Portugueses reivindicam autoria Nassau oito anos que viraram uma eternidade Memória



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Portugueses reivindicam autoria


Nassau - oito anos que viraram uma eternidade

Memória|Portugueses reivindicam autoria de monumentos atribuída aos holandeses

O Cantinho do Bacalhau é um jornal que circula há mais de seis anos entre as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo inteiro a partir daqui de Pernambuco. A publicação é fruto do empenho do português Delmar Rosado, há mais de 30 anos no Brasil e ferrenho defensor da cultura e da história do seu país de origem. Na verdade, um ufanista, não declarado, mas com letras garrafais escritas na testa.

Antes de marcar para conversar com ele, em seu “cantinho” em Aldeia, na Alameda dos Jacarandás, é bom que se tenha tempo para jogar conversa fora, ou melhor, para ganhar em conhecimento como ouvinte de estórias ditas ao embalo do sotaque português forte e com direito a muitas gírias lusas. Durante o papo, o intervalo é pontuado pelo pedido de tradução dessas expressões, que ele faz questão de manter.

Vivendo há tanto tempo no País, Delmar vem nos últimos anos se empenhando em estudar o legado português no Brasil, e em especial, no Nordeste brasileiro. A pesquisa segue por meio de vários livros – sua biblioteca encanta qualquer historiador -, cópias de documentos, artigos, fotos. É tanta história que daria um livro. Na verdade, dará. Tudo que Delmar vem juntando está sendo compilado em três volumes de uma coleção chamada Do São Francisco ao Amazonas. O primeiro volume, que ele promete que sairá até o final do ano, com apoio da comunidade portuguesa, carrega como subtítulo Pernambuco: uma presença portuguesa. A publicação pretende-se uma resposta, segundo ele, às injustiças cometidas por publicações que não deram o crédito ou não reforçam devidamente as feitorias dos seus conterrâneos aqui em terras brasileiras.

Trazendo no DNA características de bom navegador português, Delmar pretende uma espécie de redescobrimento de alguns fatos da história, dando outra versão ou mesmo apenas reverenciando a participação dos seus patrícios. Entre os tantos questionamentos que faz sobre o “registro” histórico, e o que parece fazer mais questão de enfatizar, está o Forte Orange, na Ilha de Itamaracá, um dos pontos estratégicos para expansão do domínio holandês. “Não existe hoje no Recife nenhum prédio, ponte ou grande obra desse período”, diz enfático. E continua: “O nome dessa construção deveria ser Fortaleza de Santa Cruz, porque é, de fato, uma construção portuguesa. Não nego que as recentes escavações feitas por lá tenham desenterrado as ruínas da construção holandesa. Isso é história”, diz. Mas, no entanto, não acha justo dar um crédito a quem não teve.

Segundo Delmar, a história registra que o Forte Orange foi construído pelo invasor flamengo em 1631, em taipa, madeira e areia, material vulnerável e pouco indicado para um clima tropical como o nosso. Com a rendição dos holandeses, o forte é recuperado pelos luso-brasileiros e, em 1672 , destruído pelo mar. Como o ponto era estratégico para se proteger o Canal de Santa Cruz, por onde saía toda a produção de açúcar - o petróleo da época - da Capitania de Itamaracá, entre 1686 e 1688, por ordem do Rei D. Pedro II de Portugal, é construída a Fortaleza de Santa Cruz, entre 50 e 100 metros mais para o norte de onde existiu o forte holandês. E é essa a construção que pode ser vista hoje por lá.

O arquiteto e professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, José Luiz da Mota Menezes, concorda com Delmar quando o ponto é “dar nomes aos bois”. Para ele também, o forte da Ilha de Itamaracá é mesmo uma construção tipicamente lusitana. Só que o professor também faz questão de reforçar que para a história também vale a força da tradição oral que apostou no forte como holandês, ou melhor, como Orange, assim como as tropas enviadas pela Companhia das Índias Ocidentais o batizou. E isso também é relevante para a história por traduzir a legitimidade dada pelo povo.

Para os historiadores não restam dúvidas sobre o fato de que o mundo erguido pelos holandeses foi construído por cima dos escombros portugueses. “Não há de fato nenhum prédio que se possa dizer hoje que seja genuinamente holandês. Afinal, como já se falou, eles construíam casas de madeira, que é o material típico das construções dos Países Baixos, mas que aqui não agüentaram nem a força do clima e do tempo e muito menos a guerra. Além do que, eles estavam muito mais preocupados com o traçado urbanístico do que com a estrutura física”, explica o professor do Departamento de Ciência da Informação da UFPE, Marcos Galindo. É por isso mesmo que mais a frente, após a expulsão dos flamengos, em 1654, somada à vontade natural de apagar os vestígios de um período de guerra, vieram as construções portuguesas novamente passando como trator por cima do que restou. Com o detalhe de serem feitas em material duradouro como a pedra. Ou seja: permanecerem até hoje, criando um patrimônio cultural físico, visível aos olhos por todo o País.

Entretanto, sem querer polemizar, Galindo reforça que não se pode esquecer que “em oito anos que esteve por aqui, o Conde Maurício de Nassau, que governou durante o Brasil holandês, fez mais pelo registro da memória do País do que os portugueses em 300 anos”. Ele trouxe pintores, cartógrafos, astrônomos, físicos. O legado, neste caso, além dos vestígios físicos, é principalmente imaterial, mas de grande valor para a história. “História não é necessariamente triunfo, mas ciência”, finaliza. Esse rico acervo é constituído de documentos, pinturas e mapas que recontam a história do Brasil da época e que é de grande valor para se compreender a história do povo brasileiro.

Assim como o Forte Orange na Ilha de Itamaracá, a comunidade portuguesa é uníssona em concordar com os argumentos de Delmar quando o assunto é ainda o Forte de Cinco Pontas - na verdade, quatro pontas - e a sinagoga Kahal Zur Israel, na rua do Bom Jesus. O primeiro construído primeiramente pelos flamengos, reconstruído por Nassau, e mais uma vez reconstruído em pedra e cal pelos portugueses, e o segundo, no período em que Nassau esteve em Pernambuco, mas por judeus portugueses. “Aquilo que vemos hoje, sob o nome Forte das Cinco Pontas, não é uma construção holandesa, mas portuguesa, cujo verdadeiro nome é Fortaleza de São Tiago”, diz Delmar.

Na mesma caravela de Delmar, só que com mais cautela e jeito de pacificador, o presidente da Comunidade Portuguesa em Pernambuco, Zeferino Ferreira, acredita que no caso do Forte, a história é contada de maneira invertida. “Não precisamos fazer nada para mostrar o tanto de coisas que fizemos e que estão aqui em cada esquina da cidade; na verdade, espalhadas pelo mundo inteiro. E o governo português também não daria conta de formular publicações para falar de cada um desses locais. Apenas acredito que era preciso fazer justiça na hora de se contar a história de Pernambuco”, desabafa. Outro português que sai em defesa de sua terra é José Miranda Reis de Mello, presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas. Para ele a principal e grande diferença entre Portugal e Holanda está na intenção de ambos em relação ao Brasil. Enquanto Portugal colonizou, a Holanda conquistou; e isso indica interesses imediatistas e mercantilistas. E completa: “foi a cultura portuguesa que ajudou o País a continuar com suas dimensões continentais. É só olhar para a América espanhola e ver no que deu. A Espanha mais parece um agrupamento de países e não uma nação”, diz relacionando ao fato de ter quem diga que o Brasil seria uma nação melhor caso os holandeses tivessem permanecido por aqui.

Embora dê eco às declarações de Delmar, Reis acredita que muito mais importante do que se polemizar em relação a esses fatos seria rever o papel e a importância que alguns nomes portugueses tiveram na história. É o caso de Duarte Coelho, donatário da Capitania de Pernambuco, responsável pela fundação de cidades como Igarassu, Olinda e Recife. “Duarte Coelho já havia enfrentado todas as intempéries possíveis, desde a falta de estrutura absoluta a constantes ataques dos índios, e ainda assim transformou a Capitania de Pernambuco, da qual foi o primeiro donatário, em uma das mais promissoras da época junto com a de São Vicente (São Paulo)”, diz.



