Por uma vida consagrada fiel desafios antropol



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POR UMA VIDA

CONSAGRADA FIEL
DESAFIOS ANTROPOLÓGICOS

À FORMAÇÃO



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67° CONVENTUS SEMESTRALIS

S

G

UNIONE SUPERIORI GENERALI


POR UMA VIDA

CONSAGRADA FIEL
DESAFIOS ANTROPOLÓGICOS

À FORMAÇÃO

A FIDELIDADE VOCACIONAL
Álvaro Rodríguez Echeverría, FSC

Presidente da USG

A nossa 67ª Assembléia desenvolve a segunda parte da reflexão sobre a “Fidelidade Vocacional”, e é a continuação da Assembléia que tivemos em novembro de 2005. Com efeito, no final da precedente Assembléia percebemos que muitos dos participantes desejavam continuar este tema a partir de uma antropologia teológica que permitisse aprofundar as bases sobre as quais se sustenta a vida religiosa hoje, e ajudasse a conhecer melhor os jovens e a rever as nossas “Ratio” formativas para que pudessem responder melhor à realidade que vivemos hoje.


Na precedente Assembléia, nossas reflexões tocaram muitos pontos centrais que chamaram nossa atenção. Entre os temas tratados havia aqueles relativos às motivações do ingresso, às motivações para ser fiéis nas diferentes etapas da vida, o discernimento e o acompanhamento dos religiosos, a consistência e a unidade dos temas, a qualidade da vida espiritual, a cultura atual, o ambiente sócio-cultural e a formação inicial, os fatores que favorecem a vitalidade de um Instituto religioso. Mesmo não querendo ser exaustivos sobre os fatores que influem na fidelidade, é contudo importante aprofundar e discernir os mais relevantes.

Padre Bernardo Olivera, numa excelente apresentação aos Capítulos Gerais em outubro do ano passado, descrevia com muito cuidado a situação que hoje facilmente se repete em nossos próprios Institutos: Dir-se-ia que a descoberta do amor humano transformou em irreal a busca monástica de Deus. Obviamente não se trata agora de julgar a vocação desses jovens; trata-se, antes, de interrogar-nos sobre a formação que lhes oferecemos. São estas algumas das perguntas pertinentes: Sobre que bases humanas se construiu o edifício espiritual? Que tipo de antropologia serviu de pressuposto ao processo formativo? Estamos convencidos de que a graça edifica sobre a natureza? Favorecemos dicotomias ainda que afirmemos o contrário? Por que as irmãs jovens não fazem experiências semelhantes? As mulheres são mais realistas, ao passo que nós homens somos mais carnais? Reprimimos o que é instintivo em favor do que é racional? Valorizamos o espiritual em detrimento do corporal? Continuamos a alegorizar os textos bíblicos sobre o amor esvaziando-os da sua espessura humana? Nutrimos o senso de pertença comunitária? Poderíamos continuar com perguntas semelhantes.



