Por que o Brasil não "deu tão certo" como os Estados Unidos? Muitos brasileiros já se fizeram essa pergunta



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Por que o Brasil não “deu tão certo” como os Estados Unidos?
Muitos brasileiros já se fizeram essa pergunta.

Afinal, se temos mais ou menos a mesma “idade”, dimensão geográfica muito próxima, semelhanças históricas, como ambos terem passado por colonização européia, escravatura, imigração européia, etc., então quais teriam sido os fatores determinantes que levaram à resultados econômicos e sociais tão diferentes ?

Eu já havia lido alguma coisa a respeito e conversado com alguns estudiosos sobre o assunto. Acabo de ler um livro lançado em 2008 que, somado ao que eu já havia pensado a respeito, me deu finalmente a sensação de ter atingido um grau de entendimento mais satisfatório do assunto. Essa sensação me motivou a resumir alguns trechos escolhidos desse pequeno livro (adicionando alguns poucos comentários), a fim de melhor organizar meus pensamentos. Estou aqui dividindo o resultado com alguns amigos que imagino intelectualmente interessados no tema. Aqueles que tiverem interesse em saber mais sobre esse assunto vão se divertir lendo Brasil e Estados Unidos: o que fez a diferença do jornalista Ricardo Lessa.
Primeiramente coloco alguns breves comentários do autor sobre fatores que já foram usados para explicar aquelas diferenças mas que hoje estão desacreditados.

A seguir, classifico em três grupos de acordo com o meu entendimento pessoal, os fatores históricos descritos pelo autor que levaram os Estados Unidos e o Brasil aos resultados econômicos tão diferentes :




  1. O processo de colonização

  2. XIX : o século perdido

  3. A herança absolutista e a herança de uma sociedade de classes

As próximas páginas são portanto uma edição de trechos do citado livro (são palavras do autor na sua grande parte) selecionados e organizados por mim, com a adição de comentários quando achei apropriado.

Isto não é o resumo de um estudo conclusivo e final sobre o assunto, mas percebo que lança uma luz importante sobre aspectos históricos fundamentais da formação da nossa economia e da nossa cultura. Penso que uma reflexão sobre esses aspectos nos ajuda a enxergar e compreender melhor o Brasil de hoje. Penso também que essa reflexão pode ajudar a melhor nos posicionarmos politicamente com relação a aspectos relevantes, contribuindo para que nosso país seja menos problemático para as gerações futuras.
João Paulo Mendes Carneiro

Aquilo que não explica



Com uma colonização inglesa tudo teria sido diferente da colonização portuguesa e seríamos muito melhores.

Entre os brasileiros, a piada que a culpa pelo nosso atraso é dos portugueses toma ares de verdade, depois de tanto repetida. Como se bastasse tomar o chá das cinco ou fumar cachimbo como os ingleses para insuflar a fumaça do desenvolvimento nas rudes terras tropicais. Na verdade, a explicação para nossas misérias é bem mais complexa do que esse simples preconceito anti-lusitano. Basta ver como estão hoje algumas ex-colônias inglesas como Quênia, Zimbábue, além de nossa vizinha Guiana, para constatar que a realidade não é tão simples.


Vieram ainda as teorias de superioridade racial, superioridade cultural, que causaram muitos estragos e deixaram marcas que insistem em permanecer entre nós, mesmo depois de desmentidas e derrotadas em todos os fóruns científicos e em todos os confrontos lógicos.
Já tentaram explicar nossas diferenças com os americanos por razões religiosas, raciais ou geográficas. Esses três fatores influenciaram sim nossa formação, mas não foram determinantes.

O fato de os Estados Unidos de hoje, sem o Alasca, ficarem quase totalmente na faixa temperada não justifica aquelas teorias antigas , chamadas de “determinismo geográfico”, que, levadas ao absurdo, queriam dizer que era impossível de dar a civilização nos trópicos; que era preciso frio para que a humanidade prosperasse e outras tolices do tipo.

Na verdade, a civilização ocidental nasceu muito mais próxima do calor do que do frio. No tempo do apogeu egípcio, na zona desértica, a Europa era um continente atrasado. E a América do Norte, no século XVI, tratava-se de um subúrbio abandonado da grande civilização asteca, também nos trópicos.

Determinantes foram as razões econômicas e históricas. Quando se joga a culpa na raça, na religião ou na geografia, que são dados integrantes da formação brasileira, dá-se uma boa razão para o imobilismo e para a inércia.

Quando se entende que é a história que justifica este ou aquele fato, fica mais fácil mudar as coisas em nossa vida ou em nosso país.


Aquilo que explica





  1. O Processo de Colonização

O Portugal dos anos 1500 era um país unificado, fortemente católico, onde a Inquisição perseguia judeus e cristãos-novos. O Estado estava centralizado e havia expulsado os últimos mouros no século XIII (1249). O país vizinho, a Espanha, só faria isso 200 anos depois. Portugal foi o primeiro Estado-Nação do planeta, e isso liberou as forças para a expansão conquistadora.

