Primeira parte a história de um Vaso Capítulo I



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Evangelhos Apócrifos


O Livro de Melquisedeque



Primeira parte
A História de um Vaso

Capítulo I
Eu estava descansando sob a sombra do Carvalho de Mambré, junto à tenda, quando vi chegar apressadamente um dos servos de meu sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia: houvera no dia anterior uma batalha entre as cidades da planície, envolvendo quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e muitos de seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo tempo em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me frágil, sem nenhuma possibilidade de me sair vitorioso.
Sempre fui um homem pacífico e detesto aqueles que derramam sangue. Tenho muitos servos, mas poucos sabem manejar espadas e lanças, pois desde a infância são treinados como pastores. Em lugar de espadas, eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos. Em lugar de escudos, carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca para matarem sua sede e refrigerarem as ovelhas cansadas. Em lugar de vinho para se embebedarem, carregam presos em seus cintos pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com os quais untam as feridas do rebanho. Em lugar de ressonantes trombetas eles sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o curral.
Imaginando como seria um combate entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis vitoriosos, comecei a rir. Enquanto gargalhava, a voz d’Aquele que sempre me guia, soou aos meus ouvidos, dizendo:


  • Abraão, Abraão! Não menosprezes os instrumentos dos pastores, pois santificados pelo fogo do sacrifício, haverão de conquistar o grande livramento.

O Eterno passou a dar-me ordens, fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento haveria de se realizar. O primeiro passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos, dirigiram-se ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao todo 600 pastores. Ordenei que eles esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija. Depois de cumprirem esta ordem, pedi que tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeite dos jarros.


Depois de transmitir todas as ordens aos pastores, o Eterno falou-me:


  • Toma agora o teu vaso, o teu único vaso, e traga-mo a mim para que eu te mostre o que deves fazer”.

Tínhamos na tenda três jarros adquiridos na cidade de Harã; Nos dois menores, guardávamos o azeite para as lâmpadas, e no terceiro que era o maior e mais bonito, guardávamos pérolas e pedras preciosas, jóias reunidas por Sara ao longo de nossas peregrinações. Julgando ser o terceiro jarro o escolhido, estendi as mãos para tomá-lo, mas o Senhor impediu-me de fazê-lo, afirmando que, ainda que ele fosse portado de riquezas que seriam essenciais para o livramento, Ele escolhera um jarro especial – aquele que fora rejeitado e esquecido. Lembrei-me do grande jarro de barro que nos fora presenteado por um humilde oleiro, quando estávamos próximos de Canaã. Nós o pusemos inicialmente ao lado dos três, e nele colocamos os primeiros frutos colhidos na terra prometida. Não havendo, contudo, nenhuma beleza nele, Sara o rejeitou, lançando-o para fora da tenda. Sete anos depois, o oleiro visitou-nos e, ao encontrá-lo abandonado junto à tenda, mostrou-nos uma maneira em que ele poderia ser útil. Amarrando-o firmemente com uma corda de linho, lançou-o ao fundo do poço; por meio dele, os pastores passaram a tirar água para os rebanhos.


Seguindo as orientações do Eterno, dirigi-me ao poço, fazendo emergir de suas profundezas o jarro esquecido; Ao vê-lo repleto de água, lembrei-me do momento em que ele fora lançado ali, vazio e seco. Depois de esvaziá-lo, o Eterno ordenou-me transferir para ele o azeite dos dois jarros menores bem como as jóias do terceiro. Como sobrara muito espaço vazio no jarro, o Eterno ordenou completá-lo com azeite novo de oliva. Ao concluir essa tarefa, o Senhor mandou-me fazer um longo pavio de lã, devendo ficar uma de suas pontas mergulhada no azeite e a outra suspensa sobre o vaso.
Depois destas coisas, o Eterno ordenou-me a acender o pavio com o fogo do altar. Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia sobre o sacrifício da manhã, uma pequena fagulha saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se alimentando do azeite, até tornar-se numa labareda que podia ser vista de longe.

