Política de ciência e tecnologia no Estado do Rio de Janeiro: a constituição de institutos virtuais Viviane Gonzalez Dias ufrj, rj, Brasil



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Política de ciência e tecnologia no Estado do Rio de Janeiro: a constituição de institutos virtuais
Viviane Gonzalez Dias

UFRJ, RJ, Brasil

 
RESUMO

Este trabalho aborda um tema atual, correlacionando o uso de internet e a pesquisa científica. Para tal apresenta a proposta de realização de estudo de caso: a atuação de instituições do Rio de Janeiro que contaram com recursos da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Propõe-se analisar a política pública de ciência a tecnologia elaborada pela FAPERJ voltada à criação de institutos virtuais. Ao criar uma proposta de incentivo a programas orientados, a agência de fomento pretendeu estimular a capacidade de pesquisa para a produção de conhecimento em áreas consideradas prioritárias para o desenvolvimento econômico e social do estado. Devido ao programa, cientistas e instituições se virtualizaram, passando a se organizar em rede também pela internet. Dentre os institutos virtuais criados, está o "Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas", que integra instituições de pesquisa voltadas aos estudos do genoma humano, empregando técnicas que envolvem computação e biologia (biofísica).

A partir com dados obtidos junto à FAPERJ e de pesquisa etnográfica realizada no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, nesta apresentação pretende-se investigar contribuições do uso da internet aos avanços da pesquisa científica, considerando as implicações do emprego de novas tecnologias da informação para a produção do conhecimento científico.


PALAVRAS-CHAVE: internet, políticas públicas, ciência, conhecimento

 

 



 

 
 


  INTRODUÇÃO
 Genoma, proteínas, computadores, biofísicos, laboratórios científicos. Modelagem de biossistemas? Bioinformática? Como entidades e artefatos tão heterogêneos podem fazer sentido de forma conjunta? Neste trabalho, todos estes termos se referem a um coletivo que compõem um instituto virtual, sendo por ele mediado. Sua história e constituição representam uma parte da cultura científica posterior à segunda metade do século XX.

O avanço gerado pelo desenvolvimento de novas tecnologias da informação repercutiu em diversas áreas, dentre elas a acadêmica. Passou-se a considerar vantajosa a ampliação dos serviços de comunicação e aperfeiçoar a internet de modo a facilitar a comunicação entre cientistas. Por conseguinte, com o advento da internet, a colaboração entre cientistas que trabalham sobre temas afins foi potencializada, a despeito da distância geográfica que os separa.

O conceito de cientistas organizados em rede já existia antes da utilização massiva da rede mundial de computadores (Latour, 1999). No entanto, dada a implementação da internet, a colaboração de cientistas em rede ganhou uma outra dimensão: de colaboração à distância.

Em 1999, a agência de fomento FAPERJ (Fundação de amparo à pesquisa no estado do Rio de Janeiro) elaborou uma política de financiamento com um conteúdo inovador. Dentro dos ‘Programas Orientados’ (posteriormente denominado "Outros programas") uma proposta foi elaborada para dar apoio à formação de redes de pesquisas sobre temas relevantes para a sociedade e a economia fluminense na forma de institutos virtuais. Devido a este programa, algumas instituições procuraram atuar conjuntamente organizando-se também via internet, virtualizando-se. Alguns institutos virtuais foram criados a partir de então em áreas as mais diversas cujos temas variam de esporte e turismo até ciência e tecnologia. Muitos dos quais ganharam independência e buscaram outras formas de custeio que não a FAPERJ.

Dentre os institutos virtuais criados está o "Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas", que integra instituições de pesquisa que se uniram para estudar o genoma, utilizando técnicas que envolvem computação, biologia e biofísica. A proposta inicial resultou na formação de uma rede que contém cinco instituições: IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica) e IBCC/UFRJ (Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho). Há ainda a participação de membros de pesquisadores da FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) e da PUC (Pontifícia Universidade Católica).

