Pré-diagnóstico da percepção de visitantes e empresas de turismo da região de Corumbá sobre a fauna do Pantanal



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Pré-diagnóstico da percepção de visitantes e empresas de turismo da região de Corumbá sobre a fauna do Pantanal.
Ubiratan Piovezan1; Christiane Rodrigues Congro1; Guilherme de Miranda Mourão1
1Embrapa Pantanal, Rua 21 de Setembro 1880, 79320-900 Corumbá, MS. E-mail: piovezan@cpap.embrapa.br.

Resumo


O turismo é uma alternativa de uso econômico da fauna em benefício das populações humanas que não envolve consumo. Se bem conduzida esta atividade pode gerar renda e contribuir para a conservação de espécies e ecossistemas naturais únicos como o Pantanal. O objetivo deste trabalho foi descrever a percepção que visitantes e empresários do turismo de Corumbá e região possuem a respeito da fauna do pantanal. O trabalho foi dividido em duas etapas: 1 – Análise do material de divulgação distribuído pelas empresas de turismo da região durante a alta temporada de 2002; 2 – Entrevistas com hóspedes da cidade durante a alta temporada de 2004. Na primeira etapa, avaliamos 265 impressos produzidos por empresas de turismo que atuam na região de Corumbá, que foram recolhidos em agências da cidade durante o mês de setembro de 2002. Na segunda etapa, 400 visitantes foram entrevistados em pontos-chave como a rodoviária, o aeroporto e a feira de produtos bolivianos de Corumbá, entre os dias 28 de junho e 11 de julho de 2004. Espécies da fauna estavam presentes em 78% dos impressos avaliados. O grupo das aves foi o mais comum (38%), seguido pelo grupo dos mamíferos (28%), répteis (7%), insetos (3%) e anfíbios (2%). Dentre os visitantes entrevistados, 64,32% afirmou que pagaria para obter informações sobre a fauna do Pantanal e 39,26% consideraram que “vídeo” seria a forma mais adequada para obter informações sobre a fauna. “Guia de bolso” foi o segundo tipo mais votado entre as opções de mídia sugeridas (20,78%). As espécies apontadas como de maior interesse por parte dos visitantes coincidiram com as mais presentes no material de divulgação de empresas da região. Os resultados sugerem que a fauna pantaneira ainda é pouco conhecida pelo público em geral e que há uma expressiva demanda por informações adequadas aos clientes do setor de turismo, ou seja, informações confiáveis e em formato acessível. Este trabalho é parte das atividades do projeto “Uso sustentável da fauna silvestre” desenvolvido pela Embrapa Pantanal (#02.02.5.25.00.05).
Termos para Indexação: fauna, Pantanal, turismo, uso sustentável.

Abstract


The tourism is a means of use wildlife to benefit human populations that is noncomsumptive. If well planned, tourism can contribute to species and landscape conservation to unique ecosystems such as the Pantanal. The aim of this work is to describe the perception of tourists and tourism agencies regarding the Pantanal wildlife in Corumbá city and it’s region. The work was divided in two parts: 1 – Analisys of 265 folders and other media printed materials distributed by the tourism trade operators in 2002; 2- Interviews with 400 tourists in strategic locations of Corumbá such as: bus station, airport, etc. We found that animals were depicted in 78% of the printed material considered. Birds were the most comom group (38%), followed by mammals (28%), reptiles (7%), insects (3%) and amphibious (2%). Most of tourists (64,32%) declared that would pay for information about animals of the Pantanal and 39,26% chose “vídeo” as the best way to get this information. The “pocket guide” media type was the second most cited by the public (20,78%). Species mentioned as most interesting by the tourists were the same species that were most frequently displayed in the materials reviewed.. Results from this study suggest that Pantanal wildlife is unknown by the people. We conclude that there is a strong demand for easily accessible, comprehensible and reliable information regarding the wildlife made up for the clients of the turistic trade. This work is part of the project “Sustanable use of wildlife”, conduced by Embrapa Pantanal (#02.02.5.25.00.05).
Index Terms: Pantanal, sustanaible use, tourism, wildlife.

