Pontos de indeterminacao em historia meio ao contrario de ana maria machado



Baixar 48.94 Kb.
Encontro28.07.2016
Tamanho48.94 Kb.
PONTOS DE INDETERMINACAO EM HISTORIA MEIO AO CONTRARIO DE ANA MARIA MACHADO

Neuza Ceciliato de Carvalho (UEL)

Este trabalho faz parte de uma pesquisa intitulada De mãos dadas: leitura e produção de textos no Ensino Fundamental, coordenada pelos pesquisadores, Dr. João Luís Tápias Ceccantini e Dr. Rony Farto Pereira, ambos da UNESP/Assis, no ano de 2002, e realizada em uma escola pública da cidade de Tupã/SP. O objetivo foi investigar a recepção de narrativas longas e a produção de textos motivada por essas “leituras geradoras” com crianças de 5ª e 6ª séries. Dentre as atividades propostas pelo projeto interessa-nos neste estudo sobre a leitura realizada pelos alunos, verificar qual foi o nível de rejeição ou de adesão à obra de Ana Maria Machado, Historia meio ao contrário, e também constatar como se processou a interação recepção/produção.

Considerando os dois textos elaborados pelos alunos após a leitura de Historia meio ao contrario, o primeiro, um resumo, e o segundo, um comentário sobre a história, o nosso trabalho se dividirá em três partes. Num primeiro momento, verificaremos se os alunos conseguiram fazer o resumo da obra, revelando os principais pontos da história; num segundo momento faremos observações a respeito do comentário realizado por eles sobre a história, considerando o interesse dos alunos e a compreensão que os mesmos tiveram com a leitura realizada; e, finalmente, apresentaremos uma análise da obra em questão, apontando para a forma de construção da narrativa em termos estruturais, bem como para o modo de organização do discurso literário. Estes dois pontos são, a nosso ver, essenciais para se pensar no interesse e na compreensão de uma obra literária para a faixa etária em que se encontram os alunos pesquisados.


1. Os resumos dos alunos
Ao todo, vinte e cinco alunos participaram das atividades. Oito disseram não ter lido o livro: uns porque faltaram no dia da entrega do mesmo; outros porque não havia livros para todos os alunos – essa afirmação foi contestada pelos coordenadores do projeto, que informaram haver livros disponíveis para todos os alunos; uma aluna alegou não ter lido porque tinha que ajudar sua mãe nos trabalhos domésticos; outro aluno disse: ” Não quero ler nada. Porque eu entreguei o livro para a Professora.”; três alunos disseram não ter lido o livro até o final; e, um aluno disse que “ não leu quase nada e que não entendeu quase nada”.

Na apresentação dos resumos, feitos por treze alunos, poucos foram os que preencheram toda a folha de papel almaço. Cinco alunos fizeram o resumo entre três e oito linhas. Três alunos fizeram um resumo um pouco mais detalhado, chegando a utilizar uma página inteira. Os demais apresentaram um resumo de mais ou menos meia página, sem muitos detalhes. Dois alunos que não leram o livro até o final escreveram quase meia página e somente no final disseram não terem terminado de fazer a leitura.

Essas aproximações são importantes para se apurar como se deu a leitura do livro e, principalmente, para verificar se os alunos conseguiram compreender a história pelo que ela apresenta em termos de temática, enredo e discurso literário.

Dos alunos que leram o livro todo, ou mesmo parte dele, o resumo centra-se no motivo principal que faz com que a história prossiga: a cena em que o rei, ao observar o dia da sacada de seu castelo, grita por socorro ao ver o sol desaparecer. E a partir daí se desencadeiam os motivos que farão a ação progredir, levando ao aparecimento de outras personagens e à movimentação delas pela história. Importante dizer que, se pensarmos em termos de estrutura da narrativa, somente alguns alunos, ao fazerem seus resumos, conseguiram mostrar os acontecimentos em uma ordem seqüencial e gradativa, rumo ao desfecho, pondo em destaque os principais eventos da trama.