Associando política de incentivo de agências de fomento e trabalho científico realizado em rede contando com a utilização de novas tecnologias da informação como facilitadoras da pesquisa colaborativa, a proposta deste trabalho é a de considerar como diferentes instituições se articulam tendo em vista um objetivo comum, a partir da criação de um instituto virtual. Propõe-se investigar as possíveis contribuições da organização da pesquisa em institutos virtuais, mais especificamente, através de um estudo de caso, tendo em vista o Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas. Por conseguinte, pretende-se destacar as possíveis contribuições dos institutos virtuais e do uso da internet nos avanços da pesquisa científica, além de considerar implicações que o emprego destas novas tecnologias da informação geram na produção do conhecimento científico.

Com textos de estudos de ciência e tecnologia embaixo do braço realizei entrevistas na FAPERJ e no Instituto Virtual anteriormente citado. Por se tratar de um tema contemporâneo, a opção metodológica que se mostrou mais adequada para a investigação do assunto foi a obtenção de depoimentos das testemunhas históricas, ou seja, dos atores sociais que participaram da implementação de institutos virtuais. Para além destas entrevistas, foram considerados registros de trabalho de campo e informações disponibilizadas na internet.

As entrevistas realizadas na consecução deste trabalho foram realizadas tanto com o atual responsável da FAPERJ pela coordenação dos Programas a que os Institutos virtuais fazem parte, quanto do coordenador do Instituto virtual em destaque no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCC), da Fundação Carlos Chagas Filho. O IBCC está localizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro e é um dos pontos de uma rede que estuda genoma no estado do Rio de Janeiro.

O resultado deste trabalho é fruto do conteúdo das entrevistas e de informações contidas na internet nos sites da FAPERJ e do Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas. Logo, se vale de métodos antropológicos na obtenção de informações embora também vise contribuir para incitar reflexões de caráter filosófico nesta história da internet cujos resultados estão em processo.

Antes de mais nada, cabe lembrar que a concepção de instituição aqui utilizada não se refere à mesma como uma barreira invisível, uma estrutura objetiva que parece estar acima dos indivíduos. Não é uma retificação do conceito tal qual é tradicionalmente empregado na sociologia (Elias, 1999). Instituição foi aqui usada no sentido em que é empregado por Latour (1999), ou seja, é o que propicia todas as mediações necessárias para que o ator conserve uma substância duradoura e sustentável.

A organização institucional, por sua vez, apresenta-se numa forma virtualizada. De acordo com Lévy:
"virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, em fazer mutar a entidade em direção a essa interrogação e em redefinir a atualidade de partida como resposta a uma questão particular." (p18)
Mas, o que significaria fazer ciência de maneira virtualizada? Dentre os institutos virtuais encontrados, deparei com um voltado para os estudos de bioinformática. Busquei saber como os cientistas trabalham em rede fazendo pesquisas de bioinformática utilizando a internet. Afinal, a bioinformática é uma área interdisciplinar que inclui informática e biologia. Sendo a imagem tradicional que se tem dos estudos biológicos requer pesquisas em bancadas de laboratórios não virtuais.

Seguindo conselhos que me estimularam a ir em busca da materialidade, procurei os laboratórios onde se faz ciência biológica. O objetivo era o de sanar a dúvida de se seria possível fazer ciência experimental nas áreas biológicas ou em biofísica num ambiente virtual. Onde encontraria a materialidade de uma pesquisa colaborativa realizada na internet, lá onde as fronteiras entre o físico e o não físico foram desconstruídas passando a ser virtuais?

Para Haraway (2000) quando as fronteiras se tornaram fluídas, os significados da materialidade física se misturam com as não físicas formando um híbrido entre humanos e máquinas. Vive-se ao nível de imprecisão da separação entre o físico e o não-físico, no centro da virtualização do mundo. A desmaterialização numérica do mundo conduz ao centro de um furacão dos sentidos que é a indiferenciação cada vez maior entre o "visível" e o "não- visível", entre o físico e o não-físico. A miniaturização e a transformação do mundo em bits mudam, de forma radical, a experiência na época contemporânea. Ocorre a interdependência entre humanos e não humanos, os cientistas e suas máquinas. Através do computador e de uma conexão com a internet é possível se comunicar à distância. Os meios de comunicação se tornaram extensões do homem, já afirmara McLuhan (1979).

