Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Faculdade de Psicologia



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4-Histórico da utilização de recursos artísticos no processo de cura




4.1-Internacional

No início do século XX Freud dedicou-se a escrever sobre artistas e suas obras, analisando-os sobre a óptica da psicanálise. “Observa que o inconsciente se manifesta por meio de imagens, sendo uma comunicação simbólica com função catártica. E também que estas imagens escapavam da censura da mente com mais facilidade que as palavras, podendo transmitir mais diretamente seus significados”.(Andrade, 1993, p.44) Sendo mais fácil a transmissão de conteúdos inconscientes através de imagens, é possível se começar a questionar a técnica mais utilizada pelos psicoterapeutas, que é o diálogo.

Freud aprofunda-se nos seus estudos sobre as obras artisticas e seus feitores e conclui, segundo Andrade e Carvalho que:
“A criação artística seria, assim, (...) fruto de um processo de sublimação de desejos sexuais, impulsos instintivos não possíveis de serem satisfeitos na realidade, porque ou são fortes demais, impossibilitando a priori sua satisfação, ou tornar-se-iam nisso impelidos por uma repressão impediente do aflorar natural daquele. A sublimação, necessária a toda civilização, empregaria de uma forma construtiva a pulsão, desviando parte da energia não-canalizada para uma gratificação direta”.(Carvalho e Andrade, 1995, p.23).
A partir disso, é possível concluir que para a Psicanálise a arte é uma forma não-neurótica de satisfação substitutiva. Quando a pessoa consegue, através do mecanismo de sublimação, exteriorizar os seus conflitos, superando-os e recriando uma nova realidade –utilizando-se da criatividade - ele não se cristaliza em estereotipias pois consegue enxergar outras possibilidades de ação; mesmo que dentro do universo artístico.

Freud nunca fez uso de linguagem artística em seu trabalho, no entanto permitiu que o que hoje chamamos de arte terapia começasse a se delinear através da sua compreensão de que os recursos artísticos são uma forma de comunicação do inconsciente, do mesmo modo que os sonhos.

Jung utilizou-se da linguagem expressiva nos seus processos psicoterapêuticos; ao contrário de Freud, acredita que a criatividade é uma função psíquica natural do ser humano e que esta tem um papel estruturante e não unicamente de sublimação dos impulsos sexuais, como demonstra Andrade:
“Para Jung, é uma função psíquica, daí a arte não ser apenas fruto de sublimação de instintos sexuais e agressivos. É função natural da mente humana e tem função estruturante do pensamento. Pode, portanto, ser usada como um componente de “cura”, além de a criatividade poder ter essa função em si mesma. Esse processo natural se realiza por intermédio de símbolos presentes nos sonhos, nas fantasias e nas mais diversas expressões artísticas. Dando continuação às suas pesquisas, Jung começou a usar técnicas de desenhos livres, para facilitar a interação verbal com a paciente. Esta aplicação técnica é decorrente da sua crença na possibilidade do homem organizar seu caos interior utilizando-se da arte: pintura, escultura etc.” (Andrade, 1993, p.45 e 46)
Para Jung era possível que a arte fosse utilizada como facilitadora da “cura”, através dos símbolos que nela estão presentes, assim como nos sonhos e fantasias. Na década de 20, começa a pedir para seus clientes que desenhassem –sonhos, sentimentos, situações conflitivas etc.- unindo as linguagens verbal e não-verbal, de forma que uma complementasse a outra, auxiliando o processo terapêutico. Jung via as imagens desenhadas como representações do inconsciente pessoal e também do coletivo, por notar, através dos seus estudos de diversas culturas e mitologias, grande semelhança entre estas últimas, mesmo em sociedades diversas. Cria assim o conceito de arquétipo, o qual designa como fonte de alimentação do psiquismo do homem primitivo ao moderno.

Jung via o homem como essencialmente social, não podendo este existir sem uma cultura. Quando as emoções e pensamentos não encontram acolhimento social, estes voltam-se para dentro, formando um grande turbilhão de energia. Através da linguagem artística abre-se uma possibilidade da pessoa organizar o seu caos interior, pois pode exteriorizar as suas demandas sem críticas. Ao interagir com suas imagens internas, pode modelá-las, transformando-se ao longo do processo. Além disso, passa a conhecer melhor os seus aspectos, podendo experimentar inserir-se na realidade de uma maneira nova.

Além das contribuições destes dois autores, para a arte terapia, houve outros que os precederam. Em 1876, o psiquiatra Max Simon, publicou seus estudos sobre manifestações artísticas de doentes mentais e classificou as patologias de acordo com as produções artísticas. Em 1888 Lombroso, analisou psicopatologicamente os desenhos de doentes mentais, com o intuito de classificar suas doenças. Embora o trabalho de ambos tenha sido semelhante, somente Lombroso continuou a crer no valor diagnóstico de sua aplicação. Morselli em 1894, Júlio Dantas em 1900 e Fursac em 1906 pesquisaram as produções artísticas de doentes psiquiátricos. Ferri, Charcot e Richet, no final do século XIX e princípio do XX, também se interessaram pela arte dos doentes psiquiátricos.

Em 1906, Mohr, através de seus estudos comparativos das produções de doentes mentais, pessoas comuns e dos grandes artistas levanta a possibilidade dos desenhos serem utilizados como testes para estudos de personalidade. Essa idéia serviu como base para muitos autores de testes, dentre eles: Rorschach, Murray-TAT , Szondi, Binet-Simon, Goodenough, Bender, além de outros. Os estudos sobre testes são de grande valia para o uso da arte na psicoterapia. É possível utilizar-se desse conhecimento, sobre as cores, o traçado etc. para o enriquecimento desta.

