclusive, o surgimento de uma literatura sobre a “arte de governar” que não era comum aos príncipes de outrora, haja vista que a doutrina e a teoria do príncipe antes dessa época procuravam ressaltar a descontinuidade entre o poder do príncipe e as outras formas de poder. Essas teorias da “arte de governar” vão mostrar uma prática múltipla de governo, na medida em que afirmam que muita gente pode governar: o pai na família, o professor na escola, o padre no seminário; tornam claro a presença de muitos governos, dos quais o do príncipe se torna tão-só uma modalidade.

O Estado territorial faz surgir essa “arte de governar” que vai tentar responder à seguinte questão:

“Como introduzir a economia - isto é, a maneira de gerir corretamente os indivíduos, os bens, as riquezas no interior da família - ao nível da gestão de um Estado? A introdução da economia no exercício político será o papel essencial do governo... Governar um Estado significará portanto estabelecer a economia ao nível geral do Estado, isto é, ter em relação aos habitantes, às riquezas, aos comportamentos individuais e coletivos, uma forma de vigilância, de controle tão atento quanto ao do pai de família.”11

Não é mais uma estrutura feudal que está em jogo, inicia-se a instalação dos Estados territoriais. E nem é mais a riqueza do príncipe que está em jogo, mas a riqueza do Estado-território como um todo. A forma de governo de então é designada pela realidade econômica, pois trata-se de um governo das “coisas”.

A “arte de governar” não se limitou a discussões teóricas no século XVI. Podemos notar o aparecimento dos aparelhos de governo e também um conjunto de saberes que começou a surgir nessa época. E tudo isso, que começa a despontar, vai ser de grande significação para os séculos posteriores. O Estado não é mais governado em nome de Deus, mas segundo a natureza, com uma racionalidade que lhe é própria. Por intermédio do mercantilismo, passa a haver uma racionalização do exercício do poder como prática de governo e inicia-se a construção de um saber sobre o Estado que pode ser utilizado como tática de governo.

Temos vários acontecimentos: uma soberania abalada, o surgimento do interesse pelo indivíduo e o aparecimento da economia como técnica de intervenção do governo. Os homens infames, com suas questões que eram até então silenciadas, começam, a partir do século XVII, a falar. Questões quotidianas, marginais ficaram explícitas a nível de discurso e as pessoas não apenas falavam sobre elas, mas entravam nos jogos de discurso e de tomar partido. A luta das pessoas não tem mais o mesmo sentido, não é mais um povo que luta contra a opressão do superior-rei. Os pontos de partida para a luta são ínfimos e minúsculos, fenômenos locais em lugares determinados; são lutas imediatas que não esperam pela revolução, pelo enfraquecimento do Estado para a solução dos problemas. Aos poucos, esse homem político vai se manifestando na relação de poder com o rei. Começa a admitir-se a possibilidade de mudança de lugar entre o rei e seus súditos. Um outro tipo de relação se estabelece entre o poder, o discurso e o cotidiano, uma maneira diferente de reger e de reformular.

Um acontecimento dessa época que foi estudado por Foucault seria o das “lettres de cachet” na França: documentos que manifestam como, aos poucos, os homens infames passam a utilizar o poder do rei para resolver seus próprios problemas. Eram cartas que mostravam uma solicitação que não era mais em função do ódio do rei pelo súdito. A soberania vem inserir-se num nível mais elementar do corpo social, de sujeito para sujeito. Poderíamos perceber, nesse momento, um abuso de absolutismo que não era do rei, mas dos indivíduos, no sentido de que cada um poderia usar por si, para seu proveito e contra os outros, da enormidade do poder absoluto. Está surgindo um poder político nas relações cotidianas, sem limites, inevitável. O rei vai perdendo seu poder.

Segundo Foucault, essa “arte de governo” da qual falamos sofreu uma parada no século XVII até início do século XVIII, em função das crises financeiras, guerra dos 30 anos, brigas camponesas. Daí, num momento tão conturbado, não haver condições para que a “arte de governar” se desenvolvesse. Existia ainda muita resistência da soberania em perder sua organização política. Além disso, essa soberania se incompatibilizava com o mercantilismo, porque colocava em cheque a riqueza do soberano versus a riqueza do Estado. O próprio mercantilismo foi bloqueado nessa época.



“Portanto, por um lado, um quadro muito vasto, abstrato, rígido da soberania e, por outro, um modelo bastante estreito, débil, inconsistente: o da família. Isto é, a arte de governar procurou fundar-se na forma geral da soberania, ao mesmo tempo em que não pôde deixar de apoiar-se no modelo concreto da família; por esse motivo, ela foi bloqueada por esta idéia de economia, que nesta época ainda se referia apenas a um pequeno conjunto constituído pela família e pela casa. Com o Estado e o soberano de um lado, com o pai de família e sua casa de outro, a arte de governo não podia encontrar sua dimensão própria.”12

Era preciso criar um espaço para que a arte de governar pudesse se manifestar. Para tanto, era preciso que se desenvolvesse uma tecnologia bastante apurada de poder. E tal desenvolvimento de técnicas de poder foi possível graças à assimilação do poder pastoral pelas sociedades capitalistas e industriais e pela forma de Estado que estava ligada a elas. Inicia-se a formação de um sociedade disciplinar.