Insisti em procurar o local onde tradicionalmente um cientista que faz pesquisa biológica pode ser encontrado, num laboratório não-virtualizado. Isto para investigar como é esta relação de trabalho mediada pela internet e o que há de semelhanças e diferenças em relação a um mundo onde esta possibilidade não existia. Trabalhariam os cientistas do IBCC somente com dados já classificados e catalogados ou realizariam pesquisa experimental?

ORIGENS

Computadores, proteínas, agência de financiamento, redes de cientistas em colaboração virtual e em seus laboratórios concatenados permitiram a constituição de um instituto virtual. O processo está diretamente associado a uma proposta política em ciência e tecnologia da FAPERJ voltada para uma concepção de organização da ciência e das pesquisas, dos recursos públicos e de orientação de desenvolvimento que devem incorporar o ciberespaço.



O uso da internet para troca de comunicação com vias de agilizar as pesquisas científicas já estava presente em iniciativas anteriores. Em 1989, William Wulf cunhou um termo visando propor um novo modelo de realização de pesquisas. Os collaboratories (traduzido como colaboratórios) referiam-se a pesquisas realizadas por grupos geograficamente dispersos que quisessem trabalhar em colaboração por intermédio da internet. Conjuntamente com vários outros grupos de pesquisadores Wulf participou de um Comitê de computação científica e de telecomunicações (COMPUTER SCIENCE AND TELECOMMUNICATIONS BOARD) que recorreu à Fundação Nacional de Ciência (National Foundation of Science, NFS) visando obter recursos para implementar o projeto. (CSTB, 1993).

Acreditando que a colaboração permitiria maiores avanços do que o formato organizacional predominante, os membros da CSTB se reuniram e planejaram o modelo colaborativo. Em termos latournianos (1999), tal configuração pode ser pensada como um contra-laboratório, na medida em que tais atores pressupunham que esta forma de organização científica estaria se opondo à proposta existente. Pretendeu-se então desenvolver as condições técnicas (softwares e hardwares) para permitir que esta colaboração pudesse acontecer a nível nacional.

A proposta do modelo colaborativo em rede refere-se originalmente a cientistas que trabalham num tema em comum e desejam unir esforços a despeito da distância geográfica. Os não humanos tão caros aos cientistas (no duplo sentido da palavra caro) passariam a ser compartilhados. Equipamentos ficariam concentrados em locais privilegiados, sendo que cada laboratório contribuiria o quanto pudesse. Experiência que é considerada economicamente vantajosa, especialmente em áreas nas quais os equipamentos são menos acessíveis.

Foram criados os colaboratórios (reunião de colaboração mais laboratório) como meta-laboratórios que abrangem múltiplas áreas geográficas em interação por intermédio de meios eletrônicos. A partir de então, cientistas poderiam trabalhar juntos e separadamente ao mesmo tempo. O objetivo era promover a colaboração de cientistas de diversas áreas, acelerar o desenvolvimento e a disseminação do conhecimento e minimizar o tempo entre a descoberta e a aplicação. Criar um laboratório virtual requeria o desenvolvimento de ferramentas de software e hardware integradas para produzir um ambiente múltiplo, com pesquisadores separados geograficamente trabalhando em tarefas experimentais e analíticas de modo conjunto, com compartilhamento de dados, com aproveitamento da operação de computadores e de equipamentos de pesquisa. (Koslow & Huerta, 2000).

Em entrevista realizada com o atual responsável pela coordenação dos "programas orientados" de que os institutos virtuais fazem parte, soube que a proposta da FAPERJ foi mais ampla. O interesse da agência não estava em investir só em ciência, mas em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento do estado, esporte e turismo entre elas.

O processo de constituição dos institutos virtuais foi parte de uma seleção após edital publicado pela agência. A FAPERJ selecionou programas especiais, convidando pessoas representativas no meio acadêmico e empresarial para criarem um novo ambiente institucional multidisciplinar e multi- institucional. A pretensão original foi a de reunir diversas disciplinas totalmente díspares com foco em um tema em comum. Ou seja, diferentes instituições, cada uma com seu comitê gestor criando um portal de troca e promovendo algumas atividades presenciais para debate, como os workshops. Através destes programas, busca-se apoiar a formação de redes de pesquisas sobre temas relevantes para a sociedade e a economia fluminense.

