Por Rav Menachem Leibtag Tradução livre: Daniel Segal Amoasei



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B'H

Parashá Behar
(por Rav Menachem Leibtag - Tradução livre: Daniel Segal Amoasei)
Aonde deveria estar a parashá Behar? Considerando que ela foi dada no Monte Sinai, ela deveria ter sido escrita no livro Shemot, junto com as demais mitzvot (preceitos) que D'us deu a Moshe no Monte Sinai! Por que, então, a Torá "empurrou" está parashá para o livro Vayikrah?

Para complicar mais, outros trechos dos sete últimos capítulos de Vayikrah parecem estar 'fora do lugar'.

Investigaremos a possibilidade de uma estrutura "Chiástica" (explicaremos seu significado mais a frente) que poderá explicar o que parece ser um acaso na progressão dos trechos da Torá.

Introdução

No nosso artigo sobre parashá Kedoshim (presente no site em inglês, hebraico e português), explicamos como o livro Vayikrah pode ser dividido em duas seções distintas. A primeira metade (capítulos 1 a 17) focaliza as mitzvot relacionadas ao Tabernáculo. A metade (capítulos 18 a 27) discute mitzvot relacionadas a uma vida de santidade FORA do Tabernáculo.

Mesmo que esta definição funcione bem nas parshiot Acharei Mot e Kedoshim, na parashá Emor (capítulos 21 a 24) parece haver muitas excessões. Como o resumo a seguir mostrará, muitas das mitzvot em parashá Emor estão relacionadas com o Tabernáculo, e portanto (de acordo com o nosso modelo), pertencem a primeira metade do livro:

*Capitulo 21: Leis pertencentes aos Kohanim (sacerdotes)

*Capitulo 22: animais que não podem ser oferecidos como korbanot (sacrifícios)

*Capitulo 23: Os korbanot especiais que precisam ser trazidos para o Templo durante os

chaguim (festas)

*Capitulo 24: Como a Menorá (candelabro do Templo) tem de ser acesa e o oferecimento semanal do "lechem hapanim" (tipo de pão oferecido no Templo).

Contudo é possível (com um pouco de imaginação) conciliar estes trechos com o tema da segunda metade do livro Vayikrah (uma vida de santidade fora do Tabernáculo). Mesmo assim, não seria de uma forma completa.

Mais problemas

No final do capítulo 24 encontramos um outro tipo de dificuldade. Encontramos aqui uma narração - a história de um indivíduo que amaldiçoou o nome de D'us em público e sua consequente punição. Não somente esta história não tem relação com as duas seções do livro Vayikrah, como também é a única narração de todo livro (com excessão da morte dos dois filhos de Aharon)! Não está claro quando e onde a história ocorreu. Por que é trazida neste exato ponto do livro Vayikrah?

Parashá Behar nos traz uma dificuldade em relação a ordem cronológica das parshiot. Embora as leis do ano sabático (de sete em sete anos é proibido cultivar a terra por um ano) e do “yovel” (no cinquentenário da terra também é proibido trabalhá-la - Vayikrah capitulo 25) são adequadas para o nosso modelo de duas seções no livro Vayikrah, o primeiro versículo deste trecho (Vayikrah 25:1) nos diz que estas mitzvot foram dadas no Monte Sinai, sugerindo que toda a parashá deveria ser escrita no livro Shemot (onde estão escritas as leis dadas em Sinai)!

Estas questões parecem desmoronar o nosso entendimento da estrutura do livro Vayikrah, como explicamos em parashá Kedoshim. Será que podemos concluir que o livro Vayikrah é uma simples junção de mitzvot ao acaso? Se acharmos uma resposta para cada questão, não é estranho haver tantas singularidades uma atrás da outra?

