Portugueses brasileiros: Brasil, século XVI



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PORTUGUESES BRASILEIROS: Brasil, século XVI

Carmelindo Rodrigues da Silva1


No intuito de facilitar a compreensão dos primeiros portugueses que vieram para o Brasil, focalizaremos, rapidamente, Portugal no ano de 1500.

Portugal do século XVI tinha uma população de aproximadamente hum milhão e cem mil habitantes2. Era dez vezes menor do que a França, sete vezes menor do que a Espanha, não podia nem ser comparado com a Alemanha e era ainda menor do que a Holanda. No entanto, esse pequeno país da península ibérica será um destaque mundial nos séculos XV, XVI e XVII. Além de quebrar um paradigma, o comércio do Mediterrâneo substituído pela força do descobrimento de uma nova rota para as Índias, contornando a África, desenvolve o astrolábio e produz a caravela, considerada o primeiro navio a vela confiável em alto mar e para viagens de longas distâncias. Estes fatores facilitarão o transporte marítimo. A navegação torna-se mais segura, o comércio de longa distância será o grande beneficiado. Como foi possível para um país tão pequeno, de recursos limitados, tamanha proeza? Pesquisadores da história de Portugal, mostram-nos alguns aspectos que podem lançar um pouco de luzes sobre a personalidade desse povo, e na importância que esta teve como propulsora para os seus grandes feitos e também para os seus insucessos.

Sérgio Buarque de Holanda,3 destaca a personalidade das gentes da península Ibérica, muito diferente dos vizinhos do continente. Uma cultura da personalidade, desenvolvida a tal extremo, que seria o traço mais marcante desses povos desde tempos imemoriais. Os portugueses atribuiriam ao valor próprio da pessoa humana uma grande importância. A autonomia de cada homem em relação ao semelhante no tempo e no espaço seria a raiz de sua originalidade. Esta característica será o grande diferencial que fará com que esse povo venha se destacar nas grandes navegações, no descobrimento do Brasil e sua colonização.

Entre as razões que são apresentadas para justificar a personalidade dos portugueses, pode-se destacar o desapego por bens hereditários e hierarquias. O fazer-se por si mesmo, a aventura e o comércio de resultado rápido e enriquecedor será sempre um norte para os portugueses.

Garantir a posse da nova terra do Brasil constituía em um dos primeiros desafios para a Coroa portuguesa. As bulas expedidas por Roma, reservando direitos às descobertas eram importantes, mas não o suficiente. A competição entre portugueses e espanhóis pelo novo mundo estava aberta. O tratado de Tordesilhas não se sustentou e os franceses estavam dispostos a não respeitar os tratados e bulas papais. Portugal estava decidido a utilizar a força se necessário, para manter a integridade de sua colônia. Com essa determinação, foram preparadas as expedições guarda-costa. Uma expedição foi enviada para o Brasil em 1527, comandada por Cristóvão Jaques.

Uma armada de guarda-costa veio em 1527 ao Brasil comandada por Cristóvão Jacques, que já estivera antes na terra e deixara uma feitoria junto a Itamaracá, de volta de uma expedição ao Rio Prata. Desde Pernambuco até a Bahia e talvez Rio de janeiro, Cristóvão Jaques deu caça aos entrepostos; segundo testemunhas interessadas, não conhecia limites sua selvageria, não lhe bastava à morte simples, precisava de torturas e entregava os prisioneiros aos antropófagos para os devorarem. Mesmo assim ainda levou uns trezentos prisioneiros para o Reino. Devia ter causado um mal enorme aos franceses.4

Os procedimentos adotados por Cristóvão Jaques nas expedições guarda-costa, não foram exclusivos. Teve pelo menos um seguidor, Pêro Lopes. Historiadores que pesquisaram a atuação5 “guarda-costa”, afirmam que Pêro Lopes teria agido com extrema crueldade com seus prisioneiros franceses, sendo inclusive, motivo de protesto e acusação de quebra de compromissos pela França.

Não é possível reduzir a importância dessas expedições. Se não eliminaram definitivamente as incursões de corsários e piratas, os obrigaram a redobrar os cuidados nas costas brasileiras e tiveram o mérito de demonstrar a disposição portuguesa de lutar pela colônia.

