Por Eugenio Mussak



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Encontro27.07.2016
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Os últimos serão os primeiros


Não adianta chegar lá se não há qualidade no que se faz. Quem se prepara e age com honestidade costuma ter melhores resultados ­ mesmo sem subir no primeiro lugar do pódio



por Eugenio Mussak

O ditado “os últimos serão os primeiros” merece pelo menos duas interpretações. A primeira, mais moderna, é a de que aquele que resistir mais ficará até o final e, com isso, será merecedor do título de primeiro lugar. É a história de um torneio, quando valem a resistência e a perícia ­ portanto, vencem as pessoas dotadas de mais determinação e com melhor preparo. Estas vão até o fim em seus objetivos e costumam ser as primeiras nas disputas da vida.

A segunda interpretação é a da avaliação justa. Segundo o evangelho de São Mateus, Jesus teria dito aos falsos puritanos que até as meretrizes e os odiados coletores de impostos entrariam antes deles no reino dos céus. Questionado sobre essa afirmação, teria o mestre explicado que estes eram considerados os últimos na escala da preferência divina, mas na verdade estavam sendo honestos com suas escolhas, ao contrário da maioria dos que se acham justos mas são hipócritas, pois sua aparência de homens corretos apenas esconde sua verdadeira identidade de aproveitadores e corruptos.

Em qualquer das duas interpretações o ensinamento aponta para a excelência. Na relação causa-efeito, ser o primeiro é a conseqüência. A busca da perfeição no fazer e da honestidade no ser são as causas. Ninguém será o primeiro apenas por desejar ser, mas por se preparar para ser. E, para essas pessoas, o mais importante não é receber o título de primeiro, pois o prazer mora mesmo é na percepção do valor do que se faz. E, sendo assim, é difícil não ser o primeiro, seja lá o que isso signifique. De fato, ser o primeiro é um conceito que é relativizado pelo valor que se atribui a ele e pela disposição que se tem para pagar o preço devido.



O último é o primeiro
Depois de muito ouvir sobre a inconstância dos fatos da vida moderna, um jovem universitário conversa com um professor que era conhecido por sua sabedoria e experiência de vida. Pergunta-lhe:

­ Mestre, o que será mais importante para o sucesso de minha carreira: a velocidade ou a resistência?

Impassível, o professor lhe diz:
­ Se você for veloz, vencerá às vezes; se for resistente, vencerá sempre.

Esse diálogo nos remete às duas modalidades principais de corrida: a prova dos 100 metros rasos, que costuma ser decidida em torno de dez segundos ­ um esporte de explosão muscular onde quem larga na frente costuma chegar primeiro ­, e a maratona, que não depende da velocidade inicial, e sim da resistência física e do controle emocional para administrar a energia orgânica. Com freqüência os fatos de nossa vida podem ser comparados a essas modalidades esportivas, mas, se olharmos de perto, veremos que na vida diária a resistência está ganhando da velocidade, como aconselhou o professor. Quem administra bem os seus esforços costuma colher melhores resultados, inclusive nas provas de velocidade, que dependem de treinos exaustivos, quando vale muito mais a resistência ao cansaço e ao desânimo.

Um bom exemplo pode ser encontrado no livro O Caçador de Pipas, (Nova Fronteira), do afegão Khaled Hosseini, um dos belos romances da última safra. Ele tangencia a história recente de seu país, da monarquia ao Talibã, mas dedica-se mesmo a temas essencialmente humanos, como a amizade, a coragem, a traição e o arrependimento. Conta a vida dos amigos Amir e Hassan, que foram alimentados pelo mesmo leite, cresceram juntos e construíram seus valores baseados na cultura afegã, mas também na sua essência ­ e esta não é a mesma para todos, mesmo para os muito próximos.

Em um dos momentos cruciais da história, o garoto Amir participa de um campeonato de pipas, e Hassan é seu auxiliar. Dezenas de pipas tingem o céu com suas diversas cores, quando começa a batalha. A idéia é derrubar as pipas concorrentes, cortando suas linhas cobertas de cerol com movimentos rápidos e precisos. Amir não é favorito, mas recebe o incentivo do amigo fiel, que acredita nele com sinceridade. Talvez por isso, e contrariando as expectativas, após horas de manobras, fugas, ataques e pipas caindo como estrelas cadentes com suas caudas ondulantes, ele é um dos dois finalistas. Só falta uma pipa azul, que o ameaça com suas manobras certeiras.

Então o improvável aconteceu. Uma rajada de vento colocou a pipa de Amir em posição de vantagem, e ele não a desperdiçou. Deu mais linha e depois um puxão que resultou no looping que cortou a linha do inimigo. Como o último gladiador sobrevivente, Amir foi ovacionado pela grande platéia que havia passado a manhã olhando para cima, franzindo os olhos para reduzir a força do sol. Todos sabiam que seria o primeiro colocado aquele que permanecesse naquele céu azul por mais tempo. E Amir, auxiliado por Hassan, foi o último ­ por isso era o primeiro.

Quando Hassan saiu correndo para recuperar a pipa abatida, que serviria de troféu, Amir lhe perguntou se ele estaria mesmo disposto a fazer isso, e recebeu como resposta:


­ Por você, eu faria isso mil vezes!

Essa resposta marca a verdadeira intenção do livro, que se refere à dignidade do ato de servir. O garoto Hassan era pobre, pertencente a uma casta inferior, mas absolutamente rico de espírito e de honra. Ele, que parecia o último na escala social, era o primeiro na escala moral.



O primeiro é o último
Sobre esse tema, há mais uma verdade a ser analisada, a de que o valor de ser o primeiro é menor do que o valor do que se faz para chegar lá. O esforço é justificado pela vitória, e esta tem um sabor proporcional a esse mesmo esforço.

Entretanto, às vezes, o que se faz para vencer e ser o primeiro coloca a perder o prêmio e o sabor da vitória. Na vida real, políticos corrompidos, empresários corruptores, atletas anabolizados e artistas plagiadores estão entre os que fatalmente descobrirão que os fins não justificam os meios. Ser, na disputa, o primeiro a qualquer custo acaba por deslocar o campeão para o último lugar no placar da moralidade. Um bom exemplo é o ocorrido no colégio St. Benedict, freqüentado por filhos de famílias americanas endinheiradas, e reproduzido no filme O Clube do Imperador, com Kevin Kline.

O professor de história antiga William Hundert costumava promover todo ano um concurso sobre a história de Roma. Os alunos que dele participavam concorriam ao título de Júlio César. Em uma das edições, o aluno Sedgewick Bell, filho do senador Hyran Bell, da Virgínia, considerado inteligente e capaz, porém relapso e arrogante, chegou à final, junto com dois colegas. Na prova oral que marcaria o fim do concurso, o professor finalmente percebeu que Bell estava colando, e tratou de providenciar sua derrota para o aplicado Deepak Mehta.

Vinte e cinco anos depois, o agora rico empresário Bell, então candidato ao senado dos Estados Unidos, resolve patrocinar um encontro de seus colegas da escola em sua mansão, com a presença do professor e uma reedição do concurso. Mais uma vez, Bell trapaceou, agora com o auxílio de um estudante universitário que lhe ditava as respostas por um sistema de comunicação de alta tecnologia. De novo, o professor percebeu o golpe, desclassificando o embusteiro.

A conversa reservada que o professor teve com o aluno desonesto no banheiro, após a prova, deixou claro o valor que algumas pessoas dão aos primeiros lugares, enquanto outros preferem a honra e o esforço genuíno. Disse o mestre:

­ Falhei com você como educador, Sedgewick, mas vou lhe dar a última lição. Um dia, todos nós somos obrigados a nos olhar no espelho e ver quem realmente somos, e quando esse dia chegar para você, vai deparar com uma vida vivida sem virtude, sem princípios e, por isso, sinto pena de você. Fim da lição!

­ Estou me lixando para suas lições ­ respondeu Sedgewick Bell ­ Eu vivo no mundo real, onde todos fazem o que é preciso para vencer. Se for preciso mentir e trapacear, que seja. Eu vou sair daqui e vou ganhar esta eleição e você vai me ver em todos os lugares. Mais tarde eu penso na minha contribuição à moralidade.

Nesse momento, o ruído de uma porta denuncia seu filho Robert saindo de um reservado do banheiro, de onde tinha ouvido toda a conversa entre o pai e seu professor. O garoto foi testemunha da calhordice do pai que ele admirava por ser sempre o primeiro em tudo, e que demonstrou que, na verdade, merecia o último lugar na prova de integridade moral. Para fechar a conversa, o professor cita Aristófanes:



­ “A juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada e a embriaguez passa, mas a estupidez dura para sempre”.

O último se transforma
Há 40 meses eu tenho sido responsável pela seção “Atitude” da VIDA SIMPLES. Há três anos e meio tenho pesquisado e escrito sobre os ditos populares, nascidos da cultura do senso comum ou da literatura, mas sempre consagrados pelo uso. Foram 40 artigos que me fizeram pensar, muito me ensinaram e me deram imenso prazer. Este é o último. Mas esta não é minha despedida da revista. A partir do próximo mês, meus textos na VIDA SIMPLES tratarão de grandes temas que dizem respeito a todos nós, a partir de inquietações e reflexões do nosso cotidiano. E a participação de você, leitor, é fundamental. Não se acanhe.Você pode levantar suas indagações acessando o site ou enviando um e-mail para vidasimples@abril.com.br. Assim, você me ajuda a inaugurar o primeiro artigo de uma nova jornada que trilharemos juntos. A propósito, os artigos dos 20 primeiros números que saíram na revista serão publicados em forma de livro neste mês de abril, com o mesmo cuidado editorial que tem marcado o caminho desta revista que começou sutil, sem fazer alarde, e hoje é um sucesso editorial, de público e de crítica. A gente se vê.

Eugênio Mussak é o primeiro colunista de VIDA SIMPLES e conta que foi o último que chegou à primeira reunião de pauta. Seus escritos estão em www.eugeniomussak.com.br .


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