O termo Arte-terapia surge pela primeira vez somente em 1945 no primeiro livro publicado por Adrian Hill, Art vs Illness (Arte versus Doença). Adrian Hill, artista inglês, esteve internado num sanatório para tratar uma tuberculose. Durante o longo período de evolução da sua doença e reabilitação, numa época em que os recursos para a combater eram escassos, ele passou o tempo a pintar. Os médicos que o assistiam puderam observar uma aceleração na sua recuperação e um estado geral de bem estar manifesto. Após o seu restabelecimento, eles convidaram-no a regressar para fazer pintura com os pacientes do sanatório. Ele teve como seguidor Stock Adams.

A partir desses fatos desenvolve-se na Inglaterra um forte movimento de arte terapia junto às instituições psiquiátricas, levando a uma reestruturação desta, com novos modelos teóricos, tendo, entre outros, Gerry McNeilly como contribuinte para essa mudança.

Na segunda metade do século XX vai surgindo por todo o mundo um interesse crescente pelas intervenções artísticas terapêuticas em doentes psicóticos. A importância destas intervenções no tratamento reflete-se, por exemplo, no reconhecimento da arte terapia como uma valência terapêutica eficaz pela Associação Internacional para o Tratamento da Esquizofrenia.

A partir desses acontecimentos a arte terapia evoluiu significativamente, tanto do ponto de vista dos modelos teóricos (que passaram a utilizar seus recursos), como das formações existentes (que cresceram, podendo-se encontrar cursos de arte terapia em Universidades) e, dos países em que é reconhecida (como eficaz).

Segundo Carvalho (1995) hoje, a área denominada arteterapia é a que utiliza essencialmente os recursos artísticos com finalidade terapêutica. Na definição dada pela American Art Therapy Association (AATA), fundada em 1969, lê-se:
“Arte-terapia é uma profissão assistencial ao ser humano. Ela oferece oportunidades de exploração de problemas e de potencialidades pessoais por meio da expressão verbal e não-verbal e do desenvolvimento de recursos físicos, cognitivos e emocionais, bem como a aprendizagem de habilidades, por meio de experiências com linguagem artística variadas. (...) O uso da arte como terapia implica que o processo criativo pode ser um meio tanto de reconciliar conflitos emocionais, como de facilitar a autopercepção e o desenvolvimento pessoal”.(Carvalho, 1995, p. 23- 24).
4.2-No Brasil
No Brasil existem dois grandes difusores da arte terapia: Osório César e Nise da Silveira.

Em 1923 Osório inicia estudos sobre a arte no Hospital do Juqueri. Em Franco da Rocha. Cria, em 1925 a Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri, publicando no mesmo ano o seu primeiro livro: A Arte primitiva nos alienados. Dois anos depois publica mais dois trabalhos: Contribuição para o estudo do simbolismo místico dos alienados e Sobre dois casos de estereotipia gráfica com simbolismo sexual. Em 1929 publica o seu mais importante livro: A expressão artística dos alienados. Além disso, organizou diversas exposições para a divulgação da produção artística dos doentes mentais, participando do I Congresso Internacional de Psiquiatria, onde expôs o trabalho feito com seus pacientes.

Utilizou-se da espontaneidade como técnica no trabalho desenvolvido com os doentes mentais do Juqueri. Acreditava que a arte propiciava por si só a cura, através do acesso que permitia ao conhecimento do mundo interior, possibilitando aos enfermos mentais a exteriorização das suas representações mentais, no mundo exterior, sem obrigação de respeito ao patrimônio cultural, ou seja, através da arte eles poderiam exteriorizar todos os seus impulsos e desejos sem críticas e julgamentos.

Nise da Silveira desenvolveu um trabalho inovador, de terapias expressivas estudando formas de compreender os pacientes psiquiátricos. Baseou-se na teoria junguiana, criando oficinas de trabalho, em 1946, no centro Psiquiátrico D. Pedro II, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Em 1952 criou o Museu de Imagens do Inconsciente, onde são conservadas as produções artísticas dos internos da instituição referida.

Ela propunha a seus pacientes que executassem diversas formas de expressão artística, tais como: dança, desenho, argila, representações dramáticas dentre outras, possibilitando a vazão da linguagem arcaica de suas imagens simbólicas representantes dos desejos e emoções que se formavam em seu psiquismo. Buscava desta forma, que através da exteriorização e elaboração de seus conteúdos internos, houvesse a possibilidade da supressão da vida inconsciente, ou seja, que esta última não se apoderasse do indivíduo, mas, fosse integrada por ele.

Nise da Silveira escreve um livro intitulado Imagens do inconsciente, onde descreve o seu trabalho no Centro Psiquiátrico, em Engenho de Dentro. Realizou-se também um documentário, com o mesmo nome do livro, retratando o seu trabalho com os pacientes, de forma mais ilustrativa. Seu objetivo central era o de demonstrar a importância da arte como recurso no processo de integração da personalidade, através do desdobramento de um processo inconsciente: a individuação.

Individuação provém do latim individuus, que significa "indiviso", não fragmentado, ou "inteiro".

Para Jung, é o processo pelo qual os seres individuais são formados e diferenciados; em particular, é o desenvolvimento psicológico do indivíduo. Este consiste em uma jornada gradual e constante, para o nosso si mesmo autêntico (self), transformando nosso ego e ampliando nossa consciência, através da integração de aspectos inconscientes ao consciente.




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