Com relação ao Brasil, Portugal estabeleceu, a partir de pouco depois da metade do século XVI, um sistema fechado de trocas triangulares, em que as colônias da África forneciam escravos, trocados no Brasil por açúcar, tabaco, pau-brasil, que seguiam para serem vendidos na Europa, para benefício da corte portuguesa, e voltavam a alimentar o triângulo colonial. Como grande fonte de suas riquezas, Portugal guardava com unhas e dentes esse sistema.

Em 1500, Portugal era o senhor do mercantilismo nos mares. A prática mercantil, consequentemente, se impregnava nos primórdios da formação brasileira. O que importava era conseguir mercadorias valiosas que pudessem ser trocadas com vantagem nos portos europeus, sob controle monopolista do Estado.

A relação da Grã-Bretanha com suas colônias do outro lado do Atlântico era bem mais frouxa. No século XVII, época da chegada dos peregrinos na América do Norte, a Grã-Bretanha era um país convulsionado pelas diferenças religiosas e guerras entre diferentes denominações protestantes e católicas. Uma elite próspera convivia com grande miséria e banditismo nas cidades. O absolutismo real era contestado pela população. Embora aspirasse às conquistas, como Espanha e Portugal, a Inglaterra só seguiu depois, junto com holandeses e franceses, nos calcanhares dos navios ibéricos, optando pela pilhagem e pela pirataria para conquistar lugar nos novos espaços abertos nas Américas e na Ásia. O fato é que a Inglaterra, no início da colonização americana, nas primeiras décadas do século XVII, não tinha nem recursos nem condições militares e políticas para mandar tropas e construir fortes, como os portugueses fizeram no Brasil. O que acabou favorecendo o surgimento do movimento autônomo, e já focado na independência, nas colônias que se fixaram na América do Norte.

O Brasil foi colônia de exploração; os Estados Unidos foram colônia de povoamento. Aqui não chegaram famílias que queriam uma nova vida, distante da corte, livre para cultuar sua própria religião, como nos Estados Unidos. A maioria que aqui chegava vinha obrigada.

Portugal mandou pequenos nobres para cá a fim de tomarem conta das capitanias hereditárias. A maioria deles nomeou um preposto e voltou às pressas para Portugal . Os chamados fidalgos (filhos de algo) deixavam nas terras do pau-brasil o suficiente para tentar replicar no novo mundo a estrutura religiosa e burocrática de Portugal. Os degredados, náufragos, foragidos da Europa é que começavam a formar a população brasileira sob e à revelia do esburacado tapete burocrático enviado do Velho Mundo.

Os protestantes que desembarcaram no que é hoje o estado de Massachussets não gostavam da hierarquia da Igreja católica, nem da anglicana, nem tampouco se conformavam em se submeter a outras hierarquias ou autoritarismos. Os agricultores que abandonavam a Velha Inglaterra e aportavam na Nova Inglaterra tinham deixado para trás uma sociedade em que lordes e pequenos lordes dominavam a produção e ditavam os rumos da economia, da justiça e da religião. Os ingleses que desembarcaram na América do Norte em 1620 não faziam parte da nobreza. Nem gostavam dela. Os peregrinos ingleses , desde o início, tinham a intenção de fazer um novo país.

E os núcleos se multiplicaram como células por toda a chamada Nova Inglaterra, a porção nordeste do que seriam os Estados Unidos da América do Norte e que venceria os estados do sul, na Guerra de Secessão de 1861-65. As colônias fundadoras do Sul : Virgínia, Carolina do Norte e do Sul e Geórgia, ligadas à Coroa inglesa e intensamente escravistas, tomaram caminho oposto.



É curioso imaginar o desenvolvimento dos estados do Sul dos Estados Unidos em separado. Se eles não houvessem perdido a Guerra de Secessão, o país teria o desenrolar muito semelhante ao do Brasil. Havia o escravismo, grandes plantações, bolsões de pobreza e corrupção que formam ainda hoje os estados norte-americanos mais pobres, como Tennessee e Mississipi.

Nos Estados Unidos, na região Nordeste, que puxaria o desenvolvimento posterior, formou-se uma cultura diversificada, baseada na propriedade agrícola individual voltada para o mercado interno. No Brasil criou-se uma agricultura voltada para o abastecimento da metrópole o que não ocorreu nas regiões norte-americanas, onde a economia nunca foi realmente colonial.

A nobreza britânica tentava impor controles sobre as manufaturas ou o comércio vindo da colônia, mas sem muito sucesso. Leis tentaram barrar a importação de chapéus, luvas e têxteis do outro lado do Atlântico, porém os preços mais baratos das mercadorias, as chamadas leis de mercado, foram mais fortes e tornaram letra morta as determinações britânicas.

A Inglaterra não tinha sequer condição de cobrar impostos. Os americanos até a metade do século XVII foram, provavelmente, segundo Johnson, o povo no planeta que mais se aproximou de uma sociedade sem impostos. E isso impulsionou rapidamente o desenvolvimento das colônias. Caso bem diverso do Brasil, que era mantido basicamente para suprir a metrópole de recursos obtidos dos impostos, cobrados sobre todos os produtos importados e exportados. Em 1785, vinte anos depois das melhorias da máquina a vapor introduzidas por James Watt, na Inglaterra, a situação no Brasil era bem diferente. A rainha de Portugal, D.Maria I, radicalizava e mandava fechar e sucatear todas as incipientes indústrias existentes no Brasil. Já nos Estados Unidos, cinco anos depois era fundado o departamento de patentes para estimular as invenções.


