Portugasil novela de úrsula mcgold escrita por



Baixar 87.22 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho87.22 Kb.

REDE WEB TV DE TELEVISÃO

CENTRAL WT DE PRODUÇÕES
CAPÍTULO 2



PORTUGASIL
NOVELA DE

ÚRSULA MCGOLD


ESCRITA POR

ÚRSULA MCGOLD


DIREÇÃO

WOLF MAYA

ALEXANDRE AVANCINI
DIREÇÃO DE NÚCLEO

WOLF MAYA



CENA 1. Seqüência DE IMAGENS.
Tema: “There Is No Business Like Show Business – Instrumental (Lomiranda)”.
Dois criados abrem a porta do Palácio. Carlota Joaquina entra, segurando seu vestido e de mãos dadas com D. João (jovem). Todos os criados se levantam. Carmem, Marialva e os outros criados entram atrás.
FERNANDA (OFF) No final do século XIII, a espanhola Carlota Joaquina é enviada ao reino de Portugal para casar-se com o príncipe D. João. A jovem Carlota não gostou nem de Portugal, muito menos do inexpressivo marido.
Carlota está em pé na cama. D. João caminha em direção a porta, gemendo de dor, sem parar, com a mão em uma orelha, de onde sai sangue. Ele chora, desesperado.
D. JOÃO (CHORANDO E GRITANDO) Aaaaaaaaai!
D. Maria pára, assustada. Ela vira-se.
D. JOÃO (GRITANDO) Aaaaaaaaah!
D. MARIA Ai Jesus!
FERNANDA (OFF) Carlota parecia condenada á um papel decorativo. Mas o destino preparou suas surpresas.
Todos estão vestidos de preto em volta ao caixão de D. Pedro. Ventania forte do lado de fora, percebida pela janela. Barulhos de trovões, relâmpagos iluminam a sala. Instrumental de enterro.
FERNANDA (OFF) Em pouco tempo, morre o rei, e morre o príncipe herdeiro.
D. MARIA O demônio, o demônio está a tomar o nosso país, três freiras grávidas no convento da Judas! Lá não entra homem, nunca entraram, elas juraram! Isso aqui são as provas! Isso é a prova mais cabal que o demônio está a tomar Portugal!
FERNANDA (OFF) D. Maria, a rainha, enlouquece.
Várias pessoas estão em frente ao Palácio, acenando para o alto com bandeiras do Império Português. CAM vai subindo. Carlota está na sacada do Palácio ao lado de D. João, a acenar para todos. D. Maria, Lobato e Marquês de Marialva estão atrás deles.
FERNANDA (OFF) E D. João torna-se subitamente, príncipe regente.
MARQUÊS DE MARIALVA Pobre Portugal. Uma rainha louca, um príncipe idiota...
Carlota olha para trás, para Marialva. Ela o olha da cabeça aos pés, cheia de segundas intenções.
MARQUÊS DE MARIALVA E uma princesa puta.