PODER PASTORAL E A SOCIEDADE DISCIPLINAR COMO TÉCNICAS DE CONTROLE DOS INDIVÍDUOS




"Não é uma instituição e nem uma estrutura, nem é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada."13

Os textos de Foucault de 1972 a 1975 tratam fundamentalmente dessa questão do poder e da sociedade disciplinar. Há uma preocupação com a análise do processo pelo qual se dá a tomada do poder sobre os corpos, na sociedade ocidental, mediante a disciplina. Vai então se preocupar com as tecnologias de poder e disciplina que se desenvolveram a partir do século XVI.

É desafiadora a proposta de Foucault ao procurar descrever como o poder pode ser analisado na sociedade disciplinar de forma diferente de uma concepção jurídica, já que a maioria das teorias do poder, sobretudo as dos filósofos do século XVIII, o definem como direito cedido para se constituir a soberania e que tem como instrumento privilegiado o contrato; outras teorias censuram o abuso de poder e exigem que ele se exerça na forma da lei, do direito, da legalidade. Algumas teorias mais radicais chegam a acrescentar que o poder é exercido como uma violência legalizada pelo do Estado.

Não é esse o poder que é descrito por Foucault. Em sua trajetória analisa e mostra que as relações do poder não se passam no âmbito do direito, nem da violência e nem são contratuais. Procura fugir da teoria clássica da soberania que considera o poder um direito de que alguém seria possuidor, como um bem que se pudesse transferir e alienar, amparado pelo Direito, por um contrato. Procura também fugir da concepção marxista geral de poder que encontrou na economia sua razão de ser histórica, onde



“o poder teria essencialmente como papel manter as relações de produção e reproduzir uma dominação de classe que o desenvolvimento e uma modalidade própria da apropriação das forças produtivas tornaram possível”.14

Descreve um tipo específico de poder: o poder disciplinar, que organiza o espaço, controla o tempo, vigia e registra continuamente os indivíduos e seu comportamento, criando inclusive determinados saberes (ciências humanas). O poder disciplinar cria o indivíduo, alvo de uma vigilância que, longe de ser repressiva, é, ao mesmo tempo, global e individualizante.

Tirada a identidade do poder, sua localização e sua temporalidade, já não será mais uma instituição, uma estrutura, um aparelho, mas "uma multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização"15. Não será mais um reflexo e expressão das condições econômicas, mas uma peça de um dispositivo político maior que pode até se articular com a estrutura econômica, apesar de não ser gerado por ela.

Não se trata mais de resumir as investigações sobre o poder em estudos de Estado, como se Estado e poder fossem sinônimos. E nem se trata mais de considerar o Estado um aparelho central e exclusivo de poder - Sobre “O” Estado, sendo “o” poder..., Foucault vem mostrar por seus estudos acerca do nascimento das instituições, que existem formas de exercício do poder diferentes do Estado e das leis, mas que estão com elas articuladas e inclusive ajudam a sustentá-las.



“De uma maneira geral, os mecanismos de poder nunca foram muito estudados na história. Estudaram-se as pessoas que detiveram o poder. Era a história anedótica dos reis, dos generais. Ao que se opôs a história dos processos, das infra-estruturas econômicas. A estas, por sua vez, se opôs uma história das instituições, ou seja, do que se considera como superestrutura com relação à economia. Ora, o poder em suas estratégias, ao mesmo tempo gerais e sutis, em seus mecanismos, nunca foi muito estudado.”16

Foucault não aceita a teoria de que o poder seja considerado a partir do Estado, seguindo uma hierarquia, do macro para o micro. Entretanto, não nega o poder do Estado; apenas, não considera que ele seja o órgão central e único de poder.



"Deve-se, ao contrário, supor que as condições de força múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de produção, nas famílias, nos grupos restritos e instituições, servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social"17.

Baseado nisso, descreve o poder na sociedade disciplinar "não como uma dominação global e centralizada que se pluraliza, se difunde e repercute nos outros setores da vida social de modo homogêneo, mas como tendo uma existência própria e formas específicas ao nível mais elementar”18. Dessa forma, o Estado não engloba os poderes periféricos e moleculares; esses podem nascer e crescer fora dele, integrar-se ou não a ele.