Escolhidos os candidatos, de 1999 em diante foram criados institutos virtuais voltados a variados temas, tais como: turismo, esporte, doenças neuro-degenerativas, nanociência e nanotecnologia, fármacos, dengue, paleontologia. Em 2001 foi criado o Instituto Virtual Bioinformática e Modelagem de Biossistemas interligando três instituições: IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), IBCC/ UFRJ (Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho) e o LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica).

Uma vez criados os institutos virtuais, a definição dos mesmos transcendeu tanto a tradicional concepção de instituto quanto a de virtual e, segundo Francisco Cláudio (FAPERJ), ganhou um sentido que não se traduz de forma direta. Afinal, dentre as características de uma de instituição estão durabilidade e a noção de que é algo fincado no espaço. O instituto virtual não foi criado com vias de pertencer única e exclusivamente ao espaço virtual, pois demandava uma instituição âncora que seria líder por representatividade. Ainda que fossem chamados de virtuais, os institutos virtuais não passariam de uma inscrição das suas instituições de origem projetadas no espaço virtual. Não poderiam negar a materialidade do servidor, nem se eximir de uma organização social que garantisse que uma instituição tradicional os ancorasse.

Com a criação dos institutos, a agência de fomento estadual gerou expectativas de que estes teriam um papel catalisador junto ao governo do estado produzindo inovação. Neste contexto, qual seria a inovação empreendida pelo instituto de bioinformática?

Segundo consta, a bioinformática e a modelagem de biossistemas contribuiriam para o desenvolvimento das pesquisas sobre o genoma. A vinculação ao Bioinfo teria por objetivo alavancar no Estado do Rio de Janeiro a pesquisa na área das aplicações da computação em estudos de vanguarda em Biologia.

De acordo com observações apresentadas pelo LNCC, o Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas tem as seguintes metas:
"1) Fornecer a base de Bioinformática para Projetos Genoma no Rio de Janeiro


      • Criação de bancos de dados de sequências genômicas através de submissões e análises "on line";

      • Estoque, montagem e anotações de fragmentos de seqüências de DNA;

      • Identificação funcional de seqüências codificantes por homologia a seqüências similares;

      • Análise das regiões não-codificantes e de sua relevância biológica;

      • Formação e capacitação de recursos humanos em Bioinformática.


2) Pesquisa e formação em Modelagem Molecular

      • Desenvolvimento de métodos e softwares para análises por homologia e predição de estruturas;

      • Métodos de simulação e experiências in silico de propriedades funcionais de Biomoléculas. Planejamento e re-engenharia de proteínas e ligantes;

      • Formação e capacitação de recursos humanos em Modelagem Molecular.


3) Pesquisa e formação em Modelagem de Biossistemas

      • Análises e simulações de sistemas complexos de interesse biológico;

      • Desenvolvimento de métodos e softwares, incluindo visualização, orientados para simular evolução e adaptação de sistemas vivos;

      • Análise e simulação de propagação de impulsos fisiológicos em tecidos animais, propagação e detecção de impulsos fisiológicos de interesse clínico;

      • Soluções de problemas inversos, como em cardiologia e encefalografia."

O emprego de modelagem computacional e a utilização de bancos de dados por si já permitem observar que houve mudanças na maneira através da qual são realizadas pesquisas. A pesquisa por observação participante que Latour realizou no laboratório Salk na década de 1970 foi tomado como exemplo de como funcionava um laboratório (Latour & Woolgar, 1997) numa era em que a internet ainda estava em gestação. Os autores oferecem um modelo descritivo correspondente ao modo de fazer pesquisa in loco num laboratório. Segundo consta, a organização dos cientistas no espaço era geograficamente dispersa. Laboratórios trabalham um tema comum, não raro procurando descobertas sobre uma mesma substância. As descobertas eram inscritas e apresentadas em artigos e periódicos em congressos. Por meio dos próprios resultados e dos resultados dos outros, haveria uma disputa entre laboratórios para saber quem "descobriria" primeiro a substância, fazendo com que esta passasse de um artefato a um fato. Então o laboratório teria ganhos de credibilidade, receberia maiores investimentos e continuaria a pesquisa. Os cientistas, normalmente os chefes dos laboratórios, eram os responsáveis pela negociação das verbas para os laboratórios utilizando-se de telefones pra encomendar substâncias e fazer as negociações, e precisando viajar para apresentar seus resultados num congresso científico de especialistas da área. A troca de informações por meio de artigos em periódicos científicos era vital para a disseminação deste conhecimento.