No entanto, era preciso fazer mais do que enviar expedições guarda-costa. Era necessário povoar e colonizar a nova terra, antes que as potencias rivais o fizessem. Povoar e colonizar, foram exatamente as atitudes tomadas pela monarquia portuguesa.

Um povo que não possuía grandes tradições agrícolas em seu próprio país, vê-se agora, confrontado com o grande desafio de colonizar um imenso território, tão vasto que não dava para comparar com Portugal. O trabalho pesado, comer o pão produzido com o suor do próprio rosto, parece não ser exatamente o que esse povo inovador tinha em mente. O português “trabalhador”, não é facilmente percebido através dos relatos de pesquisadores6. Entendendo, que trabalhador, seria aquele capaz de executar tarefas repetitivas, exaustivas e disciplinadas. Algumas práticas no século XVI, podem clarear um pouco mais essa indisposição dos portugueses, especialmente para o trabalho agrícola: “Nós Somos Vida das Gentes/e morte de nossas vidas/a tiranos-pacientes,/que a unha e a dentes/nos têm as almas roídas”. Com esse poema de Gil Vicente de abertura, o Prof. Joaquim Romero Magalhães, (História de Portugal, p.243), fala-nos da exploração do lavrador comum no princípio do século XVI. Esse lavrador seria explorado pelos senhores da terra, pelos clérigos, por todos que não trabalhando a terra, vivem de arrenda-las. Supõe-se que seriam especialmente pesados os dízimos, que arrendavam as cobranças dessa parte devida a Deus para manutenção do clero (que os reis, através das comendas, também foram distraindo para aristocracia). “É que o produto final que os lavradores penosamente conseguiam obter estava, ainda por cima, sujeito a descontar os dízimos a Deus (10% para as dioceses e para outras instituições religiosas que tinham esse privilegio e para os comendadores rapaces)”. Soma-se a ainda, um grande número de direitos reais e senhoriais que resultavam de velhas pendências e antigos direitos em vigor. Dentro de uma realidade social em que o lavrador tem de manter uma boa parte da aristocracia e do clero, é fácil entender a citação de outros versos de Gil Vicente, que fala de um lavrador queixoso de Deus, querendo fazer de seu filho Bastião, “rapaz d’Igreja;/não com devassão sobeja/mas porque possa viver/como mais folgado seja”.7

Mas, se até mesmo em Portugal não houvesse espontaneidade para o trabalho árduo e produtivo, não seria nas colônias que os portugueses agiriam diferente de qualquer outro colono europeu, como nos relata Cáio Prado Junior:



Com a grande propriedade monocultural instala-se no Brasil o trabalho escravo. Não somente Portugal não contava com população bastante para abastecer sua colônia de mão-de-obra suficiente, como também, já o vimos, o português como qualquer outro colono europeu, não emigra para os trópicos, em princípio, para se engajar como simples trabalhador assalariado do campo. A escravidão torna-se assim uma necessidade: o problema e a solução foram idênticos em todas colônias tropicais e mesmo subtropicais da América. Nas inglesas, onde se tentaram a princípio outras formas de trabalho, aliás uma semi-escravidão de trabalhadores brancos, os indentured servants, a substituição pelo negro não tardou muito. É aliás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que explica o renascimento, na civilização ocidental, da escravidão em declínio desde fins do Império Romano, e já quase extinta de todo neste séc. XVI em que se inicia aquela colonização.8

Mas a genialidade inovadora portuguesa reagiu à altura do desafio. Para isso, os reis de Portugal souberam entrar com mais um forte incentivo, as Capitanias Hereditárias, que sem dúvida alguma, constituiu-se no que hoje poderíamos dar o nome de primeiros contratos de riscos estabelecidos para o Brasil. Por outro lado, com as capitanias marcava-se o primeiro grande esforço do Reino para povoar e colonizar a nova terra.



A necessidade de povoar era tão imediata, que segundo Capistrano de Abreu, em “Capítulos de História Colonial”, D. João III preocupou-se menos com sua própria autoridade que de armar os donatários com poderes suficientes para enfrentar desafios dos possíveis colonos ou aventureiros, como fatos semelhantes, ocorridos na história portuguesa da idade média.