Seguindo esse raciocínio, as relações de poder numa sociedade disciplinar não estão em posição de exterioridade referente a outros tipos de relações, como a economia, o saber e a sexualidade; pelo contrário, lhes são imanentes. O estudo dessas relações de poder não poderá ser feito de forma separada desses tipos de relações, mas dentro delas, observando a sua historicidade, a forma como os desequilíbrios de forças são produzidos dentro delas, ou seja, as condições internas dessas diferenciações. Assim, a descrição de poder disciplinar em Foucault contrapõe-se à visão marxista de que é a luta de classes que irá determinar qualquer modificação dos aparelhos de Estado. Argumenta que as transformações minúsculas de poder podem não estar, necessariamente, ligadas às mudanças ocorridas no âmbito do Estado. Daí, de nada adianta o controle e a destruição dos aparelhos de Estado para que se transforme a rede de poderes numa determinada sociedade. E Foucault cita o exemplo da U.R.S.S. depois da Revolução, onde se observa uma mudança da classe dirigente e do sistema legal, porém as antigas relações de poder permanecem, relações de poder que funcionam independentemente do poder do Estado.

Dentro de sua analítica do poder, observa que a sua mecânica se expande por toda a sociedade disciplinar, assume formas mais regionais e concretas, investe em instituições; uma mecânica que atinge, sem pedir licença, o corpo dos indivíduos. É um poder que não está, como vimos anteriormente, acima da sociedade, mas dentro dela, em sua vida cotidiana; um poder que não é algo que se possui, um lugar que se ocupe; um poder que não é um objeto, uma coisa, "algo que se adquira , arrebate ou compartilhe, algo que se guarde ou deixe escapar"19, algo que se possa definir...

A tecnologia empregada na sociedade disciplinar não é mais uma tecnologia do direito ou da repressão de um dominador sobre um dominado, não mais algo que diz não, que impõe e que castiga. É uma tecnologia de controle que incide sobre os corpos de indivíduos, uma tecnologia que Foucault chamou de "poder disciplinar" ou apenas "disciplina":

"Enquanto os juristas procuravam no pacto um modelo primitivo para a construção e reconstrução do corpo social, os militares e com eles os técnicos da disciplina elaboravam processos para a coerção individual e coletiva dos corpos"20.

Essa atuação de poder se dá de uma forma mais sutil, menos violenta. Por meio da disciplinalização dos corpos, eles passam a ser vistos como objetos e alvos de poder, que podem ser treinados, manipulados. Métodos de controle minucioso das operações do corpo são criados para torná-los cada vez mais dóceis e úteis: são métodos de disciplina, que diferentemente da escravidão, não se apropriam dos corpos, mas fabricam "corpos dóceis". Foucault afirma que:



"A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)... estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada" 21.

Essa disciplina tem diferentes origens, como se pode observar em seus estudos das instituições (hospitalares, escolares, carcerárias), por meio de técnicas minuciosas que se generalizam.



“Técnicas sempre minuciosas, muitas vezes íntimas, mas que têm sua importância: porque definem um certo modo de investimento político e detalhado do corpo, uma nova ‘microfísica’ do poder; e porque não cessaram, desde o século XVII, de ganhar campos cada vez mais vastos, como se tendessem a cobrir o corpo social inteiro... que levaram à mutação do regime punitivo, no limiar da época contemporânea.”22

Tais técnicas de exame vão ser vistas por Foucault como aperfeiçoamento de estratégias existentes desde os séculos III e IV d.C., que são as técnicas do Poder Pastoral, uma forma de poder que não é política e nem jurídica. Suas características principais são: não se centra sobre um território; sua função não é assegurar a vitória, nem a conquista, mas fazer o bem para os indivíduos por quem vela; o pastor se sacrifica pelas suas ovelhas e a mais importante das características é ser um poder individualista que vela pelos os indivíduos um a um: não se obedece mais a leis, mas a pessoas.

O poder pastoral trouxe uma série de técnicas e de procedimentos que concernem à verdade e à produção da verdade. O pastor deve conhecer o interior dos indivíduos e, para tanto, deve dispor de meios de análise, reflexão: a confissão exaustiva e permanente, num exame de consciência e numa produção da verdade interior, subjetiva, num conhecimento detalhado e minucioso dos indivíduos por eles mesmos e pelos outros. Zelando pela salvação de todos e pelo indivíduo em particular, estabelecendo relações de obediência individualizadas entre o pastor e o rebanho, o poder pastoral foi muito importante no desenvolvimento do Estado nos séculos XVI e XVII. O pastor vigia seu rebanho.