O instituto virtual pesquisado apresenta algumas diferenças em relação ao que fora descrito por Latour & Woolgar. A nova realidade é tal que as pesquisas se tornaram cada vez mais especializadas e complexas, dado um momento de expansão e profissionalização dos cientistas (Chrétien, 2000). Cientistas que trabalham em pesquisas comuns continuam distantes geograficamente, mas permanecem próximos virtualmente.

CONHECENDO O LABORATÓRIO


Em busca de uma resposta sobre a atuação dos cientistas nessas redes virtuais procurei o coordenador do Instituto de Biofísica da UFRJ primeiramente por e-mail, em seguida por telefone. Gostaria de saber mais sobre a o Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas (IVBMB) do qual participa. Depois de várias tentativas consegui falar com o responsável pelo IVBMB e marcar uma entrevista. Fui recebida pelo coordenador e logo após a entrevista, apresentou-me os laboratórios e duas estudantes de pós-graduação que trabalham na pesquisa de proteômica a qual ele se dedica.

Na UFRJ, o instituto virtual estudado é composto por vários laboratórios. Desde aquele utilizado para separar as proteínas até o laboratório de bioinformática, que é onde se trabalha com a parte mais computacional, propriamente dita. Para chegar até ele é preciso descer a num local chamado de subsolo do Centro de Ciências da Saúde. No subsolo encontrei o cientista sentado em sua sala, diante de um computador.

Iniciada a entrevista, busquei saber a respeito da peculiaridade do instituto virtual e o papel da bioinformática, indagando sobre o quanto a computação e a internet está desenvolvendo um novo modo de fazer.

Então, soube de um modo geral como é a atuação do Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas:


"São grupos geograficamente distribuídos e cada um vai fazer uma parte do seqüenciamento dos genes e depois tem que reunir esta informação. Isso ajuda a ter um laboratório de informática que vai receber estas informações e vai juntá-las. Montar estas informações ocorre não só a partir do resultado de cada laboratório que coloca esses resultados juntos para de fato conseguir o genoma completo, como também há o trabalho suplementar de descobrir qual é a informação que está neste genoma. Isto tem que ser coordenado. Todos os grupos de pesquisadores que trabalham na bancada, eles também vão participar dessa segunda etapa, decifrar o genoma. Então também precisam se comunicar. Precisam então de uma facilidade de informática que seja capaz de fazer esta comunicação, juntar a informação e redistribuir e todos se comunicarem. Esta era a idéia central da bioinformática e da necessidade neste caso de se ter um instituto virtual, uma coisa para não ter que a cada vez as pessoas tivessem que se reunir numa sala para poder destrinchar as coisas. Nós estamos geograficamente distantes"
Fui apresentada aos laboratórios que compõem a parte física do instituto, na UFRJ. Assim comecei a descobrir sua materialidade e a perguntar a respeito. Afinal, descobri que havia materialidade, embora nenhum dos laboratórios se apresentasse como sede do Instituto Virtual. Eram partes integrantes dele. Do virtual aos institutos geograficamente localizados, ou vice-versa, haveria antes um deslocamento de referência no espaço (Latour, 2001).

O biofísico me explicou alguns procedimentos básicos relacionados à proteômica, sua especialidade. Comecei então a ter os primeiros contatos com o que vem a ser este conjunto de técnicas e conhecimentos necessários para identificar as proteínas produzidas por uma célula, revelando as interações e interdependências entre os processos biológicos. De acordo com Bisch (2004), a proteômica é uma linguagem a ser aprendida para desvendar o significado do complexo mapa da síntese protéica.

Um dos laboratórios é composto por bancadas. São os locais onde são separadas as diversas proteínas em colunas de afinidade ou por técnicas de imunoprecipitação. È a primeira etapa da protêomica. A segunda etapa envolve o seqüenciamento da proteína, obtendo-se as seqüências de aminoácidos que a compõem.