Nas terras dos donatários não poderiam entrar em tempo algum, corregedor, alçada, ou outras algumas justiças reais para exercer jurisdição, nem haveria direitos de siza, nem imposições, nem saboarias, nem imposto de sal.9

D. João III teria se inspirado em carta do humanista português radicado em Paris, Dr. Diogo de Gouveia Sênior10, para a mudança de estratégia e estabelecimento das Capitanias Hereditárias no Brasil. Os poderes concedidos aos donatários, apesar de bastante amplos, não eram ilimitados. Os contemplados com as capitanias, saíram quase que na totalidade, da nobreza influente mas não preponderante, Cavaleiros da casa Real. Agrupados em duas categorias principais. Na primeira, aqueles que se distinguiram no desempenho de atividades militares e navegações, como Duarte Coelho, Francisco Pereira Coutinho, Vasco Fernandes Coutinho, Antonio Cardoso de Barros, Pêro de Góis, Martim Afonso de Sousa e Pêro Lopes de Sousa. Os segundos pertenciam à categoria dos indivíduos ligados à Coroa por terem ocupado importantes cargos na burocracia estatal. Nesta categoria estão: Jorge de Figueiredo Correa, Fernando Álvares de Andrade e João de Barros.

Mesmo possuindo um reconhecido espírito de aventura, a empreitada das novas terras do Brasil era mais árdua do que essa predisposição natural. Com poucos incentivos para imigração, era muito difícil encontrar colonos que se dispusessem para tamanho desafio. Além do mais, com uma população tão pequena, a situação da colonização tornava-se dramática. Houvesse incentivos suficientemente atrativos que entusiasmasse novos colonos portugueses, certamente que provocaria o despovoamento da metrópole. Não ocupar o Brasil, não colonizar significaria certamente a entrega das novas terras para os concorrentes internacionais. A tomada de La Pèlerine e da feitoria francesa estabelecida em Pernambuco, somado às notícias dos preparativos para o estabelecimento de outras feitorias francesas, espantou de vez a inércia real.

A opção viável que restou à monarquia portuguesa, foi à utilização dos indesejáveis, os degredados. Os representantes da monarquia, os homens considerados de bem: governadores, capitães e o clero, tiveram por companhia ladrões, assassinos, prostitutas, criminosos de todos os matizes, inclusive feiticeiros.

Arranjar colonos não era fácil; a população de Portugal na década de 1530 não ultrapassava o milhão e meio no máximo, espalhados por mais de 89 000 Km² de território (uns 16 – 17h/Km²). Com poucos incentivos para imigrar, muitos colonos tiveram antes de ser procurados entre os degredados ou exilados, que podiam ser qualquer pessoa, desde um dissidente político até um criminoso de delito comum. Com poucas exceções eram, no todo, indesejáveis, e muitos capitães queixavam-se deles, por vezes amargamente. Duarte Coelho chamava-lhes “este veneno” e tentou em vez disso, com considerável sucesso, atrair camponeses vigorosos da sua região, o Minho. 11

A mistura da gente de bem com degredados, por um lado atingia o objetivo primeiro da ocupação do solo e a possível colonização. Por outro lado, para os primeiros, responsáveis pela manutenção da ordem, esta convivência era um tormento difícil de suportar. Não havia garantias que um criminoso não voltaria a delinqüir, que a prostituta não mais prostituiria e que o feiticeiro não retornasse à feitiçaria. Muitos desses degredados constituíram-se em fomentadores de discórdias, renegados e inconfiáveis. Para Duarte Coelho, uma peçonha.12

Apesar dos esforços de Duarte Coelho para importação de colonos experientes, as iniciativas da Coroa de enviar para a terra casais e famílias constituídas, todos esses esforços não foram suficientes para equilibrar ou reduzir as levas de degredados.

Um alvará, das Ordenações, de 06 de maio de 1536 facilitava ainda mais o incremento da imigração desse considerado, rejeito humano, para as terras do Brasil. Imigrar para o Brasil, permaneceu por longos anos como um grande desafio. Em 1570, Pero de Magalhães Gandavo, com a pretensão de encorajar essa imigração, escreve uma carta, traçando o perfil do possível imigrante para o Brasil:

As pessoas que no Brasil querem viver, tanto que se fazem moradores da terra, por pobres que sejam, se cada um alcançar dois pares ou meia dúzia de escravos (que pode, um por outro, custar pouco mais ou menos até dez cruzados) logo tem remédio para sua sustentação; porque uns lhe pescam e caçam, outros lhe fazem mantimentos e fazenda, e assim pouco a pouco enriquecem os homens e vivem honradamente na terra com mais descanso que neste Reino, porque os mesmos escravos índios da terra buscam de comer para si e para os senhores, e desta maneira não fazem os homens despesa com os seus escravos em mantimentos nem com suas pessoas.13

Um verdadeiro chamariz para o novo imigrante. Promessa de riqueza fácil e ausência de esforço do trabalho. A única ação que teriam que empreender, seria imigrar para o Brasil e viver honradamente com mais descanso do que no Reino. Possivelmente, muitos se encantaram com tais promessas. E, o Brasil ganhou mais alguns “povoadores”.

Devido à escassez da população branca, os degredados não tiveram dificuldades para se estabelecerem no Brasil colonial. Por falta de quadros, ocuparam cargos na fazenda e justiça, entre muitas outras atividades que desenvolveram. O Regimento de Tomé de Souza, citado por Johnson e Silva, amparava a utilização de determinados degredados e proibia a participação de outros nas atividades mencionadas. “e isto não se estenderá nos que forem degredados por furtos e falsidades”.14 As oportunidades na nova terra, possibilitaram que muitas serpentes peçonhentas substituíssem a velha pele por outra nova e muito honrada.

De modo geral as novas terras exerciam uma forte atração para os habitantes do norte de Portugal, principalmente os do Minho. Segundo Fernão Cardim, os vianenses eram os principais de Pernambuco. Apesar de que socialmente os vianenses fossem considerados poderosos na sociedade pernambucana quinhentista, numericamente eles estavam atrás dos naturais de outras cidades. Em um universo de 277 colonos portugueses, Lisboa com 30 colonos e Porto com 29 estão à frente de Viana com 15.15

As Capitanias Hereditárias, vista do ângulo do povo que as compunham e pelos recursos que receberam, foram um verdadeiro fracasso. Começando pelos recursos: os donatários iniciaram o empreendimento com recursos próprios ou emprestados. Houve quem colocasse todas as suas economias, e com o fracasso, passou a depender de esmolas para sobreviver. Segundo Capistrano de Abreu, o fato dos donatários possuírem poderes iguais e as capitanias possuírem status de estado estrangeiro, dificultava a ação coletiva.

Os crimes proliferavam na certeza da impunidade. Autoridade existia, leis claras e prescrições restritivas também. Como colocar todos esses elementos para funcionar e dar-lhes força é que era a grande dificuldade. A alternativa que restou a D João III foi tomar posse da capitania deixada abandonada com a morte de Francisco Pereira Coutinho, instituindo assim o primeiro governo geral. Com recursos, da coroa e desta vez com uma organização vigorosa:



Acompanhado por quatrocentos soldados, seiscentos degredados, muitos mecânico pago pelo erário, partiu de Lisboa em fevereiro o primeiro governador geral, Tomé de Souza, com Pero Borges, ouvidor geral, Antonio Cardoso de Barros, procurador-mor da fazenda, e aportou à baia de Todos-os-Santos em fins de março de 1549.

Pode-se perceber, que apesar do princípio de mudança no sistema governo-administrativo da colônia, não houve mudança do tipo de gente que vem para o Brasil. O comportamento desses degredados, em boa maioria, não era em nada positivo. Duarte Coelho não foi o único a reclamar do mau proceder dos mesmos. Mem de Sá, teria escrito ao rei em 31 de março de 1560, reclamando dos choques de jurisdição, que não ocorria somente entre capitanias, mas também, entre governadores gerais e ouvidores gerais. Questiona o exagerado numero de tabeliães e inquisidores, que estariam gerando mais uma vez impunidades. Finaliza, com o desabafo de que: “esta terra de degredados e malfeitores que os mais deles mereciam a morte e que não tem outro ofício senão urdir males”. Mem de Sá pede mais poderes para manter o povo na ordem.

Imaginar que todos esses degredados seriam ladrões, assassinos e prostitutas é um grande exagero. Igualmente, seria redutor tê-los em sua maioria como perseguidos políticos. Mas, um bom reforço chegava à nova terra, para colaborar no trato do comportamento do povo e unidade da colônia: as ordens religiosas.

Não é possível negar a religiosidade portuguesa do século XVI. No entanto, percebe-se que a prática desta religiosidade é um tanto questionável, e muitas vezes pragmática. A monarquia anunciava o seu grande ideal evangélico, e de fato investia nesse objetivo. Mas, esse horizonte de evangelização dos gentios será sempre, na prática, uma segunda opção que justificará a primeira: a busca de riquezas e o comércio. Somente em 1549, com a vinda do primeiro governador geral do Brasil, Tomé de Souza, a questão religiosa passou a ser tratada com o empenho de maior vigor. Junto com o governador geral, chegavam também os primeiro jesuítas, e o superior destes, o padre Manuel da Nóbrega



As ordens religiosas no Brasil constituíram a ponta de lança da Igreja na propagação da fé e da cultura. A evangelização e a catequese sistemáticas iniciaram-se em 1549 com a vinda do primeiro governador-geral Tomé de Souza e de pequeno grupo de Jesuítas. Nos finais do século XVI, foi à vez dos Beneditinos, dos Carmelitas e dos Franciscanos se estabelecerem no Brasil.16

Os serviços prestados pela Companhia de Jesus foram de importância fundamental. Ao chegarem na nova terra, encontraram colonos embrutecidos ou a caminho de embrutecerem, devido ao afastamento de tudo que a civilização que conheciam podia lhes oferecer, e pelas exigências inevitáveis dos meios de produção. Uma característica de grande importância no comportamento dos jesuítas, e que muito contribuiu para o sucesso de sua missão, foi sua extrema maneabilidade. Procuravam adaptar-se ao estado de espírito dos indivíduos que desejam evangelizar. Consideravam seus usos e costumes, e às vezes, até mesmo suas superstições, onde lhes parecia compatível com sua fé.

O padre jesuíta João de Aspilcueta Navarro, distinguiu-se no estudo das línguas dos indígenas, no intuito de adapta-las ao culto de doutrinação. O mesmo procedimento foi adotado mais tarde com os africanos, principalmente com os de angola.

O monopólio do ensino jesuítico, permitiu ao Estado e à Igreja estabelecer a unidade política e religiosa no Brasil colonial. Os colégios dos Jesuítas tiveram a tarefa primordial na difusão da língua portuguesa. Pressupõe-se que essa tarefa não tenha sido fácil, considerando que a língua geral, a tupi continuou sendo utilizada nos meios popular nesse período.

Uma das primeiras tarefas dos jesuítas no Brasil, foi reordenar e moralizar a missão do clero secular que aqui encontraram. A maior parte destes clérigos estava vivendo como muitos degredados. Consentiam e incentivava a prática daquilo que era considerado mal proceder. Lamentavelmente, a Companhia de Jesus que no começo, com Manuel da Nóbrega, pedia ajuda ao rei para sobreviver, inclusive com juramento de pobreza, entregou-se aos poucos à sedução das atividades econômicas. Esta mudança de comportamento levou-os fatalmente, do fervor evangélico para o amor profano do lucro.

O clero secular, não teve um bom desempenho até a primeira metade do século XVI. A razão dessa má performance, credita-se à falta de uma autoridade episcopal em solo brasileiro e dificuldades de recrutamento de sacerdotes. A dificuldade de recrutamento poderia estar provocando a vinda para o Brasil de clérigos de qualidades semelhantes à dos degredados que estavam livres para emigrar para o Brasil. Outro motivo seria a má formação desses padres e mesmo o analfabetismo de muitos formados no Brasil. É possível conhecer um pouco da opinião popular sobre o clero secular, através das confissões à inquisição no final do século XVI.



A existência de clérigos amancebados dava origem ao dito que o estado de casado era superior ao estado religioso, frase que o Santo Ofício interpretava como uma heresia luterana mas que, na verdade, nada mais era do que a expressão decorrente da observação, por parte do povo, da mancebia dos clérigos. (...) Também reclamava a população das propostas desonestas que alguns clérigos faziam às mulheres que iam confessar.17

Pelo seu comportamento inadequado, o clero secular perdeu a confiança dos colonos, e outros constituíam em mau exemplo com o seu proceder. Quanto aos colonos, a grande maioria, viviam de forma igualmente reprovável.



Os sacerdotes que cá estavam todos nos mesmos pecados dos leigos, e os demais irregulares, outros apostatas e excomungados. Alguns conheceram seu pecado e principalmente um pediu perdão a todo o povo com muita edificação. Alguns que foram contumazes não dizem missa e andam como encartados sem aparecerem, por seus erros serem mui públicos e escandalosos; os outros nos amam de muito. Estavam os homens cá em grande abusão que não comungavam quase todos por estarem amancebados, e todavia os absolviam sacramentalmente, de maneira que pelas constituições ficavam excomungados e homens que havia 20 anos que estavam nesta terra sem comungarem.18

A falta do referencial social que estavam habituados tornava-os, pouco a pouco, brutalizados. Ao contato com os naturais da terra, assumiram a poligamia e houve quem chegasse a incentivar aos indígenas a prática da antropofagia.19 A fé, a religião e sua prática não tinham como competir com as atividades do canavial e do engenho. Parece-nos que, esse pragmatismo religioso dos colonos portugueses não sofreu alteração com o correr dos anos. Provavelmente, fruto de observações que presenciou no final do século XVII, André João Antonil ressalta em sua obra a permanência do relaxamento dos colonos pelos compromissos da fé:



Outros, são pouco cuidadosos do que pertence à salvação dos seus escravos, que os tem por muito tempo no canavial ou no engenho, sem batismo; e, dos batizados, muitos não sabem quem é seu Criador, o que hão de crer, que lei hão de guardar, como hão de se encomendar a Deus, a que vão os cristãos à igreja, por que adoram a hóstia consagrada, que vão dizer ao padre, quando ajoelham e lhe falam aos ouvidos, se tem alma, e se ela morre, e para onde vai, quando aparta do corpo.20

O enriquecimento, os lucros permaneciam em primeiro lugar. As oportunidades sexuais liberaram os limites sociais preestabelecidos pela metrópole. É de supor, quantos danos à soltura sexual desses colonos tenha causado aos povos que lhes estavam submetidos. Segundo declaração do padre Manuel da Nóbrega, em uma de suas cartas, a terra seria muito sã. Desde que chegara não tinha visto ninguém morrer de febre, e sim de velhice. Mas, faz uma ressalva: muitos morrem do mal gálico.21

Uma religião oficial, ortodoxa, confronta-se com a prática dos primeiros colonizadores portugueses: pragmáticos e pouco ortodoxos. A decisão de D. João III de povoar e colonizar o Brasil, foram de fundamental importância. Os homens escolhidos para estarem à frente desse grande desafio, teriam que ser especiais.

Experimentados em outras empreitadas e de confiança. Esta seria a característica de Pero do Campo Tourinho. Natural de Viana do Castelo, o donatário de Porto Seguro era um homem considerado de grandes qualidades e de iniciativa, esforçado, prudente, e entendido em coisas do mar, segundo Jaime Cortesão,22 faltava-lhe os dotes de mando que o cargo exigia. Tantas qualidades não foram suficientes para suplantar sua deficiência, tira-lo da rota de colisão com o clero local.



Logo em meados do século XVI, começaram as inquirições sobre a ortodoxia dos habitantes do Brasil, datando de 1546 a inquirição que o vigário da vila de Porto Seguro tirou, juntamente com o padre Manuel Colaço e o juiz ordinário Pêro Anes Vicente, sobre: “as heresias e blasfêmias” proferidas por Pêro do Campo Tourinho, donatário da capitania de Porto Seguro.

Preso e levado para Lisboa, em seu interrogatório de 08 de outubro de 1547, na casa de despacho da Santa Inquisição, após se declarar muito bom católico e referir às igrejas que ajudou a construir, fala de seu trabalho na construção de engenhos e outras medidas destinadas a povoar e desenvolver a capitania. Esse seria, na verdade o principal ponto de conflito do donatário com o clero de Porto Seguro.23

“Repreendia às vezes o vigário francês por dar guarda S. Guilherme e S. Martinho e S. Jorge e outros santos que não mandava guardar a Santa Madre Igreja nem os prelados os mandavam guardar em suas constituições, porquanto a terra era nova e era necessário trabalhar para povoar. Só quem era preguiçoso e queria jogar e folgar é que buscava tantos santos”. 24

Em 1584, o padre Fernão Cardim em visita a Pernambuco, constata que os homens desta região são valorosos, mas que se encontram endividados devidos aos gastos com a manutenção dos escravos e por viverem regaladamente sem controle financeiro. No aspecto religioso, falando das mulheres, destaca: “As mulheres são muito senhoras, e não muito devotas, nem freqüentam as missas, pregações, confissões, etc”.25

O perfil traçado por Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, das gentes da Península Ibérica mostra-se bastante acurado, especialmente no que concerne aos portugueses. Para esse autor, muito da originalidade nacional desse povo, deve-se a importância individual que cada um confere a si mesmo. “Para eles, o índice do valor de um homem infere-se, antes de tudo, da extensão em que não precise depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes...”26 A originalidade dos portugueses não deve ser mensurada apenas pelos os mesmos possuírem peculiaridades diversa de seus vizinhos europeus. Deve ser aferida também pelas suas realizações, que tem o seu ápice no descobrimento do caminho marítimo para Índia e posse e colonização do Brasil. O aparente individualismo presente na citação acima, é menos real do que a importância creditada ao esforço próprio e às virtudes. Esforço e virtudes individuais, compunha o carisma de muitos dos colonos e clérigos que vieram para a nova terra. Quanto aos degredados, possuindo ou não esse carisma, teriam que no mínimo se esforçarem para sobreviver, mesmo que fosse às custas do trabalho alheio.

Um esforço de guerra criou a expedição guarda-costas. Uma forte determinação desencorajou os possíveis invasores, notadamente os franceses. Outro grande esforço estabeleceu as capitanias hereditárias.

Sem apoio material, mas com a promessa de receber uma terra em que se plantando tudo produziria, muitos venderam o que possuíam ou tomaram empréstimo e imigraram para uma terra distante e desconhecida, terras da promissão. Em princípio, o objetivo era enriquecer e viver com mais folga do que naquele Reino. Com o passar dos anos, influenciados pela geografia e pelos povos subordinados, uma sutil mas vigorosa nova forma de viver era estabelecida. Até mesmo as idéias de solidariedade que segundo Sérgio Buarque de Holanda seria algo difícil de se encontrar nas gentes da Península Ibérica, na nova terra passa ser cultivada e torna-se significante.27

Os engenhos deste recôncavo são trinta e seis; quase todos vimos, com outras muitas fazendas muito para ver. De uma cousa me maravilhei nesta jornada, e foi a grande facilidade que tem em agasalhar os hospedes, porque a qualquer hora da noite ou dia que chegávamos, em brevíssimo espaço nos davam de comer a cinco da Companhia (afora os moços) todas as variedades de carnes, galinhas, perus, patos, leitões, cabritos, e outras castas e tudo tem de sua criação, com todo o gênero de pescado e mariscos de toda sorte, dos quais sempre tem a casa cheia, por terem deputados certos escravos pescadores para isso, e de tudo tem a casa tão cheia, que na fartura parecem uns condes, e gastam muito.28

É possível pensar que as boas recepções dispensadas ao padre visitador e a seu companheiro, Fernão Cardim, tenham sido um tratamento interesseiro daqueles que pretendiam agradar ao poderoso visitador. No entanto, outras fontes destacam a hospitalidade calorosa dos primeiros colonos. Uma população portuguesa rarefeita, longe de Portugal e sujeita a agressividade de tudo que lhes eram desconhecido, somente a solidariedade poderia garantir-lhes a sobrevivência e, de quando em vez, matar a saudade das novidades do Reino.



Os moradores destas Capitanias tratão-se muito bem e são mais largos que a gente destes Reinos, no comer como no vestir de suas pessoas, e se alegram de ajudar uns aos outros com seus escravos, e muito favorecem os pobres que começam a viver na terra. Isto geralmente se costuma nestas partes, e fazem outras muitas obras pias: por onde todos tem remédio de vida, e nenhum pobre anda pelas portas a mendigar como nestes Reinos.29

No século XVII, André João Antonil observa, e registra no limiar do século seguinte que o bom comportamento dos portugueses estava bem sedimentado. “A hospitalidade é uma ação cortês, e, também, virtude cristã, e no Brasil muito exercitada e louvada”.30 Inovação, determinação, coragem e o espírito de aventura trouxeram alguns portugueses para as terras do Brasil. Muitos outros, se a opção de escolha, tiveram que resignar com o destino que lhes foram determinados. Todos, se surpreenderam na nova terra, pois esta era mais pródiga do que imaginavam. Surpresos também ficaram, ao perceber que apesar da mesma origem, da mesma língua, já não se sentiam tão portugueses. Percebiam-se como portugueses brasileiros, como brasileiros.


