Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Faculdade de Psicologia



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15-Análise



1.º Atendimento
Foi possível, como demonstrado anteriormente, estabelecer um contato com a paciente através do jogo de dominó. Mesmo sentindo-se indisposta ela aceitou participar do jogo, pois fora atraída pela oferta. Dentro daquele ambiente estranho e opressor, ela encontrou algo que lhe era familiar, o brincar. Os nossos laços começaram a se estreitar a partir do transplante de rim que fizemos na boneca e ela demonstrou confiança em mim, deixando que eu fizesse juntamente com ela a operação. Além disso, ela pode, através da brincadeira, repassar os procedimentos cirúrgicos aos quais fora submetida quando fizera o seu transplante. Pode falar um pouco sobre sua dieta alimentar e demonstrar que tinha conhecimento sobre vários dados como: porque é possível comer alguns alimentos e outros não, quanto mede uma pressão sanguínea com um nível normal, qual é a taxa para se estar anêmico, efeito da anestesia, etc.

Apesar de ter me elegido como a médica que faria a cirurgia, demonstrando confiança, é possível se notar que ela teve necessidade de conduzir a operação, realizando todos os procedimentos.

Percebi que a relação entre mãe e filha estava um pouco tensa e que por qualquer motivo T. brigava com a mãe. Isso ocorria provavelmente pela irritação e insegurança que a paciente sentia, em relação ao ambiente hospitalar e aos procedimentos. Ela podia projetar na mãe tais sentimentos uma vez que ela se sentia segura quanto ao amor e afeição de sua mãe, não tendo que se preocupar em “perde-la”.

Quanto à comida, T. pode entender através da boneca o quanto era importante se alimentar mesmo não apreciando muito a refeição, identificando-se com a boneca.


3.º atendimento
É possível notar uma diferença na relação de mãe e filha logo no início do atendimento. T. está pintando uma caixa feita por sua mãe com palitos de sorvete, ela mostra à mãe posteriormente seu trabalho, esperando sua aprovação. Além disso, nota-se também alguma mudança na minha relação com ela, uma vez que ela me questiona sobre o que fazer para enfeitar a caixinha e mesmo negando muitas de minhas sugestões, aceita outras e permite que criemos um mecanismo de enfeitarmos a caixa juntas, com ela passando cola e jogando a purpurina (do modo como a ensinei) e eu recolhendo a folha de sulfite e despejando o restante da purpurina no pote. T. questiona minha opinião sobre o que ela está fazendo por diversas vezes e eu a reforço positivamente, demonstrando que seus feitos me agradam, ou seja, que eu a aceito do modo como ela é.

T. demonstra muita ansiedade ao jogar a purpurina e exclamar “vai logo”, “rápido”. Ao investigar posso ver que essa ansiedade, demonstrada através do recurso artístico, surge da sua pressa para deixar o hospital. Penso que o trabalho artístico possibilitou essa constatação, além de permitir também uma devolutiva à paciente, também através dele. Falar por metáforas, ou através da brincadeira torna mais fácil a expressão e a captação de conteúdos. Isso pôde ser aplicado também ao conteúdo que ela expressa logo em seguida, de medo. Apesar de não trabalha-lo através do recurso artístico, este viabilizou sua expressão, o que auxiliou posteriormente a conversa que tivemos sobre o medo de sentir dor ao fazer a fístula.


Ao final da decoração da caixa, ela me incumbe da função de enfeitar a sua caixa, demonstrando confiança em um momento em que se sentia frágil; sendo esta confiança reforçada quando T. permite que eu vá com ela descobrir a notícia que foi dada à sua mãe e, posso notar que ela se sente acolhida pelo fato de acompanhá-la e estar junto dela. Quando a mãe retorna com a notícia e T. se alegra com ela, procuro mostrar que sua mãe voltou o mais rápido possível para avisá-la, demonstrando sua preocupação e sua afetividade para com ela. Penso que T. continuou com intenção de decorar a caixa, mesmo não querendo fazer por si mesma, provavelmente por medo de voltar ao quarto e ter que encarar a notícia.

16-Conclusão
É possível concluir através desta obra o quão significativo é o trabalho do psicólogo hospitalar junto ao paciente e, o quanto a utilização de recursos artísticos e lúdicos facilita a aproximação deste profissional ao doente que pode se sentir fragilizado neste contexto, em meio a tantos procedimentos invasivos, permitindo, que o psicólogo não seja visto como mais um destes.

Além disso, através da utilização dos recursos lúdicos, permite-se a exteriorização de conflitos e conteúdos que poderiam demorar mais a aparecer em uma intervenção mais tradicional. Como já demonstrado anteriormente, o trabalho do psicólogo hospitalar, muitas vezes é correr contra o tempo, além de todas as outras preocupações que envolvem o doente e sua família.

Os recursos artísticos tornam-se uma ponte entre o psicólogo hospitalar e o doente, quando a relação entre ambos está dificultada por algum motivo. O paciente pode estar deprimido, cansado, aborrecido, ou ainda não possuir um vínculo de confiança com o profissional de psicologia. Em todas essas circunstâncias, a utilização de recursos lúdicos auxilia no contato, permitindo que este ocorra de forma menos intrusiva na formação do vínculo, mantendo paciente e psicólogo trabalhando juntos em alguma atividade como também na exteriorização do conflito e das fantasias que podem surgir através da situação de hospitalização e do momento após o transplante. Sendo este momento (pós-cirúrgico) muito importante e delicado, pela infinidade de projeções que podem haver e, reforça-se a contribuição da utilização dos recursos citados para auxiliar o doente a compreender esta nova fase de sua vida e proporcionar um meio pelo qual ele possa iniciar um contato com seu corpo e suas sensações, que agora serão diferentes.

Além da importância de um trabalho de acompanhamento psicológico após o transplante, percebe-se também, a necessidade de um auxílio semelhante ao paciente na situação precedente à cirurgia, fazendo que fale sobre ela e sobre todas as angústias referentes a esta. Quando o paciente opta pelo transplante ele pode criar cria muitas idealizações e, frustrar-se posteriormente além de revoltar-se com a equipe de saúde. Além disso, o paciente tem muito medo de submeter-se a cirurgia, podendo até mesmo, rejeitar o novo órgão se não puder sentir-se seguro com sua escolha.

É de extrema importância que haja um apoio psicológico aos familiares do doente renal internado ou ambulatorial, para esclarecer todas as dúvidas e proporcionar um espaço de reflexão e exteriorização de sentimentos e idéias.

A família do doente e principalmente o acompanhante se houver, são depositários de todas as aflições do paciente e de todos os sentimentos que não podem ser expressos para a equipe hospitalar. Assim, faz-se necessário que este familiar possa encontrar apoio e conforto em alguma atividade oferecida pelo serviço de psicologia para que possa, por sua vez, oferecer o mesmo ao doente.

Para que esse trabalho junto aos pacientes do Hospital do Rim e Hipertensão e seus familiares possa ocorrer de forma mais efetiva, pensei ao longo da facção desta obra e do estágio que realizei nesta instituição em oferecer uma sugestão.

No Hospital existem estagiários de 4.º e 5.º ano de psicologia, sendo que os primeiros, têm como função ajudar os pacientes na oficina de artes e, os seguintes, atender aos pacientes que demonstram ter alguma demanda psicológica. O que se vê, na maioria das vezes é que os alunos de 5.º ano não conseguem exercer a função para a qual são solicitados pois, não há um número suficiente de alunos do ano anterior, de forma que possam cuidar da oficina sem auxílio dos alunos de 5.º ano, ficando estes últimos presos a ela. Penso que se houvesse mais estagiários de 4.º ano que pudessem cuidar da oficina, auxiliando os pacientes em seus trabalhos artísticos, os alunos de 5.º ano poderiam ter mais tempo para os atendimentos individuais, ou em grupo, aos pacientes e às suas famílias.




17-Bibliografia

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