A separação de proteínas pela técnica de eletroforese requer um gel bidimensional. Os géis 2D variam de acordo com os organismos. Estes géis são encontrados na internet disponibilizados em uma série de banco de dados. Na World 2D page encontra-se uma federação que reúne o endereço de vários bancos de dados disponíveis. O gel bidimensional de policrilamida é utilizado na eletroforese para separar proteínas. Como há géis diferenciados de acordo com os organismos, os que já foram sinalizados são disponibilizados virtualmente. Além destes, as informações de ferramentas de software necessárias à bioinformática também estão na rede mundial de computadores. Embora afirme as potencialidades da internet, o biofísico afirma que nem tudo é realizado por intermédio desta.

Outra contribuição foram os avanços do método computacional em proteômica, que gerou uma revolução no conhecimento biológico. Os computadores foram utilizados inicialmente no armazenamento de um imenso número de dados gerados pelos projetos em larga escala. Atualmente, além desta função acumulam o papel de gerar novas informações e novos conhecimentos. A possibilidade de acesso imediato aos bancos de dados foi importante para o desenvolvimento de algoritmos mais eficazes e robustos voltados para a comparação entre seqüências gênicas. Também para a classificação, atribuição e previsão de funções biológicas nos genes seqüenciados, possibilitando um resultado experimental imediato. Tais fatores permitiram uma diminuição no tempo utilizado para realizar uma pesquisa. Os novos métodos computacionais também levaram à constituição de uma nova metodologia: biologia de sistemas, a qual reúne a genômica e a proteômica. Outrora se utilizava o método experimental guiado por conhecimento empírico e modelo qualitativo, passou-se então a adotar o modelo e a predição. Verifica-se, portanto, o alto desenvolvimento técnico e computacional exigidos. Os espectrômetros de massa modernos, por exemplo, são inteiramente controlados por computador, desde a programação de operação à aquisição dos dados (Bisch, 2004).

O instituto virtual passa a existir transladando os laboratórios das diversas instituições componentes que trocam as informações sobre suas pesquisas. Para além desta realidade interna há ainda os investimentos e a participação de outros atores de outras redes. A existência depende também da ação de agências de financiamento e de políticas voltadas para a ciência e a tecnologia.

OS INSTITUTOS VIRTUAIS E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO
A política de criação dos institutos virtuais, ao menos para as áreas não científicas, apresentou resultados notáveis. Por exemplo, no setor de turismo, a campanha de estímulo à utilização de votações pela internet e por telefone elevou o Cristo Redentor à categoria de uma das sete maravilhas do mundo, na eleição de 2007. O que certamente contribui para o desenvolvimento econômico do Estado do Rio de Janeiro.

Mas e nas pesquisas científicas? Que tipo de implicações o emprego de novas tecnologias da informação poderiam gerar para os estudos sobre genoma? Por que pesquisar o genoma?

Dentre as primeiras iniciativas voltadas para a realização de pesquisas contando com o auxílio da internet destaca-se a experiência da rede ONSA (sigla, em inglês, para Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis). Em São Paulo, antes mesmo do que no Rio de Janeiro, surgiram esforços a favor do desenvolvimento de pesquisas voltadas para a decifração do genoma de uma bactéria que ataca os laranjais: a Xylella fastidiosa. A produção de laranjas é economicamente importante para as exportações agroindustriais brasileiras. Com o sucesso do seqüenciamento da bactéria, a comemoração pela publicação numa reportagem de capa da prestigiosa revista Nature, a rede ONSA, responsável pelo desenvolvimento de pesquisas sobre genoma no Estado de São Paulo, ganhou em credibilidade e as pesquisas na área do genoma receberam maior importância.

Em 1997, a partir da Rede ONSA estabeleceram-se as bases para o funcionamento de um instituto virtual e dinâmico que congregou, inicialmente, cerca de 30 laboratórios de diferentes instituições do estado de São Paulo, acabando por consolidar uma nova concepção do desenho institucional da pesquisa no país. Recebendo apoio da FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisas do Estado de São Paulo), a rede contribuiu para o estabelecimento de uma cultura de interação e de integração entre as universidades e as empresas.