Capítulo II
Com o vaso nos ombros, comecei uma longa caminhada rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos pastores. Logo começaram a surgir escarnecedores que, ao verem-me com aquele vaso incandescente em pleno dia, passaram a dizer que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro, aconselhando-me a retornar para a tenda, abandonando aquele jarro que seria capaz de destruir a boa reputação que eu havia conquistado entre eles. Quando eu lhes falei sobre os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles concluíram que de fato eu ficara louco. Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas, agarrando-me a ele, impedi que o tirassem de mim.
Envergonhados diante de tudo aquilo, muitos pastores começaram a afastar-se: alguns retornaram para suas tendas, enquanto outros, uniram-se àqueles que riam de meu comportamento estranho. Sentindo-me sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me. Ansiava encontrar alguém com quem pudesse compartilhar minha experiência, mas todos lançavam-me olhares de reprovação. Lembrei-me de Sara, minha amada esposa. Em obediência à voz do Eterno, havíamos trilhado por muitos caminhos, estando ela sempre ao meu lado, animando-me a prosseguir mesmo nos momentos mais difíceis. Com certeza Sara me traria consolo e forças para continuar firme, conduzindo o jarro da salvação. Enquanto avançava pelo caminho pensando em Sara, ela surgiu no meio da multidão. Ao dirigir-me a ela, fiquei surpreso e desalentado ao notar em seus olhos o mesmo menosprezo daqueles que zombavam de mim.
Lembrando-me da ordem do Criador de que teria de libertar meu sobrinho Ló, fui andando sozinho pelo caminho. Ao colocar-me no lugar daqueles que me achavam louco, eu dava-lhes razão, pois, em condições normais, nenhuma pessoa sai de casa, sem rumo definido, levando em pleno dia um vaso com uma labareda, afirmando estar marchando contra o exércitos de cinco reis. Realmente parecia se tratar de uma grande loucura. Mesmo assim, a despeito de todas as humilhações e palavras contra mim, eu avançava rumo ao vale. Toda aquela zombaria foi finalmente diminuindo à medida em que me distanciava do Carvalho de Mambré.
Começaram a sobrevir ao meu coração muitas dúvidas quanto ao meu futuro. Ficava às vezes aflito com o pensamento de que toda a minha experiência, desde a convocação dos pastores até aquele momento, poderia ser, de fato, demonstração de insanidade. Cheio de dúvidas, comecei a pensar na possibilidade de abandonar à beira do caminho o jarro, retornando para a tenda. Esses eram os conselhos de alguns pastores e amigos que, condoídos de minha solidão, ainda vinham ao meu encontro, aconselhando-me a retornar. Ali, diziam, eu poderia conquistar novamente a confiança dos pastores, voltando a ser, quem sabe, até mesmo um sacerdote honrado como antes. Sobre o altar, diziam, havia um fogo muito maior do que aquele que eu carregava sobre os ombros. Estava a ponto de retornar, quando Sara veio ao meu encontro, contando-me sobre o desprezo que muitos pastores lançavam contra mim. Ela estava consternada, pois toda aquela desonra recaía também sobre ela, ao ponto de não sentir mais desejo de permanecer junto ao altar.
Depois de alertar-me, Sara passou a falar-me de um plano: poderíamos, quem sabe, nos mudar para uma cidade distante, onde esqueceríamos todo aquele vexame. Esquecendo-me da voz que me mandara seguir rumo à planície, respondi que eu estaria disposto a acompanhá-la para qualquer lugar, se ela permitisse que eu levasse aquele jarro; Ele seria o nosso altar, aquecendo e iluminando nossas noites com sua chama. Ao ouvir sobre o vaso, Sara ficou novamente irada, afirmando não entender minha teimosia em continuar levando sobre os ombros aquele símbolo de vergonha e desprezo. Depois de dizer-me tais palavras, voltou-me as costas, retornando para a tenda.
Capítulo III
Angustiado por não poder agradar Sara, prossegui rumo ao futuro incerto, sendo orientado unicamente pela chama, cujo brilho aumentava à medida em que as trevas adensavam-se. Comecei a meditar sobre aquele fogo que me acompanhava com seu brilho e calor. Eu estava acostumado a ver o Fogo Sagrado entronizado sobre o altar de pedras, em meio aos louvores de muitos pastores, entre os quais me destacava como mestre e sacerdote. Naqueles momentos de adoração, eu me vestia com os melhores mantos, e fazia questão de realizar o sacrifício somente quando todos os meus servos estivessem reunidos ao meu redor, para que ouvissem meus conselhos e advertências. Na hora do sacrifício, eu erguia minha espada desembainhada e, com palavras amedrontadoras, proclamava a grandeza do Senhor dos Exércitos, o Deus Todo Poderoso que domina sobre os Céus e a Terra. Vibrando a espada num movimento ameaçador, eu representava diante de meus pastores a imagem de um Deus severo, que está sempre pronto a revidar qualquer afronta. Depois dessa demonstração de soberania e poder, eu tomava uma ovelha das mãos de um pastor, e a amarrava sobre o altar. Para que ficasse patente a ira divina, eu pisava sobre o seu pescoço, golpeando-a severamente, até vê-la perecer. Depois eu descia do altar e ficava esperando pelo Fogo Sagrado que jamais deixou de manifestar-se sobre o sacrifício.
Eu aprendera desde a infância a reverenciar o Fogo Sagrado, crendo ser ele uma revelação visível do Eterno, o Grande Deus Invisível. Até então, eu o vira como um Fogo Único e Indivisível. Agora, ao transportar em humilde jarro a chama que se desprendera do Altar, meus pensamentos agitavam-se com o surgimento de um novo conceito sobre o Criador: o conceito de um Deus Sofredor que é capaz de desprender-se do grande Ser representado pelo Fogo, para acompanhar o pecador em sua jornada.
Arrependido, prostrei-me diante do jarro e chorei amargamente. Estava consciente de que todo o zelo demonstrado junto ao Altar, tinha por finalidade a exaltação de meu orgulho, e não do amor daquele que me acompanhava pelo caminho. Subitamente, gravou-se-me na mente a convicção de que aquela pequena chama que se desprendera do Fogo Sagrado, era uma representação do Messias prometido, que Se desprenderia do Eterno para ser Deus Conosco, companheiro em todas as nossas jornadas. Ao sobrevir-me esta convicção, a chama alegrou-se, tornando-se mais brilhante e calorosa. Com o coração transformado, prossegui pelo caminho rumo ao vale, levando sobre os ombros o jarro que me trouxera depois de tanto desprezo, a alegria de uma nova compreensão sobre o caráter do Criador.
Momentos difíceis começaram a surgir em minha caminhada, quando ventos frios vindos do Mar Morto começaram a arremeter-se contra a pequena chama, procurando apagá-la. Eu a amparava com o meu corpo, andando muitas vezes de lado e mesmo de costas, mas sempre avançando rumo ao vale. Ao romper a luz do dia, achei-me a um passo da planície. Comecei então a encontrar pelo caminho muitos rebanhos que eram conduzidos por rudes pastores. À medida em que avançava entre eles, ocorriam tumultos e confusões, pois muitas ovelhas e cabras assustavam-se com a chama de meu jarro, debandando-se por todas as partes. Isto fez com que a maioria dos pastores ficassem irritados com a minha presença em seu meio. Sabendo que não poderia ficar retido naquele vale, prossegui rumo a Sodoma.
Enquanto avançava, começou a acontecer algo interessante: muitas ovelhas, meigas e submissas, começaram a acompanhar-me. Eram poucas a princípio, mas pouco a pouco seu número foi aumentando, até que passei a andar com dificuldade, devido ao grande número de ovelhas que me seguiam. Ao longe eu podia ver os pastores, enfurecidos, pela perda de suas ovelhas mais bonitas. Ao chegar à cidade de Sodoma, encontrei-a vazia e devastada. Seguindo os rastros deixados pelos exércitos e pela multidão de cativos, fui me aproximando cada vez mais do alvo de minha missão. Ao chegar à campina de Dã, pude avistar ao longe o grande acampamento dos soldados, ao pé de um outeiro. Sem pressa, encaminhei-me para lá, conduzindo o meu novo rebanho. Do alto do monte, pude observar o acampamento em toda a sua extensão. Havia ali milhares de soldados comemorando a vitória. Enquanto isso, centenas de cativos jaziam amontoados no meio do arraial, humilhados e sem esperança. Diante desse quadro, fiquei imaginando como poderia se dar o livramento.
Minha presença despertou curiosidade em alguns soldados que, ao ver-me com o vaso fumegante, aproximaram-se. Quando me perguntaram sobre o motivo de minha presença naquele lugar, eu disse-lhes que viera libertar meu sobrinho Ló. Minhas palavras tornaram-se motivo de muitos gracejos em todo o acampamento. Depois disso, passaram a escarnecer de Ló. Em pouco tempo, toda aquela zombaria transformou-se em gritos de vingança, e proclamaram que, na manhã seguinte, todos os cativos seriam exterminados, começando pelo meu sobrinho.

Capítulo IV
Enquanto eu tentava imaginar o que o Eterno poderia fazer para alcançar o livramento, vi surgir ao longe o vulto de pastores que se encaminhavam em minha direção, vindos de Sodoma. Pensei a princípio que fossem os pastores inimigos que vinham arrancar-me o rebanho conquistado com amor. Tal receio logo desapareceu dando lugar a um sentimento de muita alegria, quando descobri que eram os meus pastores fiéis. Ele foram aproximando-se em pequenos grupos de doze, até alcançarem o total de 300 pastores. Ao olhar para eles, pude notar em seus semblantes os sinais de uma grande luta espiritual que tiveram de enfrentar, para estarem do meu lado. Contaram-me da experiência de muitos companheiros que, desanimados, haviam lançado fora o azeite e a lã de seus vasos, retornando para as suas tendas. Falaram-me de como, na noite anterior, haviam aprendido a amar a luz de meu jarro, que para eles tornara-se como uma estrela que os guiava na escuridão.
Alegrava-me com a presença de meus humildes pastores, quando vieram em nossa direção Aner, Escol e Manre, acompanhados por 15 homens armados; Eram eles fiéis amigos que, conhecendo os perigos que enfrentaríamos naquele vale, vieram socorrer-nos. Para que não atrapalhassem o plano divino, pedi-lhes que permanecessem escondidos até o alvorecer, quando receberiam orientações sobre como participar da missão. Comecei a orientar os pastores, seguindo as instruções da voz divina que soava de dentro da chama: A primeira tarefa dos pastores seria cuidar do rebanho até o anoitecer. Ao retornarem, ordenei que amarrassem os novelos de lã embebidos em azeite na ponta de seus bordões, colocando-os dentro dos jarros que deveriam ser mantidos suspensos de boca para baixo. Passei a incendiá-los com o fogo de minha labareda, até que as trezentas tochas ficaram ardendo, mas, ocultas no interior daqueles vasos.
Ordenei a quarenta de meus corajosos pastores que, no momento indicado por um sinal, deveriam avançar silentes para o meio do acampamento, circundando todos os cativos que jaziam amontoados no meio do arraial. Ao mesmo tempo, os 260 pastores restantes deveriam circundar todo o acampamento, aguardando pelo sinal de quebrarem os vasos com os chifres. Orientado pela voz da chama, indiquei-lhes os sinais: quando a última tocha se apagasse no acampamento, deveriam ficar atentos, pois uma pequena lamparina seria acesa por um dos cativos. Assim que a lamparina começasse a arder, deveriam correr cada um para o seu lugar, evitando qualquer ruído para que não fossem notados. O sinal para quebrarem os vasos com os chifres, erguendo bem alto a tocha, era o apagar da lamparina.
Depois dessas orientações, os 260 pastores, ocultos pelas sombras da noite, espalharam-se pelo vale, e ficaram esperando pelo momento de se posicionarem ao redor do acampamento. Enquanto isso, os 40 se posicionaram próximos a uma passagem vulnerável, através da qual haveriam de alcançar os cativos. Já era alta noite quando a tocha do último soldado apagou-se, sobrevindo completa escuridão e silêncio sobre o arraial. Entre os cativos, havia um homem que naquela noite vivia a maior angústia de sua vida. Era o meu sobrinho que, depois de tornar-se alvo de tantos abusos e humilhações, tomara conhecimento do castigo que os aguardava pelo alvorecer. Naquela noite, Ló tinha seus pensamentos voltados para o seu tio. Lembrava-se com arrependimento do momento em que me deixara, mudando-se para as campinas de Sodoma. Em seu desespero, sentiu desejo de rever minha face e pedir-me perdão por ter-se afastado de mim. Justamente naquele momento, Ló foi atraído pelo brilho de uma tocha que ardia sobre o outeiro. Ao fitar o brilho, imaginou estar tendo uma visão, pois o mesmo revelava-lhe a face de seu querido tio. Querendo mostrar-me o seu rosto, Ló apalpou em meio às trevas, até encontrar uma pequena lamparina que trouxera em seu alforje. Frustrado, percebeu que não havia nela nenhum azeite. Concluiu que a lâmpada apagada e seca era um símbolo de sua vida vazia e sem fé. Sem desviar os olhos de meu rosto iluminado pela chama do jarro, num desesperado gesto de fé, Ló apalpou o pavio de sua lamparina, descobrindo nele um resto de azeite. Curvando-se, passou a ferir as pedras do fogo, até que uma faísca saltou para o pavio. Sem que soubesse, Ló estava comandando, com seus gestos, os passos para um grande livramento.
Os trezentos pastores ao verem o tênue brilho da lamparina, encaminharam-se rapidamente para os seus postos e ficaram aguardando o apagar da pequena chama. Desde o momento em que Ló erguera-se com sua diminuta chama, fiquei olhando para os seus olhos que fitavam os meus. Vi que sua face trazia sinais de indizível angústia e maus tratos. Mesmo assim pude ler em seus olhos que a esperança e a fé ainda não o haviam abandonado.O foguinho de sua lamparina, contudo, não resistiria por muito tempo. Era necessário que se apagasse, para sinalizar a grande vitória. Quando a escuridão voltou a cobrir a face de Ló, meus trezentos pastores arremeteram os chifres contra os vasos que mantinham ocultas as tochas ardentes. Um forte ruído, como de cavalaria em combate, ecoou por todas as partes, enquanto as tochas eram suspensas pelos bordões. Os trezentos chifres, usados até então para conduzir o rebanho, soavam agora como trombetas de conquistadores.
Todo o acampamento despertou num único salto e, sem saberem como escapar de tão terrível investida que partia de fora e de dentro, os soldados começaram a lutar entre si, enquanto meus pastores permaneciam em seus lugares, fazendo soar os chifres. Os cativos ficaram muito espantados a princípio, mas pouco a pouco foram tomando consciência do grande livramento que estava se operando em seu favor. Quando amanheceu, revelou-se aos nossos olhos um cenário de completa destruição. Todo o arraial estava coberto por milhares de corpos rasgados pelas próprias espadas e lanças. Somente uns poucos conseguiram fugir daquele acampamento de morte, mas foram perseguidos pelos meus 18 aliados que estavam armados, sendo alcançados em Hobá, situada à esquerda de Damasco. Enquanto isso, os cativos, agora libertos, recuperavam todas as riquezas que haviam sido saqueadas pelos inimigos.

Capítulo V
Do cimo do outeiro, enquanto eu vibrava com a alegria dos cativos naquela manhã de liberdade, ouvi a voz do Eterno falando-me do meio da chama:


  • Este livramento que hoje se concretiza, representa o livramento que hei de operar nos últimos dias, salvando os remanescentes de teus filhos, do cerco de numerosas nações que se aliarão a Gog com o propósito de destruí-los. Naquele dia em que triunfarem sobre o meu povo, a minha indignação será mui grande, e contenderei com ele por meio da peste, do fogo e do sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor. E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de Graça e de Súplicas; olharão para Mim a quem traspassaram, prantear-me-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por mim como se chora amargamente pelo primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza.(1).

A chama que para mim tornara-se uma representação do Messias prometido, apagou-se no momento em que desci ao encontro dos pastores e dos muitos cativos agora libertos. Cheios de alegria e de admiração, todos queriam saber como tornara possível tão grande livramento, somente com a utilização daquelas tochas e chifres. Falei-lhes da importância daquele fogo que se desprendera do Altar, para libertá-los naquele vale, identificando-o com o Messias Salvador. Ao ver que todos carregavam em seus corpos e mantos a sujeira da escravidão, convidei-os a seguirem-me até o rio Jordão, onde poderiam banhar-se para purificação de seus pecados, pois aquele era o Yom Kipur, o dia do perdão. Somente três pessoas atenderam ao convite: Ló e suas duas filhas mais novas. Os demais retornaram contaminados para suas casas.


Antes de partir, o rei de Sodoma veio ao meu encontro, prometendo dar-me todas as riquezas recuperadas naquela manhã. Eu recusei sua oferta, para que jamais alguém possa dizer que eu me enriqueci com aquele saque. Permanecemos acampados às margens do rio Jordão, nas proximidades de Jerico por quatro dias. Naqueles dias de descanso, todos ficaram livres das impurezas, deixando-as nas águas do Jordão. Esse era um preparo especial para nossa subida a Salém, onde comemoraríamos a vitória nos dias de Sukot.
Cheios de alegria, iniciamos uma caminhada ascendente rumo à cidade de Salém, inconscientes da feliz surpresa que nos aguardava. Eu seguia à frente tendo ao meu lado Ló e suas duas filhas, e atrás vinham os 300 pastores, conduzindo o grande rebanho. À medida em que avançávamos, comecei a notar que o meu jarro tornara-se muito pesado. Ao baixá-lo, fiquei surpreso ao descobrir que estava repleto de pérolas e pedras preciosas de variados tamanhos e brilhos. Ao avistarmos ao longe a alva cidade, começamos a ouvir sons de uma grande festa. Acordes harmoniosos repercutiam pelos montes, enquanto avançávamos pelo caminho. Minha curiosidade em conhecer aquela cidade e o seu jovem rei era imensa, pois muito já ouvira sobre sua grandeza e fama. Tratava-se de um reino diferente, onde os súditos eram treinados não no manejo de arcos e flechas, mas no domínio de instrumentos musicais. Melquisedeque, o seu jovem rei, regia a todos com um cetro muito especial: um alaúde, pelo qual pagara um preço elevado.
Enquanto crescia em mim a alegria por estar nos aproximando da cidade do grande Rei, vimos uma multidão vestida de linho fino, puro e resplandecente, saindo ao nosso encontro. Todos tangiam instrumentos musicais e cantavam um hino de vitória. À frente da multidão vinha um jovem tocando um alaúde, trazendo na fronte uma coroa repleta de pedras preciosas, que brilhavam sob a claridade do sol poente. Eu tive a certeza de que aquele era o tão aclamado rei de Salém.
Ao nos encontrarmos, ficamos surpresos com a saudação que nos fizeram. Inclinando-se diante de mim, Melquisedeque afirmou:


  • Bendito és tu Abraão, servo do Deus Altíssimo, que possui os Céus e a Terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos (2).