Introdução

Regiões com alta biodiversidade e ecossistemas específicos como o Pantanal e a Amazônia têm despertado o interesse da sociedade mundial nas últimas décadas. Diversas razões, como o interesse econômico envolvendo biotecnologia e biodiversidade ou a busca pela conservação de ambientes naturais e seus benefícios intrínsecos (por ex. água), tornam cada vez mais imprescindível o desenvolvimento de modelos para gestão sustentável de recursos naturais. Preferencialmente, buscam-se modelos que compatibilizem a conservação dos ecossistemas e desenvolvimento sócio-econômico local (ROBINSON & REDFORD, 1991). Ecossistemas ricos em fauna e tipos de ambientes como o Pantanal, a espelho de experiências registradas em outras regiões do mundo como em Ruanda na África (GROOM et al., 1991), podem desenvolver cadeias complexas de prestação de serviços baseadas no recurso fauna, gerando renda e desenvolvimento. A atividade de turismo tem rendido cerca de US$450 milhões por ano nas áreas protegidas do Quênia (MORAND, 1994), onde a visualização da fauna tem sido o maior atrativo. O turismo é uma via de uso econômico da fauna em benefício de populações humanas que não envolve o consumo. Além desta característica legalmente necessária para utilização econômica de espécies da fauna brasileira (Lei Nº 5.197/1967), a atividade turística mostra-se compatível com a bovinocultura extensiva que é desenvolvida no Pantanal, o que justifica estudos que desenvolvam o seu potencial localmente. O objetivo deste trabalho foi caracterizar alguns aspectos da percepção de visitantes e empresários do setor turístico da região de Corumbá sobre a fauna do Pantanal.



Material e Métodos


O presente estudo foi dividido em duas fases. A primeira baseou-se na avaliação de 265 impressos de divulgação produzidos e veiculados por empresas do setor turístico de Corumbá durante o mês de setembro de 2002. A segunda fase foi caracterizada por entrevistas realizadas com 400 turistas que se hospedaram no município entre 28 de junho a 11 de julho de 2004. Esta etapa se caracterizou como uma pesquisa de caráter descritivo e quantitativo, levantando opiniões, atitudes e crenças da população amostrada (GIL, 1989). O enfoque adotado para avaliação dos dados foi o indutivo, ampliando as conclusões do particular para o geral (KÖCHE, 1997).

Os impressos de divulgação avaliados na primeira fase foram coletados em agências de turismo do município de Corumbá. Para a segunda etapa, questionários em português, espanhol e inglês foram utilizados para entrevistas com visitantes em pontos-chave da cidade: o aeroporto, rodoviária, hotéis (Santa Mônica, Hotel Nacional e Águas do Pantanal), pousadas (Green Track e Quatro Cantos), hospedarias da Estrada-Parque-Pantanal (Hotel Passo do Lontra, Fazenda Santo Antônio, Pousada Bela Vista e Pousada Arara Azul) e no local onde o pescado é lacrado para sair do estado (Porto Geral de Corumbá). Além desses pontos, os turistas foram entrevistados na feira de produtos bolivianos de Corumbá e na zona franca e feira livre do município de Porto Quijaro, Bolívia, desde que estivessem hospedados em Corumbá. Além de questões relacionadas ao perfil, motivação e satisfação dos visitantes, os questionários possuíam uma questão aberta onde os entrevistados citavam qual a espécie da fauna que mais lhes despertava interesse. A pergunta “Que tipo de comunicação você acha mais adequada para obter informações sobre a fauna pantaneira?” foi apresentada aos entrevistados com as seguintes opções de resposta: A) vídeo, B) folder, C) banners, D) placas informativas, E) guias de bolso F) outros. Os entrevistados também foram questionados com relação a sua disposição para pagar por informações sobre a fauna do Pantanal, optando entre as alternativas: “pagaria” e “não pagaria”. As tendências gerais de opinião observadas são apresentadas como taxas percentuais e a freqüência de ocorrência das diferentes espécies da fauna é analisada através de gráficos.



Resultados



Primeira fase: Caracterização dos impressos veiculados em setembro de 2002.

A maior parte dos impressos avaliados (82%) tinha o formato de “folder”, 5% do material foi composto por guias e 13% por panfletos não dobráveis. Espécies da fauna estavam presentes em 78% dos impressos avaliados. A principal forma de veiculação da informação relacionada à fauna foi o uso de imagens (86%) enquanto que em 14% das ocorrências a forma utilizada foi texto. O grupo das aves foi o mais comum nos impressos (38%), seguido pelo grupo dos mamíferos (28%), répteis (7%), insetos (3%) e anfíbios (2%). O tuiuiú (Jabiru mycteria), o tucano (Ramphastos toco) e os psitacídeos em geral (araras e papagaios; espécies: Ara Chloroptera, Ara ararauna e Amazona aestiva) tiveram destaque no grupo das aves. Dentre os répteis somente o jacaré obteve destaque nos impressos e, no geral, animais de grande porte foram os mais freqüentes entre os mamíferos (Figura 1).



Segunda fase: Entrevistas com visitantes hospedados em Corumbá entre 28 de junho e 11 de julho de 2004.

Dentre os visitantes entrevistados, 64% afirmou que pagaria para obter informações confiáveis sobre a fauna da região e 36% afirmou não estar disposto a pagar por essas informações. A avaliação do tipo de comunicação para informar sobre a fauna revelou que 43% dos visitantes consideram o vídeo a forma mais adequada de veiculação. A categoria “guia de bolso” foi a segunda mídia mais votada entre as opções (23%), seguida de “folder” (12%), “outros” (10%) e “placas informativas” (9%). Dentre as comunicações citadas na opção “outros” houve destaque para o veículo internet (8%). As espécies apontadas como de maior interesse por parte dos visitantes e a freqüência com que foram citadas estão resumidas na Figura 2.