A partir do século XVIII, as sociedades capitalistas e industriais e a forma de Estado que as acompanham e as apóiam passam a ter necessidade desses procedimentos de individualização que a pastoral religiosa havia produzido. Pode-se perceber a implantação, multiplicação e difusão das técnicas pastorais no quadro leigo do aparelho do Estado, as formas estatais que se desenvolvem aí, são muito mais justificadas em termos de liberdade assegurada que de mecanismos de poder implantados. O Estado apreende os objetivos tradicionais da pastoral, e passa a dar uma atenção demasiada aos indivíduos. Técnicas são desenvolvidas para que o indivíduo não escape de nenhuma maneira do poder, nem da vigilância, nem do controle, nem do saber e nem da correção: surgem máquinas disciplinares que



“permitem discernir o indivíduo, saber o que ele é, o que ele faz, o que podemos fazer dele, ou onde devemos colocá-lo, como o colocar entre os outros.”23


As ciências humanas, a estatística, os mecanismos de assistência e de segurança vão permitir conhecer o que são os indivíduos, o que é normal e o que não é mais, o que se espera deles em termos de comportamento, como controlá-los. O poder investiu no indivíduo, ele é individualizante. E a pastoral, que perdeu na forma estritamente religiosa o essencial de seus poderes, encontrou no Estado um novo suporte e um princípio de transformação.

O “normal” torna-se o charme do momento e, pelo "exame", indivíduos são enquadrados nas normas. Nessa técnica de exame, está comprometido todo um campo de saber, todo um tipo de poder. O exame supõe um mecanismo que liga um certo tipo de formação de saber a uma certa forma de exercício de poder; está no centro dos processos que se constituem como efeito e objeto de poder e de saber. O homem é, então, um produto do poder e um objeto de saber.

A disciplina24 torna-se fábrica de indivíduos. E uma boa tática de adestramento, de controle seria a vigilância, mas uma vigilância que se mostre contínua, perpétua, permanente e sem limites, penetrando em todos os espaços. É como a vigilância do poder pastoral, o pastor guardando sua ovelhas, vigiando-as e zelando por elas. Também com o modelo de arquitetura apropriada, como a do Panopticon de Bentham, a vigilância permite o olhar invisível, onde se pode ver tudo permanentemente sem ser visto. Essa vigilância hierarquizada traz novas mecânicas de poder, organizando um poder disciplinar múltiplo, automático e anônimo:

"O poder na vigilância hierarquizada não se detém como uma coisa, nem se transfere como uma propriedade; funciona como uma máquina... o que permite ao poder disciplinar ser absolutamente indiscreto, pois está em toda parte e sempre alerta... e absolutamente ‘discreto’, pois funciona permanentemente e em grande parte em silêncio"25.

Essa discrição torna o poder cada vez mais anônimo e funcional; e aqueles sobre os quais se exerce o poder, pela vigilância, tendem a ser mais fortemente individualizados.

Segundo Roberto Machado, disciplina seria

"o diagrama de um poder que não atua do exterior, mas trabalha o corpo dos homens, manipula seus elementos, produz seu comportamento, enfim, fabrica o tipo de homem necessário ao funcionamento e manutenção da sociedade industrial, capitalista"26.

A disciplina exige a organização de indivíduos num espaço delimitado (colégios, quartéis, hospitais), quadriculado (cada indivíduo no seu lugar e em cada lugar, um indivíduo), hierarquizado, distribuído e dividido com rigor; é importante distribuir os indivíduos num espaço onde se possa isolá-los e localizá-los. Ela exige também um controle do tempo, num tempo serial, orientado e cumulativo. Assim "a primeira das grandes operações da disciplina é então a constituição de ‘quadros vivos’ que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas"27, impondo uma ordem às multiplicidades e permitindo, ao mesmo tempo, a caracterização do indivíduo como indivíduo.

Até aqui, temos a análise de Foucault sobre o poder que se desenvolve da seguinte forma: o poder produz a individualidade e o indivíduo é uma produção do poder e do saber. Contudo, não é qualquer poder; é o poder disciplinar que é característico de uma época e de uma forma específica de dominação. E "das técnicas disciplinares, que são técnicas de individualização, nasce um tipo específico de saber: as ciências humanas"28. Esse é um tema que Foucault desenvolve muito em algumas de suas obras.

Vemos aqui o interesse dele em perceber o indivíduo, não ainda como alguém que cuida de si, mas como uma peça no contexto social:



“Saber sob que formas, através de que canais, fluindo através de que discursos o poder consegue chegar às mais tênues e mais individuais das condutas”.29

Até mesmo porque o termo indivíduo não se aplicaria ao “sujeito” que cuida de si das obras posteriores de Foucault.

Os textos de Foucault de 1972 a 1976 tratam fundamentalmente dessa questão do poder e da sociedade disciplinar, questões de soberania e direito; questões de como o indivíduo é vítima do poder disciplinar. É o momento em que fala sobre os processos que acarretaram uma organização da vida social, mediante técnicas de poder que objetivam o corpo. É em Vigiar e Punir e em A Vontade de Saber que ele mais tratará desse tema.

O APARECIMENTO DA POPULAÇÃO E A GOVERNAMEN-TABILIDADE




“O poder se situa e se exerce ao nível da vida, da espécie, da raça e dos fenômenos maciços de população.”30

Com a expansão demográfica do século XVII, a abundância monetária, e o aumento da produção agrícola, vamos observar o que Foucault chamou de “desbloqueio da arte de governar”, que é o mesmo momento em que a “vida” passa a ter grande importância para a sociedade. Assim, nos séculos XVIII e XIX, as formas de poder sofrem outras transformações: percebe-se um deslocamento em sua analítica; de um poder que enfoca o indivíduo passa-se para a analítica de um tipo de poder mais sutil que envolve toda uma população e que permeia todo o discurso liberal.

O efeito econômico e político da acumulação de homens é bastante intenso no Ocidente do século XVIII. A necessidade de integrar esse crescimento demográfico ao desenvolvimento do aparelho de produção, a urgência de controlá-lo por um mecanismo de poder mais adequado faz

“aparecer a ‘população’ - com suas variáveis de números, de repartição espacial ou cronológica, de longevidade e de saúde - não somente como problema teórico mas como objeto de vigilância, análise, intervenções, operações transformadoras, etc. Esboça-se o projeto de uma tecnologia da população: estimativas demográficas, cálculo da pirâmide das idades, das diferentes esperanças de vida, das taxas de morbidade, estudo do papel que desempenham um em relação ao outro o crescimento das riquezas e da população, diversas incitações ao casamento e à natalidade, desenvolvimento da educação e da formação profissional. Nesse conjunto de problemas, o ‘corpo’ - corpo dos indivíduos e corpo das populações - surge como portador de novas variáveis: não mais simplesmente raros ou numerosos, submissos ou renitentes, ricos ou pobres, válidos ou inválidos, vigorosos ou fracos e, sim, mais ou menos utilizáveis, mais ou menos suscetíveis de investimentos rentáveis, tendo maior ou menor chance de sobrevivência, de morte ou de doença, sendo mais ou menos capazes de aprendizagem eficaz. Os traços biológicos de uma população se tornam elementos pertinentes para uma gestão econômica e é necessário organizar em volta deles um dispositivo que assegure não apenas sua sujeição mas o aumento constante de sua utilidade”.31

A partir de 1976, com a publicação da Vontade de Saber, Foucault passa de um momento de análise de técnicas do poder centradas no corpo para uma análise mais complexa. Isso não quer dizer que vai abandonar as técnicas de disciplina, mas estas serão articuladas com outra tecnologia que ele chamará de biopoder. O objetivo da análise ainda é o corpo, mas Foucault passa a considerar um corpo molar que envolve toda uma população.

O aparecimento da população provoca não uma substituição do Estado-território pelo Estado-população, mas um deslocamento de acento e de aparição de novos objetivos, portanto, de novos problemas e novas técnicas. A questão do poder já não é mais tão submissa ao jurídico, mas se baseia numa questão biológica: uma população. O poder agora não é mais observado pela perspectiva negativa que lhe dava a punição explícita, não há mais suplícios, a disciplina castiga a alma.

Há uma passagem em A Vontade de Saber que explica bem esse processo do anátomopoder ao biopoder:



“Concretamente, esse poder sobre a vida desenvolveu-se a partir do século XVII, em duas formas principais; que não são antitéticas e constituem, ao contrário, dois pólos de desenvolvimento interligados por todo um feixe intermediário de relações. Um dos pólos, o primeiro a ser formado, ao que parece, centrou-se no corpo como máquina: no seu adestramento, na ampliação de suas aptidões, na extorção de suas forças, no crescimento paralelo de sua utilidade e docilidade, na sua integração em sistemas de controle eficazes e econômicos - tudo isso assegurado por procedimentos de poder que caracterizam as disciplinas: anátomo-política do corpo humano. O segundo, que se formou um pouco mais tarde, por volta da metade do século XVIII, centrou-se no corpo-espécie, no corpo transpassado pela mecânica do ser vivo e como suporte dos processos biológicos: a proliferação, os nascimentos e a mortalidade, o nível de saúde, a duração da vida, a longevidade, com todas as condições que podem fazê-las variar; tais processos são assumidos mediante toda uma série de intervenções e controles reguladores: uma biopolítica da população.”32

Daí, o anátomopoder, caracterizado pela disciplina (instituições como exército e escola), e o biopoder, caracterizado pela regulação das populações (controle demográfico, das riquezas, da higienização, etc.) constituem os dois pólos em torno dos quais se desenvolveu a organização do poder sobre a vida a partir do século XVIII. Desenvolvem-se, por meio da disciplina, numerosas técnicas para se obter a sujeição dos corpos e o controle das populações.

Governar não seria mais governar um território, coisas, seria governar homens, conduzir indivíduos ao longo de sua vida. O governo passa a ser, então, pensado fora do quadro jurídico da soberania; a família, como modelo de governo, desaparece e passa a ser um instrumento da população. Essa população aparece como objetivo final do governo que adquire táticas e técnicas totalmente novas para “auxiliá-la”. Inicia-se a constituição de uma economia política. É nesse momento que se dá realmente a passagem de uma “arte de governo” para uma “ciência política”, de um “regime dominado pela estrutura da soberania” para um “regime dominado pelas técnicas de governo”, o que ocorre realmente no século XVIII.

Convém ressaltar que, mesmo com a invenção de um nova mecânica de poder incompatível com as relações de soberania, a partir dos séculos XVII e XVIII, a teoria da soberania vai persistir como ideologia e como princípio organizador dos grandes códigos jurídicos: os sistemas jurídicos - teorias ou códigos - permitiram uma democratização da soberania, mediante a constituição de um direito público articulado com a soberania coletiva, no exato momento em que essa democratização fixava-se profundamente, pelos mecanismos de coerção disciplinar. O poder soberano, travestido pelo poder disciplinar, vai se aperfeiçoando cada vez mais com técnicas mais sutis. Entramos na era da governamentabilidade.



“Devemos compreender as coisas não em termos de uma substituição de uma sociedade de soberania por uma sociedade disciplinar e desta por uma sociedade de governo. Trata-se de um triângulo: soberania-disciplina-gestão governamental, que tem na população seu alvo principal e nos dispositivos de segurança seus mecanismos essenciais”.33

Percebemos, então, como Foucault descreve o poder que passa pelo o corpo, o poder que passa pelo indivíduo e o poder que passa pela população numa seqüência, como se, a cada momento histórico, os mecanismos de poder se tornassem mais e mais refinados, abarcando, ao mesmo tempo, o individual e o coletivo e com eles se confundindo. É por esse motivo que, hoje, quando nos propomos a perguntar se nossa sociedade é individualizante ou globalizante, não encontramos resposta. É confusa a apropriação que o governo faz de todas essas técnicas para dominar.

As análises de Foucault, a partir de 1978, vão centrar-se na governamentabilidade. É a demonstração de um Estado que não tem mais como alvo o território, e, sim, a população, sem perder de vista o indivíduo. Entende por governo não uma burocracia ou um pequeno grupo que realiza a gestão da coisa pública, mas explica-o da seguinte forma:

“Esta palavra deve ser compreendida no sentido mais amplo que tinha no século XVI. ‘Governo’ não se referia apenas a estruturas políticas ou à administração dos estados; antes designava o modo pelo qual a condução de indivíduos ou grupos deveria ser orientada: o governo das crianças, das almas, dos bens, das famílias, dos doentes. Ele cobria não apenas as formas legitimamente constituídas de sujeição política ou econômica mas também maneiras de agir destinadas a atuar sobre as possibilidades de ação das outras pessoas. Governar, neste sentido, seria estruturar o possível campo de ação dos outros.”34

A partir de 1978, grandes discussões sobre a governamentabilidade se processam e a grande problematização de Foucault é saber como os homens se governam, a si mesmos e aos outros; por quem, até que ponto, com qual objetivo os homens governam. Talvez aqui já se possa perceber um início de um outro deslocamento na analítica de Foucault, marcando uma transição do “governo dos outros” para o “governo de si”. Não irá mais estudar o efeito do poder no processo de subjetivação dos sujeitos, mas as técnicas usadas no governo de si. E é por esse motivo que ele não descreve muito o que queria dizer sobre essa governamentabilidade.




RESISTÊNCIA: TAMBÉM SEM ARTIGO DEFINIDO


Após a exposição anterior, talvez seja mais fácil ao leitor perceber que Foucault não estava interessado em desenvolver um projeto político que encarasse sua descrição do micropoder como uma estratégia de governo a ser tomada, visando a uma revolução, ou melhor, a microrrevoluções. Como se Foucault tivesse desenvolvido um método de contrapoder, com um contradiscurso. A própria descrição da positividade do poder não pode ser confundida como uma estratégia de luta para a derrubada do Governo. Esse tipo de leitura de Foucault é totalmente equivocado: ele limitou-se apenas a descrever como o poder se articulava na sociedade disciplinar, como o biopoder clamava pela vida e como a ciência política se apropriou de todas essas técnicas. Ele não estava interessado em explicar a origem do poder, sua constituição, reprodução e transformação.

