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POR QUE OS/AS ECONOMISTAS FEMINISTAS/ MARXISTAS/ANTI-RACISTAS DEVEM SER ECONOMISTAS-FEMINISTAS-MARXISTAS­ANTI-RACISTAS
Julie Matthaei
Em seu artigo no primeiro número da Feminist Economics, a filósofa Sandra Harding defendeu que, para adquirir firme objetividade, uma teoria deve renunciar a qualquer pretensão de neutralidade e, em vez disso, examinar os valores e interesses em que se baseia. Afirmou também que teorias imbuídas de valores gerados "à margem" da sociedade, da experiência ou do ponto de vista de grupos oprimidos implicam um compromisso especial de avançar o conhecimento. A economia feminista - como a anti-racista, a anticlassista/marxista e outras teorias libertadoras - pertence a essa classe de empreendimento teórico. Essa teorização fornece uma ferramenta necessária para a mudança social progressista, exatamente como com freqüência se origina de movimentos feministas, anti-racistas e/ou de movimentos sociais liderados por trabalhadores.

Este artigo amplia o argumento de Harding e propõe que as economias feminista, anti-racista e anticlassista/marxista implicam compromisso maior de avanço do conhecimento e de melhoria da vida social quando integradas em uma economia feminista-marxista-anti-racista. Isso porque cada uma, ainda que superior à hegemônica, é por si só lacunar e incompleta. A construção de um conhecimento verdadeiramente "objetivo" e libertador requer uma teoria que possa analisar a interdeterminação de classe e as diferenças raciais/étnicas e de gênero -redirecionando simultaneamente os vieses classista, racista e sexista da teoria hegemônica. De fato, idealmente poder-se-ia acrescentar outros eixos de privilégio/opressão, como o heterossexismo, a aptidão e o nacionalismo, para alcançar maior objetividade.

A fusão de análises econômicas baseadas em classe, gênero e raça que defendo começou a ocorrer de fato nos últimos dez ou quinze anos (1). A análise de gênero, raça e classe está também rapidamente se tornando padrão nos estudos sobre as mulheres (2). Seguindo a conduta de feministas não-brancas/os, a maioria agora evita, nesses estudos, referências à "mulher" genérica ou a uma "irmandade" de mulheres baseada na experiência comum (3).

Reconhece-se que a condição feminina tem um significado diferente para mulheres de diferentes raças/etnias e classes, e que ignorar raça/etnia e classe significa excluir da análise feminista as experiências de mulheres da classe trabalhadora e ou não-brancas (Baca-Zinn et alii, 1990), exatamente como ignorar gênero resultou numa economia que trata essencialmente das experiências dos homens.

Como expressado tão claramente por Spelman (1988), gênero, raça/etnia e classe não são contas distintas do "rosário" da identidade de alguém, mas sim processos interdeterminantes. Portanto é necessário estudar raça e classe de forma a compreender a opressão de gênero - e a se organizar contra esta. Esses insights precisam ser incorporados à economia feminista.

O projeto que abracei neste artigo está cercado de dificuldades conceituais. A mais importante delas envolve minha defesa da teoria marxista. Dou ao feminismo, ao anti-racismo e ao marxismo posições distintas. O feminismo e o anti-racismo denotam perspectivas normativas, mas não quadros teóricos ou metodologias específicos. Em contraste, o marxismo representa aqui tanto uma perspectiva anticlassista como uma tradição desenvolvida de teorização econômica que vejo como superior à hegemônica teoria neoclássica, tanto em geral como em sua capacidade de se combinar com perspectivas feministas e anti-racistas (4).

Este artigo está organizado em quatro partes. Já que escolhi uma forma de marxismo como meu ponto de partida teórico para entender a economia, começarei na parte I por descrevê-la brevemente. Em seguida, nas partes II e III, darei o arrazoado para que os/as economistas feministas sejam economistas marxistas-feministas-anti-racistas. Finalmente, na parte IV, defenderei que os/as economistas marxistas devem ser economistas marxistas-fe­ministas-anti-racistas (5).

