Primeira aula



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PARÓQUIA SÃO JOÃO BATISTA

End.: Av. Agostinho Pereira, 514 – Zequinha Amendola.

CEP. 14.781-256 – Tel.: (17) 3323-3343 .

E-mail: psjbb2@yahoo.com.br – site- www.psjbb2.xpg.com.br










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PRIMEIRA AULA
1.0- A OBRA DE LUCAS
1.1- Uma obra em dois volumes.
Ao examinarmos o terceiro evangelho, devemos primeiro levar em conta que ele é apenas a primeira parte de uma obra que foi pensada e deve ser lida como um todo; sua continuação é o livro dos Atos dos Apóstolos (compare Lucas 1,1-4 com Atos 1,1-8). O evangelho apresenta o caminho de Jesus, Atos apresenta o caminho da Igreja e, juntos, formam o caminho da salvação. No centro de tudo temos a cidade de Jerusalém, ponto de chegada do caminho de Jesus e ponto de partida do caminho da Igreja, que continua a missão de Jesus até os confins da terra (At 1,8).2
1.2- Para apresentar a história da salvação.
O que pretendia o autor com essa obra em dois volumes? Se examinarmos Lucas 16,16, perceberemos logo que ele queria oferecer aos seus destinatários uma visão completa de como a salvação que Deus oferece se manifesta e se realiza na história. Diz ele: “A Lei e os Profetas chegaram até João; daí para a frente o Reino de Deus e anunciado, e cada um se esforça para nele entrar, com violência”. Dessa afirmação podemos deduzir que o autor divide a intervenção de Deus para salvar em três grandes etapas.

- O tempo do Antigo Testamento (Lei e Profetas era um modo de se referia a todo o AT), que chega até a atividade de João Batista. Esse é o tempo de Israel, o povo da antiga aliança, ao qual Deus revelou sua vontade e projeto através do Espírito profético;

- O tempo de Jesus, ou tempo do Reino, englobando toda a palavra, ação e vida de Jesus, que culminou com a sua morte e ressurreição. Aqui se realiza tudo o que o povo de Deus esperava: Deus manifesta inteiramente o seu projeto de salvação através da ação e da palavra de Jesus; o Espírito de Deus está concentrado em Jesus como força que revela e concretiza o Reino de Deus nos limites geográficos da Palestina, dentro do seu povo;

- O tempo da Igreja, quando o Espírito de Deus que estava presente em Jesus é entregue à comunidade que o acompanhara. Depois da morte e glorificação de Jesus, a comunidade recebe a força do Espírito de Deus e de Jesus, para continuar a ação e a palavra dele no mundo inteiro, em todos os tempos e lugares. A essa ação da Igreja o autor consagrou todo o livro dos Atos.3

Em esquema, teríamos:




1.3- O grande passo.
Vendo o conteúdo dos dois volumes escritos pelo terceiro evangelista, podemos avaliar o grande passo que ele deu. Esse passo já fora começado pelo apóstolo Paulo que, diante da recusa dos judeus, saiu para anunciar o evangelho aos pagãos. Ora, o terceiro evangelista, depois de Paulo, levou isso á frente, e sua obra testemunha que o Reino de Deus e seu núncio não são para ficar restritos ao mundo da Palestina, mas devem se difundir pelo mundo inteiro, encarnando-se nos diversos povos e culturas.4
1.4- O autor.
Quem está por trás desse que é o maior conjunto de escritos do Novo Testamento? Desde o céc. II o testemunho da Igreja é unânime em afirmar que o autor é Lucas. Nos escritos de Paulo encontramos esse nome citado três vezes: Colossenses 4,14; segunda carta a Timóteo 4,11; Filemon 24. Lucas seria “o querido médico” que acompanhava Paulo em suas viagens e com ele esteve preso nas perseguições. Uma confirmação disso encontramos no livro dos Atos, em que o autor começa, a certo momento, a usar o “nós”, o que nos leva a supor que ele acompanhava Paulo nas viagens (veja At 16,10-17; 20, 5-15; 21,1-18; 27,1-28,16).

Lucas era, portanto, uma pessoa de certa posição (médico), que conhecia muito bem a língua grega e escrevia principalmente para o povo de língua grega. Alguns acham que ele era grego e escreveu sua obra em Antioquia da Síria, entre os anos 80 e 90 d.C.5


1.5- Os destinatários.
Lucas dedicou seu livro a um certo Teófilo (Lucas 1,3; Atos 1,1-2), certamente uma pessoa de posição, um mecenas de influência que certamente teria patrocinado a produção e a difusão da obra de Lucas, segundo o costume daquela época.

Contudo, é lendo a obra de Lucas que encontraremos os verdadeiros destinatários. Lucas tem uma grande preocupação social e dedica muita atenção às pessoas. E sua preferência está sempre do lado dos pobres, dos humildes e pequenos, e principalmente os marginalizados, os pecadores públicos e as mulheres – estas que eram tão ausentes da vida social no mundo palestino.6


2.0- O MAPA DO EVANGELHO DE LUCAS
2.1- Plano de Lucas.
Prólogo (1,1-4): apresenta o método e a intenção do evangelista. Ele pesquisou a vida de Jesus, consultando as testemunhas oculares e os pregadores do evangelho, para fazer uma narrativa ordenada da catequese da Igreja primitiva.

O texto do evangelho se divide em dois grandes conjuntos:


I- PREPARAÇÃO (1,5-4,13): REVELAÇÃO DO MISTÉRIO DE JESUS.
Neste conjunto Lucas apresenta as bases sobre as quais se assenta a vida de Jesus. Essas bases permitem ao leitor compreender o mistério profundo da pessoa de Jesus que se revelará depois, através da sua palavra e ação. Temos aqui duas partes:7
1) Duas infâncias (1,5-2,52): João Batista e Jesus
Não se trata de história propriamente dita. Misturando dados históricos e alusões propriamente dita. Misturando dados históricos e alusões ao Antigo Testamento, Lucas produz uma narrativa profética, mostrando a missão de João e a de Jesus. João é o último profeta, anunciando o despontar da era messiânica (1,76-77). Jesus é o Messias prometido, o Filho de Deus que veio trazer o Reino para todos (1,32-33; 2,29-31). Com a exceção de 1,39-56; 2,22-27 e 2,41-51, os textos sobre João e Jesus correm em perfeito paralelo. Lucas quer salientar a superioridade de Jesus.8
2) Preparação da missão de Jesus (3,1-4,13).
Como profeta-arauto da era messiânica, João Batista prepara as multidões para acolher a Jesus (3,1-20). Na linha dos profetas, ele anuncia a chegada de Jesus e do Reino, e exige a conversão. Mas João não é o Messias. Jesus se prepara para a missão (3,21-4,13). No batismo ele recebe o Espírito Santo, que o consagra para a realeza, como Rei-Messias, o Filho de Deus. A genealogia mostra que Jesus é Filho de Deus e da humanidade, e que veio para realizar uma missão universal: trazer vida a todos, tornando todos filhos de Deus.9
II- REALIZAÇÃO (4,14-24,53): A ATIVIDADE LIBERTADORA DE JESUS.
Neste segundo conjunto Lucas apresenta a palavra e a ação, o exemplo e o testemunho de Jesus, primeiro junto ao povo todo, depois junto aos discípulos e, finalmente, diante dos poderosos, com todas as consequências: prisão, condenação, tortura, morte, ressurreição e glória junto ao Pai.10
1- Na Galileia: Jesus na periferia do povo (4,14-9,50). A Galileia era a região mais ralé do povo, considerado pelas autoridades como ignorante, marginal e pecador. É aí que Jesus anuncia a palavra e pratica a ação libertadora, realizando sinais que indicam a transformação da realidade (14 dos 18 milagres deste evangelho estão nesta parte). O resultado é duplo: o povo reconhece Jesus como o grande profeta que trouxe a visita de Deus ao seu povo (7,16); os discípulos pouco a pouco vão percebendo o mistério de Jesus: ele é o Messias de Deus (9,20).11
2- Em viagem para Jerusalém: da periferia para o centro (9,51-19,28). É a parte mais original de Lucas, que lhe consagra dez capítulos, enquanto Marcos apenas um e Mateus dois. Trata-se de uma grande catequese para os discípulos que querem seguir o caminho de Jesus, preparando o caminho dos discípulos e da Igreja depois da Páscoa. Toda esta parte está voltada para o mistério pascal: em 9,31 se falava do “êxodo” de Jesus e, na cruz, temos o desfecho da libertação: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (23,46). A caminhada para Jerusalém, portanto, é a caminhada da libertação, tanto para Jesus como para todos os que o seguem.12
3- Em Jerusalém: confronto com os poderosos (19,29-24,53). É na cidade-capital que reside o centro dos poderes econômico, político, social e religioso, bem como a elite dos poderosos que controlam determinam a sorte do povo. Jesus se confronta com os poderes e sofre as consequências de toda a sua vida, voltada para a causa do povo. Esta parte pode ser dividida em três:
a- Confronto com as estruturas e poderes da cidade (19,29-21,38). Jesus denuncia e luta contra as estruturas injustas e os seus mantenedores, que exploram e oprimem o povo, reduzindo-o à miséria. Jesus anuncia o fim de Jerusalém.

b- Consequências do confronto (22-23). A ousadia da ação popular de Jesus e do seu confronto com as estruturas e poderes injustos tem um preço alto: Jesus é preso e julgado, e, sob a acusação de subversivo revoltado, recebe a sentença de morte.

c- A glória de Jesus (24). Jesus não permanece morto, porém. No domingo, o “dia do Senhor”, ele ressuscita e se manifesta nos caminhos da humanidade e aos apóstolos que continuarão sua missão. E Jesus volta ao Pai, como Messias-Rei, Senhor da humanidade e do universo.13
3.0- O ANÚNCIO DA NOVA HISTÓRIA (1,1-38).
3.1- Método e intenção de Lucas (1,1-4).
Como os escritores gregos de seu tempo, Lucas começa o evangelho com um prólogo, explicando seu método e intenção. Como pertencia à segunda geração cristã, teve de recorrer à pesquisa, examinando documentos já escritos, consultando os apóstolos (testemunhas oculares) e os evangelizadores que vieram depois (pregadores da palavra), a fim de escrever as tradições sobre Jesus (evangelho) e sobre a Igreja nascente (Atos). Queria fazer uma narração bem ordenada, isto é, didática, meditada e coerente. Sua obra foi dedicada a Teófilo, certamente uma pessoa de posição que, segundo o costume, teria patrocinado e iria difundir os escritos. A intenção última de Lucas era confirmar o ensinamento (catequese) da Igreja nascente.14
3.2- Deus responde à súplica dos pobres... (1,5-25).
Este evangelho começa e termina no Templo (24,53), pois era aí que o povo fiel se reunia para suplicar, agradecer e louvar a Deus. É o tempo do rei Herodes Magno (37 a.C. – 4 d.C.), cujo reino incluía a Judéia, Samaria, Iduméia e Galileia. Como Abraão e Sara (Gênesis 18), Zacarias e Isabel são idosos e ela é estéril. Representam assim o povo de Deus, o “resto” justo e fiel que esperava a libertação (Sofonias 3,12). Eles são o povo pobre que, sem poder recorrer a mais nada, depende de Deus e do seu projeto para viver.

Zacarias e Isabel eram de famílias sacerdotais, famílias numerosas que raramente podiam servir o Templo. Zacarias é sorteado, entra no santuário para oferecer incenso, e aí tem uma visão. O anjo Gabriel (=Deus é forte) é o mensageiro do tempo da salvação (Daniel 9,21-27), e traz a mensagem que é o início do evangelho (= “boa notícia”; 1,19).

