Prefácio a ediçÃo brasileira



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Encontro19.07.2016
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PREFÁCIO A EDIÇÃO BRASILEIRA
Não sendo esta a primeira obra de W. R. Bion a ser publicada no Brasil, dispensa qualquer apiesentação, levando-se em conta a hierarquia do Autor, como clínico, pesquisador e pensador, no campo da psicanáUse. Este livro, no entanto, fez com que o nome de Bion se projetasse mais além dos domínios da psicanálise, pois os ensaios aqui reunidos constituem matéria de estudo e de consulta para todos os que se preocupam com a psicologia dos grupos e o comportamento do homem como ser social. É minha convicção que todo estudioso das disciplinas que hoje se voltam para a investigação da natureza humana — psicanálise, psiquiatria, psicologia social, sociologia ou antropologia — ao concluir a leitura desta obra sentir-se-á enriquecido em seus conhecimentos, fortemente estimulado pela originalidade dos conceitos do Autor, bem como impressionado por seu extraordinário acervo cultural.
Devo limitar-me a considerações breves acerca do valor destes estudos de Bion sobre os grupos, reportando-me a dois aspectos que aqui me parecem mais relevantes: a posição que ocupam no conjunto das importantes constribuições que Bion vem trazendo para as teorias da psicanálise, e a aplicação de suas idéias originais sobre a dinâmica dos grupos para o desenvolvimento de uma técnica de análise-de-grupo.
No que diz respeito à posição que ocupam esses ensaios sobre grupos, no conjunto da obra de Bion, penso condensar uma apreciação válida, afirmando: as experiências com os grupos e a elaboração posterior de conceitos teóricos delas derivados parecem constituir o pon

to de partida de uma fonte de conhecimentos que forneceu ao Autor vários elementos para o exercício de uma atividade criadora, que o situa como o psicanalista mais discutido da atualidade. Um estudo judicioso dêste livro permite-nos encontrar, em estado nascente, conceitos que hoje já nos são familiares e que utilizamos em nossa prática psicanalítica, e encerram o que há de mais Importante e original entre as contribuições de Bion: os conceitos sobre a gênese dos pensamentos e o “aparelho para pensar os pensamentos”, a “teoria das funções”, a ampliação da teoria kleiniana da identificação projetiva em termos de “continente-conteúdo”, o conceito da “perspectiva reversível” e vários outros. Todos esses conceitos são ainda discutíveis, e só o tempo dirá o que permanecerá definitivamente incorporado ao acervo científico da psicanálise.


Não me cabe fazer um estudo crítico deste livro. Cada leitor avaliará o peso das contribuições e idéias verdadeiramente novas que Bion nos apresenta, a partir de suas experiências com os “pequenos grupos terapêuticos”. Conceitos sobre dinâmica dos grupos — tais como “grupo-de-trabalho”, “suposições básicas”, “valência”, “cultura do grupo” etc. — abriram caminho para uma compreensão nova e científica da “microssociedade” que são os pequenos grupos. Essas idéias devem ser apreendidas e meditadas durante a leitura, e, depois, utilizadas no campo particular a que cada um se dedica. O que me parece importante é considerar esta interpretação dinâmica do grupo como um “todo”, para a psicanálise e suas aplicações.
Estes ensaios sobre os grupos foram elaborados a partir das experiências do Autor nos períodos de guerra e após-guerra, e, conseqüentemente, representam uma contribuição para o estudo do homem e seus grupos num momento de grave crise e de grandes transforma.ções (tecnológicas, sócio-econômicas e políticas). A psicanálise, como ciência do homem, experimenta o impacto da vida moderna, e não ignora as transformações que sofrem as outras ciências, seja reformulando suas teorias, seja buscando novos métodos. As solicitações que o

mundo moderno faz à psicanálise, no sentido de recorrer aos seus conhecimentos para a solução de problemas urgentes e vitais, fazem com que muitos analistas inclinem-se para o estudo e utilização de técnicas que possibilitem o atendimento de grupos maiores de indivíduos, sem abrir mão, no entanto, dos elementos fundamentais da teoria psicanalítica. Parece claro não existir a possibilidade de substituir-se a técnica de tratamento individual — desde que se pretenda fazê-lo à base da investigação do inconsciente — pois as tentativas até agora ensaiadas levaram a processos que se afastam do que entendemos por psicanálise. s psicanalistas que, em diferentes países, vêm trabalhando com grupos, no entanto, inclinam-se mais e mais no sentido de desenvolver uma técnica grupal paralela, que atenderia a duas exigências: as demandas de terapia por parte da comunidade, e a preservação dos pontos de vista científicos da psicanálise.