Vivemos numa sociedade pluralista que promove o relativismo assiológico como critério para resolver as diversas situações sociais. O critério de liberdade atingiu até o âmbito do aspecto mais sagrado da humanidade: a vida, pois considera-se que ela pertence instrumentalmente a cada indivíduo, prescindindo de toda responsabilidade para com o Criador e para com os outros seres humanos. Por outro lado, para qualificar as manifestações mais variadas das culturas, usa-se o critério que “tudo é igualmente válido”, negando assim a necessidade de que elas sejam humanizadas e evangelizadas.
O que é provisório e temporário insere-se nas organizações, mesmo nas instituições milenares, como a família. A duração cada vez mais breve de um bom número de casamentos chama a nossa atenção. Sabemos que o fenômeno se repete no interior de nossas Congregações e não cessa de preocupar-nos o número dos pedidos de dispensa dos votos provenientes de jovens religiosos, pouco tempo depois de ter feito a profissão perpétua.
Vivemos num mundo que favorece o individualismo e o intimismo. Se de um lado, conforme vários autores, estamos passando do homo faber ao homo ludens, de Prometeu a Narciso, do homem econômico ao homem festivo, para o qual a coisa mais importante não é trabalhar mais consumir. Basta olhar certas psicologias modernas para descobrir que o centro deve ser o eu. Freud nos fala da satisfação dos desejos; Maslow, da auto-realização mediante a satisfação das necessidades primárias; Adler da afirmação do próprio múnus e da superioridade em relação aos outros.
Não há dúvida que um dos grandes méritos do mundo de hoje seja ter dado importância ao eu pessoal. Mas sabemos que se trata de um valor relativo, porque conforme o Evangelho “quem procura a própria vida a perde e quem a perde a encontra” (Mt 16, 25). O desafio permanente é sair de nós mesmos para concentrar-nos em Deus e no seu plano de salvação em favor da humanidade.
Por outro lado, parece que hoje temos mais dificuldade para compromissos duradouros, de longo alcance, nos quais a paciência, a estabilidade, a perseverança, a tensão e o esforço são necessários para garantir a qualidade da vida espiritual e a missão à qual fomos chamados. Influenciados pelo ambiente, facilmente podemos fazer nossos os valores que hoje a sociedade promove: o provisório (o temporário), o sensível (o coração acima da razão), o mutável (o novo e a moda se impõem).
Não devemos esconder o fato de que a Vida Consagrada representa um movimento contra-cultural e dinâmico que desafia os donos de uma sociedade ambivalente, cujos valores são mais facilmente assimilados pelos jovens, tanto os positivos como aqueles em contraste com o Evangelho. Também aqui se trata de um discernimento e de uma inculturação que nos permitem ser fiéis aos sinais dos tempos e dos lugares. Nossa atitude deve ser semelhante à dos pescadores da parábola que lançam ao mar a rede que recolhe todo tipo de peixe; uma vez cheia, os pescadores levam-na para a praia, sentam-se, selecionam os bons nas cestas e jogam fora os maus (Mt 13, 47-48). O apoio para vivermos com alegria e dignidade num mundo que deve ser evangelizado, mas ao qual devemos opor-nos em mais de uma ocasião, é a ascese. A luta pelos valores do Reino comporta um esforço pessoal e comunitário, que dá sentido à existência, afasta do narcisismo, evita a depressão e permite viver no meio dos conflitos.
Hoje devemos dar mais importância à situação em que vive o jovem diante da fragmentariedade e da dispersão, com o perigo do fascínio do imediato e do provisório, que leva a uma ética individualista e relativista, que limita a procura dos valores e orienta para uma busca insatisfeita do "estar juntos", sem uma direção clara nem um projeto definido. O ambiente incita à busca de valores de pouca monta e a uma felicidade de baixo custo. Ou seja, exatamente o contrário do que deveríamos oferecer na vida religiosa.
Se não somos capazes de centrar nossa vida religiosa no essencial, corremos o risco de construir sobre a areia. A nossa vida religiosa, entendida como uma natural tensão para Deus seja como chamado de Jesus Cristo a prosseguir sua vida, não pode ter fundamento mais sólido do que o de uma experiência pessoal. Trata-se de uma atração profunda, quase irresistível para Deus, de uma experiência espiritual, do fato que Deus é o Absoluto e que todo o nosso ser tem a sua referência última a Ele. É a experiência de amar e ser amado; é a certeza de que Deus é tudo. E se Deus é a razão última do nosso seguimento, podem vir dilúvios e tempestades, a nossa barca poderá parecer na iminência do naufrágio, mas poderemos ir adiante, não pela nossa força, mas porque nas nossas fraquezas Deus continua a ser a razão última da nossa vida e sabemos que Ele está ao nosso lado. A meta fundamental de todo processo de formação é facilitar esta experiência.
Os trabalhos de nossa 67ª Assembléia têm um duplo objetivo:


  1. Através da conferência do Pe. Pascual Chavez Villanueva, Reitor-Mor dos Salesianos, procuramos aprofundar a realidade da pessoa através de considerações de ordem antropológica nas quais podem situar-se as nossas propostas formativas. O objetivo último é ajudar a reforçar a fidelidade dos chamados a uma vida consagrada, que não só é de índole espiritual, mas que se realiza plenamente também na dimensão humana.