O americano George Washington (1732-1799) e o brasileiro Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), eram militares e contemporâneos . Os dois participaram de revoltas deflagradas contra cobrança de impostos. Mas semelhanças terminam por aí.
Washington era militar, mas também proprietário de terras. Adquiriu fama por toda colônia inglesa quando se bateu contra uma guarnição francesa, em 1753, no vale do rio Ohio, que consistia numa área em disputa. Na ocasião, com 21 anos. Os habitantes da Nova Inglaterra aplaudiram o jovem militar. Tiradentes só foi mais conhecido pelo restante do Brasil quando condenado e enforcado. Participava de um movimento secreto, dirigido pelos poderosos de Minas Gerais, com poucas ramificações populares. Essa notoriedade logo foi apagada e enterrada pelas autoridades portuguesas. A história e a importância de Tiradentes só voltou a ser lembrada pelos republicanos cem anos depois de sua morte, depois que a família real se foi daqui. Os cenários no Brasil e nas 13 colônias americanas quanto a apoio popular e viabilidade prática para as idéias libertárias eram muito diferentes. Nas 13 colônias as igrejas protestantes se transformaram rapidamente em centros associativos e comunitários, que derivavam rapidamente para assembléias democráticas. O nível de alfabetização era alto (“a leitura da Bíblia era fundamental” ) , o número de jornais e panfletos em circulação era elevado.

Porem nas Minas Gerais colonial predominava o jugo da burocracia portuguesa, sempre sufocante. Ajuntamentos só eram permitidos para ouvir o padre ou para trabalhar. Reuniões civis nunca eram bem vistas.


Nas décadas finais do século XVIII, a chamada civilização ocidental viveu uma de suas grandes encruzilhadas , com reflexos opostos nas Américas do Norte e do Sul. Era o momento em que as monarquias absolutistas do continente europeu estavam sendo colocadas em xeque pelos novos ideais da república.

O movimento que opôs Inglaterra e França, culminando nas guerras napoleônicas, acabou levando Brasil e Estados Unidos para caminhos absolutamente divergentes. Mais uma vez o Brasil, junto com a corte portuguesa, ficaria no lado do atraso do ponto de vista da história, porque carregaria o peso do absolutismo, enquanto nascia no mundo a república.

A Coroa inglesa radicalizada não queria saber de liberdade dos colonos da Nova Inglaterra. E acabou levando ao rompimento e à guerra de independência entre 1775 e 1783. No Brasil as idéias libertárias também ecoavam. Só que Portugal cairia com mão pesada sobre os libertários brasileiros. E os ingleses não teriam tanta disposição nem coesão interna para encarar os americanos. As tentativas de intervenção que vinham da Inglaterra eram pouco eficientes . Quando a Inglaterra quis apertar os laços de dependência com a colônia que começava a se tornar próspera, em torno de 1770, estourou a luta pela independência. Essa luta incendiou os Estados Unidos e deixou em torno de 26 mil mortos e milhares de feridos. Trezentos mil americanos lutaram contra os ingleses que estavam lá instalados.

Já o Brasil, em vez de se desligar de um poder que se mantinha apoiado no mercantilismo decadente , teve de suportá-los e carregá-lo dentro de suas próprias fronteiras.

A conseqüência para a economia brasileira foi nefasta . A renda per capita, que era de US$ 700 em 1800, começou o século seguinte nos mesmos US$ 700, segundo dados de Engeran & Sokoloff, em How Latin América Fell Behind.
2 - XIX , O Século que Perdemos
As disparidades entre Brasil e Estados Unidos só aumentariam ao longo do século XIX, que não foi um século qualquer, trata-se do momento de decolagem da segunda Revolução Industrial – a chamada revolução tecnocientífica -, quando o tempo tomou a velocidade da eletricidade, das máquinas a vapor, dos poços de petróleo e do trem.

Os anos 1800 catapultariam algumas economias fora da Europa – Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, e mesmo a Argentina e o Uruguai -, enquanto o binômio escravismo-absolutismo amarrava a economia brasileira no atraso das plantações de cana-de-açúcar e café, na agricultura de subsistência e nas preguiçosas criações extensivas de gado.

Como diz o historiador Evaldo Cabral de Mello, a independência foi uma manobra contra-revolucionária encabeçada por D.Pedro I, cuja intenção era imunizar o Brasil do contágio da onda liberal que estava tomando Portugal. Os pesquisadores Harber e Klein expõem seus pensamentos sobre porque a América Latina ficou para trás : A independência política claramente não produziu transformação estrutural no Brasil e crescimento auto-sustentado. O Brasil era uma colônia agrícola antes da independência e continuou sendo assim depois.

No século anterior, Portugal se nutria do ouro brasileiro, que repassava em boa medida para a Inglaterra, como espécie de tributo pela proteção militar contra França e Espanha; do açúcar que recebia do Brasil e revendia para a Europa, como também do tráfico negreiro, que alimentava a próspera triangulação entre África, Europa, Brasil. Sessenta por cento da economia portuguesa vinha dos produtos brasileiros.

A partir de 1808, a corte mudou de endereço, ficou abrigada nas águas da baía de Guanabara, bem longe dos exércitos de Napoleão, mas manteve o mesmo esquema de sugar as riquezas do país e repassá-los para a Inglaterra.

O que aconteceu de fato foi que o Brasil se tornou independente de Portugal, que era um país ocupado. Por outro lado, o Brasil instalou dentro de suas fronteiras a elite de Portugal que o oprimia e sugava. A união entre a corte recém-chegada e a aristocracia brasileira escravista fortaleceria seus laços, agora no mesmo endereço, formando um grupo dominante que atravessaria a independência, a república e ainda influenciaria os dias de hoje.

A permanência da corte portuguesa no Rio por 13 anos, de um lado, reforçou seus laços com a elite dominante local, fortalecendo seu projeto econômico escravista; de outro, sufocava pela proximidade as inspirações independentistas .

A relação entre a corte lusitana e as elites escravistas brasileiras se tornou mais íntima logo depois do desembarque no Rio de Janeiro. Para sustentar seus gastos infindáveis, a corte abriu lista de doações para que os ricos locais abrissem seus bolsos. Logo na primeira dessas listas, das 38 maiores doações, a metade foi de traficantes de escravos. A retribuição era feita em forma de títulos de nobreza ou cargos no governo que davam direito a arrecadação de impostos. Os barões de Vassouras, Paty do Alferes, Ubá, Rio Bonito, Guaribu, Palmeiras, Ibiapaba, os Viscondes da Paraíba, entre tantos outros, eram de prósperas famílias de traficantes de mercadoria humana.
A independência do Brasil veio pelas mãos de um príncipe português , que não estava muito entusiasmado com a idéia, mas foi forçado pelos brasileiros que o cercava. “O Brasil caiu sob o controle econômico da Inglaterra, de que comprava a maior parte dos bens manufaturados e para quem vendia apenas parcelas secundárias de sua exportação, uma situação que prevaleceu por mais de cem anos.” (Emília Viotti). A monarquia dos Bragança continuaria aqui com seus poderes absolutos, enquanto em Portugal D.João jurava fidelidade a uma constituição liberal, coisa que o Brasil demoraria muito a conhecer.

Foi uma independência conquistada no grito. Um grito meia-boca. Nada de sangue, nada de brigas, tudo se resolveu entre camaradas e conterrâneos, que era o que os portugueses de ambos os lados do oceano se consideravam.(“No Nordeste houve lutas pela independência – Lorde Cochrane contratado por D.Pedro para expulsar os portugueses - porém nada comparável à guerra da independência americana”).

Já nos Estados Unidos correria sangue – e muito – para se conseguir a independência. No Sul escravista os proprietários de grandes plantações aderiram relutantemente à independência, quando não colaboravam com os ingleses, deixando clara uma divisão que fermentaria ao longo dos anos para explodir na Guerra de Secessão em 1861.

Com o reconhecimento da vitória em 1783, os Estados Unidos da América cortavam definitivamente os laços de submissão com a metrópole e tinham a independência reconhecida pelos antigos colonizadores.



Depois da independência americana, a ex-colônia passa a adotar imediatamente as tecnologias usadas na Revolução Industrial inglesa para acelerar com entusiasmo o modo de produção capitalista, em tudo adequado ao espírito de independência e individualismo adotado no novo país.
Aléxis de Tocqueville, jovem de 26 anos e ambicioso juiz de direito na França visita os Estados Unidos em 1831. Jean Baptiste Debret, filho de tradicional família francesa, chega ao Brasil em 1816, com 48 anos, chefiando a missão francesa que fundaria a Escola de Belas Artes do Brasil. Aqui permaneceu até 1831. Os dois deixaram para a história imagens marcantes dos dois países.

Debret, com suas aquarelas, retratou o cotidiano escravista que vivenciou. Tocqueville, viajou nove meses pelos Estados Unidos, e escreveu A Democracia na América, obra de grande peso. Foi como se a mesma máquina fotográfica mostrasse no mesmo momento os dois países. O que Tocqueville e Debret observaram sobre os dois países salta aos olhos pelas disparidades sociais e econômicas que já existiam entre o Brasil – que nutria os velhos escravismo e absolutismo – e os Estados Unidos, que tinham trinta anos de independência, uma nascente república e um desenvolvimento impressionante no Nordeste do país.

O Nordeste americano não amava mais os negros que o Sul, mas queria o fim do escravismo porque suas indústrias precisavam de consumidores. A lógica do início do capitalismo tanto na Inglaterra – que começou a combater o tráfico negreiro no início do século XIX – quanto no Nordeste dos Estados Unidos pedia assalariados , que se tornariam compradores. Além disso a mão de obra escrava favorecia a fabricação de produtos básicos mais baratos, numa concorrência desleal com trabalhadores livres do campo.

As aquarelas de Debret – a senhora branca sentada à mesa com as escravas em volta, jogando migalhas para o negrinho que brincava no chão; o mercado de escravos; os negros de ganho pelas ruas – dizem quase tudo sobre a sociedade brasileira naquele momento , assim como a impressão de equalitarismo na formação do nordeste dos Estados Unidos foi o que mais impressionou Tocqueville. Segundo este : “ Grande igualdade existe entre os emigrantes que se estabeleceram nas praias da Nova Inglaterra. Mesmo os germes da aristocracia nunca foram plantados naquela parte da União.” Esse maior equalitarismo não existia nos estados escravistas do Sul dos Estados Unidos. Tocqueville fez poucas observações sobre o racismo e o escravismo, mas quando o fez mostrou bem o abismo que separava as regiões americanas que empregavam e as que não empregavam mão-de-obra escrava. Beaumont, companheiro de viagem de Tocqueville, escreveu em forma de romance sobre o racismo americano. Observou que o equalitarismo se limitava aos brancos.

Tocqueville viu , a olhos nus, o escravismo levando um estado para o fracasso e a ausência do escravismo levando o outro ao desenvolvimento : “Operando continuamente há dois séculos, em sentidos opostos, as mesmas causas acabaram por criar uma diferença enorme entre a capacidade comercial do homem do Sul e do homem do Norte. Hoje somente o Norte possui navios, fábricas, estradas de ferro e canais.”

A próxima passagem de Tocqueville poderia ser uma descrição da elite que vivia no Rio de Janeiro machadiano no século XIX :

“No Sul dos Estados Unidos, a raça inteira dos brancos formava um corpo aristocrático, a cuja frente ficava certo número de indivíduos privilegiados, cuja riqueza era permanente, os lazeres hereditários. Aqueles chefes da nobreza americana perpetuaram , no corpo do qual eram representantes, os preconceitos tradicionais da raça branca, e tinham por honrosa a ociosidade.”

Outra visitante francesa ao Brasil do século XIX, Adèlle Samson Toussaint, descreve de maneira semelhante os homens e mulheres que encontrou no Rio de Janeiro : “Não há brasileiro que aceite servir; todos querem ser senhores. Se o escravismo fosse abolido de repente, toda a cultura pararia; seria fome que iria grassar.” Ela descreve a cena a que assistiu logo que chegou ao Brasil.

“Negrinha”, gritava sem parar uma senhora que jogava cartas : “Passe o leque! Negrinha, traga o rapé! Negrinha, vá buscar um copo d’água! Negrinha, pegue meu lenço!” O lenço foi jogado pela senhora umas vinte vezes ao chão, pelo simples prazer de ver uma negrinha de sete ou oito anos , que se aninhava entre suas pernas, buscá-lo.

Se aguçarmos bem o ouvido, ainda escutaremos os mesmos gritos, chamando alguma Maria, por todos os cantos do Brasil.


Debret não deixou de observar também a desigualdade que grassava na sociedade brasileira mesmo entre os brancos. Entre os obstáculos que emperravam a agricultura, segundo ele, estava “ a desigualdade incrível existente entre duas classes de cultivadores da colônia, uma primeira completamente feudal, composta por ricos proprietários, senhores de engenho”, e a segunda classe, constituída de pobres cultivadores arrendatários, sujeita à opressão dos senhores de engenho : “ Desanimados com isso esses escravos brancos...vegetam em suas choças cercadas de bananeiras,....”
Para o pintor, o mercantilismo monopolista, fechado aos estrangeiros, também tinha sua parcela de culpa no atraso do país. “Deve-se atribuir”, diz ele, “o estado estacionário da indústria e do comércio brasileiro durante mais de três séculos unicamente à sujeição da rica colônia ao domínio português, pois este, até 1808, proibiu a entrada de estrangeiros.” Depois da abertura dos portos, acreditava Debret, o progresso apareceria.

Não foi assim. O “estado estacionário do comércio e da indústria” ainda se manteria até o final do século XIX.

Foi na segunda metade do século XIX que os Estados Unidos deram o grande salto de industrialização , capitaneados pelo Norte. Entre 1870 e 1900 a população urbana americana passou de 10 milhões para 30 milhões.

O Brasil só teve algo parecido com o Nordeste americano , com um capitalismo dinâmico, na virada do século XIX para o XX, com a chegada dos imigrantes europeus contaminados pelo espírito industrialista : São Paulo. Mas em proporções infinitamente menores. Assim mesmo, os primeiros impulsos industriais encontraram forte oposição do Rio de Janeiro, entre os interesses agrários organizados em torno da capital da nascente república brasileira.
A monarquia, aliada ao escravismo generalizado, proporcionou ao Brasil um século perdido em matéria de avanço econômico. O gráfico da renda per capita dos brasileiros é uma linha que quase não oscila entre o ano 1800 e o 1900. O eletrocardiograma de uma economia moribunda. Nos Estados Unidos a variação foi de US$ 1.250 para US$ 4.000 . O Brasil só atingiria US$ 2.000 no final da década de 1950.

Preso ao escravismo e à monocultura o país perdeu o bonde da Revolução Industrial, que transformava a Europa e os Estados Unidos.

O Nordeste industrial e capitalista é que fez dos Estados Unidos um país tão mais desenvolvido do que o Brasil e que qualquer outro país no mundo no século XIX. E as bases estavam criadas e solidificadas para a hegemonia no século XX.


3 - A herança absolutista e a herança de uma sociedade de classes
O escravismo negro é traço comum entre Brasil e Estados Unidos, porém as aparentes semelhanças levam a enganos. É verdade que, nos dois países, a escravidão negra deixou marcas profundas e ainda sensíveis. No entanto, nos Estados Unidos, os estados do Nordeste, que lideraram a industrialização, não eram escravistas. No Brasil, a escravidão durou muito mais e foi mais generalizada que nos Estados Unidos . Aqui permaneceu por 350 anos. Lá, por 221.

De todo o tráfico de escravos da África para as Américas, calculado em cerca de 9 milhões e 500 mil pessoas, o Brasil ficou com 40%; os Estados Unidos, com 6%; a América espanhola permaneceu com 18% e o Caribe, com os restantes 34%. “A escravatura delineou o perfil histórico do Brasil e produziu a matriz de sua configuração social”, como define o historiador Décio Freitas.

Os estados do Sul americano, onde se plantavam algodão e fumo, com mão-de-obra escrava, eram parecidos com o Brasil. Para que não se negligencie a importância da herança escravista, até hoje estes são os estados mais pobres dos Estados Unidos, com os piores índices sociais, apesar de todo desenvolvimento, todas as políticas públicas e da grande migração interna.A marca do escravismo ainda perdura.

Uma pesquisa da Unctad, publicada em 1994, que mediu o desenvolvimento humano das populações negra e branca dos Estados Unidos, mostrou que a população negra estaria na 34a colocação mundial em desenvolvimento humano, enquanto a população branca americana estaria em primeiro lugar.

O panorama social do Sul dos Estados Unidos , que perdeu a Guerra de Secessão para o Norte, não escravista, perdurou no Brasil inteiro por mais vinte e três anos (“após o fim da escravidão nos Estados Unidos”). Se no Sul dos Estados Unidos , mais de 150 anos depois ainda perduram as marcas da escravidão, o que dizer do Brasil ¿

Podemos imaginar uma situação hipotética em que o Sul dos Estados Unidos teria conseguido se separar do Norte. Certamente veríamos hoje um país (“esse Sul”) muito parecido com o Brasil, no que diz respeito à desigualdade social (“e dificuldade de desenvolvimento”).

A prática da miscigenação racial durante a história brasileira explica porque a grande discriminação econômica contra os negros não levou a uma situação racial tão violenta no Brasil, quanto ocorreu nos Estados Unidos, onde a prática da miscigenação foi evitada e mesmo proibida.

O resultado disso é um racismo “mais suave”, “menos violento”, no Brasil, segundo o sociólogo americano Edward Telles.

Apesar da miscigenação, o racismo brasileiro mantém sua eficiência no que tange às relações econômicas. As grandes plantações de cana-de-açúcar, com seus engenhos, a organização da casa-grande, para os donos da terra e seus empregados de confiança, e a senzala para os escravos negros deixaram marcas profundas na formação do Brasil. O esquema do senhor com seus capatazes cruéis e os trabalhadores sem direitos se reproduziu quase sem mudanças nas plantações de café e só começou a mudar , sempre com bastante resistência por parte dos herdeiros dos senhores de engenho , com a chegada da migração européia do final do século XIX e início do século XX.

Grande parte dos escravos negros libertos em 1888 no Brasil teve de competir , na economia capitalista que se instalava, com descendentes de europeus – alguns já tendo capital e instrução – numa sociedade dominada por brancos, em que os brancos europeus e seus descendentes tinham o poder de decisão e de dar asas a seus preconceitos, mesmo sem amparo legal.

“O escravo negro tinha que se poupar no trabalho, senão morria logo. Sua política era economizar o corpo....Enquanto o imigrante branco (“que tinha parte de seu trabalho, poupado para si”) vinha com a consciência que precisava poupar dinheiro e não trabalho, já que isso o libertaria. Daí a implicância dos imigrantes europeus com os negros da terra, que chamavam de preguiçosos. Trabalhar muito para o negro era a morte, para o europeu a libertação.”

(“Essa estrutura sócio-econômica, modernizada aos dias de hoje, e o ranço sócio-cultural que dela provém, pode ser observada ainda hoje na nossa sociedade. Quem já não ouviu alguém dizendo que não adianta investir nos empregados porque eles são “preguiçosos” e não querem progredir ¿”).
No Brasil , os escravos recém libertos foram basicamente abandonados à própria sorte. Nos estados mais atrasados do Nordeste do Brasil, como Alagoas, ainda se vê a persistência de esquemas que diferem pouco do sistema escravista. É onde se encontram os maiores índices de analfabetismo , pobreza, exploração sexual de menores, inexistência de proteção trabalhista, controle de prefeituras por donos de engenho.

O Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, mostra que, se os negros brasileiros formassem um país, este ocuparia a 105a posição no ranking que mede o desenvolvimento social no mundo, enquanto o Brasil “branco” seria o 44o . Os negros de Alagoas ficariam em 122o lugar no IDH , junto com a Namíbia.

São esses números que reforçavam a observação nada lisonjeira do historiador inglês Eric Hobsbawn, em seu livro Era dos Extremos, sobre nosso país : “ O Brasil, um monumento à negligência social.”
“Qualquer pai de família, com 21 anos ou mais, pode ocupar uma parcela de terra pública de 64,8 hectares de terra. E se provar que morou na terra e a cultivou por cinco anos, ganhará o título de propriedade da terra.” Essa é a ´síntese da medida que foi tomada em 1862, por Lincoln. Não por acaso a medida coincide com a conquista do Oeste, momento de expansão do nordeste capitalista. O Homestead Act sozinho foi responsável pela ocupação de 10% da superfície dos Estados Unidos. Entre 1870 e 1900 foram cultivadas mais terras do que toda extensão ocupada desde o início da colonização.

No Brasil, a terra até 1850 era considerada dádiva. O imperador distribuía sesmarias e glebas conforme seu agrado a seus protegidos. Não requeria que as cultivassem. Depois de 1850, quando foi proibido o tráfico de escravos, por pressão da Inglaterra, qualquer interessado tinha de negociar terras com o governo. E o governo de então preferia estabelecer um preço razoavelmente alto para as terras, para que os trabalhadores livres não pudessem comprá-las, forçando-os assim a trabalharem para os fazendeiros já estabelecidos.

“Essa herança chega até hoje na nossa estrutura sócio-econômica.” No Brasil, do século XXI, os problemas de terra ainda persistem.

A diferença da estratégia brasileira e da americana é visível na expansão econômica que se seguiu. Por volta de 1870, nos estados Unidos havia 353.863 manufaturas, enquanto no Brasil não passavam de 200. As ferrovias já se estendiam por 50 mil kilômetros , enquanto por aqui Mauá lutava para estender os primeiros trilhos.


Entre 1822 e 1889 os Estados Unidos tiveram nada menos que 18 presidentes. Mesmo com suas imperfeições (“sendo a principal a ligada ao racismo”) a república americana ficava a muitos anos-luz de distância de qualquer outra democracia à época. E a Constituição da União , com apenas 7 artigos, que nasceu da necessidade de limitar os poderes dos estados e de organizar as finanças do novo país, resiste até os dias de hoje, com 27 emendas em quase 220 anos de existência.

E aqui no Brasil, como nasceu nossa primeira Constituição ¿ A idéia inicial defendida pelos liberais brasileiros que participaram do movimento pela independência era de que D.Pedro obedecesse uma constituição e que não tivesse direito de veto ou pelo menos tivesse o direito de veto limitado. Mas o imperador, não satisfeito, mandou dissolver a Assembléia Constituinte e exilar os liberais mais radicais, em Novembro de 1823.

Em 1824, D.Pedro imporia ao país e aprovaria em nome de toda a nação uma Constituição, em que prometia :”guardar a Constituição , se fosse digna do Brasil e dele”. Além disso , estabelecia em seu art. 99 : “ A Pessoa so Imperador é inviolável e Sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade alguma.” Foi esse o arremedo de Constituição que vigorou até a partida de D.Pedro II, em 1889, quando o século quase se findava. Foi com esse semi-absolutismo, auto-intitulado “constitucionalista” , que o Brasil conviveu até quase a virada do século XIX, quando ele já tinha sido exterminado em quase toda a Europa mais de meio século antes.

Eram atribuições do rei , ainda, nomear e promover os altos funcionários da burocracia civil, militar e eclesiástica. Dar a última palavra sobre a distribuição de recursos entre os diversos ramos da administração, poder suspender, adiar ou dissolver a Câmara. No nascente Estado brasileiro independente , o empreguismo já se torna um mecanismo fundamental para manutenção do poder. A doação de títulos e empregos funciona para amolecer as oposições. É com uma classe burocrática e improdutiva que o império vai governar e se manter até quase o final do século.

Em termos de contas públicas , vamos ver que a república americana chega a 1889 saudável, com superávit de quase 100 milhões de dólares, enquanto a monarquia brasileira chegava ao final de seus dias pendurada num déficit de quase um milhão de reais. Aqui o poder central arrecadava cerca de 80% dos impostos, deixando menos de 5% para os municípios arrecadarem. Enquanto nos Estados Unidos o poder federal arrecadava 37% e os municípios cobravam e ficavam com a maior parte, 52%. Quem está mais próximo do cidadão arrecada e gasta melhor. “Essa é outra herança que até os dias de hoje atrapalha o desenvolvimento brasileiro”.Segundo os dados da Confederação Nacional dos Municípios, as prefeituras ficam hoje com cerca de 15% do bolo dos tributos. E a parte do “leão” continua com o governo federal.
A república no Brasil começa com mais de cem anos de atraso em relação aos Estados Unidos. Mas ainda guardando sinais do velho regime. Muitos dos homens que assumem os ministérios do início da república haviam servido à monarquia e carregavam muitos dos seus ranços.

A proclamação da república no Brasil foi um movimento militar. Quer dizer, nada de movimentos populares, como os sans culotte franceses ou os dos fazendeiros dos Estados Unidos. A Constituição republicana , que foi bandeira em outros países, demorou aqui dois anos para ser aprovada, para logo em seguida ser suspensa por um estado de sítio. Por aqui, as leis que deveriam moldar a nação republicana sob uma nova forma (mais aberta, esperava-se) custaram para mudar e quando o fizeram , não foram significativas. E mantiveram os privilégios das oligarquias rurais que mandavam e continuaram mandando no país. Os militares e civis mais avançados que ajudaram a proclamar a república foram logo presos, exilados, afastados, deixados no ostracismo ou, mais tristemente, cooptados, para que o governo pudesse continuar servindo a quem sempre serviu, a oligarquia rural.