O modelo da rede paulista de pesquisas sobre o genoma foi uma inspiração para que os estudos sobre o genoma fossem implementados no Rio de Janeiro, incorrendo em modelagem computacional e emprego de banco de dados, por exemplo. São novas possibilidades de pesquisa que são obtidas dadas as inovações tecnológicas empregadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


A proposta deste trabalho foi empreender uma breve reflexão sobre a política científica e tecnológica da FAPERJ, que contribuiu para a criação dos institutos virtuais no Rio de Janeiro. Tendo em vista a criação de institutos virtuais desenvolveu-se um estudo de caso acerca do Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas. Tal empreendimento buscou ultrapassar as fronteiras anteriormente estabelecidas entre contexto da justificação e contexto da descoberta (Epstein, 1988), visando mostrar como o desenvolvimento das pesquisas científicas está associado ao seu entorno, sobretudo no que se refere aos incentivos das agências de fomento responsáveis pelo financiamento das pesquisas. Verificando em termos de prioridade, que tipo de áreas foram preteridas em função de outras que puderam se desenvolver porque obtiveram mais investimento. Na ciência, os estudos sobre o genoma estiveram ente os temas privilegiados.

Indo do presente ao passado, busquei uma história num tempo meramente linear e sim linear e sedimentar, realizando uma comparação entre um modelo tradicional de fazer ciência para outro inovador. A inovação fica a encargo do emprego da internet na realização de pesquisas, como a criação de banco de dados de géis, por exemplo. Superando o chefe de laboratório do Instituto Salk, o coordenador do Instituto de Biofísica tem hoje mais recursos para resolver as questões da sua pesquisa sem precisar percorrer grandes distâncias geográficas. As proteínas ganharam um lugar virtual no banco de dados e puderam ser separadas mais rapidamente graças ao novo modelo.

A troca de informações sobre as proteínas requer a formação de bancos de dados que são disponibilizados pela internet. Esta possibilidade de disponibilizar e trocar dados por meio das redes de computadores gerou uma enorme capacidade de desenvolvimento nas pesquisas sobre proteômica. O resultado mais interessante da investigação é que a utilização da nova tecnologia não significou uma exaltação, por parte dos cientistas, da dimensão não-física em detrimento da física, isto é, do virtual em função do real. Assim o percebi ao longo do trabalho de campo realizado no IBCCF (Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho). A internet é concebida como uma facilitadora da comunicação, mas estas não substituem as interações "reais" entre os cientistas e nem eliminam por completo as práticas de bancada. Portanto, mesmo com o advento da internet não se abriu mão do contato pessoal nem de práticas científica anteriores à internet.

Transladando, permutando e mobilizando um coletivo de humanos e não humanos, tornando-os mais intimamente conectados, o Instituto Virtual de Bioinformática e Modelagem de Biossistemas faz das instituições que os compõem um tecido social mais finamente urdido. Através destas mediações permite mostrar novas formas de fazer pesquisa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BISCH, P. M. Genômica Funcional : Proteômica. In: Luís Mir. (Org.). Genômica. 1 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2004, v. 1, p. 139-162.
ELIAS, Norbert. Introdução à Sociologia. Lisboa: Edições 70, 1999.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
HARAWAY, Donna. Antropologia do cyborg: As vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
EPSTEIN, Isaac. Revoluções Científicas. São Paulo, Ática, 1988.
HERTZ, Robert. "A preeminência da mão direita: um estudo sobre a polaridade religiosa", in: Religião e Sociedade (6), 1980.
KROPF, Simone Petraglia & FERREIRA, Luiz Otavio. A prática da ciência: uma etnografia no laboratório. In: Hist. cienc. saude-Manguinhos, vol.4, no.3, nov. 1997.
LATOUR, Bruno. A ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros em ação. São Paulo: Editora Unesp, 1999.
--------------------- A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. São Paulo: EDUSC, 2001.
LATOUR, Bruno & WOOLGAR, Steven. A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1997.
MCLUHAN, Marshall (1979). Os meios de comunicação como extensões do homem. S. Paulo: Cultrix, 1979.

COMPUTER SCIENCE AND TELECOMMUNICATIONS BOARD (CSTB). National Collaboratories: Applying Information Technology for Scientific Research. Washingthon: The National Academy Press, 1993.


SNOW, Charles Peirce. As Duas Culturas, Editorial Presença, Lisboa, 1995.
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