  1. O segundo momento de nossos trabalhos abre-se com a conferência do Pe. José Rodríguez Carballo, Ministro Geral dos Frades Menores, e continua com as contribuições de toda a assembléia através dos trabalhos de grupos. Queremos deter-nos de modo particular na formação permanente, porque cremos que é um ponto de partida necessário para oferecer a nossos jovens uma formação inicial eficaz. Só pessoas e comunidades plenamente amadurecidas e bem identificadas consigo mesmas, com a própria vocação e com o carisma do Instituto, podem tornar-se instrumentos eficazes de acompanhamento dos jovens religiosos.

Tenho certeza de que as reflexões desses dias e a leitura das páginas que recolherão o resultado de nossos trabalhos poderão ajudar a consolidar no interior de nossos Institutos o substrato humano e a experiência fundante que darão maior solidez ao nosso seguimento de Jesus, vivido numa fidelidade criativa e alegre.



A FIDELIDADE, FONTE DE VIDA PLENA

A Vida Consagrada:

profecia antropológica na pós-modernidade
Pascual Chavez Villanueva, SDB

Reitor-Mor dos Salesianos

1. Introdução
A finalidade desta reflexão, mais que pretender dizer algo "novo", é estimular a reflexão comum. Por isso, procurarei manter-me o mais fiel possível ao título e ao significado do mesmo: oferecer uma moldura antropológica na qual possam situar-se propostas que ajudem a robustecer a fidelidade da vida consagrada daqueles que a ela são chamados: com particular atenção às gerações jovens.
Está fora de dúvida que a problemática fundamental toca a medula e o desenvolvimento da fé, partindo da experiência pessoal e comunitária do Deus de Jesus Cristo. Pressupondo isto, aqui devemos fazer uma "redução metodológica" de uma perspectiva específica: talvez possamos aproximar-nos o mais possível desta problemática, onde Natureza e Graça, sem confundir-se, encontram-se e interagem! Concretamente, o tema da fidelidade (não somente no sentido vocacional) de tal modo toca aspectos essenciais da pessoa, que necessariamente devemos renunciar a uma visão exaustiva, e devemos contentar-nos com situá-lo dentro desta moldura antropológica.
De um lado, esta problemática não é exclusiva da vida religiosa ou consagrada: basta pensar na situação dramática, e muitas vezes trágica, de tantos casamentos e famílias no mundo, mesmo de católicos! No campo da vida religiosa, atinge do mesmo modo Institutos de fundação recente, como Congregações mais antigas e até Ordens eremíticas e monásticas. Mais ainda: embora nos interesse sobretudo em relação às gerações jovens, não se refere somente a elas: a possibilidade de afastar-nos do seguimento radical de Jesus não desaparece até a morte. Como indica bem e perspicazmente D. Bonnhoeffer, a primeira palavra que o Senhor disse a Pedro é também a última: "Segue-me!"
Antes de abordar o conteúdo desta reflexão, convém explicitar formalmente a sua avaliação assiológica: trata-se de uma situação problemática, até memo perigosa, da qual é preciso defender-se, ou de um s que, além de ser inevitável, torna-se um desafio fascinante para a nossa fidelidade criativa a Deus, à Igreja e à humanidade? Penso que estamos convencidos de que, não obstante toda a seriedade que a situação exige, trata-se antes desta segunda alternativa: é a conseqüência de crer que o Espírito Santo continua presente e atuante em nossa Igreja e no mundo; mas também porque neste, como em muitos outros aspectos, se faz presente a "lei do pêndulo”: o nosso tempo sublinha dialeticamente elementos que, de forma explicável mas injusta, tinham sido descuidados em outras épocas. De nós depende, com a ajuda do mesmo Espírito, buscar o seu justo equilíbrio.
Falando simbolicamente: a cultura atual, sobretudo juvenil, deu uma volta total no caleidoscópio antropológico: contempla-se uma imagem totalmente nova, mas na qual podemos reconhecer os mesmos fatores estruturais que, na cultura precedente, refletiam a luz de um modo muito diferente, e por isto, também projetavam uma imagem diferente. Cremos, pois, que se trata, segundo a feliz expressão de G. K. Chesterton, de uma daquelas virtudes que se tornaram "loucas": esperamos que a doença não seja incurável!

Ainda no campo formal, achei mais conveniente escolher uma linha, entre outras, esperando que seja suficientemente relevante como para oferecer pistas de reflexão suficientes. A alternativa teria sido acenar a muitos elementos, necessariamente de modo superficial e impossível de aprofundar. Com outras palavras, recordando o provérbio: "quem tudo quer, tudo perde", optei pela atitude oposta: abranger pouco, para tentar privilegiar a profundidade.



2. A Historicidade, Horizonte e Caminho de Realização Humana
Não há dúvida que, entre muitos outros fatores que configuram a cultura atual, a "descoberta" da historicidade humana constitui um dos mais relevantes. Não se trata de algo "novo" que não existia antes, ou que não era percebido universalmente. Trata-se antes daquelas coordenadas da existência humana que, justamente porque são onipresentes, correm o perigo, paradoxalmente, de tornar-se inatingíveis. Bastaria tomar qualquer página da Sagrada Escritura para reconhecer que a Palavra de Deus não se compreende absolutamente sem o pressuposto da historicidade humana. Sem ela, nem a revelação de Deus, nem a liberdade humana, nem o pecado ou a conversão existiriam.
Esta "presença implícita" da historicidade humana na Revelação acentua, entre outros fatores, o valor do "hoje" defronte do passado, e até do futuro: o que conta não é, digamo-lo com uma imagem, o peso das ações boas ou más realizadas e colocadas numa balança, e sim a situação atual. Recordemos, entre muitos outros, o célebre texto de Ezequiel: “Se o malvado se afasta de todos os pecados que cometeu e observa todos os meus preceitos e age com justiça e retidão, ele viverà, não morrerá. Nenhuma das culpas cometidas será recordada, mas viverá pela justiça que praticou " (Ez. 18, 21-22). Igualmente, o salmo 95 (94), sugerido no início da oração litúrgica cotidiana: "Se ouvirdes hoje a voz do Senhor, não endureçais o vosso coração" (v. 7-8); ou, mais dramaticamente, as comoventes palavras de Jesus na cruz ao ladrão arrependido: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). Isto leva, sem dúvida, a uma avaliação mais qualitativa que "quantitativa" da existência humana, sem identificá-la, necessariamente, com a relação entre atitudes e atos no campo moral.
Por isso, falando de "descoberta", referimo-nos mais precisamente à sua tematização explícita, ligada à filosofia do século XX, (mesmo se as raízes já se encontram ao menos no século XIX), e, mais concretamente, ao existencialismo, constituindo uma das contribuições mais válidas e permanentes desta corrente filosófica e cultural.
Como o título deste parágrafo indica, "horizonte e caminho", não se quer indicar apenas que o ser humano vive na história (dentro do mundo e do universo inteiro, que, analogamente, podem chamar-se também, graças à mediação humana, "históricos"): isto é evidente; porém, mais intrinsecamente, pretende-se afirmar que o homem é um "ser histórico" justamente porque se realiza, ou se destrói, na história: tanto no nível pessoal, como comunitário, e até em escala mundial: principalmente numa época na qual as coordenadas geográficas cedem sempre mais a sua relevância às históricas, nesta "aldeia global" que está se tornando o nosso planeta.
Não se trata somente de uma importância quantitativa, um "mais"; porém, sobretudo de uma relevância qualitativa, já que a historicidade constitui um paradigma, erige-se no centro de uma Gestalt que inclui todos os elementos estruturais humanos de uma nova síntese (recordando a imagem do caleidoscópio).
Esta tematização da historicidade trouxe conseqüências em todos os campos da existência humana: basta recordar a revolução que provocou no conceito de educação e formação, entendida como "formação permanente", referida em primeiro lugar não à atualização específica ou eventual, como muitas vezes se entende, mas à convicção de que estamos em formação a vida toda, e que, portanto, não podemos considerar ninguém já "formado." (Analogamente, no campo moral, não se concebe um "homo viator" definitivamente perdido, nem já “confirmado na graça”).
Isto traz consigo uma mudança radical na maneira de expor a "formação inicial", e mesmo a etapa seguinte, inadequadamente chamada "formação permanente", como se fosse posterior à inicial. Embora levando em conta que a coisa mais importante não é mudar as palavras, e sim renovar seu conteúdo, convém ao menos mencionar o problema, que não é simples, da maneira de impostar esta "formação inicial" de modo que não seja, nem algo separado daquilo que virá depois, e menos ainda um antídoto contra, mas tampouco se limite a uma simples "primeira etapa" de um processo. No fundo, procura-se esclarecer o que significa dizer que "a formação (enquanto) permanente anima e orienta a formação inicial."
Neste horizonte de historicidade, integra-se plenamente uma daquelas "palavras-chave" que atualmente “têm direito de cidadania” até na vida consagrada: a busca da realização pessal. Trata-se de um aspecto ineludível, mas também fonte de mal-endtendidos e mesmo de frustrações.
A respeito disto, gostaria de mencionar um texto esclarecedor do Pe. Friedrich Wulf SJ, que fala da fenomenologia teológica da vida religiosa:
"Na base da vida religiosa que deseja ter um fundamento teológico e espiritual, encontra-se um ser tocado pelo Mistério Divino do mundo e da vida (...) Este impacto se apresenta sobretudo de três modos: como ser tocado por Deus, por Jesus Cristo ou pela situação funesta do mundo. Trata-se de tipos ideais que apenas ressaltam diversos centros de gravidade, mas não existem jamais em forma pura. São estreitamente vinculados pelos seu próprio conteúdo, isto é, pela revelação cristã. Um ser tocado por Deus que não incluísse a mediação decisiva e o múnus redentor de Jesus, como a responsabilidade pela salvação do mundo e dos outros seres humanos, seria tão pouco cristão como um ser preocupado pela situação funesta do mundo que não tivesse como centro o Deus da nossa salvação, revelado em Jesus. Quem escolhesse como finalidade da sua vida, na medida em que se pode escolher por si mesmo, uma mística e contemplação que excluísse o mundo, seria tão culpado de retalhar essencialmente a mensagem salvífica cristã, como aquele que concebesse a sua vocação apostólica somente como um serviço funcional. Não obstante isto, deve haver prioridades, acentuações, porque senão tudo continuaria a ser teoria e não se adequaria à peculiaridade de cada um, à especificidade e vocação pessoal"1.
Tudo isto é plenamente válido e esclarecedor; mas não é verdade que, junto com esta tripla motivação essencial e inseparável da vida religiosa e consagrada – o absoluto de Deus, a seqüela/imitação de Jesus Cristo e a salvação do mundo – ressalta-se, ao menos de modo implícito, a preocupação pela realização pessoal? Pode resultar fácil ignorar, e até querer excluir este aspecto, como expressão de egoísmo individualista e de um "psicologismo" malsão: todavia, se lemos com atenção o Evangelho, jamais encontraremos uma recusa, por parte de Jesus, desta pretensão: o que o Senhor faz é indicar o caminho autêntico para esta realização. não é significativo que tenhamos esquecido demasiadas vezes que as bem-aventuranças não são normas morais ou religiosas, e sim promessas de felicidade?
Mais do que rejeitar ou anatematizar, é preciso discernir e esclarecer: somente é válida, na vida consagrada, quando se trata de uma realização em Cristo, unida indissoluvelmente aos três aspectos acima mencionados. Evidentemente, aqui exerce uma função decisiva a justa compreensão e atuação do conceito de idoneidade vocacional que permite integrar ambas as dimensões, a objetiva e a subjetiva.
Um dos aspectos mais fascinantes na contemplação dos grandes santos e santas, é considerá-los como pessoas realizadas e felizes. Se somos chamados a ser, como diz Vita Consecrata, uma "terapia espiritual" para o mundo de hoje, e queremos salientar o "profundo significado antropológico" dos conselhos evangélicos, não podemos ignorar esta dimensão: não basta viver a castidade, a pobreza e a obediência de maneira radical e plena: é necessário que, mesmo no nível humano, sejam atitudes irradiantes e atraentes, expressão de maturidade e plenitude (cfr. VC 87-91).

3. A Liberdade, o Valor Supremo da Realização Humana
No interior do paradigma da historicidade, a liberdade adquire uma importância decisiva, justamente porque o ser humano se percebe, não como algo "programado de ante-mão", como um computador, mesmo o mais sofisticado, e sim como uma pessoa, como alguém que tem a vida nas próprias mãos, que pode dispor dela, que pode decidir o que deseja fazer com ela; aliás: o que quer ser, através dela.
Neste sentido, podemos recordar a frase, intencionalmente exagerada e provocadora de J.-P. Sartre: “A existência precede a essência.” Ninguém, nenhum ser humano ou divino pode decidir por mim aquilo que eu quero ser. Por detrás desta atitude podemos encontrar a expressão de um prometeísmo mais ou menos ateu, mas também um desafio que nos faça compreender que Deus não pode querer de nós, seus filhos, um amor e uma dedicação que não sejam plenamente livres.
Convém analisar mais a fundo a liberdade como dimensão essencial do ser humano. Sem dúvida, não podemos aceitar uma supremacia da liberdade que procure elevar-se acima de qualquer instância ou valor: mas tampouco pode-se rejeitá-la ou pregar contra ela. Lamentamos muitas vezes uma liberdade que degenera em libertinagem, etc.; mas qual é o perfil e a dinâmica desta atitude, para poder compreendê-la, enfrentá-la e dar-lhe resposta?
De forma semelhante à historicidade, esta superestima da liberdade não é só quantitativa (“o máximo"), mas também qualitativa, núcleo de um paradigma em torno do qual giram todos os outros valores. Quando não se leva isto em consideração, torna-se impossível entender certas atitudes que parecem contraditórias.
Menciono um exemplo, não certamente casual. Diante do deplorável tema dos abusos e moléstias sexuais, sem dúvida injustificáveis, e da não menos deplorável manipulação dos mesmos, constatamos na sociedade e nos meios de comunicação uma "dupla medida" muitas vezes hipócrita: como é possível que esta sociedade, que procura punir a mínima falta neste particular, tolere ao mesmo tempo a sua exacerbação em forma de pornografia quase sem restrições? Vista do paradigma da sexualidade, esta atitude dupla resulta incompreensível; mas a partir de outro paradigma, o da liberdade, não só é compreensível, mas torna-se lógico: no fundo afirma que, quando se trata de adultos (= maiores de 18 anos), podem fazer o que quiserem, com absoluta liberdade, contanto que não prejudiquem a terceiros (aqui novamente: "na sua liberdade").
Obviamente, não procuro de modo algum justificar tal atitude; ao contrário, aqui se percebe, a meu ver, o cerne do verdadeiro problema. Como se indicava acima, não se trata só de uma avaliação quantitativa (= exagerada) da liberdade, mas é considerada, qualitativamente, como paradigma da realização humana. Diante disto, é preciso dizer: a liberdade não constitui um paradigma, não é o valor fundamental que permite a realização da pessoa humana: é, ao invés, a característica que deve acompanhar todos os valores humanos, para que o sejam realmente.
Com outras palavras: a liberdade, como adjetivo, deve acompanhar todo substantivo: senão, este último perde o seu caráter de valor. Porém, quando o adjetivo quer tornar-se substantivo, absolutiza a liberdade, autodestruindo-se, e destruindo o próprio sujeito. (Convém recordar a etimologia da palavra "absoluto": ab-solutus nos evoca o “desligamento” de qualquer outra coisa).
Contra esta absolutização formalista da liberdade, podemos citar até um autor de modo algum suspeito de “ascetismo”, Frederico Nietzsche:

"Tu te chamas livre? Quero conhecer teu pensamento dominante, e não que escapaste de um jugo.

És alguém ao qual é lícito escapar de um jugo? Mais de um lançou para fora de si o seu último valor jogando fora a sua última escravidão.

Livre de que? Isto pouco interessa a Zaratustra! Os teus olhos devem anunciar-me com clareza: livre para que?2 (o grifo é do autor).


Gostaria de aprofundar este tema recorrendo ao pensamento daquele que tem sido considerado, na literatura universal, o maior conhecedor do coração humano: F. M. Dostoievski. É um lugar comum citá-lo como o escritor que defendeu, mais do que qualquer outro, a liberdade humana; todavia soube, por outro lado, apresentar genialmente os riscos desta mesma liberdade, quando procura elevar-se como valor absoluto da existência humana.
Dentro da impressionante galeria de personagens de Dostoievski, encontramos três que encarnam, de diferentes perspectivas, a tentação da liberdade absoluta, que corre o risco de levá-los à autodestruição, e em dois casos acontece (mediante o suicídio). Na perspectiva ética, encontramos Raskolnikov, de Crime e Castigo, obsessionado pela questão da posssibilidade de existirem "homens superiores", e se lhes é lícito fazer tudo (e, concretamente, se ele é um desses seres excepcionais); Kirillov, no romance Os Demônios, que encarna a radicalização teológica da liberdade, pretendendo contemporaneamente eliminar e suplantar Deus, entendido como Senhor déspota absoluto e Patrão de toda liberdade; e sobretudo Stavroguin, no mesmo romance, do ponto de vista ontológico: personagem fascinante para todos os que o rodeiam, embora se trate apenas de uma bela estátua que, infelizmente, na realidade é vazia por dentro. Um dos melhores especialistas de Dostoievski, Luigi Pareyson, comenta: “A sua liberdade é puro arbítrio, que, não tendo diante de si nenhuma norma para violar, tampouco tem um objetivo para se propor, e portanto gira sem rumo, dissolvendo-se na apatia, na náusea, na inatividade, numa espécie de inútil experimentação e de inércia destrutiva. Seu poder era grande e temível, e grande e terrível é a destruição que daí deriva: os homens que sofreram seu influxo se perdem; e ele próprio, ‘caráter sombrio e demoníaco’, põe-se o problema supremo: ser ou não ser? Viver ou destruir-se?’ E se destrói: o suicídio imprime o selo do nada a uma vida que teve somente o nada como lema”3.
Sem dúvida, trata-se de casos extremos; mas justamente por isto, manifestam com perfeição o perigo de uma liberdade que não aceita, humildemente, ser adjetivo que acompanha inseparavelmente os valores que realizam, humanamente – e, no nosso caso, também cristãmente e religiosamente – a pessoa: em primeiro lugar e antes de tudo, o amor, porque não existe amor autêntico que não seja livre. A liberdade é o incontornável terminus a quo da realização humana, abaixo do qual perdemos a nossa dignidade humana, e nos transformamos no rebanho que segue o Grande Inquisidor (e Deus nos livre de ser "grandes inquisidores" que atentam contra a liberdade dos seus irmãos!): mas de nenhum modo constitui o terminus ad quem desta realização.

Catálogo: portugues
portugues -> Trigésimo segundo período ordinário de sessões oea/Ser. G 2 de junho de 2002 ag/doc. 4059/02 ad
portugues -> Conselho permanente da oea/Ser. G
portugues -> Africanidades Escola Notre Dame 5ª sériesAeB 2011
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portugues -> Enviados aos jovens em comunidades no seguimento de cristo
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portugues -> Conselho permanente da oea/Ser. G organizaçÃo dos estados americanos csh/GT/ads-22/04 cor
portugues -> OrganizaçÃo dos estados americanos conselho Interamericano de Desenvolvimento Integral (cidi)
portugues -> A inserção dos fiéis leigos nas Novas Comunidades Cristãs
portugues -> Original: espanhol


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