Considerando que minha principal pesquisa foi em torno de gênero e raça/etnia na história econômica dos Estados Unidos, meus argumentos terão um foco nessa área. Contudo acredito que a economia feminista-marxista-anti-racista é a teoria apropriada para a economia em geral, não apenas para estudos raciais/étnicos e de gênero na economia. Vejo-a também como tendo ampla aplicabilidade tanto no mundo "desenvolvido" como no mundo "em desenvolvimento", desde que sejam levados em conta os diferentes contextos institucionais e históricos dos países.



Finalmente estou ciente de que o termo "economia marxista-feminista-anti-racista" é complexo. E há, obviamente, o problema de destacar somente esses três eixos de opressão. Contudo, num mundo onde muitos dos que se dizem radicais ou marxistas são sexistas e/ou racistas e onde a economia feminista não necessita ser nem anti-racista (Williams, 1993b) nem marxista/anti-classista, utilizar qualquer um desses termos isoladamente é vago e problemático. Daí que, para deixar bem claras as coisas, especifico os três. Nada tenho contra a construção de um termo inteiramente novo que designe os tipos de economia que defendo e que denote essencialmente uma economia anti-opressão ou contra hegemônica.
I. PRINCÍPIOS CENTRAIS DA ECONOMIA MARXISTA (ou por que sou uma marxista-feminista-anti-racista, em vez de neoclássica, e o que significa para mim ser marxista)
Começo apresentando e defendendo os aspectos que considero centrais na análise econômica marxista. Minha concepção de marxismo é "revisionista". Descartei aspectos do marxismo clássico que não me foram úteis teoricamente ou que descobri serem incompatíveis com o feminismo e o anti-racismo. Contudo minha versão mantém elementos-chave da economia de Marx que estão em desacordo com quase todas as formas da teoria neoclássica.

1. O marxismo é uma teoria da vida econômica e social na qual as instituições e práticas sociais são vistas como construtoras e diferenciadoras dos membros de uma sociedade. Sua análise começa pelas estruturas sociais, e não pelo indivíduo. A análise econômica de Marx enfoca a construção de diferenças de classe entre indivíduos, mas, como veremos abaixo, ela pode ser estendida para incluir a construção social das diferenças de raça/etnia e de gênero. Nela a "natureza humana" é vista como socialmente construída, daí oferecer a possibilidade de diferentes instituições sociais gerarem um ser mais cooperativo e menos materialista do que o "homem econômico" de hoje. Em contraste, a teoria neoclássica começa com indivíduos maximizadores da utilidade, com dadas preferências, e destas deriva a economia.

2. A teoria econômica marxista é historicamente incrustada: ela reconhece que as instituições e as práticas sociais mudam no tempo e no espaço. Essa historicidade inclui o estudo do presente: o capitalismo não é visto como o fim da História, mas sim como um em uma série de "modos de produção" que será ele próprio suplantado. A mudança histórica não ocorre por acaso, mas como resultado das contradições internas de uma sociedade, especialmente das ações coletivas de grupos oprimidos em resistência á opressão.

3. A teoria econômica marxista é em primeiro lugar qualitativa, focada em explicar a economia como um conjunto complexo de relações sociais (6) e aspecto qualitativo está relacionado à incrustação histórica da teoria marxista. Por exemplo, esta toma o desenvolvimento do capitalismo como o surgimento de um conjunto inteiramente novo de relações e instituições sociais, incluindo a propriedade privada, o capital (visto como uma relação social) e o trabalho assalariado. Essas mudanças históricas qualitativas são subestimadas ou até mesmo ignoradas pelos/as economistas neoclássicos, para os/as quais a passagem do feudalismo ao capitalismo pode ser descrita como um incremento na razão capital/ trabalho.

4. A teoria marxista é uma teoria verdadeiramente interdisciplinar, que reconhece a natureza interdeterminante da economia, do Estado e da família, e convida ao estudo dessas interconexões (7).