Foucault passa a perceber que não chegaremos politicamente onde devemos chegar por um “método”, mas por uma cultura e seus múltiplos combates, onde a preservação do pensamento e da vida não passa pela preservação da espécie ou pelas estratégias de conhecimento. Como afirma Escobar:

“É por isso, aliás, que nossa política não se traduz nem pelo reformismo liberal burguês, nem pela farsa do socialismo democrático, muito menos pela aparente oposição das políticas de esquerda e de direita... Assim como politicamente jamais nos juntamos à defesa de um política ‘microfísica’ ou específica dos lugares (historicamente marcados). Tampouco cristalizamos a política macrofísica (ou, como se diz, da exclusiva tomada do poder do Estado) como forma em si de tese ou política marxista... O mesmo, talvez, possamos dizer a respeito de eventuais posições de Foucault a respeito de uma política microfísica cuja inspiração é sobretudo deleuziana, mas cuja subordinação Foucault não se permite inteiramente... a própria história burguesa como processo diferenciado, e sobretudo no que concerne à ascensão política efetiva da burguesia. Implicou como tal na instauração de dispositivos disciplinares cuja realidade foi a de sistemas de micropoder desiguais e dessimétricos (Vigiar e Punir). Ora, esta fartura microexperimentadora não desestrutura o projeto político de fundo, muito menos é outra coisa que a riqueza e a dinâmica do poder burguês em andamento... Não são apenas as macro-medidas que geram o controle... mas também os micropoderes e suas dinâmicas (de contradições e resistência) que geram a eficácia da polícia externa e a intensidade(‘subjetiva’) da polícia interna.” E afirma ainda que “não se pode então, como se vê, discutir ou decidir desta política ao nível das questões micro ou macropolíticas, pois estas duas alternativas jamais se aproximam da política trágica propriamente dita.”35

O posicionamento político de Foucault não se restringe a uma micropolítica ou a qualquer outro tipo de política que apenas reproduza em novas possibilidades a Razão burguesa.



“A política concernente à prática genealógica não se situaria jamais na ingenuidade da oposição macro e micropolítica”36.


Resistir para Foucault não é realizar revoluções. O que ele chama de resistência nada mais é do que mais uma das manifestações do poder, assim como o discurso. Tratando-se de uma rede de relações, teremos muitos poderes se interpondo mutuamente numa relação de forças e resistências. Nesta perspectiva, se não existe "o" poder, não poderá existir também "o" lugar da grande revolta como prevê o marxismo. Não podemos falar de "o" foco de todas as rebeliões, mas de focos, de resistências, no plural.

O poder é uma relação de disputa. Contudo, não se pode, a partir daí, dizer que existe uma proposta política em Foucault que incentive as lutas, as rebeliões, para que se comece uma revolução por baixo. Foucault simplesmente afirma que essas rebeliões e lutas começam de baixo. Não será utilizando-se de uma micropolítica que incitaremos uma luta. É sabido que a análise sobre o poder, comumente, se resume a duas visões: ou ele é analisado em termos de repressão, de direito, como algo negativo, ou é analisado em termos de guerra, combate, confronto, relações de forças. Para Foucault, o primeiro tipo de análise não explica as modalidades de poder em nossa sociedade e o segundo tipo merece melhor discussão. As lutas de que fala não fogem da rede de poder, são lutas que se constituíram no interior dessa rede e não têm como dela fugir. Isso é descrito pelo próprio autor:



“Daí o fato de que , de uma parte, essas relações de poder se inscrevem no interior de lutas que são por exemplo lutas econômicas ou religiosas - e não é portanto fundamentalmente contra o poder que nascem as lutas; mas, por outro lado, as relações de poder abrem um espaço no seio do qual as lutas se desenvolvem... Ao contrário dessa proposição ontológica de poder e resistência, eu diria que o poder não é nada mais que uma certa modificação, a forma diferente de uma série de conflitos que constituem o corpo social, conflitos de tipo econômico, político. O poder é portanto como a estratificação, a institucionalização, a definição de técnicas, de instrumentos e de armas que servem em todos estes conflitos.”37

O exercício do poder nada mais são que lutas múltiplas e em contínua transformação e não pode ser confundido com uma simples instituição de poder.

Trata-se de um grande mal-entendido perceber-se em Foucault um projeto político revolucionário quando descreve os mecanismos de poder. Não foi essa a intenção do autor. Quando perguntado em uma de suas entrevistas se poderia antecipar que uso poderia ser feito de seu método e de suas análises, ele respondeu que não poderia antecipar nada:

“Creio que devemos ser muito modestos no que concerne ao eventual uso político do que dizemos ou fazemos. Eu não penso que exista uma filosofia conservadora e uma filosofia revolucionária. A revolução é um processo político; é também um processo econômico. Mas isto não constitui uma ideologia filosófica. E isto é importante... Nós não podemos saber, de certa maneira, se o que dizemos é revolucionário ou não.”38


Dá como exemplo disso o próprio Nietzsche, que foi tomado pelos partidos nazistas e depois pelos partidos de esquerda, dizendo que um intelectual não trabalha apenas para fabricar coisas bonitas; que não se deve fabricar um utensílio se não se tem um fim para ele, mas se deve também saber que eles poderão talvez ser utilizados para outros fins. Em uma de suas entrevistas Foucault diz que gostaria de escrever “livros-bombas” que pudessem ser úteis no momento em que são escritos e lidos e que desaparecessem depois. Recusa-se, quando escreve um livro, a tomar uma posição profética que consiste em dizer às pessoas o que elas devem fazer, ou o que é bom ou ruim para elas. Ele apenas relata como lhe parece que as coisas se passaram, escrevendo de uma maneira que as vias de ataque possíveis sejam traçadas. Porém, não força ninguém a atacar e não inventa nenhuma estratégia de derrubada de poder. Seus livros não são proféticos e não são também um apelo às armas, como ele mesmo afirmou. E, para deixar ainda mais claro o que quero dizer, termino essa aventura com uma frase do próprio Foucault: “Não se apaixone pelo poder.”39



* Capítulo I referente à Dissertação de Mestrado em Filosofia apresentado à banca para apreciação - Departamento de Filosofia - Instituto de Ciências Humanas e Letras - Universidade Federal de Goiás -Goiânia, outubro de 1996.

** Mestranda em Filosofia pela UFG.

1Foucault, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. p. 88.

2Foucault, Michel. La philosophie analytique de la politique - Dits et ecrits - Texto 232 Vol III, pag 540.

3Foucault define dispositivo no texto Sobre a história da sexualidade (Microfísica, p. 244), escrito em 1977: “Através deste termo tento demarcar, em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos”. Dirá que faz parte do dispositivo o jogo entre esses elementos heterogêneos, sua mudança de posição. E concluirá: “entendo por dispositivo como um tipo de formação que, em um determinado momento histórico, teve como função principal responder a uma urgência. O dispositivo tem, portanto, uma função estratégica dominante”. Afirma que o dispositivo procura ir além do discurso.

4Foucault, M. Microfísica do Poder, Genealogia e Poder, p. 174.

5Foucault, M. Microfísica do Poder, Verdade e Poder, p. 05-06.

6Foucault, M. Microfísica do Poder, Verdade e Poder, p. 05.

7Foucault, M. Sexualité et pouvoir. Dits et ecrits - Texto 233 - Vol III - p. 568

8Foucault, M. Microfísica do Poder, A governamentabilidade, pp. 292-293.

9Foucault, M. Microfísica do Poder, Soberania e Disciplina, p. 181.

10Foucault, M. Microfísica do Poder, A governamentabilidade, pp.277-278.

11Foucault, M. Microfísica do Poder, A governamentabilidade, p.280.

12Foucault, M. Microfísica do Poder, A governamentabilidade, p.287.

13Foucault, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber, p.89.

14Foucault, M. Microfísica do Poder, Genealogia e Poder, p. 174.

15Foucault, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. p. 88.

16Foucault, M. Microfísica do Poder, Sobre a Prisão, p. 141.

17Foucault, M. História da sexualidade I. p. 90.

18Machado, R. in Microfísica do Poder, Por uma Genealogia do Poder, p. XIV.

19Foucault, M. História da sexualidade I. p. 89.

20Foucault, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. p. 152.

21Foucault, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão, p. 127.

22Foucault, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão, p.128.

23Foucault, Michel. La philosophie analytique de la politique - Dits et ecrits - Texto 232, Vol III, pag 551.

24Disciplina é definida como “o conjunto de técnicas pelas quais os sistemas de poder vão ter por alvo e resultado os indivíduos em sua singularidade. É o poder de individualização que tem o exame como instrumento fundamental. O exame é a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo. Através do exame, a individualidade torna-se um elemento pertinente para o exercício do poder. In Microfísica, O Nascimento do Hospital, p. 107.

25Foucault, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. p.158.

26Machado, R. in Microfísica do Poder , Por uma Genealogia do Poder, p. XVII.

27Foucault, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. p. 135.

28Machado, R. in Microfísica do Poder / Michel Foucault. p.XX.

29Foucault, M. História da sexualidade I: a vontade de saber, p. 16.

30Foucault, M. História da sexualidade I: a vontade de saber, P.129.

31Foucault, M. Microfísica do Poder, A política da saúde no século XVIII. P 198.

32Foucault, M. História da sexualidade I: a vontade de saber, p. 131.

33Foucault, M. Microfísica do Poder, A governamentabilidade, p.291

34Foucault, M., Subjetividade e Poder.

35Escobar, Carlos Henrique. Michel Foucault - O Dossier/ Últimas Entrevistas, p. 38-39.

36Ibd. P.39.

37 Foucault, Michel. Precisões sobre o poder: respostas a certas críticas - Dits et ecrits . Texto 232, Vol III, p 632.

38Ibd. Dits e Ecrits. Texto 221, livro III, p.476.

39Ibd. Dits e Ecrits. Texto 169, livro III, p.136.

Fragmentos de Cultura, Goiânia, 6(21): 201-228 (especial), 1996.


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