A industrialização do Brasil para valer começa no final do século e em São Paulo.

A política do governo brasileiro de subsidiar a imigração geraria um fenômeno benéfico aos cafeicultores : a abundância de mão-de-obra barata. Aos imigrantes se juntavam milhões de nordestinos, expulsos pela seca e pelo fracasso das plantações de algodão, que enfrentaram a retomada da produção americana.

“Também a imigração européia que à primeira vista pode parecer um fenômeno que aconteceu de modo similar no Brasil e nos Estados Unidos, guarda diferenças importantes entre os dois países”.

Como o governo brasileiro custeava a viagem, vieram para o Brasil, principalmente, os europeus dos países mais pobres e menos letrados, geralmente do sul da Europa, que não podiam pagar a viagem para os Estados Unidos.

“Os números da migração não escrava para o Brasil e para os Estados Unidos são absolutamente diferentes. Entre 1820 e 1998 entraram no Brasil 4,5 milhões de migrantes, enquanto no mesmo período foram para os Estados Unidos 53,1 milhões”.

Por falta de consistência e outros apoios, os militares que proclamaram a república acabaram se aliando às elites agrárias de São Paulo e Minas, que governaram o país até 1930, quando Getúlio Vargas rompeu o pacto do café-com-leite e tentou novamente impulsionar mudanças industriais.

Com o golpe de estado de Getúlio Vargas, os industriais de São Paulo acharam que subiriam ao poder , mas sofreram grande decepção com o realinhamento do poder em torno dos interesses rurais, agro-exportadores. Já em 1932 organizariam a Revolução Constitucionalista, sufocada rapidamente. Os poderes da economia agrária exportadora eram mais fortes do que Vargas poderia suspeitar.

Durante toda a primeira metade do século XX os interesses industrialistas , mais voltados para o mercado interno, chocaram-se com os tradicionais esquemas agro-exportadores, mais interessados no mercado externo e na valorização das moedas dos compradores de seus produtos. Os industrialistas queriam a ampliação do mercado interno. Para o setor agro-exportador isso não interessava. O que valia era exportar. “Essa herança nos chegou até os anos 1970, no lema dos governos militares, de que o que valia era exportar . Naquele momento até justificadamente em função da necessidade do país fazer frente à dívida externa que se agigantava. O que levou à paralisação da economia nos anos 80.”



A variável que parece ter feito toda a diferença entre o desenvolvimento americano e o brasileiro foi a do crescimento do mercado interno.

Enquanto nos Estados Unidos um mercado interno forte cresceu junto com as exportações, aqui os lucros do mercado externo eram apropriados por uma pequena parcela da população, desde os tempos do ouro de Minas Gerais, até os tempos do boom do café. E mercado interno era uma variável sem a menor importância para uma economia agro-exportadora (“de estrutura retrógrada”).


A grande defasagem entre Brasil e Estados Unidos está em que, na América do Norte , a república independente formou-se há mais de 200 anos, por uma população livre, de grandes e pequenos proprietários e trabalhadores. Desde o início, os Estados Unidos herdaram as sementes da industrialização, da livre concorrência, o que transformou o país no motor da Segunda Revolução industrial. Desde a independência, formou-se um alicerce político razoavelmente democrático, igualitário e duradouro no país, com uma estrutura estatal não intervencionista, o que favoreceu o crescimento do capitalismo.

“O escravismo – “com toda sua herança formadora de uma sociedade de classes” – lá, nos Estados Unidos, foi limitado, ficou isolado, sendo derrubado militarmente há 150 anos, pelo Norte capitalista. No Brasil foi generalizado geograficamente em todo o território nacional, começou muito antes e terminou depois, e impediu a formação de um mercado interno consumidor, influenciando de um modo muito mais profundo, a estrutura econômica e a mentalidade formadora da cultura brasileira. Como conseqüência temos no Brasil de hoje a presença muito mais marcante de uma sociedade de classes sociais e de renda, do que o que existe nos Estados Unidos.”

Podemos dizer que as bases democráticas no Brasil foram firmadas bem mais recentemente, depois de duas ditaduras. Enquanto, nos Estados Unidos a democracia, o igualitarismo perante a lei e a limitação dos poderes do Estado fizeram parte da própria formação do país. Já o que tivemos durante séculos aqui foi uma elite colonial e seus prolongamentos antidemocráticos. Só na metade do século XX começamos a ensaiar democracias e só depois do final da ditadura militar , há vinte anos, pudemos começar a consolidá-la.


O balanço histórico entre Brasil e Estados Unidos é amplamente desfavorável ao nosso país. E é isso que nos deixa tão na retaguarda.

Mas esse passado negativo não deve servir para nos deprimir. Já que não podemos cancelar a História é importante entendê-la e conhecê-la, para melhor enxergar e remover suas heranças daninhas.







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