Figura 1. Freqüência de ocorrência de espécies da fauna em 265 impressos de divulgação de empresas de turismo no município de Corumbá e região no ano 2002.



Figura 2. Freqüência de animais citados como espécie de interesse por parte dos visitantes hospedados em Corumbá entre 28 de junho e 11 de julho de 2004.

Discussão


Em geral, as espécies mais comuns nos impressos elaborados pelo setor turístico coincidem com as mais citadas pelos visitantes como espécies de interesse. Em ambos os casos, espécies como o tuiuiú, o jacaré, os psitacídeos e os mamíferos de grande porte destacam-se como carismáticas e familiares para o público. A presença maciça de imagens da fauna nos impressos de divulgação contrasta com a carência de informações textuais e sugere que os empresários do setor não estejam utilizando este recurso por não terem acesso a essas informações. Outra constatação importante é o fato de que a maioria dos entrevistados se declarou disposto a pagar para obter informações sobre a fauna pantaneira.

No Pantanal, o turismo relacionado à pesca esportiva tem sido a segunda atividade em termos de importância econômica (BRASIL, 1997). Entretanto, o número de clientes deste seguimento vem diminuindo nos últimos anos (ALBUQUERQUE et al., 2002). Com a crise do setor, o turismo ecológico vem ganhando espaço na região, transformando-se em uma alternativa cada vez mais viável. No mundo, há vários exemplos de uso econômico da fauna em benefício das populações locais. Por exemplo, estima-se que na região de Ruanda um único gorila (Gorilla gorilla) possa gerar US $ 4.000.000 por ano (WEBER, 1991) e, na Amazônia Peruana, uma arara vermelha pode gerar US $750 a 4700 por ano (ROBINSON & REDFORD, 1991). A fauna brasileira possui um potencial que não pode ser ignorado dentro da gestão de recursos naturais renováveis (IBAMA, 2003). Além de sua importância direta para a conservação dos ecossistemas, no Pantanal, a fauna também deve ser conservada devido ao seu potencial econômico que, por sua vez, depende da conservação de ambientes fundamentais para a sustentabilidade de serviços que envolvam populações selvagens. Neste cenário, a fauna significa um atrativo real e pode beneficiar diretamente proprietários que conservam espécies e habitats típicos da região. Atualmente, consideramos que o maior desafio para o desenvolvimento do turismo relacionado à fauna do Pantanal seja a ausência de fontes confiáveis de informação sobre o tema. Entendemos que tais informações devam ser disponibilizadas em diferentes veículos, não apenas em língua portuguesa, mas em formato adequado para atender clientes internos e externos do setor turístico na região.




Agradecimentos


Aos visitantes que contribuíram com os questionários; ao Sr. Marcelo Índio, pelo fornecimento de parte dos impressos avaliados e ao pesquisador Arnaud Desbiez pelas sugestões na redação do abstract.


Referências Bibliográficas


ALBUQUERQUE, S. P.; CAMPOS, F. L. de R.; CATELLA, A. C. Sistema de Controle da Pesca de Mato Grosso do Sul SCPESCA/MS - 9 - 2002. Corumbá: Embrapa Pantanal, 2003. 57 p. (Embrapa Pantanal. Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 47).

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal. Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai (Pantanal) – PCBAP. Diagnóstico dos meios físicos e biótico: meio biótico. Brasília. 1997.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1989.

GROOM, M. J.; PODOLSKY, R. D.; MUNN, C. A. 1991. In: ROBINSON, J. G., REDFORD, K. H. (Ed.). Neotropical wildlife use and conservation. Chicago: University of Chicago, 1991. p.393-412.

IBAMA – Notícias Ambientais: Ibama não vai liberar caça do jacaré-do-pantanal. Disponível em: http://ibama.gov.br/notícias/materia.htm. Acesso em: 19/02/2003.

KÖCHE, J. C. Fundamentos de metodologia científica: teoria e ciência e prática da pesquisa. Petrópolis: Vozes, 1997.

MORAND, D. Contingent valuation and biodiversity – measuring the user surplus of Kenyan protected areas. Biodiversity and Conservation, v. 3, n. 8, p.663-684, 1994.

REDFORD, K. H., ROBINSON, J. G. Subsistence and comercial uses of wildlife in latin America. In: ROBINSON, J. G., REDFORD, K. H. (Ed.). Neotropical wildlife use and conservation. Chicago: University of Chicago, 1991, 520 p.



WEBER, A. W. In: ROBINSON, J. G.; REDFORD, K. H. (Ed.). In: Neotropical wildlife use and conservation. Chicago: University of Chicago, 1991. p.395


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