Fontes:

CARDIM, Fernão. Tratados da Terra e Gente do Brasil (1540? – 1625): Belo Horizonte, Itatiaia, 1980.

GANDAVO, Pero de M. Tratado da Terra do Brasil: Belo Horizonte, Itatiaia, 1980.

ANTONIL, André J. Cultura e Opulência do Brasil: Belo Horizonte, Itatiaia, 1997.

NÓBREGA, M. Cartas do Brasil Vol. 1: Belo Horizonte, Itatiaia, 1988.

Bibliografia:

JOHNSON, H. e SILVA, Maria B. N. O Império Luso-Brasileiro 1500-1620, Vol. VI: Lisboa, Estampa, 1992

MAURO, F. O Império Luso-Brasileiro 1620-1750, Vol. VII: Lisboa, Estampa,

1991.

ABREU, C. de Capítulos de Historia Colonial (1500-1800): São Paulo, Briguet,



1969.

CORTESÃO, J. A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do

Brasil: Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994.

CORTESÃO, J. História da Expansão Portuguesa: Lisboa, Imprensa Nacional-

Casa da Moeda, 1993.

HOLANDA, Sérgio. B. Raízes do Brasil: São Paulo, Schwarcz, 1995.

MAGALHÃES, Joaquim. R. História de Portugal: Lisboa, Estampa, s.d.

PRADO, Cáio.J. História Econômica do Brasil: Editora Brasiliense, 43ª edição



1988.

1 Mestrando em Historia da Educação – Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. E-mail carmelindosilva@uol.com.br

2 Jaime CORTESÂO, A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil, p.17

3 Sérgio Buarque de HOLANDA, Raízes do Brasil, p.4

4 J. Capistrano de ABREU, Capítulos de História Colonial, p.68.

5 Harold JOHNSON e Maria Beatriz Nizza da SILVA, O Império Luso Brasileiro 1500-1620 – p.109 e 110

63 Sérgio Buarque HOLANDA, Raízes do Brasil, p.44, 49 e 50

7 Joaquim Romero MAGALHÃES, História de Portugal, p.243.

8 Caio PRADO JUNIOR, História Econômica do Brasil, p.34

9 J. Capistrano de ABREU, – Capítulos de História Colonial, p.73 e 74.

10 Harold JOHNSON, e Maria Beatriz Nizza da SILVA, O Império Luso-Brasileiro 1500-1620 – p.114

11 Ibid., p.228.


12 Ibid., p.316 e 317

13 Pero de Magalhães GANDAVO – Tratado da Terra do Brasil, p.44

14 Harold JOHNSON e Maria Beatriz Nizza da SILVA, O Império Luso-Brasileiro 1500-1620 – Vol. VI, p.318

15 Ibid., p. 320

16 Frédéric MAURO, O Império Luso-Brasileiro 1620-1750 – p.378

17 Harold JOHNSON, e Maria Beatriz Nizza da SILVA, 1500-1620, p.390

18 Manoel da NÓBREGA, Cartas do Brasil, p.119)

19 Manoel da NÓBREGA, Cartas do Brasil, p.108

20 André João ANTONIL, Cultura e Opulência no Brasil, p.90.

21 Manoel da NÓBREGA, Cartas do Brasil, p.111

22 Jaime CORTESÃO, p.346

23Harold JOHNSON, e Maria Beatriz Nizza da SILVA, O Império Luso-Brasileiro 1500-1620, p. 510

24 Ibid, p.510

25 Fernão CARDIM, Tratados da Terra e Gente do Brasil, p.164

26 Sérgio Buarque de HOLANDA, p.32

27 Ibid, p.39

28 Fernão CARDIM, Tratados da Terra e Gente do Brasil, p.157 e 158.

29 Pêro de Magalhães GÂNDAVO, p.94

30 André João ANTONIL, 94

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