A procura de uma técnica de análise-de-grupo constitui o desenvolvimento natural de uma linha de pensamento dentro da psicanálise, sendo este um desenvolvimento histórico. Se acompanharmos a evolução do pensamento científico de Freud, verificaremos que o homem preocupou seu espírito como um ser social. Sua formação médica e os estudos primeiros de neuropatologia nunca se sobrepuseram à sua curiosidade e à sua irresistível inclinação para o estudo das origens da sociedade humana, dos ritos e das religiões, da atividade artística e criadora, e, finalmente, do comportamento agressivo e autodestrutivo da civilização moderna. As teorias que elaborou a partir da convencional relação médico-paciente e do estudo da neurose no indivíduo
— teoria da libido, teoria estrutural, teoria edípica, teoria do superego — reportam-se, sempre, ao indivíduo relacionado com objetos, construindo, assim, uma psicologia multipessoal. O que não se pode deixar de especular são as conseqüências que resultariam no campo terapêLticO — caso Freud não sofres limitação que é contingência da vida individual, ou fosse ele um coevo de nossa sociedade de abundância e autodestrui 1

ção. Parece que Bion pensa assim, ou, pelo menos, assim podemos interpretá-lo, quando afirma, neste livro, que “Freud falhou, em certo sentido, em compreender, na sua discussão dos grupos, a natureza da revolução que provocou, quando tentou uma explanação dos sintomas neuróticos, não no indivíduo, porém nas relações do indivíduo com seus objetos”. Não é difícil inferir aplicações terapêuticas para os grupos, quando meditamos sobre idéias expressadas por Freud em diversas partes de sua obra. Em Group Psychology and the Analysis of the Ego (1921), por exemplo, Freud afirmou claramente que a psicologia individual e a de grupo não podem ser absolutamente diferenciadas, pois a psicologia do indivíduo permanece em função das relações do indivíduo com outras pessoas. Conceitos assim esboçados e esparsamente encontrados na obra de Freud, quando se referiam a outros aspectos da teoria, serviram como ponto de partida para os “desenvolvimentos” da psicanálise. Assim sucedeu com o “complexo de Édipo”, “teoria do superego”, “ansiedade” etc. Não se pode aduzir razões científicas “para que outros “desenvolvimentos” não sejam tentados, desde que se investigue, a partir de conceitos analíticos básicos, e que se os amplie à medida que as observações o permitam. Para o estabelecimento de uma técnica de “análise-de-grupo”, o que se modifica é o setting, conservando-se os elementos que são fundamentais na relação bipessoal: interpretação da fantasia inconsciente, teoria da identificação projetiva, análise da transferência. O settíng multipessoal se constitui, no entanto, como a réplica da realidade interna, visto que os desenvolvimentos da psicanálise, surgidos com os trabalhos de Melanie Klein, vieram, na verdade, demonstrar que o mundo interno do indivíduo se constitui como uma comunidade ou “grupo” de objetos. Estes elementos da psicanálise, juntamente com os conceitos de Bion acerca da dinâmica dos grupos, fornecem as bases para o trabalho analítico com os grupos de pacientes.


Para concluir, penso esclarecer uma questão importante, que, provavelmente, aparecerá ao leitor após a

leitura deste livro. Bion não chama o trabalho que fez com os grupos de “psicanálise”. Mais ainda: empolgado pelos estudos que o levaram a especulações científicas sobre as teorias básicas da psicanálise, não retomou em sua prática clínica o trabalho terapêutico com os grupos. Darei agora duas razões que me fazem supor que a alteração na sua linha de interesses e de pésquisa não implica abandonar suas experiências com grupos, ponto de partida para sua extraordinária aventura científica. A primeira está contida no próprio livro, quando indica para outros analistas a importância da investigação e trabalho com os grupos: “Penso que ainda não chegou o momento de dar uma opinião definitiva, e creio que há lugar para analistas completamente qualificados empreenderem pesquisas acêrca de seu valor, possivelmente com grupos compostos de indivíduos que estão tendo ou tiveram psicanálise”. A segunda razão consiste em um informe de. natureza pessoal. Como membro da Asoclación Psicoanalítica Argentiia, tive o privilégio de ser incluído no grupo de analistas que participaram dos trabalhos (conferências, seminários, supervisões) que Bion realizou em Buenos Alres, em agosto de 1968. Num encontro não científico — quando em sua companhia, e na de Edgard Roila e Arnaldo Rascovsky, viajei para a casa de Leon Grinberg, em Escobar — tivemos a oportunidade de conversar sobre o trabalho com grupos, sobre sua opinião acerca da técnica grupal e sobre as perspectivas para o futuro. Mostrou-se interessado e realmente curioso quanto ao desenvolvimento dessas tentativas, referindo-se, naturalmente, ao trabalho de analistas com formação completa, conhecimentos das teorias da psicanálise e com longa experiência em análise individual.


Walderedo Ismael de Oliveira
Rio de Janeiro, 1970

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APRESENTAÇÃO



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