Esses alunos - na verdade, apenas duas alunas - partem do conflito instalado, da ruptura com o equilíbrio inicial da história, que é o fato de o rei achar que roubaram o sol de seu reino e que é preciso procurar pelo culpado e puni-lo. A partir daí, mostram a movimentação das demais personagens e fecham a questão com as mudanças de comportamento ocorridas com a princesa, com o príncipe e com o gigante, que eles denominam “monstro”.

Alguns alunos dão maior destaque para o fato de a rainha mandar o empregado do castelo chamar o rei, que está olhando o dia, para tomar banho e jantar. A quase totalidade deles resume a história por esta cena, por um acontecimento único, fechando-a com a indicação de que as personagens acabam, no final, vivendo em harmonia.

Se por resumo entendemos o relato da história pelos eventos narrativos mais significativos, apenas dois ou três alunos conseguiram realizar esta atividade a contento, visto que a grande maioria se restringiu a um fato apenas, não apresentando a história pela seqüência de eventos que irão formar a trama. Porém, se considerarmos que o resumo é a indicação do acontecimento central da história, a maioria deles fez o resumo, ao relatar o fato de o rei se rebelar contra o desaparecimento do sol, pois, na realidade este e o ponto desencadeador da narrativa.

Há casos em que os alunos recriam a história, incorporando situações que são próprias dos contos de fadas tradicionais, mas que não estão presentes nesta narrativa, como é o caso de uma aluna que diz no final de seu resumo: “ Todos queriam casarse com ela [princesa] o mais lindo teve sorte e se casou mais o amor era impossível porque o gigante não deixava queria matar o príncipe mais ele conseguiu matar o gigante e viveu impaiz com ela e viveram felizes”. Essa mesma aluna interpreta livremente o texto literário, traduzindo a seu modo os diálogos da história: “- Eu não vou, ela disia: / - Eu não vou dormir com gente fidida.”.

Mesmo entre aqueles alunos que não leram o livro todo, foi muito freqüente eles iniciarem seus resumos pelo começo da história, repetindo: “ Eles se casaram tiveram uma filha como um raio de sol e viveram felizes para sempre”. Alguns alunos, repetindo o que a autora incorpora enquanto discurso metalingüístico em sua história, iniciam seus resumos falando que a história começa de forma diferente, mas não revelam qual é a diferença. Estes alunos ativeram-se somente ao início da narrativa e ao modo como o narrador expõe a primeira frase da narrativa, sem contudo apresentarem a fábula..

Essas considerações a respeito dos resumos dos alunos do livro Historia meio ao contrario de Ana Maria Machado são importantes para a compreensão dos níveis de leitura dos leitores dessa faixa etária, o que aponta, por tabela, para o grau de complexidade estético-ideológica desse tipo de história voltada para o público infanto-juvenil. O fato de os alunos não se expressarem com clareza sobre o que fala a história e, mesmo, a não leitura ou a leitura parcial dela, parecem revelar o grau de dificuldade que esses alunos encontraram em compreender o que a obra se propõe a revelar. Isso é melhor evidenciado quando se observam os comentários feitos pelos alunos sobre a história.


2. Os comentários dos alunos
Alguns alunos disseram ter gostado do livro, consideraram-no “legal”, “interessante”, e, “importante”, disse uma aluna, porque “se aprende muita coisa”. Uma aluna diz não tê-lo lido inteiro, mas que “o livro é um dos maiores e que queria ter lido mas que não pode” – esta mesma aluna fala no resumo que o livro “é interessante porque “nem tudo é certo” e que quem o escreveu teve uma boa idéia.

