*Por Oscar Motomura



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Encontro07.08.2016
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Caórdico Presente e Futuro

*Por Oscar Motomura

 

Quão naturais são as estruturas que tentam trazer ordem à vida em sociedade? Colocando de outra forma a questão, fica melhor: quão não-natural, artificial, “forçada” são essas estruturas? Até que ponto essa não-naturalidade acaba comprometendo significativamente a eficácia das organizações e afetando a motivação das pessoas? Até que ponto a forma de “provocar ordem” ou “assegurar ordem/impedir o caos” vem obstruindo o espírito humano em sua manifestação plena?



Até que ponto estruturas mecanicistas (que pressupõem que a organização seja uma máquina e não um organismo vivo) “quadrificam” as pessoas, fragmentam as relações, colocam muros entre as pessoas, limitando a própria ação das organizações empresariais e governamentais no contexto maior?

Até que ponto nas escolas e universidades a própria evolução das crianças e jovens fica “não-natural” e muito aquém das possibilidades em conseqüência de estruturas arcaicas, limitadoras, ineficazes?

Ao trazer essas e muitas outras questões de essência à mesa de debates, em nossos programas para executivos da alta administração de organizações privadas e públicas, temos como objetivo fazer os participantes pensarem. Pensarem profundamente. Visando chegar ao âmago das questões. Evitar que fiquem no superficial, no periférico.

Em nossos programas, não damos receitas. Pelo contrário, a idéia é resgatar a capacidade de pensar com a própria cabeça. É criar soluções sob medida. É estar evoluindo sempre. É buscar o que funciona. É não ficar preso em conceitos simplistas de certo ou errado dentro de arcabouços mentais do passado.

É nesse contexto que trabalhamos sobre o conceito de “caórdico” com os executivos participantes, ao tratarmos do tema estrutura e organização no contexto do fazer acontecer. Fazemos os participantes cotejarem suas próprias premissas com as subjacentes ao caórdico. Fazemos com que identifiquem o que gostam, o que rejeitam; o que aplicariam em suas organizações e o que não; as resistências que a cultura vigente criaria ao conceito. Há muito diálogo, muita discussão... Nesses diálogos, as premissas, crenças, “teorias” de cada participante vêm à tona. Sem disfarces. Todos estão pensando...

Traduzimos o livro de Dee Hock para o português e nossos participantes têm levado o debate para suas organizações. Na medida em que nossos programas sobre inovação em gestão atingem cerca de 100 executivos de alta administração e 500 executivos de média administração por mês, totalizando um fluxo de 5 a 6 mil executivos de 27 Estados brasileiros por ano, não é pouco o número de pessoas que têm levado o debate sobre o caórdico para suas respectivas organizações – em empresas privadas ou entidades governamentais.

Recentemente, em março deste ano, tivemos a presença de Tom Hurley conversando com cerca de 300 executivos (todos no programa de continuidade anual de nosso carro-chefe, o APG) sobre o potencial do conceito de caórdico para o futuro. A receptividade às idéias tem sido grande. E continuamos a evoluir nesse grande debate. Nenhum programa que trate de inovação em gestão pode deixar o conceito de caórdico de fora.

 

Por que o caórdico é importante hoje?


Em nossa opinião, como especialistas em inovação em gestão, as organizações devem dar atenção prioritária ao conceito de “caórdico” em função dos seguintes pontos:


Escala
Na medida em que atingimos uma população mundial de 6 bilhões de pessoas, num mundo cada vez mais interconectado, está cada vez mais clara a idéia de que nenhum tipo de estrutura mecânica, top-down, baseada em controles, tem condições de ser eficaz. Nesse nível de escala, só dá para imaginar organizações biológicas guiadas por grandes princípios e que contem com todo o potencial que as pessoas possuem – de pensar, de criar e de se auto-organizar.
Democracia Plena

Tanto em empresas, como em nações, o conceito de democracia evolui passo a passo com a evolução das tecnologias. A organização que toma conta de si, a sociedade que toma conta de si, igualdade, ênfase em cooperação, todos servindo a todos. O conceito de caórdico tem tudo a ver com esses conceitos. É o caminho para tangibilizar o verdadeiro conceito de democracia e de Humanidade. Pela primeira vez na História...


Expressão Humana

As estruturas mecânicas, padronizantes, limitativas, nunca conseguiram lidar com a questão da motivação humana de forma adequada. Sempre houve limitações de base, por princípio. A fonte mais legítima de motivação – o espaço para criar – sempre esteve sob controle, dentro de espaços reduzidos, dentro de padrões impostos, não-naturais. As estruturas caórdicas têm grande potencial para fazer a criatividade humana transcender os atuais limites. Na verdade, se não contaminarmos os princípios do caórdico com os medos inerentes aos processos de gestão baseados em controles, não haverá limites para o que o ser humano poderá criar...


Valores de Essência, hoje

Autonomia, liberdade, respeito – valores que todos valorizam cada vez mais genuinamente – a verdadeira liberdade, o verdadeiro respeito humano – estão muito mais em linha com os princípios do caórdico do que com as velhas formas estruturais. Nas estruturas tradicionais, esses valores estiveram sempre “em compressão”, com espaços reduzidos, limitados. Por natureza, por princípio de um lado (controle se faz por limitação do espaço de ação livre...). De outro lado, por abuso de poder, fazendo emergir os “subterrâneos” da organização – a politicagem, os acordos não-éticos, a falta de transparência etc.


Era do Conhecimento

Numa era em que todo o conhecimento humano estará à disposição das pessoas que precisarem chegar a ele, parece fundamental que o espaço para as pessoas esteja presente. Que ele efetivamente exista. Caso contrário, seria um enorme desperdício do potencial das pessoas. Os princípios do caórdico asseguram esse espaço. As estruturas tradicionais que fragmentam o trabalho – por princípio limitam o espaço, na medida em que reduzem a área de ação (sob a premissa de que seus ocupantes não têm o conhecimento necessário, não têm potencial apropriado para criar o necessário). A premissa é a de que os ocupantes não são capazes de pensar; estão lá para executar o que foi pensado por outros, “os superiores”. No caórdico honra-se a pessoa que pensa. Honra-se todos.


O potencial do caórdico no futuro

Em função de tudo que temos trabalhado nestes últimos anos com o conceito de caórdico – em nossos programas sobre gestão avançada e em trabalhos de aplicação em organizações privadas e públicas – vemos alguns desafios à frente:
Resistências ao “radicalismo” do conceito

Em princípio, a maioria dos executivos vê no conceito do caórdico enorme dose de bom senso e pragmatismo. Entretanto, tem medo do extremismo inerente e busca “amenizar” os princípios introduzindo expressões como “sempre que possível” (ao invés de “sempre”) ou “evitar quando apropriado” (ao invés de “nunca”). Um grande desafio à frente é manter a pureza do conceito. É evitar que os princípios sejam contaminados com “cuidados” típicos do “velho sistema” (baseado em controles). Um grande desafio é a coragem de implantar o conceito inteiro – sem remendos e sem concessões.

Capacidade de abstração

Definir princípios que sejam realmente de essência exige excepcional refinamento da capacidade de abstração. É também a qualidade da capacidade de abstração que fará essas pessoas definirem princípios que as que vão aplicá-los (pessoas “normais”, funcionários em geral), consigam entender (o espírito dos princípios, mais do que a “letra” deles). O desafio à frente é o de termos muito mais pessoas em nossas organizações e na sociedade com o nível de capacidade de abstração necessário. Em função do tipo de educação que pessoas em posição de liderança vêm recebendo (pouca atenção à filosofia, por exemplo), é insuficiente a quantidade de pessoas capazes de trabalhar com princípios de essência. O desafio é transformar mentes treinadas em lidar com procedimentos em mentes capazes de criar princípios.


Ego e propósitos reducionistas

Há princípios e princípios... Alguns voltados à realização de propósitos individualistas, egoísticos. Outros mais voltados a propósitos voltados ao bem comum, onde todos consigam auferir benefícios. Num mundo repleto de contradições, paradoxos e desequilíbrios – um mundo hoje caótico – a aplicação do conceito de “caórdico” exige trazer à mesa o tipo de ordem que se quer a esse todo maior. Uma ordem que seja benéfica a todos, sem exclusões. Esse é outro grande desafio: o caórdico duradouro, universal, exige elevado nível de consciência. Em outras palavras, o caórdico em partes, em baixo nível de consciência, pode até funcionar. Por algum tempo. Mas, mesmo nesse pouco tempo, tudo que se consegue é míope, efêmero e ilusório. No sucesso da parte, ele estará contribuindo para o caos do todo maior e não para a ordem.


Princípios Universais

Em última instância, os princípios que darão fundamento a todo sistema caórdico serão de caráter universal. E, como tal, deverão estar baseados em verdades universais. Nesse sentido, o maior desafio para o futuro continua sendo nossa eterna busca das verdades maiores. Na verdade, a verdade, o grande princípio que rege tudo ao nosso redor. A mesma verdade que rege o microcosmo e o macrocosmo. O grande desafio é estarmos todos – como humanidade – buscando essa grande verdade. A ciência, a metafísica, todos os ramos do conhecimento unidos nesse processo. É nossa capacidade de abstração que fará os princípios maiores serem traduzidos para o campo das organizações, empresas, nações, o todo da sociedade. É nessa coerência que reside a ordem que todos nós buscamos.


Evitar o caórdico como modismo

O conceito de caórdico não deve ser fragmentado. Seria um contra-senso. Um paradoxo. Mais do que uma fórmula, uma receita, um “modismo”, o caórdico deverá ser visto como uma forma nova de se viver. Mais livre. Mais genuína. Mais verdadeira.

Esse é outro grande desafio para o futuro. Evitar que o conceito fique mais forte do que sua essência. Porque, em termos de essência, é o ideal de vida que sempre buscamos que a inspira. E não o inverso.

É um extraordinário pretexto para mergulhar mais fundo na busca da criação da sociedade ideal, do mundo ideal para todos. Afinal, nosso grande propósito – de todos nós – é criar, juntos, o próprio paraíso na terra...



Em nossa visão, o caos é o mundo fragmentado em que vivemos. A Humanidade não tem outra saída se não a de buscar uma nova ordem. Uma ordem que vem da integração, da harmonia de todos. Uma ordem dinâmica, em contínua evolução. Sempre em busca de patamares mais elevados de consciência.

Nessa visão, não seria a concepção do caórdico um extraordinário pretexto para mergulharmos, todos nós, mais fundo no processo de criação da sociedade ideal para todos? Não estaria aí o propósito de vida de cada um de nós?


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