Portugal visto de Nagasaki: Uma cultura que deixou marcas



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Portugal visto de Nagasaki: Uma cultura que deixou marcas
Diego Yuuki*
Janus 2004

O grande comércio de Portugal com o Japão nos séculos XVI e XVII, que está na origem da cidade de Nagasaki e que a desenvolveu até torná-la num centro indispensável para o país e seus governantes, ainda hoje suscita leituras desfiguradas. Nesse comércio, os portugueses funcionavam sobretudo como intermediários entre o Japão e a China, o Japão e Malaca. Com o tempo, essa intermediação perdeu razão de ser e hoje, o que resta dela é irrelevante: a distância entre os dois países, o custo dos transportes, a diferença dos níveis de vida entre o Japão e a China, tudo isto a tornou obsoleta. Quando hoje o Japão olha para Portugal, vê-o mais como uma base para contactos com a União Europeia.


Como não há rivalidade comercial nem litígios territoriais entre os dois países, as relações no campo político são cordiais. Nos últimos anos, diante do papel pacificador de Portugal em África, cresceu no Japão uma estima pelos seus dirigentes. Mas há uma matéria delicada: Timor-Leste. Sobre Timor, a posição de Portugal é clara. A das Nações Unidas, em princípio, também. Mas o Japão está fortemente ligado à Indonésia por interesses económicos, e isso faz com que os dirigentes japoneses mantenham o silêncio sobre a opressão exercida sobre os timorenses e prefiram que não se toque no assunto.
Enquanto escrevo estas linhas, a cidade de Nagasaki estuda a possibilidade de dar a uma das suas ruas o nome do padre Luís Fróis. Uma das propostas em análise interessa uma rua da cidade velha, que ligava o Colégio de São Paulo à Casa da Misericórdia: um percurso que Fróis fez muitas vezes. Luís Fróis, 1532-1597, não precisa de apresentação no Japão. O autor da "História de Japam" viveu na época em que o país se unificou sob o governo de duas grandes figuras: Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi; e deixou-nos sobre eles uma série de dados que não se encontram nas crónicas japonesas. Por isso, o seu nome é conhecido em programas de televisão e em novelas históricas: ele é um autor indispensável a quem estuda o "Século Cristão" do Japão.
Chegou ao Japão em Julho de 1563, ao porto de Yokoseura, e faleceu em Nagasaki a 8 de Julho de 1597, no Colégio de São Paulo. O lugar onde morreu está agora ocupado pelo edifício do governo da Prefeitura da cidade. Em 1997 celebrámos o quarto centenário da sua morte, tanto em Tóquio como em Nagasaki, com diversos actos evocativos da sua memória. No parque Nishizaka, lugar onde morreram os 26 santos do Japão, há um pequeno monumento em memória de Fróis, o homem que escreveu a história do encontro entre Portugal e o Japão. O monumento foi inaugurado em 1993 pelo então presidente português Mário Soares. O que Fróis foi no campo da história, foi-o João Rodrigues "Tsuzu" (o Intérprete) no campo da linguística. As suas duas gramáticas da língua japonesa, "Arte da Língoa lapôa" (Nagasaki 1604-1608) e "Arte Breve da Lingoa lapôa" (Macau 1620), são o melhor estudo feito nesse tempo sobre o idioma japonês; modernamente foram traduzidas para japonês e são estudadas por especialistas. Ele também escreveu uma História do Japão, de que só se conserva uma parte. O capítulo que dedica à "Cerimónia do Chá" é uma pequena jóia. Existe uma magnífica biografia sua, "Rodrigues o Intérprete", de Michael Cooper, recentemente traduzida para japonês. E a embaixada portuguesa em Tóquio premeia anualmente o melhor livro editado no Japão sobre o intercâmbio cultural entre os dois países. Outro nome bem conhecido de muitos japoneses é o de Luís de Almeida, 1525-1588, médico, comerciante e missionário jesuíta: ele introduziu no Japão a cirurgia europeia, fundou um hospital na cidade de Oita e divulgou as ideias e a prática da Irmandade da Misericórdia, que tanto viria a influenciar a formação da chamada "cultura de Nagasaki". Há monumentos evocativos de Almeida nas cidades de Hondo (Amakusa), Nagasaki e Oita — onde um magnífico hospital tem o seu nome. Há várias biografias de Almeida e estudos sobre ele escritos por japoneses nos tempos modernos.
Num outro registo, vários dos "capitães-mores" de Macau são recordados na região de Nagasaki. O nome de Tristão Vaz da Veiga está gravado no monumento que, junto à Câmara, recorda a fundação do porto e da cidade (1570-71). E ainda se fazem esforços para encontrar, nas águas turvas da baía de Nagasaki, os restos da nau "Nossa Senhora da Graça", do infortunado capitão André Pessoa (... -1610). Um dos aventureiros japoneses que têm procurado o navio descobriu em 1997, junto a uma ilha rochosa à entrada do porto, uma imagem de Nossa Senhora, com uma oração por Pessoa e pelos que com ele morreram.
As naus portuguesas nunca chegaram a Sakai, o grande porto comercial de Osaka; mas quem dele se acerca descobre, na ponte sobre o pequeno rio que ali desagua, a figura de um fidalgo português debruçado sobre o varandim, como que absorto em seus pensamentos enquanto contempla a corrente. Não se pode abordá-lo: é apenas uma figura de bronze ali colocada há não muito tempo. Os museus de Kobe, Tóquio e Nagasaki, com os seus biombos multicolores, os "Nambam Byobu", recordam todos os anos a romântica história da chegada a estas costas da "Nau do Trato".
Não são poucos os museus locais que mantêm viva a memória do encontro luso-nipónico nos séculos XVI e XVII — em Nagasaki, Amakusa, Oita e Hirado. Omura está a criar o seu próprio museu, tendo como tema principal o encontro com a cultura europeia, em que teve acentuado protagonismo. Depois da geminação de Nagasaki com o Porto, está à vista a de Omura com Sintra. A pequena ilha de Tanegashima, a sul de Kagoshima, revive anualmente, de forma especial, a chegada dos primeiros portugueses em 1543. Uma festa pontuada por descargas de mosquetes, os "Tanegashima Teppo", fabricados segundo o modelo dos trazidos pelos portugueses, e tornada símbolo de amizade pela delicada história de "Wakasa Hime", a filha do forjador Tokisada.
A estátua de pedra, símbolo dos "homens do mar" portugueses, talhada para a exposição de Osaka de 1970, destaca-se agora junto ao porto de Nishi Omote, a norte, principal cidade da ilha. Outro monumento, no cabo Kadokura, a sul, assinala o lugar onde fundeou a nau de António Peixoto e seus companheiros. A um par de quilómetros dali, seguindo pela costa, ficam os novos edifícios e torres de lançamento da base espacial japonesa. O que Tanegashima é a sul de Kyushu, é-o, a norte de Nagasaki, o pitoresco porto de Yokoseura, primeiro porto franco do Japão, dedicado ao comércio português. Sobre a ilhota cónica que parece guardar a entrada do porto, os habitantes voltaram a erguer, desta vez em cimento e ferro, uma grande cruz como a que, em 1562, os homens do capitão D. Pedro Barreto Rolín ali ergueram. No local onde se erguia a igreja de Nossa Senhora da Ajuda, construída por Luís de Almeida, há agora um pequeno parque histórico. O seu miradouro, que domina uma bela paisagem, tenta imitar o perfil da Torre de Belém.
E diversas estrelas de pedra indicam aos visitantes o lugar onde os barcos fundeavam, a colina onde viviam os portugueses e o local da residência do daimyo D. Bartolomé Omura Sumitada, grande amigo dos portugueses e fervoroso cristão, ali baptizado. Yokoseura, na sua breve vida de um ano e meio como porto comercial, foi como que a maqueta do projecto de onde veio a nascer Nagasaki, cidade de características únicas no Japão. Talvez por isso, os jovens de Yokoseura e de Saikai, o distrito a que ela pertence, levaram há pouco a Lisboa o som dos seus tambores, "taiko" e címbalos.
O ritmo profundo e vibrante desses tambores, que parece nascer do marulho do mar, faz reviver as emoções reprimidas dessa história brilhante e trágica de há 450 anos. Kuchinotsu, mais um porto da prefeitura de Nagasaki, é outro lugar que guarda a memória das naus portuguesas. Aqui entrou, em 1567, o navio de Tristão Vaz da Veiga, forçando inconscientemente a abertura do porto de Nagasaki. Aqui decidiram estabelecer esse novo porto o padre Cosme de Torres e o daimyo Omura Sumitada. Doze anos mais tarde, a nau de Lionel de Brito trouxe a esse porto o homem que viria a reorganizar a Igreja japonesa, Alejandro Valignano. Também aqui, museu e monumentos comemoram essa história, iluminada, neste caso, pelo sacrifício dos mártires.
A memória dos mártires portugueses manteve-se viva não só nas celebrações eclesiásticas, mas também nas tradições populares, como mostram os monumentos erguidos nos locais de martírio: Diogo Carvalho, de Coimbra, tem o seu monumento aos pés do castelo Aoba, em Sendai, junto às frias águas do rio onde foi atormentado. Uma cruz de pedra e uma igreja de ladrilho vermelho recordam o tormento, nas águas sulfurosas do Monte Unzen, de Vicente Simões, vindo de Albufeira. Entre laranjais está, numa colina de Kori (Omura) o lugar de martírio de João Baptista Machado de Távora, vindo da Terceira, Açores. Outra cruz assinala onde ficava a prisão de Suzuta, Omura, onde morreu Ambrósio Fernandes, o mercador que se tornou missionário. Também nas festas populares há uma força misteriosa que transforma as antigas perseguições em laços de amizade.

A festa popular mais conhecida em Nagasaki é a "O-Kunchi", que se celebra actualmente a 7, 8 e 9 de Outubro. Nasceu em 1630, no auge da perseguição ao cristianismo, como mais um esforço dos governadores da cidade para fazer esquecer as antigas festividades cristãs. Radicada no templo shintoísta "Suwa-Jinja", a colónia chinesa de Nagasaki imprimiu-lhe forte sabor e pouco a pouco, entre as atracções dos desfiles pela cidade, passaram a figurar modelos de navios japoneses, chineses e holandeses. Desde há oito anos juntou-se a estes modelos o da "Nau Portuguesa", com as suas velas marcadas pela cruz vermelha da Ordem de Cristo.


Há, no entanto, um outro símbolo do intercâmbio comercial, político e cultural de há quatrocentos anos que ainda cria animosidade e é o que talvez possamos chamar um símbolo de Nagasaki de sentido negativo: Dejima, "O Entulho", como lhe chamaram os primeiros portugueses encerrados ali, era uma ilha artificial, construída em terra roubada ao mar, diante do cabo onde ficava o Colégio de São Paulo. Em termos modernos, chamaríamos a Dejima um campo de concentração onde foram encerrados os portugueses para evitar o seu contacto com a população nipónica. Era, na ideia de Tokugawa lemitsu, que a mandou construir em 1634, o contrário do espírito fundacional de Nagasaki, cidade e porto construídos para receber os que vinham do outro lado do mar. Dejima seria a chave que fechava para os estrangeiros a porta do Japão, e que fechava para os japoneses o caminho para os outros países. Se, com o andar do tempo, acabou por se converter numa "janela aberta" foi graças aos habitantes de Nagasaki, que prezavam o seu porto franco. Por isto, Dejima não é o símbolo de Nagasaki e sim de uma época da sua história, a época do "Sakoku", ou do "País Fechado", que recusou a liberdade aos seus habitantes.
Actualmente está a trabalhar-se com vista à sua reconstrução, mas sem tocar na sua obscura história e procurando deixar na sombra o número dos seus primeiros reclusos, os portugueses. E talvez a silenciosa evocação dos de Dejima seja um elogio: porque aqui, os marinheiros, mercadores e fidalgos de Portugal não venderam a sua honra para a trocarem pela ganância do comércio.
Se insisto no aspecto das relações culturais e humanas é porque é neste domínio que melhor se manifesta a permanência da presença portuguesa, e também porque, mais do que os tratados políticos ou mesmo o mercado, é aqui que os povos se ligam e conhecem. O eficaz trabalho do antigo embaixador de Portugal em Tóquio, Armando Martins Janeira, que sempre vincou o passado e o presente da presença portuguesa no Japão, teve como efeito a criação de Sociedades Luso-Japonesas em diversas cidades: Tóquio e Nagasaki, Tokushima e Kobe, Oita e Tanegashima. Nos seus livros e artigos, Martins Janeira insistia acertadamente no facto de que, quando na história de dois povos houve um profundo intercâmbio cultural, esse facto não se apaga, continuando a produzir efeitos. No Japão, e de modo especial, manifesta-se o impacte do fenómeno religioso. Uma das maiores inexactidões que se escreveram, nos tempos modernos, sobre o chamado "Século cristão" no Japão, de 1543 a 1645, é esta segundo a qual "o esforço cultural foi enorme, mas o resultado zero". Qualquer pessoa com um conhecimento mediano de Nagasaki — cidade e distrito — e da chamada "Nagasaki Bunka", a "Cultura de Nagasaki", pode apreciar a permanência dos traços portugueses na língua, nos costumes, na cozinha, na mentalidade social e religiosa.

* Diego Yuuki

Padre jesuíta, Nagasaki.












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