Nassau: um homem preocupado com a imagem

Ninguém duvida – e os fatos históricos evidenciam – de que o legado português para o Brasil é infinitamente maior do que o holandês. Afinal nossas raízes culturais estão trincadas a Portugal. Não há como comparar 200 anos com 24. Mas do ponto de vista também histórico, não há como se opor ao fato de que também para a história, Nassau é uma fonte riquíssima de estudo. Afinal, ele virou um mito. Independente do tempo de permanência ou do legado material, o tempo de seu Governo se imortalizou como era de sua vontade.


Os holandeses ficaram por aqui entre 1630 e 1654. Em Pernambuco, começaram por Olinda, cidade que incendiaram, e saíram conquistando as áreas planas. Nessa época a cidade do Recife tinha poucas casas, alguns armazéns de açúcar, já do outro lado no bairro de Santo Antônio, uma olaria e uma casa grande de um lavrador chamado Pedro Álvares, como conta o arquiteto Mota Menezes. A nau holandesa desembarcou aqui com cerca de 1.500 homens. Com a pressão e avanço dos novos conquistadores, os portugueses acabam indo se refugiar no Arraial do Bom Jesus (Sítio Trindade). Mas em seis anos de lutas constantes, o Arraial não resiste e cai. E os portugueses vão para a Bahia.

Diplomacia

A mando da Companhia das Índias Ocidentais, Nassau chega em Pernambuco com o objetivo de praticar a política da diplomacia e coptação. “Não ia ser bom ter um governante que tivesse estado no front de guerra, que lembrasse a violência da conquista, mas alguém com espírito e interesse na reabilitação”, explica Mota Menezes. Inclusive, um dos militares que participou da conquista do Arraial do Bom Jesus pediu para assumir a governança da conquista do Estado e a Companhia das Índias não permitiu. E é nesse clima aí que o conde Maurício de Nassau governa o Brasil holandês durante sete anos, entre janeiro de 1637 e maio de 1644.

Maurício de Nassau era um homem culto, inteligente, que sabia governar. Com dotes extraordinários de empreendedor, que sabia agradar o povo brasileiro com o que o povo brasileiro gostava. Para Mota Menezes, enquanto com os governantes portugueses o Brasil vivenciou aqui a representação da corte, com Nassau tivemos a própria corte. “A beleza é uma fruição estética que permanece. E Nassau soube tirar proveito disso. Seu governo foi marcado pela pompa. Ele construiu palácios como Nova Friburgo e Boa Vista, pontes, investiu em melhorias para a área urbana da cidade, cuidou da habitação. Vendeu a imagem da liberdade de culto, mesmo que os registros também dêem conta de que os judeus só praticavam seus cultos dentro de suas casas. O Conde também era adepto de grandes festas, com grandes banquetes e regalias”, conta. Não é por acaso que esse tempo ficou conhecido como o da boa paz. Nassau sabia bem fazer uso do métier da imagem, o que hoje chamaríamos de marketing político.

Convivência

Uma das coisas que também instigam os estudiosos, por exemplo, é o fato de duas culturas tão diferentes terem convivido em meio a essas contradições: pompa e guerras, além de poucas adaptações de uma cultura a outra e ainda assim seu governante, em pouco tempo, ficar imortalizado no imaginário popular até hoje de maneira muito forte. Explica-se: o Recife foi o único lugar no Brasil com maior tempo de permanência dos holandeses. Mas isso, para a história, não diz respeito a exaltação dessa dominação, mas simplesmente para se compreender o porquê”, ressalta Mota Menezes.



Independente do mito e com isenção emocional do que isso signifique para o povo, sabe-se que Nassau foi um grande negociador. Um homem astuto, charmoso, bom de lábia e que sabia muito bem ganhar dinheiro. E gastou aqui no Brasil muito dinheiro dessa “empresa multinacional mercantil” que era a Companhia das Índias, o que acabou desgastando essa relação com os seus “acionistas”. Esses interesses econômicos provavelmente foram o que o motivou, dizem, a fazer uma exploração cultural da nova terra. Afinal esses registros funcionaram como um “mapa” para traçar estratégias de prospecção de mercado. A boca miúda, falam, Nassau montou aqui uma espécie de caixa dois afim de enriquecer e receber o título de príncipe.

http://br.geocities.com/cantinhobacalhau/index.htm
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