5. A análise marxista elucida a construção de classes no capitalismo e os conflitos de classes no interior da empresa, incluindo a exploração e a alienação dos trabalhadores. Colocando de forma simplificada, para Marx, no capitalismo os meios de produção estão concentrados nas mãos de uns poucos indivíduos. Uma pequena porcentagem de famílias, os capitalistas, os possui e controla. A vasta maioria das famílias, a classe trabalhadora, não possui riqueza suficiente para sobreviver ou produzir independentemente; elas precisam destinar um ou mais de seus membros para a força de trabalho. Trabalhadores são explorados, pois recebem menos do que o valor que produzem; a mais-valia é apropriada pelo capitalista. Além disso, eles são "alienados": privados de qualquer controle sobre seu trabalho (o qual é dirigido pelos capitalistas com o objetivo de lucro e crescimento) ou seus produtos (que são a propriedade do capitalista) e desconectados de outros seres humanos.

Desde os tempos de Marx, as empresas transformaram-se em corporações, a posse do capital foi separada da direção da empresa e a força de trabalho tornou-se cada vez mais estratificada. No período pós-Segunda Guerra Mundial, os/as marxistas trataram da diferenciação dentro da classe trabalhadora, tanto teórica (Walker, 1979; Wright, 1982) como historicamente (Edwards, 1979; Amott and Matthaei, 1991). Assim o problema estrutural da desigualdade entre capitalistas e trabalhadores foi estendido ao da desigualdade entre trabalhadores. Alguns desfrutam de emprego estável, com excelentes salários e benefícios, e condições de trabalho menos alienadas, enquanto outros labutam para receber menos do que salários de sobrevivência em trabalhos arriscados, instáveis e estressantes. O privilégio na colocação profissional pode ser transferido, como riqueza, através das gerações: famílias gerenciais/profissionais, com salários substanciais e acesso às melhores escolas para seus filhos, podem virtualmente assegurar que estes sigam seus passos na colocação. (Boa parte da desigualdade nas colocações é baseada em gênero e raça/etnia, como discutirei mais tarde.)

Pode-se contrastar essa abordagem com a análise neoclássica de classe. Em resposta a Marx, houve entre os primeiros economistas neoclássicos os que, como John Bates Clark (1899), começaram a desmantelar a concepção de classe comum à sua própria tendência, tanto quanto a marxista. Eles concebiam o capital, o trabalho, a terra e a empresa como fatores de produção, e argumentavam que, se a maioria dos indivíduos possuía um pouco de cada um desses fatores, o foco de análise deveria ser o indivíduo, e não as classes. Desviaram o foco da distribuição desigual da riqueza e do poder para colocá-lo sobre o preço dos fatores e usaram a análise da produtividade marginal para "provar" que os proprietários dos fatores são justamente recompensados (Clark, 1899, caps. 1 e 2; Hunt, 1979, cap. 12). A classe enquanto relação social de poder e exploração entre os ricos e os pobres simplesmente desapareceu. Essa posição foi desde então mantida pelos neoclássicos - com o acréscimo do capital humano ao estoque de fatores de um indivíduo.

É impossível imaginar uma teoria econômica anticlassista alicerçada na economia neoclássica. Em contraste, o marxismo é inerentemente anticlassista - capaz de entender, criticar e oferecer alternativas para as hierarquias econômicas de poder e privilégio que há entre a pequena minoria possuidora da maior parcela da riqueza que produz renda no país e a classe trabalhadora, e mesmo dentro da classe trabalhadora.



6. De acordo com a teoria econômica marxista, a empresa é uma unidade de capital de valor auto-expansível, incluída em e determinada por um processo mais amplo de acumulação de capital. O crescimento e a mudança qualitativa são chaves para a sobrevivência da empresa na competição de capitais. Economias de escala levam empresas maiores a derrotar as menores e finalmente a dominar a economia como um todo. Em vez de serem otimizadoras passivas, as empresas esforçam-se ativamente para transcender os limites que enfrentam. As restrições ao suprimento de mão-de-obra são habilmente superadas com mudanças técnicas, que substituem a mão-de-obra qualificada pela não-qualificada e o trabalho humano pelo trabalho mecanizado (Levine, 1976). As restrições à demanda são combatidas com propaganda, inovação de produtos e obsolescência planejada (Baran and Sweezy, 1966). Quando necessário, as empresas usam seu poder econômico para influenciar o governo por meio de financiamento de campanhas, de lobbies e de ameaça de fechamento ou de transferência para outro país ou estado (Edwards et alii, 1986, cap. 5; Giddens and Held, 1982, parte III).

Portanto, de acordo com Marx, o capital é soberano: a democracia, tanto quanto o Estado, está ausente nas empresas. O que predomina inteiramente é a política capitalista orientada para o lucro, com sua tendência anti-trabalhador, anti-ecológica, pró-militarismo e anti-humanista. A satisfação das necessidades humanas, uma preocupação tradicionalmente feminina e feminista, não é o interesse básico das empresas, mas é levado em consideração somente enquanto um meio para alcançar o fim de mais lucros e crescimento. A riqueza é expandida por meio de um estonteante arranjo de aquisições tecnológicas, em meio a desemprego persistente, pobreza abjeta, mal-estar e alienação sociais profundos, destruição militar e devastação ecológica que ameaça até mesmo a possibilidade da própria vida.

Podemos contrastar também a análise marxista da empresa com o conceito neoclássico dominante. De acordo com a teoria hegemônica, o "problema" econômico está em que os recursos são finitos, enquanto as necessidades são infinitas; o capitalismo é visto como a solução para esse problema. As empresas são essencialmente consideradas serviçais dos consumidores, aos quais são forçadas, por mercados competitivos, a servir da forma mais eficiente. Embora "imperfeições" do mercado, como a concentração ou a diferenciação de produto, diminuam a eficiência e permitam às empresas maior amplitude, elas não são consideradas modificadoras dessa dinâmica básica. Os consumidores podem sempre reassegurar o controle por meio da intervenção do governo. Do mesmo modo, o governo democrático irá gerar políticas apropriadas em resposta ao problema de "externalidades". O poder do capital das corporações sobre consumidores, trabalhadores e governo - e os conflitos entre sua meta de lucros e crescimento e o bem público - simplesmente desaparece.

7. Diferentemente da economia neoclássica, que considera o feminismo ou outras preocupações políticas como antíteses do trabalho científico (Harding, 1995; Seiz, 1993), a teoria marxista é compatível com uma agenda política explicitamente centrada nos valores. De fato, os valores são intrínsecos aos conceitos marxistas básicos, como a exploração e a alienação. Embora certamente tenham ocorrido exceções históricas surpreendentes (como o Partido Comunista da antiga União Soviética), o marxismo, especialmente no Ocidente, significou um compromisso com a democracia econômica e política, a justiça econômica, a igualdade e a liberdade. Em outras palavras, os/as teóricos/as marxistas não colocam a discussão de valores á margem do campo da teorização em si, como fazem os/as economistas da tendência hegemônica.

8. A teoria marxista acredita na possibilidade de uma transformação econômica e social revolucionária, nascida das contradições do capitalismo e da organização autoconsciente que essas contradições geram (8). Os/As economistas marxistas se vêem como parte desse processo de luta progressista, seja em sua teorização crítica sobre o capitalismo seja em sua defesa de uma alternativa socialista. Em contraste os/as economistas neoclássicos/as vêem "a economia de livre mercado" (o capitalismo) como o fim da História - a mais perfeita organização econômica e a mais compatível com a democracia política (Friedman, 1962).

Os/As leitores/as perceberam que até aqui não mencionei aspectos centrais da teoria econômica marxista, entre eles a teoria do valor trabalho, o materialismo histórico e a inevitabilidade do socialismo. Embora minha versão da teoria marxista possa não ser a predominante, mesmo entre os/as marxistas, o conjunto de concepções que apresentei teve origem em Marx ou seus/suas seguidores/as e compreende aspectos centrais da economia marxista. Certamente essas concepções não são neoclássicas.

Há forte pressão para se suprimir o rótulo de "marxista" nestes tempos conservadores, quando até mesmo o de "liberal" é um epíteto e o marxismo é tanto amplamente distorcido (9) quanto proclamado morto (10). A profissão de fé econômica nos Estados Unidos tem uma história de simultaneamente ignorar a economia marxista (proclamando a economia neoclássica simplesmente como "a economia") e discriminar violentamente os/as marxistas.

Durante meus anos de estudante de graduação em Yale e como professora não-efetiva em Wellesley os departamentos de economia ele ambos careciam de qualquer marxista com direito a estabilidade, vi-me quase constantemente discriminada pelo meu marxismo, situação com a qual lidava às vezes referindo-me a mim mesma mais vagamente como "não-tradicional" ou "não-ortodoxa". Desde que fui efetivada, em 1983, simplesmente me autodenominei marxista (marxista-feminista e, mais recentemente, marxista-anti-racista), e passei então a explicar o significado disso para meus chocados, confusos e normalmente desinformados alunos. No final das contas, sou muito menos ligada a esse rótulo do que aos princípios que expus - como quer que eles sejam chamados -, que acredito darem uma base necessária, se não suficiente, para o desenvolvimento de uma economia anticlassista, anti-racista e anti-sexista.

Acredito que os/as economistas feministas e anti-racistas devem alicerçar seu trabalho na tradição teórica marxista, como expus acima, seja por sua natureza anticlassista, seja porque seu quadro teórico é mais coerente com a teorização feminista. Acredito também que os/as economistas feministas devem integrar uma perspectiva anti-racista em sua teorização. Nem o marxismo nem o anti-racismo que defendo independe um do outro ou, por isso mesmo, do feminismo - ou seja, o anti-racismo marxista-feminista que defendo é diferente do simples anti-racismo, assim como o marxismo feminista-anti-racista é diferente do marxismo. Contudo, a fim de elaborar meu argumento de que as três posições precisam estar integradas, terei de escrever como se elas fossem independentes.
II. POR QUE OS/AS ECONOMISTAS FEMINISTAS/ANTI-RACISTAS DEVEM SER MARXISTAS

A primeira vista, essa proposta pode confundir. Os/as feministas e os/as anti-racistas criticaram Marx e os/as marxistas por privilegiarem as classes e por praticamente ignorarem as questões de gênero e raça, e enfatizarem a centralidade das relações econômicas (leia-se mediadas pelo mercado) sobre as relações familiares (Hartmann 1979a; Kuhn and Wolpe, 1979). Contudo, ao longo dos anos, marxistas-feministas-anti-racistas trabalharam por tornar o marxismo uma tradição mais adequada ao seu próprio posicionamento (Hartmann, 1979a e b; Benería, 1979; Sargent, 1981; Folbre, 1982; Williams, 1987; Matthaei, 1982, 1992) (11). Os aspectos do marxismo que listei representam, em minha opinião, por várias razões, um ponto de partida e quadro de referência coerentes e frutíferos para a análise econômica feminista e anti-racista, muito superiores à da outra alternativa, a economia neoclássica.