A maior parte daqueles que leram diz ter achado a história “engraçada”. Um aluno diz ter gostado do início, mas que no meio da história achou-a sem graça, e que daria um novo começo e fim para ela, além de mudar as falas das personagens porque achou “tudo horrível”. Ao se referirem a um fato engraçado, os alunos em quase sua totalidade apontam para a cena em que o rei faz um “escândalo”. Uma aluna destaca o ponto mais interessante do livro a cena do diálogo da rainha com o rei sobre o banho – ela transcreve o diálogo - e diz: “Eu adorei essa parte e não vou me esquecer dela”. Um aluno diz ter gostado da história porque ela era “meio louca, meio ao contrário”. Um outro aluno diz que achou o livro “um pouco esquisito”, alegando que o começo é o final de outros livros, mas finaliza sua fala dizendo: “Valeu a pena ler este livro”.

Uma aluna diz ter gostado “muito” da história por ser ela “bem interessante e fácil de entender” e que não mudaria nada – esta foi uma aluna que fez o resumo mais completo, revelando a seqüência narrativa e dando destaque para os principais acontecimentos da trama. Uma outra aluna revela não ter entendido o começo e o final da história porque estava tudo ao contrário e que daria um final mais divertido. A maior parte dos alunos que disse ter lido o livro se pronunciou favoravelmente sobre as ilustrações, revelando serem elas “bonitos e criativos”, “animadas e coloridas”; outros falam em “pintura bonita”.

Dos alunos que não gostaram do livro há falas que podem revelar a dificuldade que eles tiveram em compreender a história: um deles achou o livro “”ruim”, “muito grande” e “muito chato”. Ele diz: “Não gostaria de ler de novo nunca mais”. Uma outra aluna diz não ter gostado porque começa no final, o final é o começo e que ela “não entendia a história – ao final a aluna diz só ter lido até a metade do livro. Outra aluna diz: “ele escreve muito em duas páginas ele explicou uma coisa.”. Um aluno reitera essa visão dizendo: “... o narrador fica falando três folhas para depois começar a história e mesmo assim o começo da história também é chato acha falar assim: e viveram felizes para sempre”. Uma aluna diz que o livro e “meio chato”, que não deu tempo “para mim acabar de ler mas também é um pouco legal mas eu consegui entender a metade que eu li...”

Ao associar os resumos aos comentários dos alunos o que se pode constatar é que este livro de Ana Maria Machado parece ter encontrado resistência por parte significativa dos alunos da quinta série pesquisada. O que se pode constatar e que há diferentes níveis de leitura e compreensão da história entre os alunos pesquisados e que grande parte deles revela não tê-la compreendido. É preciso dizer que o que se tem como resposta dos alunos é muito pouco para fazermos considerações críticas sobre a leitura dos alunos, pois sabemos que há vários fatores a interferirem no processo de verificação de leitura quando se solicita um trabalho escrito sobre o livro lido, mesmo que ele seja um resumo e um comentário livre como o que foi solicitado que fizessem.

O que nos chama a atenção é o fato de, mesmo aqueles alunos que disseram ter lido o livro, não terem feito um resumo consistente, nem realizado comentários mais explícitos sobre o que acharam da história. Em vista disso, achamos necessário analisar a narrativa pela sua constituição estética e ideológica, ressaltando a construção do enredo, a constituição das personagens e o discurso do narrador, pontos esses importante quando se pensa em literatura feita para crianças e jovens, uma vez que é, principalmente, por meio desses elementos que se dará a comunicação do leitor com o texto literário.


3. A constituição estético-ideológica e os pontos de indeterminação1 de História meio ao contrário
Ana Maria Machado, juntamente com outros autores da literatura infanto-juvenil brasileira, inicia na década de 1970 a produção de narrativas que reformulam os contos de fadas tradicionais, com características estéticas e ideológicas bastante diferentes desses contos, sendo denominados contos de fadas renovadores.2 Estes escritores criaram suas narrativas como um misto dos contos de fadas tradicionais e histórias modernas, com muita fantasia e simbologia, e, ao mesmo tempo, com uma forte carga de realidade da sociedade brasileira deste momento. Fantasia e realidade passaram a conviver nessas histórias, escritas por meio de um ponto de vista crítico e denunciador dos valores conservadores e mantenedores do estatus quo reinante, revolvendo normas religiosas, políticas e culturais arraigadas na sociedade brasileira daquele momento.

Enquanto nos contos de fadas tradicionais permanecem heróis em situação de desespero pela ausência de perspectivas de melhora, sendo o elemento mágico a única saída para a emancipação desses heróis, nos contos de fadas renovadores essa situação encontra o seu reverso, visto que as personagens são seres ativos, inquietos e com idéias independentes. Naqueles contos há uma adequação aos valores morais da classe burguesa; nestes, prevalece a idéia de que o herói e, por extensão, o leitor, deve ter a percepção de si mesmo e da sociedade que o rodeia, o que leva a narrativa a priorizar a reflexão das personagens sobre os acontecimentos que as envolvem. Nos contos renovadores dos anos 70 está em evidência a intenção dos autores de criar histórias em que as personagens se emancipem de sua condição de dependência e de submissão.

Na renovação do gênero está em foco a dinamicidade da busca e da descoberta, bem como do desfazer-se de todo maniqueísmo, levando as personagens a almejarem a transformação da sociedade. É pela atuação do herói, pela decisão de agir e de comprometer-se com os fatos que esses contos renovados se distinguem dos tradicionais. Disso resulta uma modificação na forma de narrar, sendo freqüente um discurso narrativo permeado de humor e ironia e com muitos diálogos entre as personagens. Parodiando os contos tradicionais Ana Maria Machado, juntamente com Ruth Rocha e Chico Buarque de Holanda, iniciam nos anos de 1970 uma vertente muito significativa para a literatura infanto-juvenil contemporânea, ao inverterem os valores, inovarem a linguagem e construírem, pela figura do narrador, um dialogo reflexivo e critico com o leitor3.

Em Historia meio ao contrario, Ana Maria Machado renova não somente a forma de comunicação com o leitor infanto-juvenil, que se pauta pela incorporação da linguagem oral e pelo coloquialismo de expressão - normas instauradas para o gênero infantil nos anos 20, por Lobato - mas renova também a forma de composição das histórias para crianças e jovens, intercalando à fábula o discurso da metalinguagem, e estabelecendo com isso um diálogo reflexivo e crítico sobre os valores presentes nos contos de fadas tradicionais.

Há, nesta obra da autora, um desfazer constante dos valores instituídos dos contos de fadas tradicionais por meio da inversão de papéis estabelecidos na sociedade. Neste livro, não há um herói a lutar por si e pela sua comunidade, mas há sim personagens que representam, cada uma, um papel importante e decisivo para a mudança da ordem estabelecida no reino.

A autora trabalha seu texto pela coletivização das ações das personagens que representam o povo: a pastora, o ferreiro, o carpinteiro, o camponês, a tecelã, evidenciando a organização social da classe trabalhadora em defesa de seus interesses. Isso é melhor evidenciado na cena em que eles decidem ir juntos acordar o gigante para que este os ajude a defender o Dragão Negro, símbolo da noite, e que, para eles, representa boas colheitas: “– Hoje nosso trabalho é outro. Tão importante como o trabalho de todo dia. Não faz mal parar de trabalhar aqui uma tarde porque é para ajudar toda a vida da gente.” (...) Por isso foram. Naquela tarde, a aldeia ficou deserta. Todo mundo saiu das oficinas e das plantações. Foram todos para os montes.” (p. 27)

No âmbito das personagens que vivem no castelo, ocorrem mudanças significativas, como a decisão consciente da princesa de não se casar com o príncipe e de viajar pelo mundo para conhecer outras sociedades; a situação inesperada do príncipe, que se enamora da pastora, vira vaqueiro e acaba se casando com ela. Mas a mudança mais significativa ocorre com o rei, que se apresenta como uma figura bizarra, com característica de uma criança mimada e ingênua. Este personagem, ao mesmo tempo que representa uma criança mimada, representa também o poder político, o chefe de estado que não conhece a realidade da sociedade que comanda. Ao retratar um rei ingênuo que, ao ver o sol se pôr, imagina que alguém roubou o dia e grita por socorro, exigindo que seus súditos achem o culpado, a escritora instaura a ironia da história, e desmonta a idéia de poder dos representantes políticos. A ironia se apresenta na própria linguagem utilizada pela personagem do rei:

“- Hoje fiquei contemplando o sol e a tarde – que estavam realmente lindos, por sinal – e justamente no momento de maior beleza, quando mais intenso era o colorido do céu e mais brilhantes estavam as nuvens, o dia foi desaparecendo e não consegui ver quem o roubou. Exijo que o culpado seja punido! Onde já se viu? Roubar minha real luz bem nas minhas reais barbas?”

O enredo é também uma inversão dos contos tradicionais, pois a autora começa a história com reticências e pelo final: “...E então eles se casaram tiveram uma filha como um raio de sol e viveram felizes para sempre...”(p. 4). E termina com reticências e com o início das histórias de fadas: “ Era uma vez...” (p. 40)

Embora com seqüência linear dos acontecimentos, à fábula inicial são incorporados comentários do narrador sobre o modo de compor a história, o que faz com que o leitor tenha que acompanhar o pensamento do narrador, levando-o à reflexão sobre a ordem estabelecida. Esse modo de narrar faz com que haja a perda da ilusão, e a interrupção do fluxo narrativo exige do leitor, no ato da leitura, uma tomada de consciência constante sobre o que está sendo enunciado. E esse modo de compor parece dificultar a leitura dos alunos.

Ao utilizar-se da técnica do distanciamento proposto por Bertolt Brecht para o teatro, a autora rompe com a expectativa de leitura linear das histórias feitas para o leitor infanto-juvenil. Este, acostumado a deslizar pelo discurso seqüencial e progressivo dos contos de fadas tradicionais, bem como da maior parte das histórias a ele dirigidas, pode sentir dificuldade em acompanhar o discurso dialogado do narrador, sempre permeado de humor e ironia. Ao intercalar na história a ser contada, comentários reflexivos sobre o modo de narrar, e ao fazer o narrador dialogar com o seu leitor de forma explícita, Ana Maria Machado instaura um estranhamento, levando o leitor a ter que desviar-se do enredo e incorporar o discurso metalingüístico com que o narrador vai tecendo sua rede de significação. É também por este processo dialógico da enunciação que se dá a inovação dos contos de fadas renovadores:

“Gosto muito de inventar coisas. Por isso não sou muito boa contadeira de histórias. Fico misturando as coisas que aconteceram com as inventadas. E quando começo a conversar vou lembrando de outros assuntos, e misturando mais ainda. Fica uma história grande e principal toda cheia de historinhas pequenas penduradas nela.

Tem gente que gosta, acha divertido. Tem gente que só quer saber de histórias muito exatas e muito bem arrumadinhas – então é melhor mudar de história, porque esta aqui e meio atrapalhada mesmo e toda ao contrario...”(p. 5)
Há neste modo de narrar um postergar freqüente dos acontecimentos, levando o leitor para assuntos nem sempre ligados à fabula. O desenrolar da história gira em torno da resolução de um problema: descobrir quem roubou o sol, pois o rei, pela primeira vez, ao observar o dia da sacada de seu castelo, vê que o sol desaparece. Com isso ele monta uma batalha de guerra, pois acredita que alguém roubou o sol e que é preciso encontrar o ladrão. Para isso mobiliza todo o seu reino em busca de explicações sobre o sumiço do sol. Em meio a idas e vidas dos ministros, conselheiros e súditos que tentam explicar para ele que isso é um processo natural, o narrador se insurge com seus comentários, sempre com muita ironia, como ocorre com as falas das personagens. O retardar da solução é uma estratégia para que a escritora construa um texto de crítica social, deixando aparecer, nas entrelinhas, uma realidade segunda, que é a História do Brasil, vista pelo ângulo da crítica ao modelo de organização da sociedade brasileira.