A solução que apresentaremos, baseada em uma aula dada pelo Rav Yoel Bin Nun, está baseada em uma estrutura "Chiástica" que existe dentro dos livros Shemot e Vayikra. Esta estrutura é um meio literário usado para enfatizar uma unidade temática e acentuar um ponto central. Por exemplo, um texto que possui a seguinte unidade:

Assunto A

Assunto B

Assunto C

Assunto D (B)

Assunto E (A)

Existirá uma estrutura Chiástica, se o assunto A, de alguma forma, se relacionar ou ser o mesmo que E, e assunto B com D, sobrando o assunto C, que por não se relacionar, acaba sendo enfatizado (formando algo parecido com a rima de uma Trova: AB -C- BA). Provaremos que esta estrutura está presente também na Torá (nota: esta estrutura é assim chamada em hebraico e inglês, pois provém de uma palavra latina, e pode ser que haja um outro nome para ela em português). .

Para descobrir esta estrutura, precisamos primeiro reexaminar cada um dos trechos mencionados anteriormente (que parecem estar fora do lugar) e determinar onde cada trecho deveria estar.. Este será o primeiro passo para estrutura Chiástica que iremos apresentar.



Os últimos, primeiro

Por uma questão de simplicidade, começaremos com a "Tochachá" (admoestação) do capítulo 26, e de lá voltar, marcando cada trecho com uma letra do alfabeto.

(A) A Tochachá (Vayikrah 26:3-46)

A "Tochachá" explica a recompensa (ou punição) que o povo de Israel receberá se cumprir (ou descumprir) as leis Divinas. Esta "Tochachá" é parte integral do pacto entre D'us e o povo de Israel que foi firmado no Monte Sinai. Mesmo que este pacto foi detalhado na parashá Bechukotai (semana que vêm), seu princípio básico foi descrito em parashá Ytró (livro Shemot) onde a Torá relata os eventos ocorridos durante a "Revelação do Sinai": "E agora, SE OUVIRDES ATENTAMENTE A MINHA VOZ e GUARDADES A MINHA ALIANÇA sereis para mim tesouro de todos os povos..." (Shemot 19:5-6).

Mesmo que esta parashá seja tematicamente consistente com o tema da segunda metade do livro Vayikrah, ela foi dada ao povo no Monte Sinai. Portanto, este trecho poderia ser incluido em parashá Ytró, mais provavelmente no capítulo 19, antes dos Dez mandamentos.

(B) Os pequenos Dez Mandamentos (Vayikrah 25:55 - 26:2)

Estes três versiculos no finalzinho da parashá Behar constituem um breve resumo dos primeiros quatro Mandamentos. Apesar do primeiro versículo (25:55) fornecer os motivos para as leis que o precedem (vide Vayikrah 25:39-54), os próximos dois versículos (26:1-2) parecem não ter relação nenhuma. Estes versiculos não só parecem pertencer a parashá Ytró (livro Shemot) como também são uma repetição dos quatro primeiros Mandamentos.

(C) As leis de Shmitá (ano sabático) e Yovel (cinquentenário da terra - Vayikrah 25:-54)

Como explicamos anteriormente, baseado no versículo de abertura ("E falou o Eterno a Moshe NO MONTE SINAI dizendo"), todo este trecho pertence ao livro Shemot, juntamente com as outras mitzvot dadas a Moshe no Monte Sinai. De fato, os princípios gerais das leis de Shmitá, datalhadas em parashá Behar, são primeiramente encontradas no livro Shemot, em parashá Mishpatim:

"E seis anos semearás tua terra, e juntarás o teu produto. E no sétimo deixa-lá-as de cultivar ..." (Shemot 23:10-11).

Como visto, mesmo que a parashá Behar seja adequada à segunda seção do livro Vayikrah (como viver uma vida de santidade), estas leis poderiam ser recordadas em parashá Mishpatim.

(D) Trecho "Hamekalel" - o amaldiçoador (Vayikrah 24:10-23)

A única narração da segunda metade do livro Vayikrah, nos leva a um conjunto de leis civis ("bein hadam lechavero" - de uma pessoa para com a próxima). Estas leis são quase idênticas a certas leis que estão escritas na parashá Mishpatim no livro Shemot (compare, Vayikrah 24:17-21 com Shemot capítulo 21).

Apesar desta história estar tematicamente ligada com o livro Vayikrah (amaldiçoar D'us é o oposto de uma vida de santidade), as leis que seguem a história parecem uma continuação de parashá Mishpatim.

(E) A Menorá (candelabro) e o Shulchan (mesa do Templo - Vayikrah 24:1-9)

As mitzvot de acender a Menorá (Vayikrah 24:1-4) com óleo de oliva e oferecer pães a D'us no Shulchan (Vayikrah 24:5-9) obviamente deveriam ser recordadas no livro Shemot, junto com as outras leis sobre os objetos do Tabernáculo. De fato, os versículos 24:2-3 são uma repetição, palavra por palavra, dos primeiros dois versículos da parashá Tetzave. Claramente, estes trechos são uma continuação da parashá Teruma.

(F) Hamoadim - os feriados (Vayikrah 23:1-44)

Como explicamos semana passada (artigo sobre parashá Emor), a Torá apresenta os "moadim" junto com as leis de Shabat. Tematicamente, estas leis podem ser relacionadas com o tema de santidade da segunda metade do livro Vayikrah. Apesar disso, elas estão relacionadas com as leis de Shabat que concluem os trechos sobre o Tabernáculo (vide Shemot 32:12-17 e 35:2-3). Note as semelhanças:



Vayikrah Shemot

"Seis dias se trabalhará, e "Seis dias farse-á trabalho, e no

no sétimo dia será sábado sétimo dia haverá para vós

solene" (23:3) santidade, sábado..." (35:2)


Assim, o trecho da Torá que relata as festas no livro Vayikrah (capítulo 23) poderia ser escrito nas parshiot Ki-Tissá Vayakel.

(G) Animais que não podem ser sacrificados (Vayikrah 22:17-33)

Neste trecho encontramos a proibição de oferecer um animal com defeito, ou um animal com menos de oito anos de vida.

Estas mitzvot poderiam ser escritas em parashá Vayikrah que discute os tipos de korban que uma pessoa pode trazer (Vayikrah 1:2).

(H) Santidade dos kohanim (sacerdotes - Vayikrah 21:1 ate 22:16)

Parashá Emor começa com leis que explicam quando um kohen pode ou não se tornar impuro (entrando em contato com uma pessoa morta). Mesmo que estas leis se encaixam na segunda seção do livro Vayikrah, pois falam da vida do kohen fora do Tabernáculo, as leis que se seguem a estas deveriam estar escritas em parashá Tzav, pois descrevem quem pode e quem não pode comer a carne dos korbanot.



O que pertence a que?

Caso ainda não tenha reparado, um padrão muito claro surge. Ainda que cada um dos trechos acima esteja tematicamente relacionado de uma forma ou outra com a segunda metade do livro Vayikrah, cada trecho poderia ser escrito na segunda metade do livro Shemot ou na primeira do livro Vayikrah! A tabela a seguir resumirá estes trechos:


Trechos fora do lugar Onde deveria estar

(A) Tochachá Ytró (Shemot)

(B) Os pequenos mandamentos Ytró

(C) Shmitá e Yovel Ytró / Mishpatim

(D) Hamekalel Mishpatim

(E) Menorá e Shulchan Truma / Tetzave (Shemot)

(F) Hamoadim Ki-Tissa / Vayakhel (Shemot)

(G) Animais proibidos de se oferecer Vayikrah

(H) Santidade dos kohanim Tzav
A Estrutura Chiástica de Shemot e Vayikrah

Como vimos, o estilo de um paralelismo padrão conhecido como estrutura Chiástica (A-B-C-B-A), é um istrumento literário que enfatiza a unidade de um tema e enfatiza um ponto central (C).

Para descobrir o seu significado, precisamos identificar o seu ponto central. Para o fazermos, necessitamos primeiramente resumir as mitzvot básicas do livro Shemot que o povo de Israel recebeu desde o tempo de sua chegada no Monte Sinai:

(A) Brit (pacto) - feito antes da entrega da Torá (capítulo 19)

(B) Dibrot - Os Dez Mandamentos (20:1-4)

(C) Mitzvot - imediatamente depois dos Mandamentos (20:19-23)

(D) Mishpatim - as leis civis de parashá Mishpatim (capítulos 21-23)

(E) Hamishkan (Tabernáculo) - parshiot Trumá e Tetzave (capítulos 25-31)

(F) Shabat (31:12-18 seguido por 35:1-3)

(G) Korbanot Yachid (sacrifícios individuais - Vayikrah capítulos 1-5)

(H) Leis para os kohanim - quem serve no Tabernáculo (Vayikrah capítulos 6-7)

(I) A Shechiná - Presença Divina no Tabernáculo:

A cerimônia de consagração do Tabernáculo (Vayikrah capítulos 8-10);

Leis sobre a entrada apropriada (Vayikrah capítulos 11-15);

A cerimônia anual de Yom Kipur (Vayikrah cap'itulos 16-17)

SUAS CONSEQUÊNCIAS SOBRE A NAÇÃO (Vayikrah capítulos 18-20) / "Kedoshim tihiu" - e sejam santos).

Usando o diagrama a seguir, note como cada uma das unidades correspondem EM ORDEM REVERSA com os trechos problemáticos do final do livro Vayikrah:



  1. Pacto - Antes da entrega da Torá

׀ B) Dez mandamentos

׀ ׀ C) Mitzvot - depois da entrega da Torá (homem para com D'us)

׀ ׀ ׀ D) Mishpatim - leis civis

׀ ׀ ׀ ׀ E) Comando da construção do Tabernáculo

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ F) Shabat

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ G) Korbanot

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ H) Kohanim

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ *Presença Divina no Tabernáculo

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ / dedicação e entrada

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ I)

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ \ * Presença Divina no acampamento

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ comportamento apropriado

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ H) Kohanim

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ ׀ G) Korbanot

׀ ׀ ׀ ׀ ׀ F) Festas

׀ ׀ ׀ ׀ E) Menorá e Shulchan

׀ ׀ ׀ D) Mishpatim e o incidente do "amaldiçoador"

׀ ׀ C) Mitzvot recebidas no Monte Sinai, shmitá e yovel

׀ B) Primeiros quatro Mandamentos

A) Pacto - admoestação em Bechukotai

O diagrama identifica a estrutura Chiástica (simbolizada por ABCDEFGH-I-HGFEDCBA) que conecta todas as mitzvot dadas ao povo no deserto desde o tempo da chegada ao Monte Sinai. Ao centro desta estrutura -I - se encontra o duplo tema do livro Vayikrah, ou seja, suas duas seções: (1) A presença Divina habitando o Tabernáculo e (2) seu subsequente efeito na nação. Como explicamos nos artigos anteriores, este modelo reflete o impacto da intensidade de kedushá (santidade) do Tabernáculo no nível espiritual de toda a nação em todos os setores da vida cotidiana.

Além disto, este ponto central nos liga ao tema básico da "Revelação do Sinai" no livro Shemot. Recorde que quando o povo chegou pela primeira vez ao Monte Sinai, D'us propôs um pacto:

"E agora, se ouvirdes atentamente a minha voz, e guardardes a minha ALIANÇA...E vós sereis para mim - MAMLECHET KOHANIM VEGOI KADOSH - um reino de sacerdotes e um povo santo." (Shemot 19:5-6).

O Pacto do Sinai, ápice do livro Shemot, é cumprido quando o povo de Israel segue as mitzvot descritas no livro Vayikrah! Fazendo-as , nos tornamos "um reino de sacerdotes e um povo santo" (Shemot 19:6).



O significado temático desta estrutura Chiástica é consolidada pelo seu fechamento (A-A). Exatamente como o pacto do Sinai é a abertura da estrutura, os detalhes deste pacto - a Tochachá (admoestação) da parashá Bechukotai, constitui sua conclusão. Pacto á algo bilateral. A terra prometida serve como um agente de D'us para recompensar o povo se eles seguirem o pacto, ou puní-los, caso o desobedeçam.

Não foi por acaso que o livro Vayikrah termina com mitzvot que foram dadas no Monte Sinai. Na estrutura Chiástica, as mitzvot dadas no Monte Sinai rodeiam as dadas no Tabernáculo. Recorde que todo o propósito do Tabernáculo e sua localização no centro do acampamento, é de servir como um veículo pelo qual o povo possa transmitir os fundamentos do Pacto do Sinai para o dia-a-dia. Este tema em comum do livro Shemot e Vayikrah, permanece como a eterna meta do povo de Israel.


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