1. A análise econômica marxista oferece aos/às economistas feministas e anti-racistas um quadro teórico compatível com análises de gênero e raça enquanto construtos sociais. O desafio representado pelos argumentos a favor das "diferenças naturais", com os quais as sociedades justificaram as desigualdades de gênero e raciais/étnicas, é chave para as teorias feministas e anti-racistas. Os/As economistas feministas e anti-racistas querem contra-argumentar que essas diferenças e desigualdades são socialmente construídas e, por essa razão, abertas a mudanças. E é justamente para essa análise que a economia marxista abre brecha. E verdade que ela enfocou a construção de classes. Mas os/as marxistas-feministas-anti-racistas a aperfeiçoaram para mostrar os meios pelos quais as relações e instituições econômicas contribuem para a construção das diferenças de gênero e raça/etnia. Os/As feministas marxistas, por exemplo, desenvolveram e utilizaram o conceito de divisão sexual do trabalho - a atribuição de atividades sociais diferentes e desiguais segundo o sexo - como chave para a construção das diferenças de gênero, incluindo os modos "masculino" e "feminino" aparentemente naturais de ser humano. Teóricos/as raciais mostraram como as divisões raciais do trabalho produziram e reproduziram raças, assim como classes e gêneros diferenciados atravessando as raças (Cox, 1959; Omi and Winant, 1986; Williams, 1987) (12). Além disso, a interdisciplinaridade da teoria marxista abre caminho para a incorporação de processos não-econômicos - como a religião, a psicologia, a família e a política - na análise da construção de gênero e raça (13).

Em contraste, a economia neoclássica oferece pequena possibilidade de incorporar pontos de vista feministas e anti-racistas sobre diferenças de gênero e raciais/étnicas (14). Ela explica essa desigualdade como o resultado de diferenças naturais em aptidões, preferências e "gostos" discriminatórios. Como não teriam origem na economia, os três estariam fora do domínio da teorização econômica. O papel das relações, das práticas e das instituições econômicas na geração e sustentação das diferentes "preferências" ou aptidões de acordo com o gênero e a raça/etnia é, desse modo, negado.

De fato, considerando o seu quadro teórico, é difícil fazer um/a economista neoclássico/a admitir que a desigualdade de gênero ou raça/etnia é de qualquer modo um problema. Nem as diferenças naturais em aptidões nem as diferenças em preferências são vistas como problemáticas pela teoria. Somente o exercício de preferências discriminatórias por consumidores, empregadores ou empregados é problemática, dado que resulta em diferentes pagamentos a trabalhadores com igual capital humano, violando a regra da produtividade marginal já discutida. Qual é a solução para esse problema? O próprio mercado, argumentam os/as neoclássicos/as conservadores/as, como Thomas Sowell (1981); a introdução de mais competição nos mercados, argumentaria a maioria dos/as outros/as neoclássicos/as.

Uma pequena minoria dos/as economistas neoclássicos/as, principalmente feministas e anti-racistas, insiste em que as preferências discriminatórias precisam ser consideradas diretamente, e não deixadas às soluções do mercado. Alguns/mas utilizam teorias de informação incompleta - ou de "discriminação estatística" -para demonstrar que a discriminação pode de fato persistir em mercados competitivos e para defender políticas antidiscriminação (15). Outros/as argumentam que mercados perfeitamente competitivos não existem e não podem existir. Alguns/mas observam como o racismo e o sexismo dos empregadores podem se tornar uma profecia que se realiza por si só, desencorajando mulheres brancas e pessoas não-brancas de investir em capital humano (Bergmann, 1976; Blau and Ferber, 1986). Ademais, esses/as teóricos/as têm pouco a dizer sobre as origens da desigualdade ou das preferências discriminatórias - e, em particular, ignoram o poderoso papel que a economia capitalista tem desempenhado na produção e na reprodução do racismo e do sexismo.

Cresce a literatura feminista de crítica aos conceitos essenciais da economia neoclássica como inerentemente sexistas e androcêntricos. O foco da teoria na maximização da utilidade do indivíduo racional, seu conjunto de "histórias" sobre a vida econômica, sua negação das relações de poder e mesmo sua visão básica de ciência são alvejadas como intrinsecamente sexistas ou androcêntricas (16).

Como Rebecca Blank resumiu em sua discussão dos ensaios de economistas feministas na coleção Beyond Economic Man (1993), "este é um apelo para mudar integralmente a estrutura de pensamento e a atitude analítica dos/as economistas hegemônicos/as em suas pesquisas" (p. 136). Em minha conferência, essas críticas são um maior apoio à minha defesa de que os/as economistas feministas devem estar atentos ao marxismo.


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