O anúncio é que Deus vai atender ao pedido de Zacarias (=Deus se lembra) e Isabel terá um filho que será chamado João (=Javé tem piedade), trazendo alegria a Zacarias e a muita gente. Por quê? O anjo explica: o menino será “grande diante do Senhor”, ou seja, será inteiramente consagrado ao serviço de Deus, como os antigos ascetas (não beberá bebidas fortes; Números 6,3-4). Como Jeremias 1,5, ainda no útero receberá o Espírito Santo para realizar uma missão profética: anunciar a conversão, “reconduzindo muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus”. Será como o profeta Elias, cuja volta todos esperavam, pois ele iria preparar a era messiânica (Malaquias 3,23-24). João, portanto, será Elias para preparar para o Senhor Jesus “um povo bem disposto” a acolher o Messias que traz a harmonia (pais e filhos) e o discernimento da justiça que leva à vida (sabedoria dos justos).15
3.3- ...lhes envia seu Filho como Messias (1,26-38).
Em paralelo ao anúncio do nascimento de João, temos o de Jesus, mas salientando sua superioridade. A cena é diferente: uma casa em Nazaré, insignificante aldeia da Galileia: Jesus vai nascer no meio do povo pobre. O mesmo anjo Gabriel a saúda com o anúncio da chegada da era messiânica (Sofonias 3,14-17). Maria fica preocupada. O anjo explica: ela conceberá e terá um filho, e lhe dará o nome de Jesus (=Javé salva; ver Isaías 7,14). E agora vem o mistério de Jesus: ele é o Messias, que Israel chamava de filho adotado por Deus, e herdará o trono do rei Davi (2Samuel 7 e Isaías 9,5-6). Em outras palavras, o Messias esperado nasce dos pobres e, através da prática da justiça, libertará o povo para a era de prosperidade e paz (Isaías 11,1-9 e Sl 72).16
SEGUNDA AULA
1.0- OS POBRES RECONHECEM A AÇÃO DE DEUS (Lc 1,39-80).
1.1- Os pobres se solidarizam (Lc 1,39-45).
Levada pela disponibilidade e solidariedade, Maria viaja até uma cidade de Judá – uns 160 Km – certamente para ajudar a prima idosa que está em gravidez avançada. Temos então o encontro de duas mães e, dentro dele, o encontro de dois meninos, que também se reconhecem.

Ainda no útero, João recebe o Espírito Santo (cumprimento de 1,15), e já começa a missão de apontar o Messias esperado (confira com o evangelho de João 1,26 e 36). Movida pelo Espírito, Isabel profetiza, reconhecendo o segredo que acontece no corpo e na vida de Maria: ela é a mãe do Messias, o Senhor (título divino). Por isso elogia a grande fé de Maria, chamando-a de a mais abençoada das mulheres. O v.56 lembre 2 Samuel 6,2-11: Maria ficou com Isabel três meses (até o parto), assim como a Arca da Aliança, sinal da presença de Deus, ficara três meses na casa de Obededom: com Jesus no útero, Maria é a Arca da Nova Aliança.17


1.2- Os pobres reconhecem a ação de Deus (Lc 1,46-55).
O cântico de Maria (Magnificat) tem muitas lembranças do Antigo Testamento, e segue de perto o cântico de Ana (1 Samuel 2,1-10). Lucas certamente usou aqui um salmo dos “pobres de Javé”, o resto do povo fiel que permaneceu humildemente abeto a Deus (Sofonias 2,3;3,11-13).

Na pessoa de todos os pobres que esperam a salvação, Maria reconhece e se alegra com a grandeza de Deus (Lc 1,46-47; Habacuc 3,18). Por quê? Porque viu a humilhação do seu povo, e veio libertá-lo aos olhos de todos (1,48; 1Samuel 1,11). Com efeito, a maior glória e testemunho da santidade e da misericórdia de Deus é ele se aliar e assumir a situação dos pobres, a fim de libertá-los, dando eficácia à luta deles (Lc 1,49-50; Dt 10,21; Sl 103,17).18


1.3- “O que esse menino vai ser?” (Lc 1,57-66).
O nascimento de João cumpre a mensagem do anjo (1,20), e o término do tempo da gravidez de Isabel marca também o fim do tempo da espera da salvação. A alegria dos vizinhos e parentes ecoa 1,14. A circuncisão era feita oito dias depois do nascimento (Gn 17,12); nessa ocasião dava-se o nome à criança e fazia-se uma festa com os parentes e vizinhos. A insistência no nome de João é para frisar o tempo da graça e misericórdia que vai começar, pois João significa “Javé tem piedade”. De fato, João será o arauto de Jesus, que traz a graça de Deus para libertar os pobres e marginalizados (ver Lc 4,14-21). Imediatamente Zacarias fica livre da mudez e surdez, e começa a louvar a Deus, certamente com o cântico que vem a seguir.19
1.4- Os pobres louvam o Deus que os liberta (1,67-80).
O Espírito Santo faz Zacarias profetizar. Como o de Maria, o seu cântico (Benedictus) provavelmente é um salmo dos “pobres de Javé”, principalmente os versículos 67-75 e 78-79. Como as orações judaicas, o cântico começa com o louvor a Deus (Sl 41,14), reconhecendo a visita que ele faz para libertar os pobres. Essa visita é uma intervenção divina, e aqui indica o envio do Messias, filho de Davi, como força de salvação para os pobres, conforme os profetas (1,68-70; 2Sm 7). A função do Rei-Messias era a de salvar o povo frente aos inimigos, e fazê-lo viver segundo a justiça e o direito libertando-o dos inimigos estrangeiros e nacionais (Lc 1,71-75;Sl 18,18 e 72).Tudo isso é fruto da misericórdia de Deus, que continua fiel à aliança (Êxodo 2,24) e o juramento feito a Abraão (Jr 11,5), para libertar e trazer paz para seu povo, a fim de que este o sirva para sempre (1,72-75).20
2.0- NASCE O MESSIAS SALVADOR, O SENHOR (2,1-24).
2.1- Numa data obscura (2,1-2).
Augusto foi imperador de 30 a.C. até 14 d.C. O recenseamento geral tinha a finalidade política e econômica: recrutar homens para o exército e, nas regiões dominadas por Roma, assegurar o pagamento das taxas e tributos (2,1). O v. 2, porém, levanta problemas: segundo as fontes históricas, Quirino foi governador da Síria a partir do ano 6 d.C., quando fez um recenseamento para transformar a Judia em província romana. Jesus deve ter nascido bem antes. Os estudiosos hoje se inclinam a uma data entre os anos 7 e 4 antes da era cristã.

Lucas quer frisar a importância do nascimento de Jesus para toda a história, mas a data do seu aparecimento é imprecisa. De fato, as datas e os monumentos são estabelecidos pelos ricos e poderosos, que veem tudo de cima (visão superversiva). Os pobres, porém, não costumam marcar datas nem construir monumentos, nem deixam registros escritos. Contudo, com Jesus, eles começam a construir uma nova era, a partir de baixo (visão subversiva), dirigindo a história e a sociedade conforme a justiça que constrói a paz (Lc 1,78-79).21


2.2- Nasce como pobre (Lc 2,3-7).
Como já fizera em outros lugares, Roma devia respeitar os costumes locais: cada um se alistava na cidade natal (Lc 2,3). José, de família de Davi, vai com Maria até Belém, onde nasceu seu antepassado Davi (2,4-5; 1Sm 16,1). Percebemos a intenção de Lucas: segundo o profeta Miquéias, era da pequena Belém que viria o Messias (Mq 5,1-3). Fato significativo: Jesus nasce não nasce em Jerusalém, capital, mas na pequena aldeia de Belém, na periferia.22
2.3- O Messias Salvador, o Senhor (2,8-14).
O nascimento de Jesus, porém, não fica despercebido. O “anjo do Senhor” é um modo de falar da manifestação do próprio Deus. Ele aparece aos pastores que, na época, eram malvistos e marginalizados porque, sendo pobres, não tinham dinheiro para cumprir todas as exigências da Lei. A esses pobres e marginalizados é anunciada em primeiro lugar a “boa notícia” (=Evangelho) e, através deles, a todo o povo (2,8-10). A notícia que causa “grande alegria” é a de que vai começar a era da salvação: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor” (2,11).23
2.4- Os pobres reconhecem e agradecem (2,15-20).
Os pastores vão verificar o acontecimento, e a pressa revela o quanto a situação dos pobres é urgente (2,15-16). Confirmam o anúncio, contam a experiência, e “todos” se maravilham (2,17-18). Todos quem? Certamente todos aqueles que acreditarão na “boa notícia” dada aos pobres e por eles transmitida aos outros. O mais importante, porém, é a atitude de Maria: observar os fatos e meditar sobre eles, para descobrir o sentido o agir do mesmo modo. Só assim a comunidade poderá, como os pastores, glorificar e louvar a Deus por tudo o que viu e ouviu (2,20).24
2.5- Jesus é consagrado ao Pai (2,21-24).
Conforme a Lei, várias cerimônias eram feitas depois e um nascimento: circuncisão, purificação da mãe e apresentação e resgate do primogênito. Na circuncisão era dado o nome, tarefa que cabia ao pai da criança. Mas aqui não é José quem dá o nome. Lembramos que “Jesus” é o nome dado pelo anjo (Lc 1,31), Lucas deixa claro que Jesus é o Filho de Deus, em sentido próprio.

Em 2,22-24 temos duas observâncias: a purificação de Maria e a apresentação do filho primogênito. Pela purificação ela devia oferecer um cordeiro e um pombinho ou uma rola (Lv 12,6). Se fosse pobre, poderia oferecer duas rolas ou dois pombinhos (Lv 12,8). Maria faz a oferta dos pobres (2,24). Mas há um pormenor: Lucas não menciona a oferta para resgatar o primogênito (Nm 18,15-16). Ou seja: Jesus continuou a vida inteira consagrado a Deus Pai, e sua missão terminará com o sacrifício de sua própria vida. Desde o nascimento Jesus ficou a serviço do Pai para a salvação de todos.25


3.0- LUZ PARA AS NAÇÕES E GLÓRIA DE ISRAEL (2,25-52).
3.1- Jesus responde à longa espera (2,25-28).
Simeão representa o resto do povo fiel que esperava a “consolação” ou libertação (ver Isaías 40,1-2; 49,13). Também ele recebeu o Espírito da profecia, que faz reconhecer e proclamar a ação de Deus. E o Espírito lhe havia revelado que não morreria antes de ver o Messias. Movido por esse mesmo Espírito, Simeão vai ao Templo. Seu canto de agradecimento proclama o que Jesus significa para o povo de Deus e para todos os povos.26
3.2- Luz para as nações e glória de Israel (2,29-32).
Conforme a promessa (2,26), Simeão – ou o povo dos pobres – pode morrer em paz, porque viu a salvação que Deus lhe envia através de Jesus. Ao mesmo tempo, ele proclama que a salvação não é só para Israel, mas para todos os povos. Israel pode se orgulhar, porque o Messias nasceu graças à sua fidelidade e perseverante esperança. Mas ele será uma luz para iluminar o caminho da humanidade, conduzindo-a em direção à liberdade e à vida que Deus projetou para todos. Desta forma Lucas abre o horizonte universal do anúncio e da prática do Evangelho (ver Atos 1,8).27
3.3- Jesus será sinal de contradição (2,33-35).
A admiração dos pais de Jesus é o espanto maravilhado dos pobres que se descobrem como instrumento do Deus que salva. Mas nem tudo é pacífico: Maria sofrerá porque o seu Filho provocará grande divisão – muitos o aceitarão e muitos o rejeitarão (Ezequiel 14,17). Sim, porque através dele Deus realizará o julgamento, que é a manifestação das verdades escondidas: “serão revelados os pensamentos de muitos corações”. Em outras palavras, diante de Jesus as pessoas terão de fazer uma escolha decisiva: aceitar ou rejeitar Jesus, com sérias consequências para a vida inteira (ver João 3,16-21). Ou as pessoas aceitam participar da história nova, em que a justiça liberta os pobres para a vida, ou se condenam a velha história comandada pela injustiça, que desfigura a vida e acaba produzindo a morte para todos.28
3.4- As mulheres profetizam (2,36-38).
Como sempre faz no evangelho e no livro dos Atos, Lucas não se esquece da presença e do papel da mulher no anúncio do evangelho. Ana representa o lado feminino da espera do Messias. Como mulher pobre, ela sente ainda o desamparo da viuvez, e sua vida é um exemplo para as viúvas cristãs (ver viúvas cristãs – ler 1 Timóteo 5,5-9). No seu instinto feminino ela reconhece o Messias e o anuncia “a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém”. Dessa forma, Lucas consagra definitivamente a mulher como agente de evangelização. Afinal de contas, não foram elas as primeiras pessoas a receberem e a transmitirem o anúncio da Ressurreição? Infelizmente nem sempre elas recebem crédito... (ver 24,1-12).29
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