Capítulo VI
Surpresos pela festiva recepção, fomos introduzidos na cidade, onde a beleza das mansões e jardins nos causou muita admiração. Tudo ali era puro e cheio de paz. Salém estava em festa, pois teria início naquele entardecer a festa de Sukot. Fomos recebidos no palácio real, edificado sobre o monte Sião. Ali, uma nova surpresa nos aguardava: a grande sala do trono estava toda adornada com representações de nossa vitória sobre os inimigos. Havia no centro uma mesa muito comprida, coberta por toalhas de linho fino adornadas com fios de ouro e pedras preciosas. Sobre a mesa estavam 304 coroas, cada uma trazendo a inscrição do nome de um vencedor. Num gesto que novamente nos surpreendeu, Melquisedeque, tomando as coroas, começou a colocá-las na cabeça de cada um de nós, começando por Ló e suas filhas. Estávamos todos admirados pelo fato do rei de Salém conhecer-nos individualmente, e por Ter preparado aquelas coroas muito antes de sermos vencedores. Eu observava a alegria de meus companheiros coroados quando, tomando uma coroa semelhante à sua, o rei de Salém dirigiu-se a mim com um sorriso. Ao levantá-la sobre minha cabeça, notei algo que até então não havia percebido: suas mãos traziam cicatrizes de profundos ferimentos. Vencido por um sentimento de gratidão, prostrei-me aos seus pés e, comovido, beijei suas bondosas mãos, banhando-as com minhas lágrimas.
Ao levantar-me, perguntei-lhe o significado daquelas cicatrizes. Com um meigo sorriso, ele prometeu contar-me a história daquele próspero reino, e do quanto lhe custara a sua paz.
Depois de coroar-nos, Melquisedeque nos fez assentar ao redor da grande mesa, e passou a servir-nos pão e vinho. A partir daquele momento, passamos a honrá-lo como sacerdote do Deus Altíssimo. Num gesto de gratidão, tomei o jarro que se enchera de pérolas e o coloquei aos pés do rei. Tomando-o nos braços, ele passou a acariciá-lo sem atentar para o brilho das jóias. Expressando gratidão por aquela oferta, ele disse-me que aceitaria o jarro; Quanto às pérolas e pedras preciosas, ele aceitaria somente o dízimo delas. Imediatamente passei a contar as jóias, separando as mais belas para o rei. Havia um total de 1440, das quais lhe entreguei 144. Ele as guardou cuidadosamente em uma caixinha de ouro puro, em cuja tampa havia lindos adornos marchetados de pedras preciosas. Depois de receber o dízimo que simbolizava o grande livramento operado por Deus na planície, Melquisedeque chamou para junto de si um de seus súditos que era mestre em adornos e pinturas, ordenando-lhe embelezar o jarro com uma linda gravura que retratasse o momento em que eu o ofertei. Enquanto o jarro era pintado, Melquisedeque passou a contar-me a história de seu reino, desde sua fundação até aquele momento em que estávamos comemorando a grande vitória sobre os inimigos.
Ao devolver-me o jarro, agora honrado pela mais bela gravura e inscrições que exaltavam a justiça e o amor, o rei de Salém ordenou-me levá-lo com aquelas jóias. Durante seis anos eu e meus pastores deveríamos contar para todos a história daquele jarro que transportara a chama vitoriosa do altar. A todos aqueles que, com arrependimento, aceitassem a salvação representada por sua história, deveríamos oferecer uma pedra preciosa ou pérola. Ao fim dos seis anos, as jóias acabariam. Já não haveria oportunidade de salvação. Sobreviria então o sétimo ano, no qual haveria um tempo de grande angústia e destruição, quando somente existiria proteção para aqueles que possuíssem as jóias. Por essa ocasião, as cidades da planície seriam totalmente destruídas pelo fogo do juízo, e os demais povos impenitentes, seriam dizimados por terríveis pragas.


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