Da vinculação advinda da fantasia dos contos de fadas tradicionais com a presentificação da realidade político-social do Brasil dos anos de 1970 é que nasce uma nova narrativa, que não é mais a história de uma princesa que se casa com o príncipe, tem uma filha linda e vivem felizes para sempre; nem a idéia de que as coisas devem permanecer em seus lugares de origem; e nem a concepção dicotômica entre o bem e o mal.

É justamente essa premissa dos contos tradicionais que é questionada em História meio ao contrário, sendo eles utilizados como pretexto para revelar um novo posicionamento sobre os acontecimentos da História do Brasil dos anos de 1970, momento em que imperava a ditadura militar e o cerceamento à liberdade de expressão da população.

Sobre isso, diz a autora:

Trazemos nossas preocupações contemporâneas para dentro do que escrevemos. Mas sabemos que a fantasia é uma linguagem simbólica para expressar o real e não deve nunca ser transformada em algo alienante, escapista e redutor das potencialidades humanas. (...)

Com a repressão e o fechamento da década[1970],

Ficou difícil falar do real, mas por isso mesmo, mais do que nunca era necessário. Jogar com as ambigüidades, com a possibilidade de diversos níveis de leitura, com a polissemia e a multivocidade. Aguçar a ironia. Transpor os sentidos. Fazer metáforas. Construir símbolos. E é aí que a poesia e a literatura infantil encontram seu terreno por excelência, e aí que se movem mais à vontade.(BASTOS, p. 51-2)
O que prevalece em Historia meio ao contrario, como o próprio título enuncia é a relativização dos valores instituídos, a instauração de uma nova ordem política e social, a construção de uma sociedade mais igualitária e com visão dialética, em que as classes sociais possam conviver em um espaço mais democrático. É no processo de enunciação da narrativa que se instaura a crítica que a autora quer inserir em sua obra. O discurso estético do narrador pode ser visto então como um discurso político, revelando a ideologia da autora sobre o momento político e econômico em que a obra foi criada. Esta história, juntamente com outros contos de fadas renovadores, dirigidos ao público infanto-juvenil dos anos 70 do século passado, se insere, assim, em uma tendência de crítica social.

Este tipo de história, se valorizado pela crítica literária e pelos leitores adultos, parece não ter encontrado lugar na leitura dos alunos pesquisados da quinta série. Pelo que revelam os alunos em seus resumos e comentários sobre a história, foram poucos os que conseguiram compor a fábula e falar sobre ela. As afirmações daqueles alunos que disseram ter achado a história “meio chata”, ou daqueles que revelaram não ter entendido ou gostado dela, são sinais de que eles não conseguiram compreender o processo de enunciação, por ser ele estranho a esses alunos. Embora a história remeta a um conto de fadas, o conto renovado de Ana Maria Machado torna complexo tanto o discurso literário, por usar a ironia, como forma crítica de falar sobre os valores dos contos de fadas tradicionais e de retratar a realidade social brasileira do momento em que a obra foi criada; quanto torna complexa a estrutura narrativa, que não obedece à linearidade dos acontecimentos daqueles contos.

Neste sentido, ao nosso ver, fazer um resumo desta história não se constitui em uma tarefa fácil para os alunos, visto que eles precisam separar tudo o que não faz parte da fábula e também saber distinguir o que é comentário do narrador e o que é acontecimento do enredo. Na verdade, a história, quando expurgados o discurso da ironia e a metalinguagem, é uma narrativa simples e própria para a infância, mas, se vista pelo processo de enunciação e pela constituição de uma metáfora da situação política do Brasil dos anos de 1970, ela se constitui em uma narrativa ficcional complexa, o que requer um estudo mais aprofundado desses elementos, para que haja a compreensão dos alunos do Ensino Fundamental.