Carlota faz cara feia para Marialva.
CENA 2. PALÁCIO DA AJUDA. SALA. MANHÃ
Marquês de Marialva está em pé, com um folheto na mão. Carlota entra. Marialva e os criavam se curvam, em sinal de respeito. Carlota vai até o Marquês.
CARLOTA Mandastes me achar?
MARQUÊS DE MARIALVA Vossa Alteza vai se espantar com o que andam a dizer sobre a senhora e o príncipe por toda Lisboa.
CARLOTA Cuemo assim?
Marialva entrega o folheto que segura á princesa. Instrumental de tensão. Carlota se choca com o que vê no folheto. CAM vai se aproximando do rosto da princesa.
CENA 3. PALÁCIO DA AJUDA. QUARTO DE CARLOTA E D. JOÃO. MANHÃ
Carlota Joaquina está sentada na cama, fervendo de raiva. D. João está em pé em frente á princesa, lendo o folheto.
CARLOTA E usted acha, D. Joãlo, que lo que está laí non me ofende?
D. JOÃO Não vejo ofensa, Carlota.
Carlota treme de raiva. D. João continua a ler o folheto. – Todo mundo via alusões naquele folheto, só o príncipe regente que não.
D. João levanta o folheto até o rosto e lê em voz alta:
D. JOÃO (LENDO) “O gato que cheirou e não comeu”.
CARLOTA Laí está la ofensa!
D. JOÃO Pois eu não estou a ver nada, Carlota. Eu não sou gato, tu não és gata, e aqui só há coisas de gato...
Carlota se levanta. Em um ímpeto, ela arranca o folheto das mãos do marido, abre-o em frente ao rosto dele, e espumando de raiva, disse, em voz alta, nos ouvidos do marido:
CARLOTA Pueis lieia isto!
D. João aproxima-se do folheto.
D. JOÃO (LENDO) Cante-se por toda a parte, a mordida na orelha dada; A gatinha mordeu o gato, na noite duma embrulhada. E o gato só cheirou, miou e miou de dor, com uma brecha na cabeça, e nas ventas um fedor. Reis, príncipes e bispos, contai a história berrante, do gato que só cheirou, e apanhou no mesmo instante.
CARLOTA Usted viu? Non há alusiónes?
D. João, achando graça nos versos, cai em gargalhadas. Soltando fogo pelas narinas, a princesa dá as costas ao marido, solta o folheto no chão e caminha até a porta dizendo:
CARLOTA Pueis lo caso será resolvido por mim. Usted vás ver, D. Joãlo!
Carlota sai, a bater a porta.
cena 4. palácio da ajuda. sala. manhã

D. Maria está com o folheto nas mãos, o lendo. Carmem está atrás dela, tentando ver algo. A rainha se choca com o lê. Instrumental Cômico.
D. MARIA O quê que é isto? O quê que é isto? É o demônio! Mais uma prova que o demônio está a nos tomar Portugal!
CARMEM Lo que está escrito, Vuessa Alteza?
D. MARIA Não é da sua conta!
Tema: “Habanera (Bizet)”. Carlota entra. Carmem se curva diante da princesa.
CARLOTA Carimem, chame lo mordomo!
Carmem sai. D. Maria se demonstra cada vez mais chocada ao continuar lendo o folheto.
CARLOTA Que fué? Non há nada laí que la senhora non cuenheçla!
D. MARIA É o demônio!!! Ele quer levar a nossa família por inferno.
Carmem entra, acompanhada de João Couto. Os dois se curvam diante da princesa. D. Maria continua a ler o folheto, atrás deles, cada vez mais horrorizada.
CARLOTA Preciso que usted me arranjes una pessoa de confiançla para uno sierviçlo reservado.
JOÃO COUTO Alteza, o meu filho Antoninho, é de toda a confiança.
CARLOTA Pueis que vienha hablar-me.
CENA 5. CONVENTO de odivelas. varanda. MANHÃ
Arcebispo Melo caminha ao lado de uma de suas freiras, Angelina.
ANGELINA Então, meu bispo, sua Alteza o príncipe foi ferido na noite de núpcias?
ARCEBISPO Ora se foi... A Condessa de Badajoz, mais conhecida como Carmem, ouviu da própria princesa a história Tim-Tim por Tim-Tim.
ANGELINA E o senhor, como o soube?
ARCEBISPO Pelo Marialva, que ouviu da açafata condessa de Badajoz. Foi assim: O príncipe D. João, recolhendo-se ao aposento nupcial, quis naturalmente prestar á esposa a mesma homenagem que o cunhado, no aposento vizinho, estava prestando á princesa D. Maria Ana Vitória. Porém, D. Maria Ana Vitória, com dezesseis anos e mais sabida que a outra, já se conformara previamente com as homenagens próprias de todo o noivado, ao passo que D. Carlota Joaquina, menina de dez anos, ignorando o protocolo e rebelde ás conveniências, não aceitou o jogo, e, logo na primeira investida, aplicou uma violentada dentada na orelha do marido, e, em seguida, aos gritos, meteu o castiçal de prata da cabeceira na testa de D. João, abrindo-lhe uma brecha.
ANGELINA E agora, Arcebispo Melo, e agora como vai ser?
ARCEBISPO Já está tudo arranjado, soror Angelina. Gente de sangue azul não se aperta por tão pouco. Ficou assentado que sua alteza D. Carlota Joaquina terá quarto de solteira e recusará a visita do príncipe consorte até completar os quatorze anos. É o que consta do ato adicional do casamento, assinado em doze de maio, dois dias depois da tragédia nupcial. Isso, naturalmente, só será válido, enquanto a princesa quiser...
ANGELINA Como é, Arcebispo?
ARCEBISPO É assim mesmo, soror Angelina. Porque a princesinha Carlota Joaquina poderá romper o protocolo antes dos quatorze anos, tornando-se mulher na amplitude de suas prerrogativas e percalços. Será, apenas, uma questão da sua vontade, quando ela tiver... vontade.
ANGELINA Ah. Estou a entender.
CENA 6. CONVENTO de odivelas. varanda. MANHÃ
Carlota Joaquina abre o folheto em frente ao rosto de Couto da Judiciária, o Antoninho. Carmem, Lobato e João Couto estão atrás da princesa, a ouvir a conversa.
CARLOTA Tiens idéia de quem fué lo autor dieste pasquim?
COUTO DA JUDICIÁRIA Ora, Alteza, isso é do Arcebispo.
Tema: Acorde de “Habanera (Bizet)”. Carlota vira-se. Carmem, Lobato e João Couto saem de sua frente, abrindo caminho. A princesa vai até o canto da sala, pensativa. Carmem, Lobato e João Couto vão atrás.
CARMEM Este bispo vás conhecer lo diabo de pierto.
Carlota vira-se de volta. Seus criados se assustam.
CARMEM Falastes alguma cueisa, Carimem?
CARMEM Non, Vuessa Alteza. Deveria ter falado?
Os criados de Carlota abrem caminho novamente. Ela volta até Couto da Judiciária. Carmem, Lobato e João Couto vão atrás, novamente, curiosos.
CARLOTA Del orador sacro?
COUTO DA JUDICIÁRIA Este mesmo, Alteza. Lisboa toda sabe disso.
CARLOTA Piero esse bispo entión és uno devasso?
COUTO DA JUDICIÁRIA Esse bispo, Alteza, tem mais vícios de que cabelo na cabeça. É devasso, arruaceiro, ladrão, anarquista, indecente...
CARLOTA Piero és bispo. Se non fuesse, yo mandaria matá-lo. Cuemo és bispo, quero apenas castigá-lo.
COUTO DA JUDICIÁRIA Com uma surra, Alteza?
CARLOTA Non. La surra és una vingançla banal. Que castigo usted se lembraria de dar la uno bispo indecente?
COUTO DA JUDICIÁRIA Se Vossa Alteza me permite a liberdade, eu falaria.
CARLOTA Pueis fale.
COUTO DA JUDICIÁRIA Alteza, o rei D. Pedro I de Portugal, antepassado do príncipe vosso esposo, em uma ocasião, quis castigar o bispo do Porto, que era um devasso. Mandou expô-lo nu, depois de chicoteá-lo, no largo da Sé, aos olhos da plebe.
CARLOTA Piero isso non és lo bastante. Yo quero mais. Ouçla, Couto, piegue com lo auxílio de alguns criados del paçlo esse padre indecente, dê-lhe una surra de chicote nas nádiegas, aplique uno clister de pimenta del rieino, e suelte-lo nu no bairro das marafonas.
Carmem, Lobato e João Couto se chocam. Carlota vira-se para eles.
CARLOTA Acharam pueuco? Ele és uno bispo! Yo non puesso fazer algo muy pesado. Deixem de sieres maldosos! Só isto dá pro gasto praquele bispo aprender.
CENA 7. LISBOA. CENTRO DA CIDADE. TARDE
Arcebispo Melo está sem roupas, pelado, pulando de dor em conseqüência de clister de pimenta, no meio da rua. Várias pessoas estão paradas, o olhando. Algumas rindo e outras escandalizadas com a situação do pobre bispo. Maria da Luz – uma jovem atriz cômica de um teatro da rua, uma das que olham escandalizadas - corre até o bispo com um coberto, o socorrendo.
CENA 8. PALÁCIO DA AJUDA. SALA. NOITE
D. Maria está em pé em frente á Arcebispo Melo. Carlota entra. Tema: “Habanera (Bizet)”.
CARLOTA Arcebispo Mielo Pinto! Quanto tiempo.
ARCEBISPO É só Melo (RISOS).
D. MARIA O Arcebispo estava a se recuperar de um ataque que sofreu de dois delinqüentes, enviados do demônio! Ficou de cama e tudo.
CARLOTA La reina sempre delirando. Pierdión, Bispo.
ARCEBISPO Não, mas é verdade!
CARLOTA (FINGINDO ESTAR SURPRESA) Non me diga.
ARCEBISPO Não ouvistes falar da agressão de que fui vítima?
CARLOTA Ora, reverendo, la su vida dieve preocupar lo sr. bispo da capital. Aproveite que ele vem vindo e cuente los sieus problemas la ele.
Bispo José Agostinho entra.
D. MARIA A falar do diabo...
Carlota abre o seu leque. Tampando o seu rosto, sem jeito, ela vira-se para o Bispo e fala:
CARLOTA Lo notável orador sacro Arcebispo Melo perguntou-me se ouvi hablar na agressión de que fué vítima.
JOSÉ AGOSTINHO Corre pela cidade de Lisboa que o Arcebispo de um castigo do diabo.
CARLOTA Ora, que cueisa. E porque isso?
O bispo – fala, olhando para a princesa:
JOSÉ AGOSTINHO De um diabo de saias.
O bispo sabia ter sido o Couto um mandatário de uma dama de dez anos de uma elevada hierarquia...
ABERTURA
cena 9. palácio da ajuda. jardim. manhã
Carlota Joaquina, agora uma princesa de trinta e dois anos, dança ao lado de dançarinos espanhóis. CAM desce até ela.
LETREIRO: Anos depois...
Carmem e Eugênia observam Carlota dançando. A princesa pára de dançar, irritadíssima.
CARLOTA Chega! Será puessíble que niesta tierra non há dançarinos galegos que non tropecem nos sieus próprios pés? (TOM ALTO) Carimem!
CARMEM Calma, senhora. Fué lo máximo que yo pude consegui.
CAM passeia até as portas do palácio. D. João – agora também mais velho, e mais gordo - e Lobato saem do palácio. O Palácio da Ajuda está visivelmente destruído, com toda a sua fachada caindo aos pedaços e queimada.
D. JOÃO (SOTAQUE LUSITANO/TOM CHOROSO) Eu vou sentir tantas saudades do meu castelinho, vou sentir tantas saudades, Lobatinho.
LOBATO Calma, Vossa Alteza. As reformas vão começar imediatamente após que chegarmos em Queluz.
D. JOÃO Tu achas que pode ter sido a Carlota a mentora do crime?
LOBATO Imagina.
D. João e Lobato caminham em direção á carruagem.
D. JOÃO Tu sabes que Queluz é bem mais confortável, Carlota é capaz de tudo. Falando na diaba, cadê ela? (OLHANDO PARA OS LADOS). Ela não pode me ver, Lobatinho, pelo amor de Deus! Ela quer que eu me alie á Napoleão de qualquer jeito. Mas eu não vou ceder, Lobatinho! Eu não vou ceder! Cadê ela, hein? Cadê?
LOBATO Ô lá (APONTANDO PARA CARLOTA).
Carlota está a se esfregar com um soldado da corte embaixo de uma árvore.
D. JOÃO Ai Jesus! Silêncio, absolutamente silêncio! Pelo amor de Deus!
Lobato abre a porta da carruagem. D. João vai entrando. Carlota vira-se e o vê.
D. JOÃO Ai Jesus! Assim não há médico que me salve! Toca essa geringonça!
D. João fecha a porta. Lobato entra na carruagem rapidamente. Carlota corre até a carruagem, segurando seu vestido.
CARLOTA Covarde! Non vás fugir sem hablar comigo!
A carruagem vai embora. Carlota não a alcança. Ela corre até a sua carruagem. Carlota e Eugênia correm atrás.
Tema: “September (Earth, Wind & Fire).
Carlota esbarra em Eugênia.
CARLOTA Eugênia, sai da mi frente! Carimem, non aguento mais esbarrar niessa garota. Demita e contrate duas da metade del su tamanho.
EUGÊNIA Calma, Alteza, calma!
Carlota e suas criadas entram na carruagem. A carruagem vai embora. D. Maria chega até a sua carruagem.
D. MARIA Filho, filho, o demônio quer-me! O demônio exige-me!
CENA 10. ENTRADAS REIAS. MANHÃ
A música continua. A carruagem de D. João é a primeira, em direção á Queluz. A de Carlota a segunda, a seguindo. E, por fim a de D. Maria.
D. JOÃO (EM SUA CARRUAGEM) Vás logo, Lobato! Vás logo!
CARLOTA (EM SUA CARRUAGEM) Rápido, rápido, rápido!
D. MARIA O demônio quer me pegar, não deixe, mais rápido! Ele está correndo lá atrás! O demônio quer-me, ele exige-me, ele quer me levar!
CENA 11. PALÁCIO DE QUELUZ. ENTRADA. MANHÃ
A música continua. Os soldados da corte, entre eles Gastão, estão sentados embaixo de uma árvore, a descansar. Um soldado avista a carruagem de D. João. Ele se levanta.
SOLDADO Atenção! É o príncipe! Rápido!
Quatro soldados se levantam. Rapidamente, pegam trombetas e começam a tocar. Ele avista a carruagem de Carlota.
SOLDADO E a princesa também!
Mais quatro soldados se levantam. Eles pegam trombetas e começam a tocar, ao lado dos soldados que já tocam. O soldado avista a carruagem de D. Maria.
SOLDADO (IMPRESSIONADO) E a rainha!
Mais quatro soldados se levantam, desde vem já com trombetas nas mãos. Eles começam a tocá-las.
As carruagens chegam. Primeiramente, a de D. João. Os soldados tocam as trombetas em direção ao do rei. O soldado aponta para a carruagem de Carlota. Os soldados viram-se para a carruagem da princesa e continuam a tocar. A carruagem de Carlota passa. O soldado aponta para a carruagem da rainha. Os soldados se viram novamente tocando as trombetas em direção á carruagem de D. Maria. A carruagem da rainha passa.
SOLDADO (ALIVIADO) Ufa!

CENA 12. PALÁCIO DE QUELUZ. JARDIM. MANHÃ
Todas as carruagens, em alta velocidade, principalmente as de D. João e Carlota, chegam ao jardim do Palácio. A cama de D. João, que estava pendurada atrás de sua carruagem, ela quebra ao cair no chão. D. João sai de sua carruagem. Lobato também.
D. JOÃO Ai Jesus. Estou com falta d’água. Vai...
LOBATO Vossa Alteza mandou-me ir o mais rápido possível. Vossa Alteza está bem?
D. MARIA (OFF) Aaai! É o demônio!
A porta da carruagem de Carlota se abre com um violento chute com os pés. Carlota vai saindo de sua carruagem. D. Maria cabeça para fora de sua carruagem. Carmem e Eugênia descem atrás. Instrumental Cômico.
D. MARIA Ai, é o demônio! É ele! É o demônio que quer agarrar-me! É ele! Não o deixem me pegar!
CARLOTA Alguésm cala la bueca diesta infeliz? Antes que yo mate ela!
D. Maria dá língua para Carlota. A princesa retribui, também dando língua.
CARLOTA Lueuca!
D. João vai até a sua cama quebrada, chorando. Lobato o campanha.
D. JOÃO (TOM CHOROSO) A minha caminha de estimação! (CHORANDO) A minha caminha não!
CARLOTA Qual és lo problema, Joãlo?
D. JOÃO (TOM CHOROSO) Carlotinha, a minha caminha quebrou.
CARLOTA Este rieino miserável, que tiemos que muever las camas de uno castelo para lo outro. Porque non há camas suficientes no rieino de una reina lueuca, lueuca! E de uno príncipe frouxo, só los padres tem tudo lo que querem e mais uno pueuco!
D. JOÃO Eu não vou brigar, eu não vou brigar, não adianta me ofender que eu não vou brigar.
Carlota bate em D. João com seu leque.
D. JOÃO Ai Jesus!
CARLOTA Sabe por quê? És um nada. Não sabes absolutamente nada. E ficas aqui ocupando espaço, espaço, espaço. Cada vez mais espaço, pois estás cada dia mais gordo! Porque a única coisa que sabes se preocupar é em comer! (A COLOCAR A MÃO EM UM BOLSO DE D. JOÃO) Estás com uno franguito? Estás?
Carlota vasculha o bolso do marido.
D. JOÃO Aí não, Carlota, aí não!
Carlota tira uma coxa de frango do bolso do marido. Carlota aponta a coxa para o alto, ameaçando atirar.
D. JOÃO Não faças isso, Carlota. Não faças isso.
CARLOTA Tu vás continuar a ser lacraio dos ingleses estúpidos, Joãlo?
D. JOÃO Todo mundo tem direito da sua opinião!
Carlota atira a coxa de frango longe.
D. JOÃO Ai Jesus! Meu franguinho não! Meu franguinho!
CARLOTA Claro, claro. Cada uno tem direito. E a minha opinião de usted é que tu és um mierda!
Carlota empurra D. João.
CARLOTA Uno mierdión enorme!
Os soldados da corte riem. D. João vê. Ele toma coragem e fala:
D. JOÃO (TOM ALTO) Tu estás nervosa, é isto?
Carlota empurra D. João novamente.
Tema: “Habanera (Bizet)”. Carlota anda em volta de D. João.
CARLOTA Nervosíssima, muy nervosa! Porque yo poderia ser uma reina, una reina divina, una reina en tuedos los salães da Europa. E non essa infeliz, que tuedas las viezes que tem que se mudar, tem que lievar essa mierda de cama nas costas!
Carlota bate em D. João com seu leque.
D. JOÃO Ai Jesus!
D. João se recompõe.
D. JOÃO E o que queres mais?
CARLOTA Yo quero uno hombre, D. Joãlo, yo quero uno hombre! Yo quero uno hombre del mi lado. Uno hombreeeeeeee! Dieves ser muy caro para usted. Porque no mi lieito há mieses que non vem! Provavelmente dieves achar que gastas muy dinheiro com essa infeliz que sou yo! Lo que fazer para te agradar hiein, D. Joãlo? Lo que fazer? Criar pêlos aqui no mi pieito?
D. JOÃO (TOM ALTO/SACUDINDO CARLOTA PELOS OMBROS) Não! Calas a boca! Te cales!
Carlota avança em D. João. Ela o empurra no chão. Ele cai. Os criados, brancos e negros, riem da briga, menos Carmem e Eugênia, que tentam apartar. Carlota bate em D. João, que está de quatro no chão, com seu leque. O príncipe tenta fugir engatinhando. A princesa vai atrás, o batendo com seu leque. Eugênia tenta a controlar.
D. JOÃO Ai! Ai!
FIM DO CAPÍTULO 2




©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal