Ponto de vista: Ambiente é a grande oportunidade que nos é oferecida



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Ponto de vista:

Ambiente é a grande oportunidade que nos é oferecida

( ou, os “Dez Princípios Ambientais de Foelkel”)

Celso Foelkel

Há algum tempo atrás, ainda durante minha época de conselheiro do COEMA (Conselho do Meio Ambiente) da CNI - Confederação Nacional da Indústria, tive a oportunidade de moderar um evento ambiental que aconteceu no Rio de Janeiro. Como todos nós sabemos, meio ambiente é algo que gera discussões acaloradas, hoje e sempre. Há os que amam debater e mesmo agir proativamente sobre o tema. Há outros que fogem do assunto, procurando deixar sua roupa suja bem escondida no cesto e sem disposição de lavá-la, nem mesmo depois, quando sozinhos. Em geral, o bom senso está longe de existir nesses debates. Muitos se sentem ameaçados, protegem-se contra gastos ambientais, receiam sobre seus passivos e sobre os impactos de suas operações, temem o fechamento da empresa pelo órgão de controle ambiental, ou ainda, escondem de seus colaboradores as ameaças que eventualmente possam existir para eles e para a comunidade circunvizinha. Não poderia ser diferente naquela época e no evento que moderei. Havia no ar um clima de apreensão e reclamos contra as “temíveis barreiras não alfandegárias”, contra as taxações ambientais e contra especialmente os selos verdes. Como o Brasil depende e dependerá sempre de exportações para obter divisas fortes, já que a nossa não o é e não será tão cedo, os nossos empresários costumam enxergar muitas ameaças , principalmente quando isso acontece a partir dos mercados mais nobres e privilegiados como o europeu e norte-americano. Como resultado dessas preocupações, a tônica do evento era a reclamação. Até me surpreendi com isso, pois a maioria dos palestrantes e dos manifestantes da platéia eram pessoas de altíssima qualificação: executivos da indústria, consultores, acadêmicos e professores universitários, advogados em legislação ambiental e alguns políticos aproveitando a ocasião.

Em geral, sou pouco paciencioso quando ouço um besteirol muito grande. Porém não podia sair, era o moderador e estava na mesa coordenando os trabalhos As contínuas reclamações contra a “legislação mais severa do mundo”, contra as normas e certificações ambientais, contra os selos verdes, contra as “tecnologias limpas e caras, mas patenteadas no exterior”, e contra tudo que surgiu recentemente para incentivar a melhoria ambiental, foram me irritando profundamente. Surpreendeu-me ver como pessoas numerosas que eu acreditava serem lúcidas e construtivas, continuassem a ver o tema ambiental muito mais como uma ameaça do que como uma oportunidade. Entretanto, a minha posição não era de debatedor, portanto contive-me o quanto pude. Deixei as rédeas soltas para ver até onde iam com a choradeira e protestos. Ao final de todas as apresentações, antes do evento se encerrar, a palavra de fechamento cabe sempre ao moderador da mesa: era a minha chance de usar o microfone e os que me conhecem sabem que, com um microfone na mão, renovam-se as minhas energias e falo, como sempre, o que penso e acredito.

Nesse momento, já tinha ordenado minhas idéias e escrito em uma pequena folha de papel dez frases que apropriadamente procurei colocar para a platéia. Se gostaram não sei, mas falei o que pensava e até hoje me orgulho disso, por isso estou a compartilhar com os leitores.

Em resumo, minhas colocações com uma breve explanação mais adequada ao nosso setor e para os dias de hoje, estão enunciadas a seguir:
Princípio 1: “ A legislação ambiental e os órgãos de controle constituem-se numa das melhores e mais eficientes forças motrizes para a melhoria do meio ambiente”

Os exemplos passados de fechamentos temporários ou definitivos de fábricas, e os de não liberação de novos projetos para se instalarem, estão ainda muitos vivos na memória do nosso setor industrial. Essa pressão inconsciente e o temor de ser o próximo exemplo na mídia é muito presente e tem forçado melhorias notáveis em nossas empresas. Quando implantadas e operacionalizadas com sucesso, nossos executivos alardeiam a quem queira ou possa ouvir que a empresa é exemplo ambiental e tem a consciência do dever cumprido. Ótimo que isso aconteça: a força da lei impulsionando melhorias na nossa impactante atividade e nós nos orgulhando do que fizemos, esquecendo-nos que em parte só o fizemos porque fomos obrigados. Tudo bem e ótimo se conseguimos encontrar vantagens depois que aprendemos a enxergar o ambiente sobre nova ótica e lógica.


Princípio 2: “As normas ambientais, mesmo que voluntárias, promovem uma interessante competição entre as empresas para conquistá-las e o segmento todo é melhorado”

A partir do momento que a Bahia Sul e a Riocell, logo a seguir, conquistaram a certificação ambiental pela IS0 14001, e a Klabin, o selo florestal do FSC, todas as demais empresas se colocaram na obrigação de fazê-lo também para não serem vistas como “piores” pelo mercado. Quando digo mercado, considero não apenas os compradores locais e internacionais de produtos, mas o mercado de capitais e os bancos de financiamentos. As empresas com ações nas bolsas de valor tem a obrigação de se mostrarem ambientalmente corretas e socialmente justas, e não apenas lucrativas. As certificações ambientais assinadas por terceiras partes tem importância fundamental para isso. Quem ganha: empresas, sociedade e ambiente.


Princípio 3: “Os consumidores escolherão cada vez mais produtos amigos do meio ambiente, ou produzidos por empresas ambientalmente corretas”.

Há alguns anos atrás, comprávamos o que havia nas prateleiras, não nos preocupávamos sequer em ver a data de validade do produto, até mesmo porque não era comum que isso fosse apresentado ao consumidor. Hoje o mundo é outro. Há uma enorme preocupação com os produtos que possam prejudicar a saúde, com os alimentos transgênicos, com os produtos com agrotóxicos, com as embalagens com conteúdo de algum químico residual, etc., etc. O consumidor descarta as empresas que estejam poluindo o ambiente, rejeitam seus produtos e já é comum que se pague mais por um produto ambientalmente melhor: vejam-se os produtos orgânicos, o arroz e o pão natural, os remédios homeopáticos, etc. Logo isso chegará forte em nossos produtos na forma de selos verdes e de declarações ambientais. Até mesmo nossas empresas de celulose e papel já estão se antecipando com auto-declarações do tipo: 100% obtido de florestas plantadas, branqueamento ECF, reciclável, biodegradável, 100% feito de papel reciclado, etc.


Princípio 4: “O que é ambientalmente bom hoje, necessariamente não vai ser assim no amanhã (e vice-versa)”

Não existe limite para o avanço do conhecimento e das descobertas da inteligência. Produtos e processos que no passado eram vistos como ótimos foram descartados por tecnologias mais eficientes no uso dos recursos naturais como energia e matérias primas. Não me esqueço que durante minha juventude ouvia o Amaral Neto, o repórter, rejubilar-se da conquista da Amazônia para garantir a soberania nacional, em acordo com a lógica dos detentores do poder na época. Hoje, a construção da Transamazônica e o desmatamento para a geração de agronegócios miseráveis e de curta duração, são vistos como sérios erros ambientais do nosso recente passado.


Princípio 5: “Toda atividade gera impactos que precisam ser monitorados, gerenciados e otimizados”

Nossa indústria tem impacto ambiental, não há como negar isso. Logo, temos que atuar de forma a minimizar os efeitos negativos, prevenir que os mesmos prejudiquem a comunidade e o ambiente. Por outro lado, há efeitos positivos que devem ser entendidos e maximizados.


Princípio 6: “Meio ambiente é excelente fator de motivação pessoal”

Tenho trabalhado há muito tempo com meio ambiente em empresas. Para mim, o processo ambiental é uma das melhores, mais fáceis e mais disputadas bandeiras que nossos colaboradores querem carregar. É muito mais eficiente trabalhar meio ambiente com conscientização e com motivação do que com complicadas tecnologias e sistemas de gestão desenvolvidos com base em planilhas e burocracias. Nos dias atuais de inseguranças e temores sobre o emprego, o trabalhador precisa acreditar em coisas que ele veja como possíveis de melhorar o seu presente e o futuro de seus filhos. Meio ambiente é muito mais bandeira a carregar do que aquela de dar lucro ao acionista. Entretanto, podemos combinar ambas, pois ao desperdiçar menos, geramos menos poluição, somos mais eficientes e a empresa e os acionistas ganham mais também.


Princípio 7: “Gestão ambiental deve ser encarada como uma oportunidade de ganhar mais dinheiro e não como mais despesas”

Se nossa preocupação com o meio ambiente se limitar a colocar sistemas de tratamento de efluentes hídricos, aéreos e estações de compostagem ou aterro de resíduos sólidos, então estaremos só no lado das despesas, não ganharemos nada, só melhoremos nosso nível de poluição, cumpriremos a lei, mas pagaremos e muito para isso. Entretanto, se trabalharmos na prevenção da poluição, na redução do desperdício, seremos mais eficientes, gastaremos menos matérias-primas, energia e insumos e nossa margem de lucro aumentará. Fácil entender, difícil praticar e mais difícil de vender a idéia em uma indústria acostumada a desperdiçar insumos (fibras, água, vapor, energia elétrica, minerais, etc., etc.)


Princípio 8: “Qualidade ambiental e social serão cada vez mais obrigação das empresas”

Ao praticarmos mais e mais os princípios neo-liberais vigentes estamos gradualmente tirando do Estado as responsabilidades sociais com saúde, educação, previdência, segurança, etc., etc. ( por outro lado, o Estado quer também se livrar disso, pois sabe que não tem competência para fazê-lo bem). Resultado, a quais entidades caberá esse papel no médio prazo? Já vimos que gradualmente as empresas estão assumido isso, sem que seja de forma paternalista. Idem para os aspectos ambientais: o Estado atuará como facilitador, como controlador e legislador, mas quem deverá fazer as coisas acontecerem será a iniciativa privada, não tenho dúvidas.


Princípio 9: “A sustentabilidade que buscamos é a do ser humano no planeta”

Apesar de toda nossa preocupação com o mico-leão dourado, com as tartarugas marinhas, com as baleias e com os ursinhos panda, o conceito de desenvolvimento sustentável é totalmente antropocêntrico e nossas ações são para garantir um planeta razoavelmente habitável pelas sociedades de humanos do futuro. Então nada melhor do que nos preocuparmos mais com o ser humano já a partir de hoje e não apenas com os animais em extinção. Não que não devamos nos preocupar com eles, mas é incrível que nos condoamos e sintamos pena de um cachorrinho molhado em dia de chuva e fechemos rapidamente a janela de nossos carros, arrancando rapidamente, quando nesse mesmo dia de chuva, uma criança pobre , molhada e faminta, vem em nossa direção pedir uma esmola ou algo para comer.


Princípio 10: “Estamos muito longe da prática do desenvolvimento sustentável”

Voltando àquele evento do Rio de Janeiro, cansei-me de ouvir vaidosos empresários dizerem que suas empresas praticam o desenvolvimento sustentável. Insistentemente encontro isso enunciado em relatórios de empresas, onde em suas repetitivas Missões e Visões, afirmam que elas são ambientalmente corretas e justas com a sociedade, gerando lucro ao acionista e por isso são praticantes do desenvolvimento sustentável. Concordo que estejam buscando isso, que muitas realmente fazem muito mais do que outras, mas há ainda um longo caminho a andar para sermos ambientalmente corretos, socialmente justos e economicamente viáveis, ao mesmo tempo e principalmente de forma continuada.







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