Em relação aos comentários dos alunos sobre a história, também se pode entender o porquê de falas tão sucintas. Como nos resumos, eles ficaram presos ao motivo principal da história, que é a cena em que o rei pensa que roubaram o sol. Em nenhum momento os alunos revelaram as referências críticas do narrador ao sistema político, nem mencionaram os índices que remetiam a História do Brasil: o poder ditatorial da década de 1970, a organização da classe trabalhadora brasileira, a idealização do Brasil como um gigante, este contido textualmente no Hino Nacional Brasileiro. Estes elementos, para um leitor adulto e que conhece o significado dos símbolos pátrios e a nossa história social, podem ser facilmente percebidos, mas, para uma criança, leitor ainda em formação escolar, em fase de assimilação desses conteúdos curriculares a serem trabalhados pelas quatro séries do ensino fundamental, esses elementos, tão ricamente incorporados pela autora em seu texto, podem nada representar em termos de consciência crítica. Ou melhor, podem representar um entrave para a compreensão da historia.

São estes pontos de indeterminação presentes no discurso literário, ao nosso ver, que representam a dificuldade de compreensão da história pelas crianças de quinta série e que deixam a narrativa “chata” como disseram alguns. Embora enunciados, esses pontos de indeterminação representam vazios narrativos, elementos não explicitados pelo narrador, constituindo-se assim na ironia do texto, no discurso segundo, que revela a posição crítica da autora Ana Maria Machado.

Isso tudo nos induz a pensar sobre a necessidade de se construir uma proposta metodológica de leitura da literatura, por parte do professor de Língua Portuguesa, que leve o leitor a ultrapassar o seu horizonte de expectativas e a ler a obra literária pela sua constituição estético-ideológica. Para isso a teoria da Estética da Recepção4 poderia oferecer subsídios importantes aos professores, de modo a fazer com que os alunos pudessem partir de suas leituras primárias, como aquelas feitas pelos alunos da quinta série e, gradativamente, irem realizando uma leitura reflexiva sobre a história, contextualizando a obra e conhecendo melhor a autora, lendo a história pela contraposição aos contos de fadas tradicionais e realizando uma leitura mais demorada do discurso literário, pelo ângulo do humor e da ironia. Para a Estética da Recepção este modelo de narrativa requer um leitor competente e disposto a ler os significados mais elaborados que se encontram ao nível da enunciação do texto literário. Disso advém o prazer estético que somente é obtido quando se dá a “compreensão fruidora” e a “fruição compreensiva”.

Em vista do que foi exposto acreditamos que a pesquisa realizada com os alunos da quinta série de uma escola pública da cidade de Tupã/SP revela-se de fundamental importância para que se pense em um trabalho de formação de professores com conhecimento teórico-crítico e historiográfico sobre a literatura infanto-juvenil; bem como com conhecimentos sobre os níveis de leitura literária de crianças e jovens, para que eles possam implementar um projeto pedagógico5 de leitura das obras infanto-juvenis para o terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental no Brasil.
Referências bibliográficas

BASTOS, Du (Org). Ana e Ruth. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995.

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 1987.

FARIA, Maria Alice. Parâmetros curriculares e literatura: os personagens de que os alunos mais gostam. São Paulo: Contexto, 1999.

ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Ed. 34, 1999 (vol. 2).

LAJOLO, Marisa e ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1984.

MACHADO, Ana Maria. História meio ao contrário. São Paulo: Ática, 1997.

_____. Contracorrente: conversas sobre leitura e política. São Paulo: Ática, 1999.

ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 1989.

ZILBERMAN, Regina e MAGALHÃES, Ligia Cademartori. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982.



1 ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Ed. 34, 1999, p. 108-122.

2 ZILBERMAN Regina e MAGALHAES, Ligia Cademartori. Literatura Infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982, p. 139-142.

3 LAJOLOA, Marisa e ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 1984,p. 145.

4 ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção da história da literatura. São Paulo: Ática, 1989, p. 49-61.

5 FARIA, Maria Alice. Parâmetros curriculares e literatura: os personagens de que os alunos mais gostam. São Paulo: Contexto, 1999.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal