Presença africana, oralidade e transculturação



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Uma contribuição para o resgate da herança cultural contida na oralidade
Presença africana, oralidade e transculturação
Luz Maria Martínez Montiel (México) Etnologista. Programa África-América – A 3ª Raíz
(Oralidad, 10/1999, pp. 28-32)
Os grilhões da escravidão não congelaram a alma, nem paralisaram o pensamento dos Mandinga, Ioruba, Banto, Fanti, Axanti, Ewê-Fon ou Akan. É a hora de esquecer o esquecimento. A memória existe e há memórias que surgem em contos e relatos, em mitos e crenças, em toques e silêncios de tambores. Também no gesto, na dança e na ética do viver ou do morrer.
Os escravos africanos trazidos durante os quase quatro séculos de regime escravocrata eram originários das regiões do Sudão ocidental, da África equatorial e de Angola. Suas origens étnicas puderam ser reconstruídas através das pesquisas feitas nas últimas cinco décadas. Ao serem estas culturas um fator que define a identidade de uma boa parte das Américas, os estudos feitos até hoje sobre as etnias africanas, embora numerosos, ainda são insuficientes. A pesquisa sistemática das culturas que deram origem aos grupos afro-caribenhos não existe em muitos de nossos países. A abordagem da africania ocorre a partir da demografia, que utiliza dados, às vezes falsos, da demografia escravagista para a reconstrução da história.
A oralidade no esquema africano
Nenhum narrador transmite palavra por palavra o texto recebido através da tradição oral
O estudo da oralidade na África negra tem acontecido desde perspectivas diferentes, conforme as disciplinas que se interessaram no tema. Os folcloristas viram, nestas formas de expressão cultural, sobrevivências de tradições desaparecidas. Para os etnologistas, é um reflexo da sociedade contemporânea e uma maneira de ensinar ou transmitir os valores de grupo. Os psiquiatras, seguindo Freud, explicam-nas como maneiras de expressar os problemas psicológicos.
A literatura oral africana é tudo isso ao mesmo tempo, mas não devemos esquecer que um mito, um conto, um provérbio, uma adivinhanção é uma criação grupal, e deve ser vista assim, portanto, tem certas regras e para compreendê-la, é preciso analisar sua forma e seu conteúdo a partir de um enfoque multidimensional. O estudo deve ser feito seguindo as linhas essenciais que a definem.
Cada texto oferece vastas possibilidades de análise, que vinculam as obras de literatura oral com outros aspectos da mesma cultura. A língua, a base léxica e a sintaxe são fatores que, dada sua dimensão na oralidade tradicional, fazem com que a mesma seja uma forma de expressão mais rica que a língua correntemente falada. Na tradição oral, há fórmulas de abertura e de encerramento, modalidades, onomatopéias, diminutivos e aumentativos, etc.
Há gêneros fixos e livres; nos primeiros, o texto permanece inalterável (provérbios, enigmas, fórmulas, esconjuros) e, por isso, a língua é arcaica. Já nos gêneros livres, a formulação, de fato, pode mudar (contos, relatos, etc.)
Os sistemas narrativos anteriormente mencionados têm variáveis que dependem do narrador e de seu auditório. Alguns contos são mimados e formam um pré-teatro. Nenhum narrador transmite palavra por palavra o texto recebido por tradição oral; nesta liberdade reside justamente a riqueza e a diversidade da literatura falada. Algumas sociedades têm a tradição de relatar histórias em grupo. Por exemplo, narram contos entre duas ou mais pessoas, fazem mímica, cantam em coro, etc.
A gramática do conto envolve uma estrutura narrativa, por exemplo as seqüências nas que se deve repetir. A linguagem dos relatos oferece uma infinita variedade de vocabulário, segundo a sociedade emissora da obra. Afirma-se que não existe uma sociedade no mundo que não tenha, em seu acervo, criações como essas, que se transmitem na tradição cultural. Em algumas sociedades, estas formas se conservam e obedecem à necessidade de manter vivos certos elementos da cultura, que não se conservam de nenhuma outra maneira. É o caso dos relatos e das reconstruções genealógicas conservadas na África através dos séculos, associados aos feitos importantes (míticos em alguns casos) de heróis de cada etnia. Este é o patrimônio depositado nos Griots, esses portentosos historiadores orais Peuls do Sudão ocidental.
No vocabulário dos relatos, os atores: homens, animais, plantas, gênios, etc., ocupam seu lugar e possuem um simbolismo particular em cada sociedade. Estes elementos permitem a criação de um repertório de metáforas e metonimias. As ações e os gestos podem ser de compreensão universal, ou particular da sociedade em questão. Os acessórios do narrador (jóias, vestimenta, fantasia, etc.) também têm um valor simbólico.
Cada mito (muitos contos são restos de mitos) deve ser decodificado, pois nele há uma mensagem implícita. O relato se decodifica no decurso de sua repetição. Ao lado da mensagem implícita está a mensagem explícita, que não tem a mesma importância, pois não modifica a estrutura interna do texto. A função dos motivos explícitos é marcar o final do conto, do relato, ou de uma reconstrução genealógica.
A oralidade, portanto, transmite a mensagem de uma maneira indireta com uma linguagem codificada. Já o simbolismo, que é múltiplo nos contos, pode diminuir ou aumentar os conflitos internos de uma sociedade.
Este ensaio não é o espaço apropriado para aprofundar na literatura africana escrita, basta assinalar que os gêneros modernos tomam por base os tradicionais, não há nenhuma dúvida a respeito. E o principal é que projetam o mundo negro africano para além de suas fronteiras, tanto assim que, desde meados do século passado, o pensamento africano se difunde através do teatro com temas épicos, políticos, da música e da dança, exercendo sua influência na arte cênica do mundo todo. Além dos já mencionados, florescem os gêneros da poesia literária de combate e militante, o romance realista, o romance metafísico e alegórico, e muitos outros, nos quais a personalidade africana atinge níveis mundiais. Vale recordar que o reconhecimento da literatura africana remonta aos primeiros anos da ocupação européia no continente negro. Os missionários e os exploradores se referiram à literatura dos “negros” quando compreenderam as fábulas, as lendas históricas, os contos e tudo que rodeava a oralidade dos povos africanos. Na oralidade, os africanos conservaram uma fonte viva de suas culturas tradicionais. Ao recuperarem a palavra, os novos países independentes, livres do peso do colonialismo, puderam reconstruir sua ancestralidade e delinear seus projetos de cultura nacional. Os “livros” da experiência milenar africana foram guardados na memória dos idosos. “ Quando morre um ancião, diz Hampaté Ba, africano, se perde uma biblioteca”.
É claro que neste tipo de pesquisa se deve recorrer à linguística, baseada num bom conhecimento da sociedade em questão, de seus sistemas de valores, de suas categorias do espaço ( nas que situam as fronteiras do sobrenatural) e do tempo ( um acontecimento histórico vira rapidamente uma lenda).
A história não escrita dos povos africanos pode ser procurada no inconsciente da vida social, isto é, nas estruturas, analisando a cultura e a literatura oral em todos os seus gêneros. A Oralidade é a fonte que conduz ao estudo profundo da estrutura social, devolvendo a uma sociedade sem escritura, sua história. Porém, devemos admitir que história e consciência histórica não coincidem necessariamente e isto faz parte do problema da relação entre a antropologia e a história. Contudo, ao se admitir que cada sociedade tem uma cultura e uma história, a consciência histórica começa a se delinear. A consciência nasce ao espírito de uma ideologia global que superou as divisões étnicas de um país, para dar lugar a uma reconstrução paciente das sequências temporárias com a ajuda de todas as ciências auxiliares: arqueologia, etnobotânica, glotocronologia, etnologia, etc.
A oralidade não é só o espelho de uma sociedade, também pode mostrar as contradições internas, sociais e psicológicas que se tornam perceptíveis na palavra
A oralidade não é só o espelho de uma sociedade, também pode mostrar as contradições internas, sociais e psicológicas que se tornam perceptíveis na palavra. Podemos ter acesso ao perfil do humanismo de um povo e de seu grau de participação no humanismo universal, se distribuírmos os grandes temas da literatura oral de uma nação e suas variantes de modo que sejam comparáveis os textos do folclore europeu, africano, americano e asiático, partindo das mitologias clássicas.
Nesta altura, merecem destaque (atualizando a oralidade afro-americana) dois fatores: a substituição dos elementos africanos por outros proporcionados pela dominação colonial, e a retenção e persistência das características de origem. A respeito do primeiro, é apreciável a capacidade dos colonizados de usar o idioma colonial para externar seus desejos. Eis uma característica da cultura imposta que também pode ser libertadora. Igualmente, a construção das línguas crioulas, a partir do perfil africano, tem o valor de um arquivo que contém a essência da África imaginária, idealizada na memória. O fator persistência está ligado a uma instituição muito importante, imprescindível, e só aprofundando em seu estudo, poderemos chegar a conhecer a alma africana. Estamos falando no tambor. Raramente, os historiadores e os etnologistas ocidentais abordaram o estudo da rítmica percutiva como substituta da escritura na África.
Os tambores são o elo com o passado; sendo um meio de comunicação, de acompanhamento de danças, de transmissão de mensagens sagradas ou profanas, o tambor foi o guardião da memória-recordação, como se denomina a capacidade dos africanos de conservar, transmitindo de pais para filhos, os valores de sua tradição e os códigos de sua identidade, unificando as emoções coletivas.
Os tambores são o elo com o passado; sendo um meio de comunicação, de acompanhamento de danças, de transmissão de mensagens sagradas ou profanas, o tambor foi o guardião da memória-recordação, como se denomina a capacidade dos africanos de conservar, transmitindo de pais para filhos, os valores de sua tradição e os códigos de sua identidade, unificando as emoções coletivas. A dança não se desenvolve sem o tambor, que é a escritura sonora que o dançarino deve acompanhar ao ler, ouvindo, seu ditado. A escritura do tambor, diz Jahn, “pode difundir as notícias mais rapidamente que a escritura gráfica”. Para compreender o valor semântico do tambor, é necessário remeter-se às línguas africanas, que são sistemas fônicos com estratos sonoros que dão às palavras um significado diferente, conforme a gravidade sonora dos vogais. Os sistemas de escritura são pouco adequados para escrever os tons graves, agudos e intermédios, sobretudo estes últimos. Em nenhuma escritura existem signos que possam representá-los. Em troca, o tambor reproduz com fidelidade a linguagem tonal das línguas africanas. A respeito Jah resume:
A linguagem do tambor é, portanto, a reprodução imediata e natural da língua: é uma “escritura” intelegível para qualquer pessoa que tenha a prática suficiente, só que, ao invés de se dirigir à vista, está destinada ao ouvido. O europeu jovem aprende a relacionar, na escola, os sinais óticos com os sentidos; do mesmo modo, o africano jovem tinha que aprender outrora a arte de captar os sinais acústicos do tambor.

(Jahn, As culturas neoafricanas, 262)
Há muitos tamanhos e formas de tambores. Utilizam-se de acordo com os motivos para seu uso em diferentes e numerosas sociedades. Assim, existem tambores ioruba em Cuba e no Brasil. Já nas Guianas, a variedade de tambores é tão ampla quanto os grupos que ainda os utilizam, originários do Congo, Daomé, Gana, Angola, Serra Leoa, Guiné e Gâmbia. Em todas as partes, a fabricação do tambor precisa de um ritual que o consagre como instrumento que chama os espíritos, invoca os deuses, congrega a comunidade, assinala o compasso e os passos a seguir. As coreografias, portanto, são códigos escritos com a linguagem corporal, porém nada, absolutamente nada, pode acontecer sem a oralidade, quer seja falada, quer seja cantada.
E, um último ponto sobre a oralidade no esquema africano. Nas culturas tradicionais – assim consideradas depois do impacto do colonialismo -, os pesquisadores europeus, nomeadamente os franceses, classificaram o acervo da literatura oral negro-africana, partindo da vitalidade das criações culturais. Ao realizar a interpretação desde o interior das tradições orais, se estabelecem os arqueótipos com as categorias africanas e se elimina o conflito. Então surgem os paradigmas: a literatura oral, que exalta a África mítica e corresponde ao mundo tradicional, acaba abrangendo os contos e as crônicas considerados históricos. A aproximação psicológica nos revela: os conteúdos de contos e lendas se baseiam na realidade social. Neste gênero, há uma transposição na que se atribui aos animais um comportamento humano, e à natureza, o dom da palavra. O relato mais realista não se corresponde com a verdade estrita, e o conto mais fantástico tem, no fundo, uma verdade. É claro que estas criações espelham o tecido social que as produz. As variantes de um conto nascem de mundanças sociológicas e psicológicas, ou seja, os mitos são vividos, são experiências que se transformam em relatos permanentes.
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